O Letrista da Morte
2 O Letrista da Morte - Parte Final.
O Letrista da Morte — Parte final.
Além de precisar aturar as provocações dos valentões do colégio, Iori era forçado a tolerar o bullyng de seu irmão mais velho ao chegar em casa, onde, a princípio, cometia o ledo engano de achar que alcançaria o sossego que o dia todo perseguiu. O motivo era o mesmo: seu triste e decepcionante fracasso na atividade que nasceu para ser mestre: a arte do controle essencial.
Iori era integrante de uma respeitada família de retalhadores. Ser o mais forte, o melhor, o mais inteligente, estava no seu DNA. Segundo lugar não era uma opção. Quando Santsuki veio à Terra e jurou destruir Sirius se um inimigo digno não o enfrentasse, seu pai se prontificou a salvá-los, lutou bravamente, chegou perto da vitória, morreu como um herói e teve a força reconhecida.
Claro que ninguém que tinha o mesmo sobrenome que ele sabia sobre o quão oprimido ele era na escola. Achou prudente manter segredo. Se ter seus onze anos e sequer saber qual era a sua energia já era tão humilhante que ele mal podia falar sobre, imagine ter que contar que, na sala de aula, era alvo de chacota? Não faria isso nem sob tortura.
O que seu pai diria se o visse assim? Sua mãe, retalhadora aposentada, devia ser a mais envergonhada. Ela, que lutou ao lado de um dos conselheiros para salvar um ônibus do jardim de infância das garras do mesmo homem que matou seu pai, era quem mais lhe aconselhava a ser paciente e não se cobrar tanto, porque cedo ou tarde aconteceria.
À mesa, o primogênito da família, guerreiro já formado, não parava com as piadas e as risadas. O objeto de madeira maciça localizava-se no centro da sala, em cima de um tapete colorido e abaixo de um lustre circular. As paredes eram amarelas, a TV, como mandava a velha tradição criada pelo patriarca, se via desligada. O momento era de comunhão.
— Iuri, deixe o seu irmão em paz... — Pedia a mãe, pela milésima vez. — Ele não é um perdedor, só é muito novo e nunca esteve em uma batalha real. Você, que já se formou, deveria saber que muitos retalhadores só despertam a essência em uma situação de vida ou morte!
— Não na nossa família. — Retrucou, porém. — Meu pai despertou a dele com cinco anos, a senhora despertou com seis. Eu despertei com quatro anos. — Levantou a palma da mão esquerda e exibiu uma esfera de plasma amarelo ionizada, desfazendo-a, continuou: — O papai e a senhora foram os líderes da equipe de retalhadores de elite, mamãe. Eram a guarda particular da guerreira mais poderosa de toda a galáxia, a senhorita Yume. Francamente, é difícil de acreditar que a senhora não está nem um pouquinho desapontada.
Essa foi a gota d'água, o mais novo franziu a testa.
— Já chega! — Iori esmurrou a mesa, enfurecido. Não suportaria nem um minuto a mais daquilo. — Eu desafio você pra uma luta, Iuri! — Apontou o seu dedo para o irmão sorridente. — Quero que lutemos! Agora!
— Iori! Não!
— Por que não, hein, mamãe? Acha que eu não sou tão bom quanto ele? Que sou uma decepção?! Eu já estou cansado de ouvir as piadinhas dele! Se a senhora intervir, vou saber que tudo o que ele disse é verdade!
— Não é isso, Iori. — A matriarca tentava pensar numa maneira de dizer o que queria expressar sem magoá-lo. — É que você ainda é muito novo! O Seu irmão já está formado, ele já esteve em um combate de verdade, passou por coisas que você ainda vai passar!
— Bem, isso não quer dizer nada. — Acreditava. Viu Haru, que tinha sua idade, derrotar sozinho, facilmente, três garotos do último ano. — Além disso, se eu não o vencer agora, pelo menos vou tentar provar o meu valor como um guerreiro... Vou fazer ele me respeitar!
— Certo, certo... — O primogênito afastou a cadeira e se pôs de pé. — Eu duvido que seja capaz disso mas... vamos nessa.
— Garotos... — A mulher temia que aquilo fosse longe demais. Nunca viu Iori tão irritado, falando tão sério. Foi uma explosão e tanto. Com certeza algo aconteceu no colégio.
