O Limiar do Meu Nascimento
1 “O que desejas de mim?”
A voz indefinida que sempre aparecia em minha mente nas horas em que o silêncio se fazia presente não estava ao meu lado para me levar pelos caminhos do meu inconsciente. Aquilo me incomodou. Não era normal. Não sei também se ouvir uma voz não natural dentro da cabeça é normal, mas para mim, era habitual.
“Por que não aparece hoje?” Perguntei mentalmente por ela, buscando achar qualquer traço de sua presença impalpável. “Não vá me deixar logo agora que desisti de lutar contra seu pedido insistente.”
“É justamente por isso que estou partindo” Ela surgiu tão subitamente como sempre, preenchendo minha mente perturbada, alimentando-se da minha insanidade que só não crescia por que servia de alimento para tal ser que provavelmente não existia.
“Partindo para onde? Me leve com você.”
“Apenas aqueles que se entregaram podem me seguir, e poucos conseguem me alcançar realmente.”
“O que desejas de mim?”
“O que foi que sempre lhe pedi?”
“... Minha totalidade em troca da eternidade como uma voz igual a você... Hoje estou disposto a lhe entregar isso.”
“O que te fez mudar de ideia? Sei bem o quanto és teimoso”
“Estou sozinho, você é a única coisa que me sobrou. Não posso deixa-la ir. Não posso ficar só novamente, o que está por vir é novo, e não sei se o quero.”
“Agora é tarde. Você foi maculado pelo medo. Nem mais sua insanidade lúdica consegue suprir minha ânsia por paz.”
“Entendo... Então, me responda uma última pergunta antes de partir para outra mente mais jovem.”
“Fale.”
“Eu lhe alimentei bem durante o tempo em que se hospedou em minha mente?”
“Você foi tudo que eu precisei, mas agora não é mais.”
“Então... Adeus. Obrigada por me fazer companhia.”
“Está ciente das implicações que minha ausência trará para você?”
“Sim, afinal, você é a escolha que me levaria além dessa carcaça nova que me abriga.” Suspirei. “Hoje você me deixará, e tudo que irá sobrar é o vazio de uma mente recém-formada, quando eu nascer, espero que já tenha encontrado um novo hospedeiro”.
“Eu também. Adeus, criança.”
Sozinho no escuro da minha mente, aquele último diálogo foi se dissolvendo, e sem forças para agarra-lo à memória, assisti indiferente o fim de uma fase da minha vida.
A primeira respiração queimou, e chorei em uma tentativa de expurgar a dor que abria minhas vias circulatórias, em meu corpo novo e vistoso, senti o limiar da minha consciência ir aos poucos sendo tomado por uma nova mente, eu, que antes de entrar no mundo humano conhecera o mundo das ideias, era agora esquecido por aquele cérebro juvenil. Talvez seguir a Morte fosse mais seguro, mas no meu íntimo, eu ansiava por nascer, mesmo que isso significasse que eu não seria mais eu.
Fale com o autor