Capítulo 3

Sob toda aquela areia havia um templo perdido. E, como prova de sua existência, deixava à mostra um conjunto de construções, estátuas e colunas semi-soterradas visíveis a seus possíveis exploradores. A dupla de arqueólogos ocupava-se em examinar o local. Em alguns momentos, Lara parava o olhar nos blocos grafados com hieróglifos, ou usava as próprias mãos para desenterrar algum objeto no qual tropeçara, mas nada que pudesse ajudá-los de fato. Procurou pelo companheiro, logo o encontrando agachado ali próximo, certamente examinando algo, assim como ela.

- E então, senhor Experiência? Alguma idéia de como tirar toda essa areia do nosso caminho?

Ela suspirou, pousando uma das mãos na cintura e apoiando-se em uma das colunas.

Jones, por sua vez, também suspirou e respondeu:

- Estou procurando... Deve haver algum tipo de passagem secreta ou abertura em meio a estas ruínas...

Dizendo isso, prosseguiu com o exame da estrutura de pedra que lhe chamara atenção, a qual parecia compor parte do teto de uma edificação maior, certamente enterrada em toda aquela areia. Com os dedos acostumados ao ofício arqueológico, removia cuidadosamente as camadas de grãos cobrindo seqüências de símbolos e protuberâncias em alto relevo. Aquela parte em particular da área do Templo parecia realmente ocultar algo...

Aquele cenário em si lhe lembrava muito a cidade perdida de Tanis, onde repousara por séculos a Arca da Aliança. Só esperava não encontrar uma câmara repleta de serpentes como quando estivera em tal lugar.

- Lara... O que acha desta placa de pedra? – ele indagou por fim à companheira.

A mulher se dirigiu a ele, mais especificamente ao que Indiana encontrara.

- Bem, vejamos... – agachando-se ao lado do arqueólogo Lara fez o mesmo procedimento com os dedos, tirando o excesso de areia do bloco. Este era um tanto gasto pelo tempo, e provavelmente seu peso estava além do que os dois podiam imaginar...

- Ele me parece como qualquer outro bloco gravado que vimos até agora, Indiana... se bem que... – ela parou de falar, encarando a pedra por uns segundos. – ...este é, de fato, mais curioso...

O arqueólogo sorriu, perguntando-se a respeito de a britânica suspeitar o mesmo que ele em relação a aquele achado. Com isso, perguntou a ela:

- Vamos tentar empurrá-lo?

E, antes mesmo de ouvir a resposta de Lara, já esforçava os músculos de seus braços na tarefa de movimentar a estrutura de pedra, a qual, no entanto, pareceu não se mover nem um mísero centímetro.

Croft ajudou, mas percebendo o fracasso na tentativa, tentou aplicar mais força. Sentou-se ao lado de Indiana, apoiando ambos os pés na lateral do bloco e usando toda de sua força para empurrá-lo.

- Uuurgh!

Mesmo com total esforço, a estrutura parecia fixa na areia e não se movia com a força aplicada pelos dos dois companheiros. A arqueóloga, suando pelo esforço e calor, virou-se para Jones, atordoada, e disse:

- Mas o que é isso?! Não conseguimos mover um centímetro sequer...

- É, está mesmo bem colado ao chão... – murmurou, por sua vez, o norte-americano, abanando-se brevemente com o chapéu.

E, sentando-se sobre a placa de pedra, começou a pensar numa maneira de conseguirem removê-la e abrir caminho, isto é, se ela pudesse realmente ser movida. De qualquer forma, era preciso averiguar... e foi quando uma repentina idéia despontou na mente do intrépido arqueólogo...

- E se utilizarmos algo como alavanca? – ele indagou à colega.

- Hum, ótimo! – respondeu Lara, olhando ao redor. – Mas o que usaremos?

Indy, após poucos instantes de busca, tendo seus olhos habituados a cenários como aquele, encontrou algo como um comprido bastão de madeira jogado em meio à areia, perto de uma coluna parcialmente enterrada. Intrigado, caminhou até ela e, examinando-a depois de apanhá-la, disse a Lara:

- Isto deve ter sido usado pelos irmãos Clarent... Talvez moveram esse obstáculo exatamente do modo como pretendemos!

Lara olhou para o pedaço de madeira nas mãos do arqueólogo. Uma perfeita alavanca!

- Ótimo! – ela anuiu. – Vamos tentar.