Lá fora, os irmãos se encaravam. Um sorria, o outro rosnava de raiva. A expressão no rosto dele só alimentava a sua fúria. Fugiu o dia todinho. Correu, suportou zombarias, olhares de piedade, sentiu vergonha, vontade de desistir, jogar tudo para o alto.
Mas chega. Não vai mais fugir ou sentir medo. Será tão forte, confiante e corajoso quanto Haru e Sora. Hora de lutar!
— Sua última chance, maninho. Desista agora. — O mais alto, num gesto de desprezo, ofereceu clemência. — Vamos esquecer isso. Se acabar com essa loucura agora, prometo nunca mais tocar no assunto.
Mentiria se dissesse que a proposta não era atraente, no entanto, voltar atrás não era uma opção. Sua mãe os estava olhando.
— Pode esquecer. — Foi sua resposta. — Que tal essa? Se eu der um soco nessa sua cara arrogante, você nunca mais vai me menosprezar como lutador.
O outro sorriu, fechou os olhos com orgulho e respondeu:
— Feito. Na verdade, vou deixar você fazer o primeiro movimento. Eu não vou nem ficar em guarda, só vou me esquivar.
O terreno era barroso, uma floresta cercava a casa que, apesar de muito simples, era vistosa e grande o suficiente para os três. O lago gigantesco que ficava atrás os privava da responsabilidade de trabalhar para garantir o pão na mesa, embora escolhessem não viver a base de peixe.
Sob o seu ponto de vista, o ambiente era de tamanho perfeito. Nada os impediria de levar aquilo adiante. Os ventos sopraram seus cabelos e as folhas das árvores, o clima tornou-se o mais sombrio que podia. A mãe, apreensiva, torcia para que nenhum dos dois acabasse machucado, ou pior: que parassem de se falar para sempre.
Mas Iori estava se lixando. Queria tirar do rosto dele aquele sorriso. Uma droga de sorriso cínico e desrespeitoso. Furioso, carregou o punho com toda a sua raiva e partiu pra cima de seu irmão, começando com um direto de direita. Pro seu azar, seu oponente possuía reflexos superiores, portanto esquivar não foi problema.
Saber disso, contudo, não levou o pequeno à desistência, porque ele não parou de desferir golpes como aquele, ainda que com muito mais fibra. O mais velho, porém, não tinha trabalho nenhum com golpes como aquele e o sorriso que Iori jurou desfazer, estava muito bem vivo, o respeito, ao contrário, nem chegou a nascer.
Quinhentos socos depois, Iuri cansou de só esquivar e amassou a barriga de Iori com uma joelhada. O baixinho não se deixou abater, recompôs-se e pôs muito mais furor nos outros socos, o que não mudou nada, só o cegou quanto ao eventual contra-ataque que não demorou a vir: um direto de esquerda.
— Iori! — A única espectadora do confronto correu para acudir o filho que foi atirado longe pelo golpe.
— Acabou. — Disse o mais velho que, enquanto entrava dentro de casa, narrou sua visão sobre o que acabou de acontecer: — Muito decepcionante... faça um favor a si mesmo e desista dessa vida, chega de envergonhar a nossa família.
— Iuri, não fale desse jeito! — Protestou a ex-guerreira, que apesar de não ser o alvo daquelas palavras, sentiu a dor de quem o era.
— Não, mamãe. Ele tem... toda a razão. — Concordou o menino em seus braços. — Vou sair do colégio. Vou abandonar tudo.
— Não, ele não tem razão! — Temia um dia descobrir que ele morrera em combate, mas foi muito deprimente ouvi-lo dizer que estava desistindo de seus sonhos. — Não se atreva a desistir. Seu pai tinha muita fé em você e em seu irmão. Uma noite, ele sonhou que você se tornava o primeiro ministro da Terra de Áries! — Revelou, carregando-o com cuidado até os degraus que levavam à porta da casa.
O pequeno se surpreendeu, ficou contente mas logo baixou a bola.
— Por que a senhora nunca me disse isso antes?
— Estava esperando pra dizer... no dia da sua formatura. Era para ser seu presente. — Explicou. — Não desanime! Esse é o seu sonho! É normal sentir-se inseguro no caminho, mas isso é porque alcançá-lo não vai ser fácil. O que você precisa fazer é olhar para frente e continuar andando, não parar! Quando chegar lá... você vai olhar para trás e lembrar de tudo o que viveu. De todos os que estiveram com você, na estrada. Vai saber que valeu a pena! Se fosse fácil, não seria seu sonho, não é mesmo?
