O Livro Do Destino

34 E seja o que o Destino quiser


Notas iniciais
Não sei vocês, mas a morte da Laura me abalou bastante (eu não tinha previsto, quando vi, puf!). Algumas amigas minha choraram (exageradas...) então peço desculpas a vocês que ficaram tristes, mas afirmo que ela irá aparecer ainda. bjs e obrigada pelos reviews e pela recomendação.

30 minutos depois meu pai chegou, o que foi muito bom por quê minha casa, sendo modesta, é grande e eu fico ouvindo barulhos de todos os cantos, quando ouvi meu pai girar a maçaneta peguei meu bastão de baseball e desci as escadas.

–Julie? perguntou meu pai assim que viu meu bastão.

–Oi, pai! falei jogando o bastão de lado e abraçando-o.

–Que saudade de você, como foi a festa?ele perguntou assim que teve a oportunidade.

–Então... era isso que eu ia falar, pai, nós precisamos conversar. falei séria.

–Julie, eu acabei de voltar da viagem, foi cansativo, depois conversamos, ok? ele perguntou fazendo carinho na minha cabeça como se eu fosse uma criança e subindo as escadas.

Se eu estivesse em melhor estado emocional e fosse outra situação, provavelmente eu diria que sim e nunca falaria com ele, como de costume (até hoje eu não lhe contei que meu dente caiu e eu tinha sete anos).

–Não pai, é muito importante. insisti.

–Já disse que depois, Julie.

–O seu depois é nunca. murmurei com os braços cruzados e até hoje arrependo-me de ter feito isso.

–Juliette!- ele sabe como eu me assusto quando me chamam assim.- Eu disse depois!

–Então me dê uma data, daqui a 50 anos? perguntei no mesmo tom grosso que ele.

Ele me olhou, me ignorou e subiu.

Contei até dez, são coisas que eu não consigo evitar, meu pai queria que eu tivesse uma educação muito rígida e que nunca respondesse ou aumentasse o tom da voz, mas toda vez que vêm uma professora de etiqueta eu invento uma desculpa e vou embora, uma vez passei uma semana na casa da Laura, com toda certeza ele havia se chateado, mas eu não acho que estou errada em querer conversar com ele. Sem outra opção fui para meu quarto, montei uma barraca com os lençóis e coloquei minha coleção de bichinhos de pelúcia lá, peguei um livro e fiquei lendo lá dentro, por um bom tempo. Meia hora depois meu pai bateu na porta.

–Vamos jantar? ele perguntou.

Levantei-me da cama, abri a porta e sem olhar nos olhos dele desci e sentei-me a mesa, grande, retangular, e que eu considero feia por ser de uma cor não muito definida, como de costume sentei em uma ponta e meu pai sentou na outra, Elisa pôs a mesa e sentou-se conosco, o que é outra história, mas eu vou contar por quê me orgulho muito de ter feito parte desta decisão. Meu pai acha que Elisa devia comer na cozinha, sozinha depois que nos acabamos de comer e por muito tempo foi assim, mas minha mãe não achava isso correto, Elisa era mais que uma empregada, ela era, pelo menos para minha mãe e eu uma grande amiga, minha mãe e eu, conseguimos juntas que Elisa senta-se conosco na mesa e até hoje eu mantenho esta maravilhosa tradição, que eu acho ótima por quê eu fico olhando para Elisa e conversando com ela ao invés de ter um jantar silencioso, chato, monótono e triste onde não troco nenhuma palavra.

Meu pai, como de costume estava sentado escrevendo uma de suas longas redações, ele não jantava conosco, ele jantava com as redações.

–Pai, posso falar agora? perguntei.

Meu pai colocou a folha no papel e fitou-me sério, sem responder o que me desconfortou muito por quê eu não sabia se podia prosseguir com a "nossa" conversa.

–Pai, eu estou sendo seguida.

Ele continuou fitando-me sério, mas agora mais bravo.

–Estou sendo perseguida por um livro, um livro mágico!-continuei- E ele mandou meus amigos e eu para um labirinto e ele... matou minha amiga.

Aquilo pro meu pai foi a gota d'água.

–Juliette! eu estou tentando trabalhar e você vai me contar um sonho?isso é realmente importante? ele falou em um tom grosso que feriu meu coração mais do quê já estava ferido. Olhei brava para ele, levantei-me da mesa e fui para o meu quarto. Meu pai só baixou a cabeça e voltou a trabalhar.