Assim que Indiana encaixou o bastão de madeira entre a estrutura de pedra e a areia, Lara o ajudou pressionando a peça na tentativa de mover o bloco. Ambos os aventureiros usando de suas forças, suas faces se distorcendo em caretas pelo esforço... E o bloco continuando imóvel...

- Não está dando certo, Indiana! Mais força!

Jones pressionou ainda mais o bastão, determinado a mover aquele pesado empecilho. Forçou mais as mãos suadas e doloridas, torceu o rosto e...

CRACK!

A improvisada alavanca se partiu em duas diante dos incrédulos olhos dos dois exploradores, cada um a segurar uma parte da ferramenta quebrada de forma atônita.

- Ops... – murmurou Indy, desconcertado. – Vamos precisar de outra alavanca!

- Não adianta! – respondeu Lara, livrando-se do pedaço partido que sobrara do bastão. – Ou isto está realmente fixo ao chão, ou é pesado demais para que consigamos tirá-lo do caminho!

Ela respirou fundo, passando as costas das mãos na testa úmida pelo suor e encarou o bloco, nervosa. Talvez fosse esperado de aventureiros como ela um faro especial para certos achados. Ou talvez a culpada fosse a simples intuição, que sempre falava mais alto. Tanto faz; aquela estrutura de pedra chamara a atenção da dupla, e Lara não estava disposta a abandoná-la.

- Deve haver alguma coisa aqui... algo que seja de alguma ajuda... – disse ela, ajoelhando-se de frente para o bloco. Passou os dedos pelos detalhes em alto relevo e deteve-se em um, no centro da estrutura, que ao contrário dos outros formava uma lacuna na pedra. Soprou a areia de cima dele, ajudando com a ponta dos dedos, e virou-se para Indiana. Um misto entre curiosidade e um lampejo de esperança tomando conta da expressão da arqueóloga, ela exclamou:

- Ei, veja! O que acha disto?!

Indiana aproximou-se e se abaixou para poder examinar melhor, também tateando a brecha encontrada pela companheira. Passou alguns instantes examinando-a com as pontas dos dedos e então disse a ela, abrindo um sorriso:

- Um interruptor ou algo do tipo, talvez.... Não consigo manejá-lo com as mãos, mas...

Ele inseriu então a metade do bastão de madeira que permanecera consigo na pequena abertura, notando o leve som de um encaixe. Parecia então suficiente pressioná-la.

- Vamos tentar? – ele indagou a Lara.

Ela mal respondeu, apenas se concentrou no bastão preso à fenda e torceu para que aquilo funcionasse:

- E então...?!

Jones continuou pressionando a improvisada alavanca por mais alguns instantes, tomando cuidado para não parti-la em ainda mais pedaços caso exagerasse na força exercida... Até que algo como um som mecânico foi ouvido. E, para alívio de ambos, a pesada placa de pedra passou a deslizar por si só para dentro da areia, revelando a abertura que realmente existia embaixo de si. Tal ambiente estava tomado pela escuridão, tornando impossível calcular sua profundidade ou o que existia em seu interior. Havia, no entanto, alguns degraus numa das bordas do buraco, levando a crer que uma escada descia até o fundo. Do local provinha também um aroma de poeira, de antiguidade, de algo que permanecera intacto e estático por incontáveis séculos. Um poço secreto que, após tanto tempo fechado, recebia a visita de dois aventureiros inusitados.

- Vamos descer? – indagou Indy, apontando para baixo. – Precisaremos de algo para iluminar o caminho, porém, se não quisermos tropeçar em nossos próprios pés...

- Não seja por isso, Jones! – Lara respondeu, tirando de sua inseparável mochila uma pequena lanterna que sempre carregava para tais eventualidades. – É pequena, mas suficiente para iluminar nosso caminho – explicou-se.

Com uma expressão já mais satisfeita e um pequeno sorriso de canto, ela aproximou-se da borda da entrada então relevada, pronta para explorá-la.

- Eu sabia que essa belezinha guardava algo... – Croft afirmou. – Vamos!

Segurando a lanterna na altura dos olhos, a aventureira tomou a direção do poço, tendo cuidado para não escorregar os pés na escada coberta por areia e ocasionalmente direcionando o foco de luz para Indy, que a seguia.

Jones, por sua vez, ficava cada vez mais impressionado com a perspicácia da colega, que parecia tão habituada quanto, senão mais que ele, a explorar aquele tipo de lugar.