— É, acho que a senhora está certa. — As palavras dela só o confundiram quanto ao que fazer. Recuperado, levantou, subiu os três degraus e falou para ela: — Vou dormir mais cedo hoje, perdi a fome.
Não queria chegar em casa algum dia e receber a notícia de que o seu filho mais novo morreu de maneira cruel nas mãos de um retalhador, não queria ter que enterrá-lo, mas qualquer um via nele a alma de um verdadeiro guerreiro — e queria muito menos que ele tivesse uma vida infeliz, sem sonho.
...
No dia seguinte, há poucos minutos da hora de saída, Yue estava pronta para pôr em ação seus planos para o caso que Arashi estava investigando. Ela não teve muito trabalho para convencer Haru a acompanhá-la, ele, muito mais que ela, ansiava por um desafio. A garota, no entanto, era mais ambiciosa.
Ela cria que, desvendando um caso como aquele, seria reconhecida pelas autoridades arianas e que, consequentemente, passaria por exames realmente avançados na escola, onde desde o primeiro dia era tratada como uma criança pelos professores, diretores, inspetores e até pelos merendeiros e faxineiros.
Tudo parecia se encaminhar para o seu êxito. Kin e Arashi passariam a noite realizando a guarda do primeiro ministro, de acordo com a loira eles só retornariam por volta das seis da manhã, ou seja, seu tempo para desvendar o caso, acabar com aqueles assassinatos e retornar para casa era mais do que o que necessitavam, depois era esperar eles chegarem e contar o que rolou.
O sinal tocou.
— Certo, tá na hora de irmos. Lembre do planejado, aja naturalmente. — Yue sussurrou para Haru, indo com ele até a porta de saída.
Duas grandes colunas de concreto azulejado e uma faixa vermelha com o nome do colégio estampado, "Formação Estadual de Retalhador", enfeitavam a portaria de entrada e saída. Dois conjuntos de cercas de metal coloridos, um a cada lado das colunas, davam um toque infantil à instituição que se localizava de frente para uma imensa rua.
Muitos já haviam saído mas seu último obstáculo, Sora Raikyuu, estava lá parado com um sorriso no rosto e os braços cruzados.
— Parecem nervosos. Onde vão? — Perguntou.
— Pra que quer saber? Você não liga. — Respondeu Yue.
— Talvez eu ligue. — Entrou na frente deles. — Sou um cara curioso... — Parou pra pensar no que disse. — Acho que isso não pegou muito bem.
Nenhum dos dois entendeu bem o que ele disse, por isso só continuaram o trajeto. No meio da rua, Haru teve uma ideia.
— Ei, Yue, espera um pouquinho, por que a gente não chama o Sora para ajudar? Ele ia ser muito útil.
— Nunca viu a essência dele, como sabe que ele seria útil? — Retrucou.
— Eu não sei, só queria ver os poderes dele!
Yue respirou fundo. Se arrependeria daquilo.
— Tá legal. — Cedeu, virou-se para Sora e o convidou: — Quer vir com a gente?
— Não, tô de boa. — Começou a andar na direção contraria a que os dois iam. — Vou me encontrar com gêmeas gatas em uma hora e terei uma noite duplamente agitada. Se é que me entendem.
— Não entendemos. — Disse-lhe ela.
— Imaginei. Até amanhã. — Deu-lhes as costas.
— Esquece esse idiota, Haru, vamos indo.
A dupla não sabia, entretanto, que estava sendo seguida. Iori estava em seu encalço. Após o papo motivacional de sua mãe, teve um sonho durante a noite que o levou a perseverar em seus objetivos. Nele, o dia de sua formatura havia chegado e seu pai estava lá. Felicitando-o, o homem que mais admirava no mundo todo lhe dizia exatamente o que sua mãe dissera.
Sua única bússola era a intuição de Yue e seu senso de aventura. Os três não pensaram direito antes de tomar a decisão de ir atrás de um criminoso tão perigoso, apesar de na realidade buscarem a mesma coisa: o reconhecimento. Não foi por acaso que seus caminhos se cruzaram, eles terem em comum bem mais do que apenas o fato de estudarem no mesmo colégio.
