O Legado do Tabuleiro

16 Capítulo 16: O Peso do Passado e o Brilho do Futuro



​Aproveitando o momento em que os adultos se concentraram na sala de estar discutindo os detalhes burocráticos da fusão com Chloe, Maya se retirou discretamente. Ela subiu as escadas de mármore em direção ao seu antigo quarto de solteira para recolher algumas caixas com livros acadêmicos e recordações que pretendia levar definitivamente para o seu novo apartamento.

​O quarto estava exatamente como ela o deixara: a mesma escrivaninha de madeira, a mesma vista para as luzes de Tribeca. Maya respirou fundo, guardando os últimos volumes em uma caixa de lona, quando o som de passos firmes ecoou atrás dela. Ela não precisou se virar para saber quem era. O magnetismo era o mesmo.

​Thomas entrou no quarto e fechou a porta devagar, sem trancá-la dessa vez, mas postando-se diante dela com os braços cruzados. A maturidade do terno italiano não conseguia esconder a intensidade crua que sempre emanava dele quando estavam a sós.

​— Fugindo de novo, Styles? — ele perguntou, a voz grossa e ríspida, preenchendo o espaço vazio do cômodo. — Pensei que a grande diretora de publicidade de Nova York não precisasse mais se esconder nos cantos.

​Maya engoliu em seco, forçando-se a virar e encarar aqueles olhos escuros.

​— Eu não estou fugindo, Thomas. Só vim pegar o que é meu — ela respondeu, mantendo a voz o mais firme que pôde. — E você deveria estar lá embaixo, com a sua noiva. A Chloe parece ser uma mulher incrível. Você tirou a sorte grande.

​Thomas soltou uma risada amarga, dando dois passos lentos na direção dela.

​— A Chloe é perfeita para o papel que o mundo espera que eu jogue, Maya. Ela entende de negócios, entende de aparências. Mas ela não é você. — Ele parou a poucos centímetros dela, a proximidade fazendo o ar sumir do quarto. — Cinco anos... Cinco anos no Canadá tentando arrancar você da minha cabeça. Eu treinei até os meus músculos exaurirem, fechei contratos multimilionários, mudei a minha vida por completo. E bastou você cruzar aquela porta com aquele cara para tudo o que eu construí virar fumaça.

​— Não faz isso, Thomas... por favor — Maya sussurrou, sentindo as barreiras que construíra ao longo de meia década ameaçarem desabar. — Você seguiu em frente. Você vai casar. Eu também tenho a minha vida agora. O Lucas... o Lucas me faz bem. Ele me traz a paz que eu nunca tive aqui.

​— Paz? — Thomas semicerrou os olhos, a voz descendo para um tom perigosamente íntimo e rouco. Ele estendeu a mão, os dedos quentes roçando de leve no ombro de Maya, subindo pela linha do pescoço, exatamente como costumava fazer. — Você não quer paz, Maya. Você nunca quis. Você quer isso aqui. Essa eletricidade que quase destrói a gente toda vez que chegamos perto. Você pode mentir para o seu namoradinho, pode mentir para os nossos pais, mas não consegue mentir olhando nos meus olhos. Você ainda me ama.

​Maya estancou, os lábios entreabertos, a respiração acelerada. O coração dela batia tão forte que parecia prestes a rasgar o peito. Thomas inclinou o rosto lentamente, os olhos fixos nos lábios dela, a promessa daquele beijo proibido flutuando no ar, a milímetros de acontecer. Ela fechou os olhos, entregando-se ao magnetismo irracional que o tempo não fora capaz de apagar.

​— Atrapalho? — a voz firme e descontraída de Lucas Carter ecoou do batente da porta, que estava apenas encostada.

​Lucas entrou no quarto com as mãos nos bolsos do terno, o olhar calmo, mas absolutamente protetor, quebrando instantaneamente o transe entre os dois. Thomas recuou um passo, o maxilar trincado de puro ódio pelo flagrante, os punhos cerrados ao lado do corpo.