- Vamos... – ele murmurou em resposta, seguindo logo atrás de Croft. — Como está melhor equipada, você mostra o caminho...

E, descendo pelos milenares degraus, pôs-se a observar com atenção o aspecto do ambiente adentrado conforme o mesmo era iluminado pela lanterna, surpreso ao ver hieróglifos e representações nas paredes que não se lembrava de ter visto antes em nenhum outro local, fosse sítio arqueológico ou livro.

- Consegue distinguir alguns desses símbolos, Indiana? – perguntou Lara, referindo-se às escrituras, enquanto iluminava o caminho e as paredes ao redor, fascinada com o que via.

Coçando o queixo, Jones parou diante de uma das superfícies relativamente conservadas ao longo dos séculos durante a descida e, depois de alguns segundos observando os hieróglifos, murmurou:

- São quase todos referentes ao deus Hórus, alguns a Osíris... E através de algumas seqüências em particular, posso afirmar que este local é destinado a velar algum tipo de segredo... – concluiu a explicação com um quê de temor e inegável curiosidade.

- Hórus... e seu templo... – Lara murmurou, como se pensasse a respeito do que o arqueólogo dissera e do que procuravam. Continuava iluminando o local, passando o olhar pelos relevos e forçando a vista na tentativa de também decifrá-los. – Disso não tenho dúvidas, Indiana. Sinto que este lugar guarda algo que me interessa... – interrompeu-se, virando-se para o companheiro e corrigindo a frase. – Digo... este lugar guarda algo que nos interessa.

Um escaravelho vindo de alguma fresta na parede atravessou o corredor, passando pelos pés de Lara. Esta fez uma careta de asco ao vê-lo, não gostava da criatura, já havia sofrido com escaravelhos durante outras expedições ao Egito. Por outro lado, o inseto a fizera pensar que, se tudo estivesse a favor da dupla, eles seriam os únicos visitantes naquele momento. Os únicos dentro de uma construção escondida pela areia...

- Não acha curioso o fato de ninguém ter conseguido chegar antes até este templo? – inquiriu ela. – Após tanto tempo...

Indy, tomando cuidado onde pisava e atento ao caminho, ouviu a indagação da colega enquanto temia a súbita aparição de uma serpente pelo trajeto, talvez no rastro do inseto avistado por Croft. Certificando-se, porém, que não havia a presença dos terríveis répteis no local, ao menos aparentemente, respondeu:

- O local logrou permanecer oculto sob a areia durante vários séculos... Seja o que estiver escondido aqui embaixo, os construtores conseguiram esconder muito bem!

Continuando a andar, o norte-americano de repente notou que o declive havia terminado. Haviam chegado ao final da extensa escada, o caminho aparentemente seguindo adiante através do que, semi-oculto pela escuridão, parecia um corredor.

Lara respirou fundo ao notar a chegada ao final da escadaria. Direcionou sua lanterna para o túnel à frente da dupla, mas pouco conseguiu iluminar.

- Mas não somos os únicos a procurar, neste momento, por aquilo que este templo guarda. – ela afirmou, enquanto caminhava cautelosa pelo corredor. – Aquele bando lá fora... tenho certeza de que não estavam sozinhos!

- Seus amigos? – replicou Indy, sempre irônico. – Aqueles sujeitos estranhos ainda me causam calafrios. As motos, as armas... Pergunto-me se na verdade a senhorita não está colaborando com eles secretamente e me levando para uma armadilha...

Brevemente pesaroso por um momento, o arqueólogo lembrou-se da bela doutora Elsa Schneider, dos encantos de Veneza... E como ela se mostrara apenas uma traiçoeira espiã trabalhando para os nazistas. Aproveitando a luminosidade gerada por Lara, Jones aproveitou para tatear com maior segurança uma das paredes do corredor à frente, imaginando o que poderiam encontrar ali embaixo.

- Ora... – ela virou-se para o companheiro, apontando a lanterna para o rosto do mesmo, sem se importar se isso o incomodaria. – Acha mesmo que eu estaria de parceria com aqueles idiotas que arruinaram minha moto?!

Indy na verdade incomodou-se sim com a luz, respondendo à colega:

- Bem, quando se encontra uma jovem da nobreza britânica que também explora tumbas e possui uma moto e armas igualmente estranhas no meio do deserto do Egito... É meio que compreensível suspeitar...