Alguns quilômetros mais tarde, a sensitiva do trio resolveu desmascarar o desconhecido terceiro componente: ela simplesmente parou de andar ainda no meio da avenida. Quando ele também não se moveu mais, ela teve certeza de que estavam sendo seguidos. Só não sabia dizer quem era, muito menos se a sua energia condizia com a de um aliado.
— Hã? — Haru não entendeu a sua parada repentina, por isso só foi frear a caminhada dois passos adiante dela.
— Muito bem, pode sair de onde está escondido. Sei que está aí no beco desse prédio cinza. Apareça agora. — Mas o perseguidor se mostrou teimoso. — Vamos, saia daí. Se eu tiver que pedir mais uma vez, não serei tão gentil... Tirarei você daí a força.
Iori se agarrou à sua única opção e se revelou a eles.
— Iori? — Haru o reconheceu mais rápido. — Por que você tava seguindo a gente?
— É que eu... queria ir com vocês. Espionei vocês dois o recreio inteirinho e queria vir também, só não sabia se vocês deixariam. — Aproximou-se.
— Você me deu um baita susto. — Disse Yue. — Se queria vir também, só precisava ter pedido! Alguém mais sabe que você está aqui? Alguém te viu?
— Só o Sora. Um pouco depois que vocês saíram, parei lá na esquina da rua da escola, ele me viu e disse para qual direção vocês tinham ido.
— Se aquele bobalhão contar para mais alguém aonde estamos indo, vou matá-lo com minhas próprias mãos! — Avisou ao Haru. Olhou a hora. — Temos que continuar, só faltam-
Gritos de horror interromperam sua fala. Curiosos, os três correram para a direção de onde eles vieram e acabaram parando em um beco muito distante do local em que Yue descobriu que Iori os estava seguindo. Encontraram uma moça muito bonita caída, ela usava um longo e luxuoso vestido vermelho e um brilhante colar de pérolas caríssimo.
Cabisbaixo, logo após checar os batimentos da mulher, o ruivinho proferiu a má notícia com voz baixa:
— Ela tá morta. — Fechou os olhos dela. — Chegamos tarde demais. — Esmurrou a parede.
— Olha aquilo. — Iori apontou a mensagem escrita acima da lixeira verde encostada na muralha que fechava o beco. — "Sofra um-
— Não leia! — Yue tapou a boca dele, salvando sua vida. — Aconteceu há menos de um minuto, se lermos isso agora, morreremos. Mas acho que tenho um jeito de decodificar a mensagem sem lê-la diretamente. — Concentrou sua atenção na energia que provinha das letras e interpretou o que estava escrito. — "Sofra um ataque cardíaco fulminante". É como o Arashi falou, as pessoas... Morrem do jeito descrito.
— Sabe pra qual direção ele foi? Vamos pegá-lo! — Haru queria justiça.
— Sigam-me. Mas não olhem para cima, nem pros lados, nem para baixo e muito menos para frente, olhem pros seus próprios pés, ouviram?
— Tá! — Disseram, em uníssono.
Yue pegou ambos pela mão e os levou consigo para aonde ia. Seu destino final, embora ela não soubesse, era uma grande praça rodeada pela natureza. Aos lados, um enorme lago com um cercado de flores e folhas. No centro, um imenso piso branco repleto de desenhos artísticos. A frente, um espaço vazio com o que parecia ser um palco vermelho onde haviam várias pessoas cujo modo de vestir-se indicava que elas pertenciam à uma classe mais abastada.
Todas elas estavam presas, eram reféns de alguém cuja identidade era o maior ponto de interrogação para o único grupo de guerreiros que se propôs a salvá-las. A grandeza do local impressionou os três, que pararam pouco menos de cem metros de distância do palco.
— Tem umas cem pessoas lá. — Haru estava atônito.
— Estão todas amarradas. — Iori, apesar da distância, era capaz de ver.
— Não olhem! Façam o que eu disse! — Yue voltou a adverti-los.
— Como vamos lutar se não olharmos? Só você pode fazer isso. — Disse-lhe Haru.
— Bom... vão ter que deixar essa comigo. — Respondeu.
Uma figura encapuzada pôs os pés no palco, os olhando diretamente.
