O Livro Do Destino
44 Traidores!
O ser aproximou-se de mim com a adaga até que fiquei encurralada em um dos cantos.
Ouvi uma porta se abrir e Mike me puxou para dentro dela.
–Obrigada. falei ainda refletindo sobre o que havia vivenciado minutos atrás.
–Ok. ele falou olhando em volta, uma espécie de laboratório.
–Lavínia! Mary! falei olhando as duas que estavam presas atrás de uma grade.
–Julie! gritou Mary.
Me aproximei da grade onde estava Mary enquanto Lavínia me observava com olhos furiosos do outro lado da cela.
Mary aproximou-se de mim e sussurrou.
–Julie, vá embora logo.
Olhei confusa para Mary.
–A Lavínia não é a...
De repente Lavínia avançou sobre Mary e tornou-se um ser de capa, me deixando surpresa.
Ela começou a rir.
–Acreditou, não foi? Lavínia perguntou brincando com meu cabelo.
Levantei meu olhar para observar o ser que gargalhava.
–Nunca repara na pessoas que andam ao seu redor. ela falou soltando meu cabelo.
–É, eu sou boba. falei olhando para ela brava.
–Ótimo, agora, você nos deve um serviço ela falou segurando a adaga.
Pensei um pouco.
–Eu só preciso do sangue dos seus pulsos e da sua morte. ela falou com os olhos vermelhos e num tom ridículo.
–Você vai ficar precisando. Mike falou jogando a mochila dele no ser.
–Mary, você está bem? perguntei olhando para a Mary que estava desmaiada.
–Tem uns botões aqui, um deve abrir essa cela. Mike falou olhando os botões que piscavam.
–Aperta qualquer um. falei.
Mike apertou o primeiro.
A cela começou a pegar fogo me deixando assustada.
–Calma ai! ele falou apertando outro.
Canivetes começaram a cair do teto.
Comecei a gritar.
–Esse? ele perguntou.
O fogo e os canivetes pararam de cair.
–Deixe-me tentar. Falei aproximando-me e apertando um botão que me chamou a atenção.
Sangue.
Apertei o botão que anulava aquilo.
Ouvi a risada da Laura.
–Sabe qual é? perguntei.
–Você não gostaria de salva-la. Laura falou.
–Por quê?
–Ela não é igual a mim. ela falou sorrindo.
–Ou seja... ela não é um ser de sombras? perguntou Felipe no outro canto, eu nem havia reparado que estava lá.
Laura riu de um jeito muito chato.
–Viram só? Eu consegui trazer o Felipe para cá! agora sirvo ao Destino! Laura falou.
–Parabéns, bela conquista! ironizou Felipe.
–E eu achava que ficaria contente de encontrar todos vocês. Falei alto e claro.
Felipe e Laura pararam de discutir e Mary continuou esperando que eu abrisse a cela.
–Eu vim até aqui salvar você, Laura, então se quiser ser salva é melhor você parar de agir assim. Falei brava.
Laura se aquietou.
–Você vai se arrepender. Ela falou pressionando um botão laranja fazendo as grades das celas desaparecerem.
Mary saiu correndo aliviada para me abraçar.
Felipe só deu um sorriso sem graça e ficou em um canto. Enquanto Laura ainda estava reflexiva.
–O que foi, Laura? Mary perguntou em um tom meigo.
–Voltem, é inútil tentar me tirar daqui. Ela falou brava.
–Viemos aqui para salvar você, Lalá, vamos com você. Respondi.
Laura me olhou por alguns minutos. encarando-me, quando percebi que ela estava fitando todos na sala.
–Posso falar um minutinho com a Julie? ela perguntou puxando-me para outro canto sem obter alguma resposta.
Ela olhou pro chão e voltou a fitar-me, depois olhou pro teto.
–Acho que você não entende — ela fez uma pausa — Como vai levar uma criatura que está morta, que é um monstro de volta?
–Sempre demos um jeito, não? respondi.
–Eu acho que não quero voltar. ela falou.
Esperei por sua explicação.
–Agora não tem mais jeito... talvez... acho que — ela hesitou — Eu só queria morrer por completo e ter paz.
Nunca imaginei que Laura falaria isso. Lembrei do que o outro ser de capa me falou. Tirei a adaga do bolso e esperei ouvir resposta da Laura.
Notava seus olhos ansiosos e preocupados.
–Se libertar uma alma, você liberta todas. Ela falou.
Laura tentou abrir um sorriso e eu não preciso saber ler mentes para ter certeza de que ela não estava feliz.
Ouvi alguém levantando-se do chão e caminhando e nossa direção, Lavínia.
Ela tirou a adaga de minhas mãos e ficou na frente da Laura como quem estava a protegendo.
–Me devolve! falei tentando tirar de suas mãos o objeto.
Lavínia fez um corte no meu braço fazendo-o jorrar sangue, grande coisa, o Destino já fez esse capitulo de minha vida com tanto sangue que já não tenho medo...
Ela mergulhou a adaga em sua mão e depois a retirou mostrando-me o sangue que havia ficado na adaga virando uma espécie de veneno. Ela foi se aproximando de mim enquanto eu me afastava.
–Lavínia! gritou Mary.
Lavínia virou-se.
Mary correu com rapidez até nós e antes que Lavínia fizesse outro movimento Mary se jogou em cima dela pegando a adaga.
Lavínia transformou-se no ser de capa e começou a se aproximar de Mary, ignorando minha presença.
Foi tudo tão rápido... a última cena que tenho de minhas primas é a hora que Mary joga a adaga no ser de capa e uma luz amarela sai dele e da Mary, depois a luz vai embora, deixando somente dois cadáveres no chão.
Procurei fôlego e olhei pasma a cena. Tirei a adaga das mãos da Mary. Ouvi alguém gritando do outro canto da sala, Laura estava morrendo...
Corri até Laura.
–Julie... -ela falou procurando alguma voz- a Mary matou a metade, por favor, mate a outra...
–Eu não...
–Por favor... ela falou no tom mais alto que podia.
–Eu não consigo... Não vou conseguir acordar pensando que fui eu que lhe matei.
–Não, Ju, você não me matou... você me salvou...
Laura segurou minha mão com as poucas forças que lhe restavam e fincou a adaga em sua barriga.
Era horrível e mesmo que eu devesse esconder aquelas lágrimas elas teimavam em correr. Teimavam em chorar pelas duas primas que perdi, pela irmã que perdi.
Laura deu uma risada fraca.
–Posso ser madrinha? ela falou olhando para mim e depois virou a cabeça em direção ao Mike que já estava lá.
Me arrepiei... o fantasma... era a Laura...
Abracei o mais forte que podia aquele corpo gelado e murmurei um sim. Aquele corpo que uma vez foi cheio de vida e depois olhei seus dois olhos já sem expressão, perdidos no paraíso.
Com cuidado Felipe fechou os olhos da Laura. Todos os cortes e machucados do corpo do cadáver desapareceram deixando ali, um corpo sem nada dentro.
–Como posso perder a mesma pessoa três vezes? perguntei entre lágrimas sem parar de abraçar o corpo.
–Tudo bem, Ju, nos vamos levar a Laura e ela agora ficará em paz. Falou Felipe.
Não queria mais olhar para aquela cena, cadáveres e sangue sempre foram coisas muito distantes de minha realidade, mas agora acho que até morrer eu irei ver vários.
Mesmo enjoada de tanto dizer adeus aproximei-me de minhas primas.
–Espero que estejam tão felizes quanto a Laura. murmurei.
Posso jurar que ouvi um "não duvide..." do vento.
Fale com o autor