O Livro Do Destino
77 Dê-me 4 horas
–Então, pessoa que dizer ser Felipe, diga algo que só o Felipe saberia.
Ele pensou.
–Uma carta chegou do principezinho chato e eu li.
Ri.
–Obrigada verdadeiro Felipe. Falei tirando a carta de suas mãos.
Ele fez uma careta.
–Mas por quê não fugiu? pensava que nada conseguiria te acorrentar. Perguntei.
–Pensou errado — Ele falou nervoso — A minha irmã é totalmente maluca.
–Desde quando está aí?
–Desde que Mariana trocou de lugar comigo.
–E isso foi...
–Quando eu lhe disse que precisávamos voltar e você olhou pro chão enquanto minha doce irmã me jogou aqui.
–Realmente tenho que parar de olhar para o chão. Falei sorrindo amarelo.
–Tenho um plano, vêm. Ele falou quase segurando meu braço, mas eu rapidamente o movi.
–Não. Protestei.
–Por quê?
–Por que não adianta, não notou que tudo que fizemos deu errado?
Ele fingiu pensar.
–Está brincando que vai desistir agora sem antes tentar...
–"Sem antes tentar"? — O imitei — O que venho fazendo há quase um mês? perguntei brava.
–Julie, para — ele revirou os olhos — Você sempre fica brava, eu não vou brigar com você desta vez. Ele falou flutuando até a prateleira de bichos empanados da Mariana e examinando alguns.
–O problema é que eu estou tentando, estou mesmo e mesmo assim as pessoas ao meu redor morrem quando ele bem entende.
Ele revirou os olhos.
–Pensa positivo. Ele respondeu.
–Não vejo o que há de positivo no fato das pessoas morrerem por minha culpa.
–Energia para minha família? ele perguntou sorrindo falso.
–Eu estou tentando te ajudar, estou mesmo, mas não consigo, uma hora você está confiante e outra hora deprimida. Ele falou tirando lagarto empanado da prateleira e arremessando na parede.
–Descontar sua raiva em animais mortos não ajuda. Respondi dando de ombros.
Ele me encarou desafiante e atirou outro bicho empalhado na parede.
–Idiota. Resmunguei.
Seus olhos alternavam entre azul e vermelho, mas logo parou e ele começou a rir tanto que caiu no chão.
–Você fica parecendo um tomate quando fica brava.
Revirei os olhos.
–Eu adoro tomates! Ele falou se aproximando de mim.
Semi cerrei os olhos.
–Enfim, eu tenho um plano.
Refleti.
Deixa ele se divertir.
–Eu tenho um também, acho que vai funcionar, mas primeiro precisamos ir até a biblioteca.
Ele me encarou desconfiado.
–Por quê não tentamos o meu?
–Por quê eu sei que seu plano não tem nada a ver com o que estou tentando fazer.
Ele riu.
–Tem razão , o que quer na biblioteca, afinal?
–Eu preciso dos registros das pessoas que o Destino atormentou.
Ele revirou os olhos.
–Tudo bem, vamos.
Andamos até a biblioteca.
Mariana nos parou no meio do caminho.
–Devolve minha bolsa sua pestinha. Falei quase segurando-a.
Ela riu e apareceu no teto alto.
–Não... tem tantas coisas que posso usar contra você, vou até começar a fazer aulas de vudu.
Revirei os olhos.
–Mariana, devolve agora. Felipe falou começando a ter o ataque azul-vermelho.
–E eu pensava que era ainda pior que eu, ameaças não funcionam comigo. Ela falou rindo.
–Diabinha você vai ver.
Antes que olhasse para o lado encarasse Felipe ele já estava no teto.
Me sentei e fiquei olhando os dois entediada.
Mariana arranhou o braço inteiro do Felipe.
Ele resmungou algo e tirou uma adaga do nada.
Ela riu.
–Adoro adagas.
Ele fez uma careta.
–Vamos ver se vai gostar quando eu enfiar no seu coraçãozinho.
Ela riu, tirou a adaga da mão dele e perfurou sua própria barriga.
Observei assustada o sangue caindo no meu nariz.
Felipe revirou os olhos e tirou a adaga.
–Agora é minha vez! ela gritou cortando-lhe o braço.
Ele riu.
Os dois riam como dos psicopatas (não, eles são psicopatas).
–Sentia falta das nossas brincadeiras. Mariana falou entre uma gargalhada e outra.
"Brincadeiras"?
Mariana devolveu minha mochila a Felipe e os dois voltaram ao chão contentes enquanto eu olhava para a poça de sangue no corredor.
Felipe percebeu minha certa preocupação e mostrou seu braço que já não tinha mais nenhum arranhão.
–Julie, o que você entende por pessoas que não morrem? Mariana perguntou enquanto examinava o sangue no chão.
Revirei os olhos.
–Vocês morrem sim, só que a energia deste castelo continua "sarando" vocês quando se machucam.