— Quem são vocês três? — Os indagou, decepcionado.
— Isso não é da sua conta! — Yue os pegou pela mão e saltou para cima do palco. — Estamos aqui para te deter, pare já o que está fazendo!
— Que lástima. Mandaram crianças. Bom, é o seguinte: não vou parar. — Disse, apenas.
— Por que tá fazendo tudo isso...?! — Perguntou Haru.
— Olhem em volta. O meu padrão de vítimas... O que isso diz a vocês?
Yue fez o que ele mandou e, juntos, ela e Haru sacaram tudo na hora.
— Você é o tipo de assassino em série que só mata pessoas ricas, eu não estou certa?
— Palavras muito simplórias para resumir o que eu estou fazendo, mas... é, você não está errada. A morte dessas pessoas representa algo muito maior! Simboliza o fim de um mecanismo que tem regido a vida das pessoas, o fim de uma forma de viver opressiva e condenatória! É a morte da burguesia!
— Eu já entendi. — Disse Haru, avançando um passo e falando: — Você é completamente maluco!
— Eu não sou louco! — Exclamou, submetendo o continente à pressão de sua energia. Após acalmar-se, respirou fundo, recobrou a compostura e disse: — Enfim. Eu ia conceder misericórdia a vocês já que não são parte do sistema que eu planejo destruir, mas agora eu os detesto!
— Ele vai atacar... — Yue sinalizou mandando seus aliados se afastarem.
— Eu vou atacar, mas não a vocês. — Sacou uma faca e partiu para cima do primeiro refém que avistou. Ao tentar salvar o alvo dele, Haru não cogitou a chance de aquilo ser uma armadilha para fazê-lo abrir os olhos, obrigando-o a ler o que escreveu previamente na camisa branca de seu prisioneiro.
"Morra de insuficiência pulmonar", era o imperativo redigido no tecido, o qual o ruivo não teve outra opção senão, involuntariamente, obedecer, caindo de joelhos e sentindo uma falta instantânea de oxigênio. Era desesperador. Ele desabou, mas encontrou conforto nos braços de sua melhor e primeira amiga que tentava, inutilmente, extinguir o seu sofrimento.
— Haru! Haru, fica comigo, por favor! Você é tudo o que eu tenho agora, é a pessoa mais importante da minha vida! Se morrer, jamais vou te perdoar! — Era o seu jeito de lhe dizer para não desistir, mas ciente de que não estava dando frutos, lançou um olhar furioso para o responsável por tudo aquilo e lhe perguntou: — O que fez com ele!?
— Insuficiência pulmonar! Ele não consegue respirar. Ainda pode salvá-lo, se der logo o fora daqui. Como eu já falei, a minha luta não é com vocês! — Respondeu.
O baixinho balançou a cabeça, dizendo que não. Dessa vez, ele lhe falava para não desistir. Determinada a não ir e deixá-lo livre para fazer o que quiser com os reféns, se inclinou e fez, por si mesma, respiração boca a boca em seu pequeno amigo.
— Como quiser. — O assassino em série deu de ombros, olhou para o que não fazia nada além de assistir e pronunciou: — Bu!
Assustado, o pirralho caiu para trás. O vilão riu com desdém e voltou sua atenção para aqueles contra quem realmente tinha algo. Diante de tal cenário, Iori mergulhou numa profunda auto-reflexão e por um breve momentinho, viu seu irmão ali de pé, não o matador atrás de quem veio, o criminoso em quem enxergou uma chance de provar o seu valor.
O que eu estou fazendo, questionava-se. Sua covardia perante o inimigo, o primeiro que já enfrentou, mostrou que valor ele tinha: zero. O primogênito da família Tamazari tinha razão quando o chamou de "a vergonha da família". A decisão mais sábia que já tomou, mesmo que por alguns segundos, foi a de abandonar a academia de formação. Seu pai foi um herói. Merecia honra.
Merecia honra. Um bom guerreiro não é aquele que vence todas as lutas, mas o que não desiste. O que não se deixa vencer pelo medo. O que persevera sempre. Seu pai, mesmo na presença de um adversário superior, não parou de lutar. O medo era grande, mas não pôde pará-lo porque ele não estava lutando por si mesmo, mas sim pelo que representava.