- Sim, eu costumo mesmo causar certa admiração nas pessoas... – ela replicou um tanto irônica. Entretanto, era ciente de que ele fazia até certo em não confiar nela totalmente. Completou, dando de ombros: – Eu também poderia suspeitar de você. Mas já que estamos aqui... prefiro não perder muito meu tempo.

Em seguida Lara suspirou, um tanto sentida pela desconfiança de Jones. Voltou então a iluminar o caminho.

- Eu também estava sob a mira deles, não se esqueça – Croft continuou. – Aliás... suponho que eu era o principal alvo...

Ela parou, iluminando a frente e mostrando o que parecia uma encruzilhada. Teriam duas opções de caminho para o avanço do trajeto: continuarem, ou virarem à esquerda. Lara esperou pelo companheiro.

- E então?!

Jones olhou para a bifurcação durante poucos segundos, coçando a barba rala, e então respondeu:

- Vamos tomar o caminho da esquerda. Depois se necessário voltamos. Que acha?

Croft virou-se para a possibilidade de caminhos à sua frente.

- Acho que podemos fazer diferente – respondeu Lara discordando da idéia. – Você vai pela esquerda e eu sigo adiante. Aquele que encontrar algo suspeito volta e espera pelo outro aqui neste mesmo ponto.

Antes que o companheiro pudesse responder, Lara jogou a lanterna em suas mãos. Tinha em sua bolsa alguns de seus flares e poderia usá-los para iluminar seu caminho.

- Pode ser?!

Nisso, Indy lançou os olhos para o interior da bolsa da aventureira, notando os pequenos artefatos em seu interior. Intrigado devido ao fato de nunca ter visto coisa similar antes, indagou, tão confuso quanto ao ver as arrojadas armas e veículos de Lara e os perseguidores:

- O que são esses pinos?

- Pinos? – Lara o encarou incrédula. – Você nunca usou flares?! Por Deus! Eu não saio em nenhuma expedição sem eles! Como é que você se aventura sem pensar na possibilidade da pilha da sua lanterna acabar?! Sem contar que são muito mais práticos... Oh! É cada coisa que tenho que ouvir...

E, com um gesto rápido, ela acendeu o flare, provocando um repentino clarão esverdeado que diminuiu aos poucos, mantendo uma certa luminosidade enquanto o objeto ainda faiscava.

Jones recuou um pouco quando a colega ativou o artefato, como se de súbito se visse de frente para algum tipo de feitiçaria. Mas, mais conformado e começando a se acostumar com aquelas esquisitices, retomou o assunto dos caminhos:

- OK, eu irei aqui pela esquerda! – falou, apontando para o trajeto. – Se algum de nós encontrar algo, retorna aqui, certo?

- Certo!

Assim, a arqueóloga tomou seu caminho em frente, tendo-o amplamente iluminado pelo flare em sua mão. Realmente não conseguia se conformar com o fato do homem parecer não estar habituado àquelas coisas. Ainda mais por se tratar de alguém do mesmo ramo que ela...

- Que cara estranho! – murmurou consigo mesma, observando as paredes pelo trajeto.

Indiana, por sua vez, tomou o outro caminho, iluminando seus passos com a lanterna. A claridade amarelada dava aspecto lúgubre ao redor, uma sombra distorcida do arqueólogo, muito maior que seu real tamanho, sendo projetada sobre as paredes repletas de orifícios e hieróglifos estranhos. Andava com cautela, temendo alguma armadilha, um passo em falso, até que...

Jones franziu o cenho, pensando ter visto algo se mexer... Iluminando o local no qual percebera o fenômeno, aproximou mais os olhos para analisá-lo melhor... Deparando-se apenas com uma aranha tecendo pacientemente sua teia no vão de uma parede. A julgar pelo tempo que aquele lugar permanecera fechado, o artrópode devia pertencer à milésima geração depois daquela que adotara aquele templo como lar...

Bem, ao menos não era uma cobra!

