O Livro Do Destino
63 Letícia e eu
Acordei de manhã com a cabeça doendo e Letícia me encarando.
–Bom dia, que bom que acordou! Ela falou enquanto eu me espreguiçava.
–Cadê o...
–Ele foi para casa, um pouco depois que você desmaiou, você consegue fazer isso sozinha, tipo sem ajuda?
–Sério? não lembro de...
–Ok, deixa isso pra lá, agora que acordou cedo podemos ter um tempo de irmãs. Ela falou me abraçando.
Respirei fundo.
–Eu preciso...
–Não, hoje é feriado!
Revirei os olhos.
Ela afastou a franja tingida de azul para detrás da orelha deixando seus grandes e ansiosos olhos azuis.
–Letícia, eu nem sei sobre o quê falar, eu nunca tive uma irmã e...
–Não importa agora você tem!
contei até dez.
–Tudo bem... fala. Falei depois tentei disfarçar o olhar de tédio.
–Então, Ju, sabe, eu queria saber se você e o Mike ainda estão namorando. Ela me olhou e seus olhos adquiriram um olhar melancólico.
Me assustei por um minuto.
–Oh... nã... espera aí, por quê?
Ela brincou com os cabelos.
–Ah não... você gosta dele? perguntei esquecendo totalmente de disfarçar.
Ela concordou de leve.
Silêncio.
Segurei uma risada, mas foi por pouco tempo até que eu não conseguisse parar de rir.
–Que foi?
–Nada não. falei me recuperando.
–Posso ir com você até o hospital? ela falou fazendo cara de anjinho.
–Não sei se é uma boa ideia. Falei enquanto penteava meu cabelo, soltei o coque que tinha feito, Felipe tinha razão, estava muito grande.
–Menina você é a Rapunzel?
Revirei os olhos.
–Tudo bem, vou cortar hoje de tarde.
–E sobre nossa visita ao hospital?
–Minha visita ao hospital, você quis dizer.
–Por favor!
E eu sabia que nada de bom viria daquela visita.
–Por que não posso ir com você?
–Ele nem te conhece.
–Claro que conhece.
–Tá, ok. falei enquanto prendia meu cabelo novamente em um coque.
Meu pai apareceu na porta.
–Julie, podemos conversar?
O encarei.
–Talvez depois. respondi passando por ele e indo para a cozinha.
Letícia veio atrás.
–Julie, para com isso. Ela falou quando me alcançou.
–Letícia, eu estou atrasada. Falei pegando uma embalagem de biscoitos e jogando na mochila.
–Vai pro hospital?
Revirei os olhos.
–Está pronta para ir?
–Claro. ela falou colocando novamente a franja para detrás da orelha.
Dei de ombros.
–Mãe! eu e a Julie vamos para o hospital e voltamos daqui a pouco!
Lorraine resmungou um tá (ela ainda estava dormindo, provavelmente).
–O que aconteceu com o Mike? Letícia perguntou enquanto andávamos.
–Ah... ele.
–Julie, tenho uma coisa séria para te falar.
–O quê? perguntei encarando-a.
–Você não lembra de nada que aconteceu ontem?
–O que eu deveria lembrar? perguntei.
–Um homem, um cara sério apareceu na porta ontem.
–Letícia! quem era?
Ela hesitou um pouco.
–Não sei, disse que era o pai do Felipe, foi o que escutei, desci as escadas correndo e ele estava brigando com o Felipe, mas assim que me viu foi embora, algo muito ruim estava acontecendo.
–Mas... o Felipe está bem?
–Ele sumiu.
–Não, espera, — respirei fundo — como o homem parecia?
–Eu não lembro, não consegui encara-lo.
Mordi o lábio.
–Vamos.
–Para onde?
–Para o hospital, oras.
–Mas o que isso tem a ver com o Felipe?
–Tudo.
Ela revirou os olhos.
–Tem que fazer mistério?
–Sem mistério não há graça na vida. Falei enquanto andávamos.
Depois de um tempo chegamos no hospital.
–Que posso fazer por vocês mocinhas? A enfermeira não muito simpática falou ao entrarmos no hospital.
–Queremos visitar um amigo. Letícia respondeu rapidamente.
–Quem seria? ela falou tirando uma prancheta do balcão.
Letícia me encarou.
Pensei um pouco.
–Então? a enfermeira perguntou impaciente.
–É que eu sempre esqueço o sobrenome dele. Falei coçando a cabeça.
–Michae... Letícia começou a falar, mas eu a impedi.
–Estamos procurando...
Letícia me encarou preocupada, pelo menos é isso que ela conseguiu transmitir.
–Estamos procurando um menino que caiu de uma árvore e quebrou a perna.
–Não sabe o nome dele?
–Ele chegou ontem. confirmei.
–Julie, quem estamos procurando? Letícia sussurrou.
–Felipe. respondi baixo.
–Mas isso não aconteceu com ele.
–Eu sei, só precisamos entrar, num hospital a maioria das pessoas quebraram um osso, provavelmente da perna. falei dando de ombros.
A enfermeira nos encarou por alguns segundos e pediu para que a seguíssemos até o corredor onde ela apontou para a porta.
–Podia ter dito que era o Michael. Letícia resmungou enquanto andávamos.
–Teríamos que explicar algumas coisas à enfermeira como: como ele se machucou, quem é o culpado se ele tiver quebrado uma perna, onde e por quê.