–Julie! falou Elisa batendo na porta.

–Pode entrar. Falei assim que reconheci a voz.

Elisa sentou na minha frente e esperou que eu falasse algo. O olhar dela era um misto entre decepção e esperança.

–Eu sei que você não acredita em mim. falei cabisbaixo.

–Julie.-ela falou fazendo-me olhar em seus olhos verdes esmeralda.- Eu adoro ouvir seus sonhos, acredito que seu pai também, mas ele está ocupado e...

–Não é um sonho. insisti.

–As vezes confundimos sonho com realidade é normal e...

–Eu já disse que não é sonho, se é tão difícil acreditar então esqueça. falei num tom mais alto do que deveria ter falado.

Elisa deu um suspiro ajeitou a franja do cabelo castanho que estava preso em um coque muito bem feito e me encarou com paciência.

–Não é um sonho. continuei falando.

–Julie, se você diz que não é um sonho, tá bem, não é um sonho, eu acredito em você. ela falou beijando minha testa e indo embora.

Por quê eu moro em uma casa que todos acham que eu sou uma criancinha e que eu sou louca?

Chutei a tenda de lençóis e deitei-me de um jeito mais confortável. Desliguei a luz e fiquei olhando pro teto onde haviam algumas estrelas de plástico que brilham no escuro e que deixavam meu quarto muito parecido com um céu aberto. Fiquei pensando na pergunta que fiz pro Mike e que ele evitou respondeu a fim de responder sozinha "Como acha que vai ser ir para a escola amanhã e não ver a Laura?".

Dormi sem notar e no outro dia acordei bem cedo, arrumei minhas coisas, tomei café da manhã e lavei meu rosto, fiquei ali, admirando aquele reflexo de uma menina pálida como um vampiro, olhos pesados, com toda certeza esgotada e com a alma corroída, ou seja, eu.

Estava olhando meu lindo reflexo quando ouvi uma pedrinha bater na janela do meu quarto. Fiquei brava, mais um daqueles moleques da escola que estavam jogando pedra na minha janela para que quando eu abrisse eles ficassem me chamando de esquisita, mas para minha surpresa era o Mike.

Eu ri quando abri a janela e o vi com várias pedrinhas na mão me olhando, ele acenou e eu só peguei minhas coisas e pulei para a árvore que ficava do lado do meu quarto para descer sem usar as escadas.

–O que você está fazendo aqui? perguntei.

–Quer ir para a escola de bicicleta?ele perguntou respondendo minha pergunta.

–Sim. falei animada por pensar que não teria de ir com meu pai.

Peguei minha bicicleta na garagem e saímos de casa pedalando. A escola não ficava muito longe.

–Sua mãe ficou muito preocupada?perguntei tentando puxar assunto.

–Só um pouquinho. ele falou brincando, por quê era muito óbvio que a mãe dele ficou doida atrás dele.

–Ela deve ter ficado muito brava. falei rindo.

–Ela perguntou se você estava bem . ele falou mudando de assunto.

–Como assim?

–Ela estava pensando muito em você na sexta, no sábado e no domingo, ela sabia que algo ruim ia acontecer.

A mãe do Mike era muito legal e em tinha uma espécie de dom parecido com o meu, de ver as coisas acontecerem muito antes de acontecerem, mas sempre que ela vê são coisas ruins que acontecem.

–Você contou para ela o que aconteceu? perguntei.

–Mais ou menos.

Olhei para ele desconfiada.

–Eu só tirei as partes que ela não acreditaria.

–Eu deveria ter feito isso.

–Por quê?

–Por que meu pai acha que é um sonho e não quer me ouvir.

–E a Elisa?

–Ela acha que foi um sonho também.

Paramos em um sinal vermelho.

–Eu só não queria voltar para casa hoje. falei brava.

–Você deveria tentar consertar as coisas.

–Como vou "consertar as coisas" com uma pessoa que não me escuta?

Mike me olhou sem resposta.

–É, você tem razão.

Continuamos pedalando em silencio até a escola.

Trancamos as bicicletas no estacionamento dos alunos (que pode ser chamado de estacionamento das mil e uma bicicletas).