Fraco é quem perde para si mesmo. Chega de ser fraco, franziu a testa e se pôs de pé. Antes de pensar em derrotar alguém, um retalhador deve levar a vitória em um combate contra os seus demônios interiores. Vitória, afinal, não se resume a dar um soco na cara do oponente, mas a deixar para trás tudo o que te impede de seguir com sua caminhada. Era nisso que seu pai acreditava. Era nisso que ele acreditava.
De punhos cerrados, investiu sobre o homem que oprimia os seus amigos como nunca o fez contra alguém algum dia, esmurrando a sua cabeça com um soco que o levou à lona e salvando, por uma razão misteriosa, a vida de Haru, que imediatamente voltou a respirar.
— Vamos lá, Haru. Não morra! — Ela continuava a repetir chorando sobre ele, sem se dar conta de que o garoto já havia voltado a si.
— Yue, t-tá... difícil respirar! — O menino exclamou.
— Claro que tá difícil, você tá com insuficiência pulmonar!
— Não é por isso, é porque você tá me apertando... m-muito forte!
Foi aí que ela notou que, se ele estava falando normalmente, era porque já melhorara, o que a fez ficar mais feliz do que ela mesma pensou que ficaria. Yue esperou ele se sentar e voltou a abraçá-lo.
Quando os dois se puseram de pé, Iori começou a se gabar.
— Vocês viram o que eu fiz...? Eu fui demais! O meu medo não conseguiu me vencer!
— Foi mesmo incrível, Iori! — Haru bagunçou os cabelos dele.
Yue deu um beijo em sua bochecha.
— Meu herói. — Falou, o fazendo corar.
Mas não, não estava terminado. Ao longo da conversa dos três, o inimigo se levantava e sua mente estava mais poluída do que antes, muito mais. Mas a tempo, um dos reféns livrou os lábios da mordaça e gritou:
— Cuidado!
Yue levou no pescoço a facada que era do coração de Iori e felizmente foi capaz de salvá-lo, depois saiu de cena carregando-o e deixou o ruivo lidar com o serial killer. Haru queria que ele provasse um pouco do próprio veneno então o esperou usar a mesma técnica e a refletiu com um espelho de luz, forçando-o a ler o que escreveu e cair na própria armadilha.
O assassino foi ao chão, mas para impedir a morte dele, Haru desativou a técnica nocauteando-o.
— Haru, me ajuda aqui, rápido! — Iori estava desesperado.
— Tá tudo bem. — O Quarto Sol gentilmente removeu a faca do pescoço da amiga. — Ela pode se regenerar, logo, logo vai parecer que nada aconteceu!
— Você foi muito corajoso, Iori. — Yue não poupou o elogio, e enquanto usava o pano que Haru lhe deu para limpar o sangue que manchava todo o seu ombro e roupas, sorriu e disse: — Muito obrigada por nos ajudar.
Ele ficou tímido.
— Ela tá certa, cara! Sem você aqui, nós nunca teríamos conseguido! Eu estaria mortinho, agora... — Yue revirou os olhos ao ouvi-lo falar daquele jeito dos horrores que havia acabado de passar. Haru era tão bobo que não tinha nem noção do que vivera, para ele, morrer nem mesmo foi uma opção.
Iori extraiu uma importante lição de tudo isso: não era a essência que fazia o bom retalhador, era o bom retalhador quem fazia a essência, porque assim como a capacidade física não definia o ser humano, o que um guerreiro tinha de mais importante era a sua alma.
Olhando-os de cima de uma caixa d'água bem distante de onde os três se encontravam, Kin tentava elaborar uma maneira criativa de castigá-los.
— Arashi, você, que é o espertinho da nossa equipe, me responde: o que eu faço com esses três? — Os braços cruzados e o típico sorriso de canto de rosto indicavam que ela se sentia contrariada. Odiava se sentir contrariada.
Ele balançou os pés na beirada do prédio em que estava sentado, sorriu e soltou uma piada que sabia que a irritaria:
— Ah, você pode obrigá-los a comer a sua macarronada...
Atiraria um sapato nele, mas estava orgulhosa demais daqueles dois para brigar agora, então só mostrou o dedo.
Pensando em Yume, olhou para Haru e falou consigo mesma: ele será o maior retalhador de todos, mamãe. E eu tenho certeza de que a senhora sabia disso antes de ir.
Fim.
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