O Livro Dos Desejos Sombrios
2 A maldição de Bartson
_Tem certeza que não quer que eu vá com você? — perguntou Yun Sun pela décima vez, quando parou o carro no portão branco da Casa de Repouso Saint Simon.
_Sim, eu quero fazer isso sozinha, mas obrigada pela carona.
_De nada, você ainda vai sair hoje à noite comigo e com o Will?
_Claro — pode parecer estranho eu sempre sair com Yun Sun e Will, sendo os dois namorados, mas a verdade é que eles são meus melhores amigos e nós sempre saímos juntos, desde o começo do ano, quando mudei para essa cidade.
Saí do carro levando apenas minha bolsa e o cartão do lugar que eu havia impresso na noite anterior, e o livro, é claro. O vento frio da manhã atravessava meu cardigã. Identifiquei-me no portão como amiga da Senhora Bartson.
_Nora Bartson? — perguntou o porteiro.
_Isso mesmo — respondi mesmo não tendo certeza.
O portão abriu e eu segui pela trilha de pedras que passava no meio do jardim. Os canteiros eram bonitos e bem cuidados, entre os tufos de grama cresciam delicadas flores pálidas, a casa era grande e branca com colunas de madeira, e mesmo a alguns metros da porta da frente, eu já podia sentir um agradável cheiro de lavanda. Apesar disso, o lugar parecia um pouco triste.
Quando entrei, uma enfermeira levou-me até a sala onde a Sra. Bartson estava, ela não usava o chapéu verde, mas mesmo assim a reconheci. Seus cabelos eram dois terços ruivos grisalhos e completamente brancos na raiz, seus olhos eram verdes e muito brilhantes.
A enfermeira saiu.
_Queimou o livro? — Nora perguntou na sequência, como se já me esperasse.
_Na verdade, não. — disse tirando o livro da bolsa — Vim devolvê-lo, mas só vou fazer o que a senhora quer, se me contar porque quer destruir um livro em branco. Qual é o objetivo de tudo isso?
_Bem, como você veio até aqui, acho que merece saber a verdade- gesticulou para que eu me sentasse em uma almofada vermelha — esse livro foi amaldiçoado por uma jovem alemã há muitos anos, ela foi vizinha de minha mãe, na rua Himel. Seu nome era Liesel Meminger. Ela fez isso para mostrar que nada de bom vem de desejos.
_Desejos? — perguntei induzindo-a a contar mais.
_Sim, o livro realiza desejos, a maldição dizia: três pessoas, três desejos. Minhã mãe era a única que sabia da maldição e mesmo assim quis fazê-los. Eu não sei quais foram os dois primeiros, mas o último foi para morrer. A alguns anos atrás, eu recebi uma caixa com coisas antigas que foram dela, e lá estava o livro.
_Você fez os três desejos?
_Sim.
_E eles se realizaram?
_Cada um deles.
_Então, por que deu para mim? Por que não o usa de novo?
_São apenas três desejos por pessoa.
_Se você pudesse, usaria de novo?
_Eu não sei, eu não sei...- respondeu-me com um olhar distante — acho que essa coisa de desejos pode trazer muitos problemas, você é jovem, não vai querer estragar sua vida.
_Por que você mesma não destruiu o livro, então?
_Eu já tentei, simplesmente não consigo. Achei que outra pessoa, que não tivesse nada a ver comigo e não tivesse feito nenhum desejo, poderia destruí-lo.
_E por que acha que não quero fazer nenhum desejo antes de destruí-lo?- perguntei me levantando.
_Não sei se quer, a escolha é sua. — ela disse com tristeza.
_Como se faz para pedir? — perguntei sem me intimidar.
_O primeiro desejo, seja lá o que for, já estará escrito na última página. Para realizá-lo, você deve arrancar a página e jogá-la no fogo. Os outros dois desejos, devem ser escritos nas primeiras páginas, que também devem ser queimadas para que sejam realizados.
_Tudo bem,obrigada. — eu disse virando as costas, com o livro na mão.
_Só mais uma coisa. — a velha pediu.
Eu me virei.
_Cuidado com o que deseja.
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