Em seu trajeto, o olhar atento de Lara percorria o caminho à procura de qualquer sinal suspeito ou qualquer indício de descoberta. Ainda pensava sobre o curioso arqueólogo e o estranho modo com o qual tratava certas coisas, como se fosse a primeira vez que as visse. Seria um novato no campo?! Não, não. Impossível! Apesar da pouca conversa entre os dois, Lara era capaz de perceber quem já era acostumado a trabalhos como os dela. E sabia que era o caso de Jones. Mas era realmente intrigante como ele parecia tão desatualizado perto dela... Ou será que apenas se fazia parecer assim? Bem, era algo a se pensar, mesmo sendo falhas as tentativas de Lara encontrar respostas para tanta singularidade. Concluiu que seria bom agir com cautela, afinal, pouco sabia sobre o aventureiro. Talvez por esses pensamentos – ou por sua característica independência – a arqueóloga sentiu-se um pouco aliviada por estar sozinha durante alguns minutos.

Não era acostumada a companhias, apesar de ter que admitir que aquela, afora as dúvidas que causava, estava sendo bem útil e até mesmo agradável, até então...

Com mais alguns passos Lara chegou ao que parecia ser o final daquele corredor. Suspirou, pensando no caminho que fizera à toa. Mas... logo recobrou seu interesse ao avistar no canto inferior da parede uma notável imperfeição. Agachou-se, iluminando melhor o bloco e observando, intrigada, a cavidade que ali encontrara...

Enquanto isso, Indy também chegava ao final de seu trajeto, que terminava numa parede que aparentava, sob a luz da lanterna, estar repleta de saliências e inscrições. O aventureiro passou a tentar lê-las e deparou-se de início com um grande Olho de Hórus, remetendo provavelmente ao deus ao qual aquele templo perdido era dedicado. Passou a tatear a superfície conforme lia os hieróglifos tratando de temas como o passar do tempo, o poder nas mãos dos homens... E sua mão acabou resvalando em algo que, para sua surpresa, moveu-se.

- Droga! – praguejou, sabendo que não deveria ter sido tão precipitado.

Voltando-se de imediato para trás, viu que, simultaneamente a um tremor que sacudiu a passagem, uma parede de pedra contendo pequenos orifícios se erguia do chão, selando o corredor e prendendo-o ali. Antes do obstáculo se impor por completo, porém, Jones ainda teve tempo de gritar:

- Lara!

O misterioso tremor fez com que a arqueóloga assustada recuasse a mão que estava prestes a explorar a cavidade na parede que descobrira. Não demorou para que ouvisse o grito de Jones e correu para o ponto de onde viera, sem saber ao certo se era um chamado de descoberta ou um pedido de socorro.

- Jones?!

A segunda opção ia tomando lugar na mente de Lara ao entrar pelo caminho da esquerda e não encontrar Indiana. Uma nuvem rala de areia dispersava-se no ar, relevando o bloqueio da passagem.

- JONES?! Onde você está?! – gritou, enquanto se aproximava.

Ouvindo a voz da companheira, Indiana sentiu-se um pouco mais aliviado e colocou a cabeça, ou apenas parte visível dela, diante de uma das aberturas irregulares presentes na parede que fechara o corredor. Visualizando Croft, a qual parecia ainda não tê-lo visto, ele chamou-a, quase sussurrando, como se temesse que sua própria voz ativasse mais algum mecanismo... como de fato ocorrera em certa escavação de um templo na Sumatra:

- Lara! Lara, aqui!

E também acenou para a mulher, mesmo ela sendo incapaz de visualizar o gesto devido à barreira rochosa.

A inglesa correu na direção da voz, compreendendo que a mesma vinha de trás da parede. Acendeu um segundo flare, iluminando todo o bloco até localizar a abertura que revelava uma parte do amigo.

- Jones! O que houve?! Que tremor foi aquele?! – ela já podia deduzir o acontecido, mas esperou pela explicação dele.

- Presume-se que acionei uma armadilha, não? – ele replicou com certo sarcasmo na voz. – Temos de encontrar uma maneira de baixar esta parede!

Nisso, Jones deixou momentaneamente a proximidade da abertura para iluminar com a lanterna novamente a parede na qual terminava o caminho, em busca de mais algum interruptor ou saliência.

- Darei uma olhada aqui dentro, enquanto isso verifique aí fora! – Jones pediu.

- Certo! – Croft assentiu.

Lara se afastou alguns passos e começou a observar atentamente a parede, em busca de algo que pudesse ajudar. Posicionava o flare próximo de qualquer saliência que avistasse, porém até então nada parecia de muita relevância.

- Achou algo? — perguntou Indy, aturdido, coçando a cabeça.

