Em um reino não muito distante, denominado Élitus, estabelecido desde o seu fundamento sob crises, conflitos e motins e situado numa época em que a natureza ainda não falecia de forma tão bruta na mão dos que nela habitam e que dela necessitam de forma vital desde os primórdios, vivia um velho senhor, que tinha por menos original característica uma barba mediana grisalha e que vivia escondido, nas redondezas do reino, dos escombros de uma nação que já havia chegado quase à falência. Seu nome era Nacodapodameni, mas todo o povo, até mesmo os mais jovens que não chegaram a vê-lo, o referiam simplesmente como Benjamin, O Filho. E assim o chamavam, acrescentando O Filho, porque seu pai tinha esse nome, uma vez que garantia mais respeito que apelida-lo com quem sabe alguma ofensa pessoal ou chama-lo por um diminutivo de seu próprio nome.

Entre toda a população o assolo de murmúrios de uma suposta vindoura batalha já conhecida por esse povo era o principal assunto nas vilas e nas praças, e nas vendas, e em todos os lugares onde haviam duas ou mais pessoas, e eles sabiam que, se dessa vez uma guerra fosse travada, não teriam sequer uma única chance. Eles compreendiam que era bastante provável que se começasse, e tinham ainda maior certeza de que se, de fato isso acontecesse, não terminaria antes que no mínimo metade de todo o povo fosse exilado de seu próprio lugar, ou ainda pior, fosse brutalmente morto.

Benjamin, O Filho quase não aparecia em Arquerón, uma província de Élitus onde o Castelo de Dângel se estabelecia desde a última guerra contra exércitos de outros domínios que queriam tomar as terras do reino (uma longa história seguida de tragédias que deu início ao dessossego de todo o povo). Em um resumo não exatamente esclarecedor, a guerra terminou onde o castelo atualmente se encontra, quando o tataravô de Benjamin, O Filho declarou a pausa da batalha, e disse que seria assim até que o tempo em que seu descendente herdeiro de sua sabedoria chegasse. Ali, naquele mesmo lugar onde o homem deu o grito, sobre um monte, começou-se a construção do castelo, e foi concluída na mesma geração, após algumas poucas décadas, tendo como rei e rainha aqueles que já eram antes da batalha começar.

Após a batalha ter sido terminada ao comando de Thomas D’Angelo, o tataravô de Benjamin, O Filho, a população de Élitus começou novamente a se dividir pelo reino e a retomarem a quase normalidade de suas vidas (após ter cavalgado em fuga precipitada a lugares muito distantes de seus originais aposentos antes da batalha ter sido iniciada), fazendo moradia nos lugares que desejassem – esse era o presente por terem enfrentado uma batalha tão árdua. Os vários exércitos que enfrentavam o reino respeitaram a palavra do antepassado de Benjamin, O Filho, entretanto porque ele fazia parte de um dos reinos inimigos aliados, e era considerado o homem mais sábio de todos os sábios que conheciam. Os reinos, representados em números parecidos com os números dos membros do exército de Élitus, e com armas não tão eficazes, já haviam perdido boa parte de seus componentes, e também teriam tido isso como um motivo para respeitarem a palavra de Thomas D’Ângelo, que apesar de tudo ainda voltou a Élitus para permanecer ali antes mesmo de chegar completamente a sua terra natal em sua volta para lá. O reino de Élitus concordou no fim da batalha, e não teria motivo para não fazê-lo, uma vez que já vencedores.

Mais membros dos exércitos morreram ao pegarem o caminho de volta aos seus lugares ao passarem por um vale selvagem, o temido e conhecido Vale Sangrento, sendo devorados por feras vorazes extremamente evitadas. Algumas centenas de sentinelas, em número maior que a quantidade de pessoas das famílias, os acompanharam para que não houvesse perigo de sabotagem, e também não se escaparam das feras todos eles. Uma nova guerra se travou no Vale Sangrento, no entanto, desta vez, os inimigos se aliaram para que não fossem mortos. Mas antes disso, as famílias prometeram ao rei da época um dia voltar, mesmo que se passassem “... séculos e séculos, iremos voltar, e iremos ensinar aos nossos filhos a tragédia que o reino de Élitus causou aos nossos reinos, não querendo nos entregar as terras em um simples movimento de paz...”. Thomas D'Angelo não passou pelo vale, caminhando sozinho por outro trajeto. Thomas, segundo a lenda, teria encontrado uma mulher que aos seus olhos era bastante bela, e então teria a tomado como esposa, e por esse motivo voltou a Élitus, para que sua descendência se desenvolvesse em um reino estável, como o considerava.

Todo o povoado e até mesmo a realeza, já após mais de um século da primeira guerra, acreditavam com absoluta convicção que Benjamin, O Filho, era esse tal herdeiro de sabedoria, e por isso temia tanto, pois se estivessem certos a guerra não demoraria muito para começar. O velho da barba grisalha não aparecia em Élitus desde os seus quarenta anos de idade, e havia acabado de completar setenta e nove. Ele não queria voltar ali até que exatamente mais quatro décadas se passassem desde sua última visita. A população desejava que ele já houvesse sido morto, mas era difícil acreditar nisso, já que parecia estarem tão próximos de viverem o mesmo pesadelo de seus antepassados tão próximos, e tomavam seus conceitos nisso através dos rumores que chegavam aos seus ouvidos vindos do Conselho Real e até mesmo o mal pressentimento que deixava claro que algo não estava certo.

Benjamin, O Filho, voltaria a alguns meses, se tudo ocorresse como ele imaginava. O velho, com honestidade, preferia que não fosse tão necessário quanto sua intuição o dizia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.