​Maya abriu os olhos, assustada, sentindo um misto de culpa e um profundo alívio ao ver o amigo. Lucas caminhou até ela sem hesitar, passou o braço firmemente pela cintura de Maya e, com uma naturalidade impecável, inclinou-se e deixou um selinho carinhoso nos lábios dela.

​— Eu notei que você estava demorando, meu amor — Lucas disse, a voz mansa, olhando para Maya com total cumplicidade antes de lançar um olhar frio e direto para Thomas. — E como a noite foi longa e nós temos aquela reunião cedo amanhã, achei melhor vir te ajudar com as caixas para podermos ir embora.

​Thomas assistiu à cena com os olhos injetados, a respiração pesada, contendo-se ao limite para não avançar contra o homem que agora exibia aquela intimidade com a sua tia.

​— Obrigada, Lucas... Eu já peguei tudo — Maya respondeu, a voz trêmula, agarrando-se à tábua de salvação que Lucas estendera. Ela pegou a caixa de lona com as mãos ainda instáveis. — Vamos.

​Ela olhou para Thomas uma última vez, um olhar carregado de um adeus silencioso e doloroso.

​— Passar bem, Thomas. Boa sorte com os preparativos do casamento — Lucas despediu-se com uma polidez cortante, girando o corpo junto com Maya e conduzindo-a para fora do quarto.

​Eles desceram as escadas juntos. No hall, Maya manteve a fachada social perfeita. Despediu-se de Garret, Sofia, James, Hope e, com um aceno formal, de Chloe, que agradeceu a presença com a elegância habitual. Em poucos minutos, Maya e Lucas cruzavam os portões de Tribeca dentro do carro, deixando a densidade da mansão Lâfrer para trás.

​A Escolha do Coração

​O trajeto até o apartamento de Maya foi imerso em um silêncio reflexivo. Maya olhava pela janela do passageiro, as lágrimas que segurara a noite inteira finalmente rolando de forma silenciosa por seu rosto. Lucas dirigia com uma das mãos no volante, enquanto a outra buscava a mão de Maya, apertando-a com suavidade.

​— Você precisa se desprender dele, Maya — Lucas começou, a voz calma, mas carregada de uma seriedade profunda, quebrando o silêncio do carro. — O Thomas é um fantasma que continua assombrando a sua vida e impedindo você de respirar. Você passou os últimos cinco anos construindo uma carreira brilhante, uma vida linda, mas continua com o coração preso àquela corda bamba de Tribeca. Ele vai casar, Maya. Ele escolheu um caminho. Você precisa escolher o seu.

​Maya soltou um suspiro trêmulo, limpando o rosto.

​— Eu sei, Lucas... Eu sei. É que ver ele ali, com a Chloe, e sentir que tudo volta como se tivesse acontecido ontem... é assustador. Eu não quero mais viver com medo do que eu sinto.

​Lucas estacionou o carro com suavidade em frente ao prédio residencial de Maya. Ele desligou o motor, soltou o cinto de segurança e virou-se completamente para ela. A iluminação dos postes de Nova York recortava o rosto dele, revelando uma intensidade que Maya raramente vira nos anos de amizade.

​— Então me deixa te ajudar a esquecer — Lucas pediu, a voz descendo para um tom confessional, sincero e despido de qualquer máscara. Ele segurou o rosto de Maya com as duas mãos, forçando-a a olhar diretamente para ele. — Eu não disse aquilo lá na mansão apenas para te salvar, Maya. Eu venho guardando isso há tempos. Há anos, desde a East Side High, que eu assisto você lutar contra essa sombra. Eu te amo, Maya. Amo de verdade. E eu não quero mais ser apenas o amigo que limpa as suas lágrimas depois dos jantares da sua família. Eu quero ser o homem que te dá um futuro de verdade. Eu quero fazer você esquecer o Thomas, e eu juro que vou fazer o impossível para te dar a paz e o amor que você merece, se você me der uma chance real.