Ele temia que algo mais acontecesse para piorar a situação, quando a luz oscilante de sua lanterna iluminou um esqueleto humano no chão, vestindo trapos de roupas e com o maxilar aberto, como numa expressão de pavor... Teria sido alguém que simplesmente morrera de inanição preso ali no passado, ou algo mais o aniquilara?

- Não, não vejo nada... – Lara respondeu com certo desânimo na voz, enquanto ainda examinava o bloco. Endireitou-se, respirando fundo e tentando raciocinar. – O que você fez, afinal, para que essa barreira surgisse?!

Indy bufou de enfado e respondeu:

- Eu estava apenas examinando a parede, quando sem querer toquei algo que acionou a barreira...

Nisso, Jones ouviu um leve ruído proveniente de sua inesperada prisão, mais precisamente causado por um bloco de pedra junto ao chão que se movia lentamente, revelando uma abertura... E certamente surgiria algo incômodo, talvez letal, através dela.

- É melhor você procurar mais rápido! – ele recomendou.

- Eeei! Eu estou tentando, meu caro! Tenha calma ou o deixo preso aí! – ameaçou Lara, ressabiada com a impaciência do companheiro. – Então o seu toque em algo na parede acionou a barreira... – ela falava mais pra si mesma do que para Indiana, como se tentasse pensar em alguma solução.

E, como se esta solução acabasse de surgir, Lara exclamou enquanto corria para o lado oposto da barreira:

- Pensei em algo, Indiana! Torça para que dê certo! – e desejou consigo mesma que sua tentativa não piorasse a situação.

Seria bom que realmente desse certo, porque, sob a luz amarelada da lanterna, Indiana viu surgirem pela abertura recém-aberta numa das paredes três grandes e rápidos escorpiões, cada um quase do tamanho de uma de suas botas. Atento para que a escuridão não desse vantagem aos animais peçonhentos, Jones esmagou um deles com o pé direito quase às cegas, pisando em meio às sombras. Os outros dois repeliu momentaneamente com a luz da qual dispunha, mas não sabia se surgiriam mais deles através do buraco.

- Lara... – ele resmungou, nervoso.

A dita aventureira voltou para o caminho principal, o qual havia tomado antes de que Indy ficasse preso. Seguiu o estreito corredor até o final e, parando de frente à parede que já examinara antes, agachou-se tateando o bloco à procura da lacuna que ali estava.

- OK... vamos lá!

Croft colocou parte dos dedos na cavidade, pronta para tocá-la de vez... mas deteve-se. E se fosse mais uma armadilha e ela também ficasse presa? Seria, sem dúvida, o final da dupla! Indy dependia de Lara, assim como ela mesma... mas não tinha muito tempo para pensar e, respirando fundo, fechou os olhos e adentrou grande parte da mão na cavidade, sentindo seus dedos empurrarem o que havia dentro dela.

Um barulho estrondoso e um tremor mais forte que o primeiro fez com que a aventureira recuasse, perdendo o equilíbrio e tombando para trás. Formava-se uma espessa nuvem da areia que parecia abandonar as frestas das paredes para cobrir a visão de Lara. Quando o abalo passou e a mulher finalmente conseguiu levantar, viu pequenos pontos negros aproximando-se, os quais identificou depois como dois escorpiões. Pisoteou-os antes que pudessem reagir. E, à sua frente, não estava mais a parede que delimitava o final do caminho: acabava de se revelar a passagem aberta, dando continuidade ao corredor.

Em seu cárcere de pedra, Indiana se preparava para a investida de mais escorpiões...

Quando a passagem tornou a estremecer, e aos poucos um pouco mais de claridade acabou tomando o local. Atrás de si, Indy observou a parede que o prendera voltar lentamente para sua posição de origem, oculta em meio ao piso arenoso. O caminho se encontrava novamente livre e, para sua surpresa, Croft também não mais estava ali.

Para onde teria ido?

Ela, por sua vez, continuava parada, observando o corredor. Parecia não querer se mover, com medo de que alguma outra surpresa viesse à tona. Por pouco não se esqueceu do amigo, havia tomado coragem para continuar o caminho, mas voltou, correndo, ansiando que ele estivesse livre.

- Jones???

Indy ouviu o grito e retrocedeu pela passagem, o mais rápido que sua cautela permitia, até encontrar a companheira na bifurcação.

- Estou aqui! – ele exclamou. – Vejo que conseguiu!

