O Livro Do Destino

54 Como se fosse um sonho


–Vai me dizer que... começou Letícia.

Antes que Henrique completasse a frase Mike sentou-se no tapete e os encarou.

–Você não tem amigos meninos? ele perguntou fazendo uma cara de "eu tenho pena de você".

Letícia não se incomodou e deu uma risadinha besta antes de resmungar algo e apontar para Henrique.

Me senti desconfortável de estar com meus "irmãos" e o Mike ao mesmo tempo.

–Então? ri um pouco tentando parecer que eu não me importo com meus irmãos — A que devo sua visita?. Sentei-me do lado dele.

Ele se virou para mim como se Henrique e Letícia não estivessem ali.

–Vim acompanha-la pro velório. Ele falou e sua cara que sempre tinha bochechas um pouco vermelhas ganharam o mesmo tom de sua pele.

–Ainda faltam algumas horas pro velório. Falou Henrique olhando pro relógio.

–A Julie não pode sair sem objetivo por aí. Insistiu Letícia.

Mike piscou pra mim.

–Então sua irmã não pode sair daqui? ele perguntou.

–Não sem motivo. Respondeu Henrique e aí notei que Mike devia odiar Henrique tanto quanto odeia Felipe.

–Legal. Mike deu um suspiro, fez um sinal para que eu me levantasse e continuou agachado segurando minha mão e eu quase comecei a rir.

–Juliette, aceita namorar comigo? Ele sorria e era quase convincente que era verdade.

Fingi uma cara espantada, mas as bochechas rosadas eram de verdade.

–Michael, nada me deixaria mais feliz. Respondi retribuindo o sorriso.

Olhamos para Henrique e Letícia que observavam o teatro de boca aberta.

–Juliette, aceita tomar um sorvete? Mike perguntou.

–Adoraria. Respondi.

Nos abraçamos esperando que com só um abraço convenceríamos meus irmãos.

–Temos a autorização de ir agora? Mike perguntou para Henrique que não estava convencido.

–Não...

Letícia o impediu.

–Deixe-os, logo Mike vai cansar da Julie. Ela falou olhando e sorrindo pra mim.

Mike abriu a porta e eu passei. Depois de estarmos à alguns metros de distância começamos a rir.

–As pessoas sempre acreditam. Mike falou rindo.

–Pois é. Falei entre uma risada e outra.

–O engraçado foi a cara dos dois. Ele continuou.

continuamos andando de mãos dadas em direção à casa dele.

–Para alguém que não suporta clichês você até que sabe a cena. Falei fazendo-o rir.

–Minha mãe adora filmes assim. Ele falou e depois mostrou a língua como sinal de nojo.

–Mas foi muito bonitinho e convincente. continuei.

–Acha mesmo? ele falou balançando nossas mãos.

Assenti.

–Julie, aceita nossa separação? sei que vai sofrer muito com isso já que eu sou muito legal e... ele começou.

–Graças à Deus, já estava enjoando-me de estar perto de você. Falei rindo.

–Mas foram só 10 minutos. Ele falou surpreso.

–Isso é uma eternidade quando se trata de amor. Falei e depois ri quando ele revirou os olhos.

Chegamos à casa dele.

–Melhor acabarmos logo o processo de fechar o portal. Ele falou abrindo a porta.

–Er... Mike, só tenho uma pergunta: Meus irmãos virão amanhã pra cá? perguntei.

Ele pareceu pensar por um momento.

–Provavelmente.

Revirei os olhos e ele abriu a porta.

–Nora! falou o pai dele surgindo do nada e me dando um susto.

–Ou devemos dizer "Nora oficial"? falou a Mãe do Mike saindo da cozinha.

Mike e eu nos entreolhamos, os gêmeos haviam contado.

–Que bom que admitiu logo, filho. Falou o pai dando-lhe um tapinha nas costas.

–Er... nos não somos mais namorados. Falei tentando evitar uma grande confusão.

O sorriso sumiu da cara dos dois e eles fitaram Mike como se ele fosse o culpado por isso.

–Vamos. ele falou puxando minha mão.

Subimos até o sótão e tentamos voltar ao enigma do portal.

–Isso é muito complicado... talvez se eu... aqui... Mike fazia contas que eu não tinha vontade de acompanhar então eu procurava algo para fazer. Passei um tempo o encarando até que ele desviou o olhar das contas e ficou me olhando.

Ficamos uns minutos assim.

–Tudo bem? ele interrompeu o silêncio.

Pensei um pouco.

–Não. resolvi falar a verdade.

Ele continuou me encarando com o olhar calmo, baixou a tampa do notebook colocou as contas em outro canto e esperou que eu falasse algo.

–O que aconteceu hoje de manhã...? — perguntei — Com a Sabrina.

Ele olhou nervoso pra mim.

–Duas coisas: ela falou que encontrou essa lista aqui — ele falou entregando um papel pra mim que eu deixei de lado — não queria lhe mostrar na hora por que não confio no Felipe. — eu revirei os olhos enquanto ele esperava uma resposta minha — a segunda foi que...

–Que...?

–Sabe a Helena? ele perguntou ansioso.

Claro, como não saberia, a garota que o Mike gosta, a amiguinha da Amanda, tudo em um pacote só.

–Ela aceitou namorar comigo! ele falou sorrindo, mas logo parou quando olhou pra minha cara descrente.

–Isso é sério? perguntei aproximando minha face da dele.

Ele assentiu.

–Por que não me contou antes? perguntei brava.

Ele afastou a cara da minha, mas eu aproximei mais.

–Pensava que teria a mesma reação. Ele falou cruzando os braços como uma criança mimada (que é o que ele é).

Revirei os olhos e resmunguei.

–Eu só não entendo qual é o problema. ele falou encarando-me com raiva.

Abri a boca indignada.

–Você é meu melhor amigo, conto tudo pra você... comecei.

–Tem certeza? ele perguntou levantando-se da cadeira e afastando-se.

–Claro. falei.

–Acho que em algum lugar da sua frase você mentiu. ele insistiu.

–Mike, somos amigos desde que nascemos, você sabe da minha vida tanto quanto eu.

Ele balançou a cabeça de forma negativa.

–Se tem algum problema com isso, fale, eu vou ouvir. Ele falou sentando-se novamente.

Suspirei.

–Não, não tenho problemas com isso. Respondi.

–Sério?

Assenti.

–Quem já sabe? perguntei sentando-me novamente.

Ele deu de ombros.

–Mas por quê? perguntei mesmo que ele não tivesse resposta.

–Por que eu gosto dela, Julie. Ele falou sem se importar com o que dizia.

–Eu... eu preciso ir. Falei indo em direção à porta.

Fui andando para casa, mais uma coisa para minha vida coisada, talvez seja realmente o melhor, o Destino vai matar tudo que gosto só está esperando momentos para causar ainda mais dor.

Letícia abriu a porta e eu disfarcei as poucas lágrimas que caiam como a chuva que tinha molhado meu rosto.

Corri até meu quarto e fiquei lá olhando pro teto e tentando achar as constelações que as estrelas de plástico faziam.

Lorraine bateu na porta do quarto.

–Trouxe um remédio, chocolate! ela falou detrás da porta.

Revirei os olhos e fingi que não havia ninguém no quarto mesmo todos sabendo que sim.

–Julie! gritou me pai do outro lado da porta.

–O quê? perguntei ainda embaixo dos cobertores.

–Vamos com você pro velório. Ele fez essa frase soar com "Vou me livrar da Lorraine" como se fosse a coisa mais legal do mundo.

Resmunguei bem alto para que ele ouvisse e fosse embora.