Acordei com Felipe encostado no batente da porta me observando.

–Oi. Ele disse tímido.

Entortei o lábio.

–Olha, não foi minha culpa.

–Não? Perguntei encostando as costas na parede.

–Sabe muito bem que eu não consigo ser igual a você por muito tempo e as vezes tenho uma recaída.

Revirei os olhos.

–Está tudo bem, não estou zangada com você.

–Duvido. Ele deu de ombros.

–Talvez um pouco chateada, mas acredito que...

–Você quer as páginas? Ele perguntou se aproximando de mim.

O observei.

–Não sei eu...

–Vai querer as paginas ou não? ele perguntou novamente.

Me levantei.

–O que houve para de repente querer me dar as anotações?

Ele suspirou.

–Por quê eu não quero ficar brigando com você o tempo todo.

O encarei desconfiada.

–Me entregar as anotações não vai me fazer parar de brigar toda vez que eu sinto que devo.

–Só pega a droga das anotações. Ele tirou uns papei amassados do nada e os estendeu em minha direção.

Empurrei seu braço.

–Sério? por quê?

Ele olhou pro teto.

–Por que sim.

Engoli em seco.

–Não quero mais as anotações, fique com elas. Respondi dando de ombros.

–Só estou querendo ajudar.

–Não acredito nisso.

Ele revirou os olhos.

–Está vendo, você está discutindo comigo.

Ri.

–Por quê quer me entregar os papeis? repeti.

Ele me encarou.

–Julie, acho que mesmo que conheça palavras os significados para você são desconhecidos, por exemplo o que você entende sobre a frase que eu lhe disse que gosto de você?

Neguei.

–Não vou aceitar algo por que diz que gosta de mim.

Ele revirou os olhos.

–Eu não digo, afirmo, Juliette Roberts, eu te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo muito e é por isso que eu vou entregar as anotações que podem nos matar para você, por quê eu te amo.

Olhei pro chão.

–Eu...

Ele deu de ombros jogou as anotações no chão e sumiu.

Tentei alcança-lo, mas não havia mais nada de Felipe no ar.

–Droga.

Peguei as anotações.

"Eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo"

sacudi a cabeça espantando pensamentos.

–Droga, não quero mais isso. Amassei o papel e o joguei num canto da pequena cela e subi as escadas.

–João. Falei enquanto batia na porta.

–Que foi? Ele perguntou sem a abrir.

–Sabe para onde o Felipe foi? perguntei me encostando na porta.

Não ouvi nenhum barulho.

–Ele saiu do castelo?

–Sim, eu sou burra, burra, burra. Respondi.

Ouvi uma risada.

–Sabe onde ele está?

–Não tenho a mínima ideia.

–Por favor não me faça adicionar isso na minha lista de problemas. Reclamei.

–Tudo bem, eu vou procura-lo.

–Obrigada.

Voltei em direção à escadaria da masmorra, sabe, acho que já me acostumei com o fato de "morar" por um tempo ali.

Abri as anotações.

Mesmo com um sorriso vitorioso em meu rosto a alegria não passava de uma mera aparência de vitória, eu iria conseguir, eu estava certa, finalmente algo que pensei funcionaria, mas e daí?

João me observava.

–Conseguiu?

Fiz que sim com a cabeça.

–Você o encontrou?

Ele fez que não rapidamente.

–Já procurei em todos os cantos do castelo e os lugares que ele gosta de ir.

Revirei os olhos.

Amor?

Não, não, não... eu só estava realmente preocupada.

Além do mais, para que gostar de alguém se eu vou morrer?

Suspirei.

João fixou o olhar para um outro canto da cela.

O observei, passado alguns instantes perguntei o que estava acontecendo, mas ele não respondia.

–Meu pai! Ele falou de repente me assustando.

Arregalei os olhos.

–Como assim?

–Ele deve estar conversando com meu pai!

Segurei a respiração por um instante.

–Por quê?

–E eu sei?

–Precisamos ir atrás dele.

–Julie, eu vou, fica aqui, a energia do castelo está baixando e eu tenho medo do que meu pai possa fazer...

–Seu pai pode fazer o que ele quiser quando quiser, eu vou, o máximo que pode acontecer é adiantar a hora em que morro, mas já me sinto totalmente preparada para isso.

João deu de ombros.

–Acho que não.

O observei enquanto ele caminhava pela cela.

–Julie, nunca podemos estar preparados para algo que não conhecemos. Ele fez uma careta.

O encarei.

–É a parte legal da história, pode ser algo bom ou ruim, e ai terá o efeito surpresa.

Dei de ombros.

–Sabe que é uma das coisas que as pessoas do castelo admiram em você. Ele respondeu ao meu silêncio.

–Pelo que?

–Por não conhecerem como é ser vivo, eu particularmente nunca iria querer ser vivo, deve ser uma droga.

–É, é sim.

–Mas o Felipe deve ter ponderado em como deve ser viver depois que conheceu você, pelo menos foi o que transmitiu. Ele deu de ombros.

–Acha mesmo que ele está com o Destino? Perguntei.

João olhou pro chão.

–Julie, as explosões são hoje...

–O que quer dizer? Perguntei tentando manter a calma.

–Ele foi tentar impedir.

Por um momento achei que iria simplesmente ter um infarto.

–Onde ele está. Agora? Perguntei pausadamente.

Ele revirou os olhos.

–Não sei.

–Droga, como odeio isso!

–Que foi?

O encarei.

–A energia está acabando, provavelmente ele não terá o suficiente para nada.

João arregalou os olhos.

–Tem razão!

Fiz que sim.

–Vou com você para...

–Fica aqui, é sério. Respondi.

Me teletransportei para o quintal de casa.

Um pressentimento de que seria a última vez que veria a rua me invadiu.

Ou eu seria extinta ou o bairro desapareceria.

O que eu podia fazer?

Não me pergunte...

A resposta você já sabe, não conseguiria executar meu plano em tão pouco tempo.

–Filha? Ouvi a voz do meu pai abrindo a porta.

Cheguei em péssima hora, a hora do casamento.

–Filha! Ele correu e me abraçou.

Eu continuei estática, o que eu iria fazer?