O Livro Encantado
3 Conhecendo a Cidade
Caminhamos até minha casa, me virei para Mike que me seguia.
— Quer entrar um pouco?
— Claro, com certeza! – o animo em sua resposta era evidente, e tão claro que percebi uma pontada de timidez surgindo em seu rosto.
Entrei na cozinha deixando a porta aberta, mas ele não estava me seguindo. Estava parado do lado de fora, na varanda, encostado numa parede de braços cruzados. Voltei devagar, quase me arrastando até ele. Estendi minha mão tocando nos braços que formavam um nó em seu peito.
— Algum problema? – Perguntei aflito. Mas sem nenhum sinal de resposta, ele apenas acenou negativamente com a cabeça. – Vem comigo!
Puxei-o para dentro. Quando já estávamos subindo as escadas, notei que não só o tinha puxado para dentro como ainda estava o segurando.
— Desculpe! – baixei a cabeça, mas continuei andando.
— Por quê? – ele ainda estava no mesmo lugar, parado, olhando fixo meu rosto que, provavelmente, estava ficando vermelho.
Apenas sorriu e continuou atrás de mim.
Finalmente entramos no meu quarto, entrei direto, fui direto para o closet, para tentar esconder o livro no meio das minhas roupas, nada organizadas.
— Seu quarto é muito legal! – Ele estava sentado na cama observando as fotos da parede.
— Valeu!
— Quem é aquela garota? Sua namorada? – Ele estava com a sobrancelha erguida.
— Essa é a Sophie. E não ela não é minha namorada. É só minha irmã por parte de pai.
Acho que nunca disse que tinha uma meia-irmã. Bom, agora eu disse. Nós não temos muito contato, mas quem sabe agora que moro com nosso pai, possamos passar mais tempo juntos. Quem sabe...
— Ela é bonita! – Me pareceu estar impressionado.
— Acho que sim. – O sarcasmo em minha voz estava evidente.
Ele me olhou por um segundo, e então deitou rindo alto demais, só não entendi o motivo do riso.
— Ta com ciúmes?
Revirei os olhos em desdém.
— De você? Claro que não. – Acho que fui meio arrogante.
— Da sua irmã! – Ele ainda estava rindo, embora tentasse se controlar.
— Não, é que meio que os caras me usam para chegar até ela. – Agora estava me sentando no pufe no meio do quarto.
— Fique tranquilo! Não tenho intenção de fazer isso. – Ele se levantou da cama sem fazer nenhum barulho, e se sentou na minha frente. – Quem sabe dessa vez não acontece o contrario!
— Não entendi! – estava realmente confuso para minha cabeça processar toda aquela informação.
— Quem sabe um dia te explico. – Ele se colocou de pé devagar, estendeu as mãos para me ajudar a ficar de pé. – Vamos quero te mostrar a cidade.
— Mas não tenho como ir até a cidade, também estou sem dinheiro nenhum.
— Eu estou te convidando, nem vamos gastar muito. – Ele olhava fixo em meus olhos sempre que tentava me convencer de algo. – E vamos de moto, deixei-a perto do nosso jardim. – Um leve sorrisinho surgiu em nossos rostos.
Descemos de volta para sala, estava próximo da hora do almoço.
— Não quer comer alguma coisa antes? – Perguntei indicando a cozinha com o dedo.
— Vamos comer na cidade, A comida de lá é ótima.
— Não tenho dinheiro para comer fora.
— Já disse que estou te convidando, logo quem paga sou eu. Da próxima vez que nós sairmos você paga.
Não disse mais nada, apenas concordei e saímos pelos fundos, e voltando de onde viemos. Passei a segui-lo assim que chegamos ao meio do jardim. Andamos por volta de quinze minutos e finalmente chegamos à moto. Uma moto simples, em uma tonalidade preta fosca, com poucos arranhões.
Ele subiu na moto e me olhou.
— Com medo? – Disse ao me entregar um capacete.
— Acho que não muito.
Ele riu como se em meu tom houvesse escárnio.
Ele até era um bom piloto, pois não caímos nenhuma vez. Depois de alguns minutos, finalmente chegamos à pequena cidadezinha, no centro havia um mini shopping, um cinema, um mini mercado, duas lojas de fast food cujos nomes nunca vi, nem ouvi. Mike parou sua moto de frente ao shopping. Desci da moto, logo depois ele fez o mesmo ligando o “segredo”.
— Vamos. – Ele me guiou até a loja de fast food, cujos cartazes indicavam lanches muito apetitosos, copos de refrigerante gigantes e batatas com muitos molhos em combos muito baratos. – Como pode ver, não temos muitas opções por aqui, mas tudo depende de quem é sua companhia.
Apenas sorri, como sempre, ficando vermelho. Ser uma pessoa tímida é o que eu chamo de constrangedor, pois qualquer situação na qual sua timidez é colocada à prova, algo estranho acontece, e nesse momento ficar vermelho era algo completamente constrangedor.
Comemos um lanche com dois hambúrgueres e muito cheddar, sem falar no imenso refrigerante. Depois demos uma volta no shopping, que não tinha muita coisa para ver.
Mike insistiu que eu devia conhecer o cinema também. Compramos ingressos para assistir um drama. Faltava cerca de dez minutos para o início do filme, quando nos sentamos nos nossos lugares.
— Então... é parecido com os cinemas que você já foi? — Ele estava entusiasmado em saber de tudo sobre minha vida, lugares onde eu frequentava, tudo mesmo.
— Acho que sim, devem ser todos iguais.
Depois da sessão terminar, ele me levou para casa, já estava bem tarde. Desci da moto, ele logo atrás.
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