–Vou guardar esta roupa na minha coleção de coisas com sangue. Ela falou olhando pro tecido da roupa todo vermelho e me ignorando.
Engoli em seco.
Felipe riu e me ajudou a levantar.
Encarei sua blusa cheia de sangue.
Ele revirou os olhos e num instante ela estava limpa.
–Nem sei por que fica com medo, nos brincamos disso o tempo todo.
–Não, tudo bem, eu me acostumo.
Ele sorriu.
–Ótimo!
Voltamos o rumo para a biblioteca e enquanto andávamos eu procurava as coisas na minha mochila.
–Aceita chocolate? Perguntei tirando uma barra da minha mochila.
Ele fez que não.
Dei de ombros e abri a embalagem.
Mordi o primeiro pedaço.
–Droga! falei colocando a mão nas minhas bochechas.
–Que foi.
–Aquela diabinha fez meu chocolate virar pedra de granito! Falei raspando a tinta marrom da pedra embrulhada.
Ele riu.
–Estou cuspindo sangue aqui. Falei brava.
–Tem que admitir que foi engraçado.
Revirei os olhos.
Chegamos à biblioteca.
–Eu pego os registros. Ele falou flutuando até uma estante.
Me sentei e tirei um caderno da mochila.
Revirei os olhos.
–Tudo na minha mochila virou pedra.
Ele tentou não rir, mas não aguentou.
–Tudo bem, fica com estes papeis.
Papeis surgiram na minha frente, Felipe se aproximou com um livro enorme.
–Aqui está.
–Pelo menos é só isso. Falei passando meus dedos na capa com relevo.
Ele riu.
–Julie, este é o volume 1 de 10 volumes.
O encarei de queixo caído.
–Ok, em 4 horas acabo isso.
Ele semi cerrou os olhos.
–Duvido.
–Quer me ajudar ou vai ficar duvidando? Perguntei puxando uma cadeira.
Ele fez uma careta e resolveu ficar em pé.
–Vai contar seu plano ou não?
–Não.
–Então não posso ajudar você.
–Preciso que anote como cada um que enfrentou o Destino morreu.
–O quê!?
–Assim — Inclinei minhas primeiras anotações em sua direção e ele as olhou com desdém. — Você anota o nome da pessoa, quando ela morreu e como ela enfrentou o Destino.
–Pessoas com energia, por toda a vastidão do infinito e de diversas maneiras, mas nunca conseguiram, pronto.
Suspirei.
–Se me ajudar eu acabo antes.
Ele sorriu.
–Passa os papeis.
Uns 50 minutos depois ele começou a reclamar, mas eu nem ouvia, afinal, eu estava lendo.
–Sabe a moça que meu pai matou? ela morreu. Ele começou a rir.
Revirei os olhos e fechei os livros.
–Felipe, quantos registros você já anotou?
–Estou no começo do primeiro. Ele respondeu fazendo uma careta.
–Eu estou no 103o.
Seus olhos mortos brilharam.
–Eu consigo fazer 140 registros em menos de trinta minutos.
Revirei os olhos.
Julie, você é genial.
–Então tá apostado.
Vários livros grossos surgiram na mesa.
–Você sabe que vai perder, não sabe? Ele perguntou e já notava-se seu espírito competitivo.
Revirei os olhos.
Felipe saiu da mesa e só a caneta dele ficou se movimentando.
–Isso não seria trapaça? perguntei olhando a caneta.
Ele deu de ombros.
Voltei à minhas anotações.
3 horas depois faltavam apenas 2 livros e meu braço estava exausto.
–Podemos acabar depois se já estiver cansada. Felipe falou olhando pela janela.
–Aqui nunca chove? perguntei de repente.
–Se quiser que chova. — Gotas começaram a atingir o telhado — chove.
–Isso é legal.
Ele concordou de leve.
–Mas não saia do assunto!- de repente ele estava de volta à mesa — eu venci, fiz 10128 anotações em cinquenta minutos.
Revirei os olhos.
–Quantas você fez, humana?
–Eu fiz 476. Respondi me espreguiçando.
Ele começou a rir.
–E é por isso que eu venci!
Concordei organizando os papeis.
–Sabe qual é meu premio?
–Se está pensando que vou beijar você está enganado. Falei sem lhe dar atenção.
–Ainda vai querer me beijar, todas as princesas queriam, menos as casadas.
–Por que não fica com as princesas? Perguntei guardando os livros.
–Já fiquei com todas. Ele falou revirando os olhos.
–Galinha. Falei levantando meu olhar por um segundo para fazer uma careta.
–Tomate.
Revirei os olhos.
–Podemos descansar? Ele perguntou desanimado.
–Ele não descansa. Falei apontando para todos os lados.
Ele revirou os olhos.
–Além do mais, você nem está movimentando os braços.
Ele fez uma careta.
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