–Inteligente.
Sorri.
–Obrigada.'
–Mas não vamos ver o Mike? ela perguntou fazendo aquela carinha de "Letícia meiga".
Revirei os olhos.
–Não podemos.
–Por quê? ela insistiu.
–É o que ele espera que façamos. Falei puxando-a.
–Quem espera que façamos o quê? ela perguntou agarrando-se em um balcão para que eu parasse de puxa-la.
Pensei um pouco.
Será que Letícia era confiável?
Henrique não é confiável.
Henrique não é confiável?
A família da Lorraine é confiável?
–E aí, Julie? quem?
–Letícia. Eu preciso te contar que...
Ouvimos um barulho ensurdecedor e um impacto faz-nos cair no meio do corredor.
–Terremoto?
–Não, rachadura de portal. Falei levantando-me e pulando de alegria.
Letícia me encarou como se tivesse medo de mim.
–Vamos, é nossa chance.
–Chance do quê? Julie você está bem?
–Nunca estive melhor. Falei empurrando-a para o outro lado do corredor.
–Mas... não é óbvio que iria pro "portal"?
Parei de repente.
–E agora? perguntei para mim mesma em voz alta.
–Posso te ajudar se me explicar o que está acontecendo. Letícia falou impaciente.
–Desculpe, é que... — suspirei — deixa pra lá.
Ela ajeitou a franja azul para detrás da orelha e me encarou.
–O Destino?
Arregalei os olhos.
–Como... como saberia?
Ela revirou os olhos.
–Mana, você fala de noite.
Olhei para o chão.
–Mas você sabe de tudo?
–Você conta histórias até dormindo.
–E você acredita nelas?
Ela pensou um pouco e depois concordou com a cabeça.
E finalmente olhei para Letícia e fiquei ali de queixo caído encarando minha quase irmã e sem querer imagens de Laura rindo quase idêntico ao modo que Letícia ria.
Me desequilibrei, mas apoiei-me na parede rapidamente.
–E aí? posso ajudar?
–Clar... claro. falei ainda sentindo uma pontadinha no estômago.
Ela sorriu.
–O que fazemos? perguntei.
–Ele não me conhece, posso ver se é uma emboscada. Ela sugeriu.
–Não, a família do Felipe consegue hipnotizar as pessoas, tipo o Henrique.
–Hum — ela pensou um pouco brincou com a mecha azul de seu cabelo e sorriu — podemos fazer um sinal, tipo esse. Ela falou colocando as mãos na testa.
–Acho que serve.
–Posso ir?
–Sim, mas aonde foi a explosão?
–Acho que próximo do lugar que Mike está.
Revirei os olhos.
–Me espera aqui, não saia. Ela alertou e depois saiu correndo.
Experimentei mais uma revirada de olhos e depois sentei no corredor.
–Hey my Julie.
Olhei para cima.
–Consegue andar de cabeça para baixo? perguntei olhando para Felipe que estava em pé no teto.
Ele concordou com a cabeça.
–Que gracinha. Ironizei e depois comecei a rir.
–Obrigado.
Julie, lembra que você ainda está atrás do Destino?
Balancei a cabeça afastando pensamentos inúteis.
–Felipe, por que foi embora ontem?
–Tive que me esconder do meu pai. Ele falou dando de ombros e começou a andar no teto.
–Para, não consigo me concentrar. Falei tentando montar uma linha de raciocínio.
–Tá. Ele falou pulando e de repente estava do meu lado.
–Isso não é normal, viu? — Falei revirando os olhos quando ele começou a brincar com meu cabelo — Mas, alguma novidade do seu pai?
–Não, nenhuma novidade. Ele falou olhando para os lados.
–Felipe, quem entrou na minha casa ontem?
Ele arregalou os olhos e se afastou.
–Eu te fiz uma pergunta. Falei revirando os olhos.
–Pois eu não quis lhe dar a resposta.
–Quem entrou na minha casa ontem? perguntei brava.
–Ninguém. ele murmurou.
–Seu pai está onde?
–E eu sei lá?
–O que foi aquela explosão?
–Julie, para.
–Por que não responde minhas perguntas?
–Sempre consegue me colocar no papel de vilão. Ele falou revirando os olhos.
–Felipe!
–Tchau.
–Não, agora você vai falar. segurei o colarinho de sua camiseta e como ele é um pouco mais alto que eu ele teve que se abaixar.
Ele sorriu.
–Não, não vou.
–Não íamos para o castelo?
–íamos, mas mudança de planos.
–Mudança de planos, é?
–Exatamente.
–Então tudo bem, pode ir agora. Falei soltando-o.
Ele fez uma careta.
–Tchau!
–Tchau. falei sorrindo e ele esboçou um sorriso preocupado, tirou a pedra do bolso e antes que fosse para o castelo corri até ele e o abracei.
–Ei!
Já estávamos no jardim do castelo.
ajeitei a franja do meu coque e sorri.
–Obrigada pela carona. ironizei.
Os olhos de Felipe ficaram vermelhos.
–Vou te levar de volta!
Me assustei.
–Felipe?
Ele segurou meu braço.
Maldito braço.
–Então né? forcei um sorriso.
Ele deu de ombros.
–Infelizmente para você hoje eu vim preparada. -Falei puxando meu braço que escorregou por suas mãos. — Gel de cabelo.
Saí correndo.
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