O Livro Do Destino
50 Henrique e Letícia
Encarei seus olhos grandes, os olhos dela eram totalmente esquisitos pelo fato de serem vermelhos, sendo que normalmente são bem azuis.
Ela foi andando até sentar-se em sua cama e continuar fitando-me.
–Foi você que escreveu isso? perguntei.
Ela olhou confusa para o papel, depois afastou a franja tingida de azul escuro e falou que não.
–Eu estava lá embaixo o tempo todo. Ela falou.
–Eu também, mas alguém escreveu isso! falei balançando o papel.
–Mas não fui eu. ela falou com cara de quem ia chorar.
Resmunguei alto o suficiente para que ela se perturbasse e fosse dormir.
Ajeitei a luz do abajur para voltar à fazer minha tarefa e do nada ela queimou.
–Caramba! falei.
Desci as escadas, estava tudo escuro, todos já haviam ido dormir.
Direcionei-me até a dispensa e comecei a procurar uma lâmpada sem ligar a luz já que se fizesse isso acordaria a casa inteira.
O vento frio da noite entrou por algum canto e brincou com meus cabelos.
Desisti da lâmpada e fui fechar a janela.
Olhei para a paisagem.
Henrique ainda estava do lado de fora, exatamente do mesmo jeito que eu havia o deixado.
Tremi.
Abri a porta e corri em direção ao banco.
O cutuquei.
–Henrique? perguntei.
Ele continuou duro com pedra.
–Henrique! gritei.
Henrique começou a mexer a cabeça sem mover o pescoço como naqueles filmes de terror e um sorriso sádico e horrível estava estampado em seu rosto.
Gritei, mas depois me lembrei que não podia acordar ninguém.
–Henrique? perguntei só para ter certeza.
Ele fez que não com a cabeça.
Olhei para sua mão, a adaga que Mary usou para matar Lavínia e Laura!
Estava cada vez mais assustada.
Andei para trás pensando e tentando calcular quantos passos seriam precisos para chegar na porta de casa.
Ele levava a adaga consigo em minha direção.
Tropecei, tarde demais.
Respirei fundo e gritei, gritei com todas as forças possíveis.
As luzes da vizinhança começaram a ascender e a cena foi:
Uma garota de cabelos castanhos um pouco ondulados sentada e um garoto, de cabelos marrons e sorriso enorme no rosto ajudando-a à levantar.
Ele já havia calculado meus movimentos, igual ao Destino, não resta dúvidas, o Henrique é um enviado do Destino.
Meu pai e Lorraine apareceram na janela assustados.
–O que aconteceu? meu pai perguntou olhando para mim.
–Eu... eu... — olhei para Henrique que me olhava sorrindo — eu tropecei em uma pedra e ralei o joelho. confirmei.
Não menti... omiti metade dos fatos, em que meu pai poderia ajudar?
Henrique me ajudou a andar, justo no joelho que eu havia engessado à uma semana atrás?
Lorraine desceu as escadas correndo e colocou-me no sofá.
–O que aconteceu? ela perguntou.
–Eu tropecei, acho que torci.Falei olhando para Henrique que estava contendo um sorriso.
–Que bom que Henrique estava lá. Ela falou limpando o machucado.
Que bom? eu não teria tropeçado se não fosse por esse demônio.
–Será que precisaremos engessar novamente? perguntou meu pai descendo.
–Não! falei levantando-me as forças e andando para tentar provar à eles e a mim que eu estava bem, a última coisa que queria era ficar em casa com eles.
Subi as escadas tentando conter a dor.
Pelo menos algo estava claro: Eu estava sozinha.
Acordei de manhã cansada, minha perna não estava mais doendo.
Foi um sonho ou realmente aconteceu? era meu pensamento, mas não faz diferença, o fato é o fato: Henrique é enviado do Destino e vai tentar tira-lo do portal.
Cambaleei até o abajur e liguei, a luz funcionava. Fui até a sala e não encontrei marcas de quem havia estado ali, inclusive olhei se havia alguma embalagem de curativo no lixo, não. Minha perna estava ilesa, foi um sonho.
Arrumei-me para a escola, depois subi para me quarto a fim de arrumar os materiais escolares.
Letícia já estava acordada e admirava a paisagem pela janela do quarto.
–Eu tive um sonho esquisito. Ela falou para as nuvens.
Dei de ombros.
Acabei de arrumar as coisas, coloquei a mochila no ombro e antes que eu saísse ela continuou a conversa.
–Minha mãe está pensando em nos transferir para a sua escola.
Arregalei os olhos.
–Não! respondi rápido demais.
Ela riu.
–Eu sei... sei que não quer... ela falou olhando para o chão.
Tentei sorrir, mas acabei correndo as escadas abaixo e fui em direção à casa do Mike.
Andamos, como de costume, de bicicleta até a escola.
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