​Maya olhou nos olhos verdes de Lucas e sentiu uma onda de calor diferente invadir seu peito. Não era a eletricidade destrutiva e proibida que sentia com Thomas; era algo sólido, seguro, acolhedor e profundamente real. Era a promessa de uma vida sem segredos, sem o peso da reprovação da árvore genealógica.

​Ela suspirou, fechou os olhos e inclinou-se para frente, unindo seus lábios aos dele.

​O beijo de Lucas foi perfeito. Foi cheio de carinho, paciência, mas também carregado de um amor maduro e necessitado que ele guardara por tanto tempo. Maya entregou-se ao toque dele, sentindo que, pela primeira vez em cinco anos, o chão sob seus pés estava firme. Quando o beijo terminou, ela abriu os olhos e sorriu de verdade, um sorriso leve que há muito não habitava seu rosto.

​— Sim, Lucas... — ela sussurrou, tocando a mão dele em seu rosto. — Eu aceito. De verdade. Eu quero ser sua namorada. Quero construir algo real com você.

​Lucas sorriu, visivelmente aliviado e feliz, beijando a testa dela antes de ajudá-la a descer com as caixas para o lobby do prédio.

​O Alerta no Quarto Antigo

​De volta à mansão de Tribeca, o clima no antigo quarto de Thomas era de uma calmaria enganosa. Chloe estava sentada na beira da cama de casal, desfazendo o penteado elegante diante do espelho da penteadeira, enquanto Thomas caminhava até a janela, olhando para a rua escura de Nova York.

​Seus pensamentos estavam completamente perdidos, orbitando ao redor da imagem de Maya saindo daquele mesmo corredor de braços dados com Lucas Carter. O gosto da quase traição ainda queimava em sua boca, misturado com o ódio de ver outro homem reivindicando o espaço que ele considerava seu por direito de alma.

​Chloe observou o reflexo do noivo pelo espelho. Ela notou a rigidez dos ombros dele, a forma como ele segurava o copo vazio e o silêncio distante que ele adotara desde o término do jantar. Chloe era uma Vance; ela fora criada para ler as entrelinhas do poder e das relações sociais. Ela sabia que a tensão entre Thomas e a tia não era apenas um desconforto corporativo de infância. Havia algo ali, uma frequência que ameaçava o futuro que ela planejara com tanta precisão.

​Ela levantou-se lentamente, caminhou até Thomas e abraçou-o por trás, deitando a cabeça em suas costas largas. Ela respirou fundo, sentindo os músculos dele tensos sob o tecido do terno.

​— Ela mudou bastante, não é? A Maya — Chloe comentou, a voz mansa, mas testando o terreno com precisão cirúrgica. — O namorado dela, o Lucas, parece ser um homem muito centrado. Eles formam um casal bonito. Combinam com o ritmo de Nova York.

​Thomas não se moveu. Seus olhos continuaram fixos no vidro da janela.

​— É. Eles parecem bem — ele respondeu, a voz gélida e monótona, desprovida de qualquer pista.

​Chloe desfez o abraço, deu a volta e parou na frente dele, forçando-o a olhar para ela. Seu semblante era sério, a doçura da alta sociedade dando lugar à rigidez de uma mulher disposta a defender seu território.

​— Eu espero que sim, Thomas. Porque nós temos um casamento na primavera, uma vida inteira planejada em Toronto e uma fusão internacional para liderar — Chloe declarou, com a voz firme, os olhos fixos nos dele, deixando claro que não toleraria desvios. — Nova York é apenas uma etapa dos negócios. Eu amo você, mas não vou aceitar fantasmas no nosso tabuleiro. Quero a sua mente aqui, comigo.

​Thomas sustentou o olhar da noiva por alguns segundos, antes de assentir com a cabeça com uma formalidade fria. Chloe deitou-se na cama, cobrindo-se com o lençol, sentindo um calafrio incômodo no peito. Ela sabia, com a intuição de uma mulher forte, que se não fosse mais rígida e vigilante a partir daquele momento, acabaria perdendo o noivo para os segredos que aquela mansão insistia em guardar.