- Pois é... – Lara exibiu um pequeno sorriso aliviado ao ver o parceiro. – Consegui algo mais também... venha comigo!

E, abandonando o flare prestes a se apagar e guiando-se pela lanterna nas mãos de Indiana, levou-o para o caminho recém-descoberto.

- Aqui! – ela apontou. – Bem aqui havia outra barreira. Quando o tirei da armadilha, essa barreira entrou para a parede, ou o chão, não vi muito bem... mas eis que temos o caminho livre...

- Hum... – murmurou o arqueólogo, coçando a barba. – Se o outro caminho era um beco sem saída, é provável que o que procuramos esteja por aqui...

A escuridão no trajeto logo à frente parecia ainda mais densa, e o ar de poeira que dali provinha era mais intenso do que no resto do local. Esticando um dos braços, Indy procurou dissipar as sombras um pouco mais para observar melhor, mas pouco revelou do que havia adiante. O jeito seria avançarem com cautela, atentos a cada passo.

- Quem vai à frente? – Jones indagou.

Lara o encarou com um sorrisinho desafiador.

- Está com medo, Indiana?!

Tomando a lanterna das mãos dele, seguiu em frente, ciente de que ouviria alguma reclamação.

- Espero que você não queira tomar o meu chicote também... – resmungou Indy, conforme andavam pela penumbra.

- De qualquer maneira, é bom, realmente, sermos cautelosos... aquela parede que te prendeu pode ter sido uma simples amostra de que o que a gente quer está muito bem protegido....

Avançaram alguns metros, o caminho continuando a seguir em linha reta. Até que, vendo-se de frente para uma parede repleta de hieróglifos estranhos, notaram que o trajeto virava para a direita. Continuaram seguindo o contorno da passagem, até se depararem com mais uma parede. Aparentemente, outro beco sem saída.

- E agora? – Jones inquiriu à colega.

- Vamos procurar por mais alguma lacuna na parede, ou algum tipo de alavanca, não sei... – Croft respondeu. – Assim como a anterior, acho que esta parede pode revelar algo mais...

Ela então aproximou a lanterna da parede a fim de que pudessem enxergar melhor os detalhes da mesma. Após alguns segundos de observação, deteve-se em outra cavidade em especial, desta vez, no centro da barreira. Em seguida falou:

- Huuum... acha que isto pode ser algo!?

Indiana aproximou-se e constatou que a cavidade era ligeiramente circular, um tanto côncava, e parecia conter, em seu interior, protuberâncias destinadas a acomodarem melhor o artefato que ali devia ser encaixado. Voltando-se para Lara, ele afirmou:

- Teremos de encontrar o que quer que deva ser encaixado aqui, para continuarmos!

Lara pareceu pensar por alguns minutos. Tinha o semblante concentrado e os olhos fixos no contorno que formava a lacuna. Por um momento pareceu que iria sugerir alguma solução, até um sutil sorrisinho formou-se em seus avantajados lábios, mas, ao contrário do que Indy provavelmente esperava, Lara suspirou, dizendo:

- Bem... ainda não sei o que podemos usar aí, mas o que acha de descansarmos e continuarmos a procura amanhã?! – ela bocejou, demonstrando certo cansaço e continuou: – Acredito que já tenha anoitecido lá fora e... talvez descansar um pouco a mente seja útil até amanhã...

- Certo... – murmurou o aventureiro, ajeitando o chapéu na cabeça suada. – O sol deve estar se pondo mesmo, e, depois daquela perseguição de motos maluca, eu por certo estou cansado... Vamos acampar nas dunas por esta noite, e amanhã continuamos!

E, assim, ocultando sua percepção da estranheza em relação ao tom que Croft usara em sua última fala, Indy pôs-se a voltar pelo corredor, sem muita pressa.

Ela o seguiu, passando pelo corredor e vencendo a escadaria inicial, por onde haviam entrado anteriormente. Lá fora o cenário celeste perdia aos poucos o tom avermelhado de fim de tarde para dar lugar ao anoitecer. Lara respirou o ar puro, apesar de seco, mas muito mais agradável do que o de dentro da construção. Caminhou com Jones até um ponto não muito longe da entrada e parou, acreditando que ali estava bom para passarem a noite.

- E então, vamos montar acampamento? – questionou o norte-americano, sorrindo para a inglesa. – Que equipamento você tem aí? Será que além de pinos luminosos e armas estranhas, tem uma barraca?

Lara suspirou, negando logo em seguida:

- Não, não tenho. O máximo que tenho é um pedaço velho de pano que posso usar pra forrar o chão. Bem... até que não será tão desagradável descansar sob o céu estrelado, mas... você tem algo aí além desse chicote antiquado?!

Jones fechou o rosto antes de responder:

- Não tenho, mas... Poderíamos utilizar os restos daquele bastão que usamos para tentar abrir a entrada do Templo como sustento para uma pequena barraca, usando parte do seu pano. Aí pelo menos não ficaríamos de todo ao relento. Que acha?

- Acho até que é uma boa idéia...

Lara tratou de abrir a mochila, tirando com cuidado um pedaço de pano surrado, mas que seria muito útil. Largou a mochila em um canto qualquer e estendeu o pano no ar, esticando-o, enquanto esperava a ajuda de Indiana.

- Seria bom se acendêssemos logo uma fogueira, já está começando a escurecer e não quero ser surpreendida com escorpiões em cima de mim... – ela falou, com asco.

Indy sorriu de leve, indo até a entrada do templo soterrado e pouco depois voltando com o pedaço de madeira partido. Rapidamente ergueu a improvisada tenda, cujo chão era forrado pelo pano de Lara, evitando que tivessem de se deitar em contato direto com a areia. Logo em seguida, Jones separou alguns outros pequenos pedaços de pau oriundos da alavanca quebrada, os dispôs no chão e retirou do bolso um isqueiro contendo o desenho de um trevo de quatro folhas, improvisando com sua chama uma pequena fogueira.

- Aí está! – apontou ele.

Croft se aproximou da fogueira, esfregando ambas as mãos próximas ao mormaço. Porém, logo bocejou novamente e voltou para a tenda, ajeitando-se sob ela.

- Bem... amanhã será um longo dia, então, boa noite, Jones! Espero que consiga pegar logo no sono e descansar. Até amanhã!

E, com um sorrisinho, ela virou-se, deitada para o lado oposto.

Indiana também estava cansado, mas manteve-se acordado, sentado de cócoras dentro da tenda, admirando a paisagem noturna do deserto e já sentindo a brusca queda de temperatura que logo se acentuaria. Depois pousou os olhos sobre Croft, que aparentemente já havia pegado no sono... E examinou atentamente seu equipamento, oculto numa bolsa que a aventureira mantinha próxima de si...

Era fato que, devido a todos os eventos estranhos já ocorridos, Jones ainda não confiava plenamente em sua nova amiga, se é que poderia chamá-la assim. Ainda não deixara seus pensamentos a idéia de ela ser aliada dos motoqueiros que os haviam perseguido, e o estar levando a algum tipo de armadilha. Além disso, havia tanta coisa que ela aparentava esconder, conhecimentos que ela possivelmente não compartilhava com Indy...

Foi assim que, movido por um impulso quase de sobrevivência, o norte-americano avançou sorrateiramente, abaixado, até Lara, e, mordendo os lábios, puxou de leve sua mochila até si...

A arqueóloga adormecida remexeu-se por um breve momento, mas permaneceu quieta. Sua mochila, porém, que por descuido provavelmente não fora devidamente fechada, revelou algo em seu interior ao ser puxada por Jones... Um outro pedaço de pano parecia ocultar algo com certo brilho anormal... um objeto arredondado, de cor dourada, tendo ao centro uma pequena esfera avermelhada, semi-oculta pelo tecido. Algo realmente estranho...

Indy, notando o artefato, estacou por um momento, crendo ser algum tipo de artefato místico ou sobrenatural... Mas, analisando suas formas, lembrou-se do formato da lacuna na barreira não-transposta no templo... As protuberâncias, o encaixe... Será que aquela era a peça faltando, e Croft a possuíra o tempo todo, ocultando-a dele?

Incomodado com a idéia, Jones esticou um dos braços, determinado a tomar o artefato misterioso em sua mão e analisá-lo melhor...

CLICK!

O ruído característico do engatilhar de uma arma soou próximo à orelha do arqueólogo curioso, antes mesmo que ele pudesse tomar em mãos o estranho objeto. Sua nuca estava agora sob a mira da pistola de Lara!

- Não te ensinaram que é falta de educação mexer nos artefatos de uma dama?!

Continua...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.