O Legado das Cores

5 Mansão Havilliard


Notas iniciais
Olá, olá, eu postei os primeiros capítulos um dia atrás do outro, isso é porque eles já estavam prontos e até postados em outro site, mas agora (in)felizmente não será mais assim. Mas nem é necessário se preocupar por que não gosto de demorar a atualizar No mais, boa leitura ♥

Ao encarar o grande portão duplo de metal cor de grafite — com um brasão muito do bem talhado e detalhado, que me deixou com vincos na testa pela excentricidade — da residência dos Havilliard, eu me senti muita coisa, menos um peixe fora d'água. Que era o que eu esperava me sentir.

Minhas roupas, apesar de serem as melhores que eu tinha no orfanato, eram destoantes do restante do cenário, até o motorista era melhor vestido do que eu. E não posso nem falar de Olea. Ao lado dela, da forma como eu estava, parecia sardinha tentando disputar nobreza com salmão.

Não que meu nervosismo desse brechas para eu me importar com a estética, então não liguei para minha saia de pregas e minha camiseta, a menor que eu tinha, mas que ainda ficava uns números maior do que eu, ambas peças pretas; assim como para meus sapatos da mesma cor que não tinham um terço do polimento que o ferro do portão tinha — pois não eram polidos de forma alguma, ora, onde eu acharia graxa no orfanato para isso?

Confesso que foi estranho — tirando o nervosismo — como me senti e o que senti, principalmente quando Olea me mandou segurar as barras do portão.

— Só segure — ela avisou —, sem fazer força.

De início, nada aconteceu. Olhei toda confusa para ela, pensando ser uma brincadeira, mas primeiro: ela não tinha cara de quem brincava; dois: seus olhos tinham aquele brilho ansioso de quem espera algo acontecer, como o anseio de ver um bebê vir ao mundo.

Eu não sabia o que ela esperava ou o que queria que acontecesse, mas a desobedeci e apertei as barras em busca de fazer o quê que ela esperasse acontecer rápido. Aí veio aquilo.

Como explicar? Hm… o portão vibrou.

Se bem que vibrar não é a palavra certa. Aquilo foi mais uma sacudida grotesca, como se algo tivesse se chocado contra as ostentosas barras de ferro, e teria que ser algo bem grande e pesado para fazê-las se moverem nem que fosse de leve, nunca vi um portão tão rígido. Sacudiu-se produzindo um som similar ao de um trovão, quase me causando uma parada cardíaca pelo susto e me jogando para trás — mas benditos sejam os braços de Olea que eram mais fortes do que eu pensava (ou eu estava mais desnutrida do que imaginei).

Enfim os portões se abriram, com toda a graciosidade e aparente leveza que aquela abundância de ferro não deveria ter.

Fiquei impressionada, abismada, embasbacada, até perceber que poderia ser um daqueles portões automáticos. Poderia. O formigamento familiar nas minhas mãos me dava uma ideia diferente, que afastei para bem longe porque me parecia quase absurda.

— Eu disse para não segurar com força — Olea piscou para mim, um sorriso triunfante nos lábios e olhos.

Mas, bem, eu estava falando sobre como me senti. Sim. Eu me senti viva. Neguei para mim mesma a sensação e todas as demais que fossem boas que tentaram me invadir e me colocar um sorriso estúpido na cara. Ainda poderia ser um engano, mesmo que, quando pisei para além dos portões pela primeira vez, os ventos pareceram soprar bem-vinda nos meus ouvidos.

O exame com o positivo no canto da página. O diário que tinha o nome do bairro e da família Stewart. O fato da bebê sumida se chamar Scarlet Red. A data do sumiço ser compatível com o meu aparecimento naquela casa. Eu me negava tudo isso, porque sentia que se eu não fosse a certa, seria a maior decepção da minha vida.

Eu queria crer, mas parecia bom demais para ser verdade.

— Preparada, Red? — Olea me perguntou quando paramos em frente as portas.

Eu não estava. Queria observar um pouco mais o jardim só para ver se meu coração parava de bater tão rápido. Talvez fosse pelo verão, mas a grama era tão verde e jovem que reluzia; um caminho de pedras, largo o bastante para duas pessoas andarem lado a lado, cortava o jardim em dois, um lado parecido com o outro.

Em cada lado, rosas vermelhas circulavam chafarizes com estátuas de mármore no centro. Esferas de cerca-viva distribuídas pela grama. Os bancos mais pareciam apenas outras decorações de tão longes que estavam, trepadeiras se enrolando em seus braços e pernas, atrás de cada um tinha um canteiro imenso de rosas vermelhas, e o jardim se expandia ainda mais.

Respirei fundo e enfrentei a imponência da estrutura à minha frente. Olea chamava de casa, mas do sentido literal da palavra a residência dos Havilliard não tinha nada.

Uma grande construção de pedras escuras, claramente antiga pela arquitetura, mas tão bem preservada que parecia ter sido criada na década passada, se expandido tanto para os lados e para cima que me senti um pouco pequena. Negra, não no tom mais profundo da cor, se puxava mais para o cinza chumbo, com mais janelas do que eu me daria tempo de contar.

— Estou.

Olea não bateu as aldravas das portas, ela mesma as empurrou, e abriram-se com a mesma suavidade e silêncio dos portões, apesar que parecessem pesadas.

Não era surpresa a fileira de cinco empregadas ao lado da porta, perfeitamente alinhadas, mais estáticas que as estátuas lá fora, Olea tinha ligado avisando da nossa chegada antes do carro estacionar em frente aos portões. Mas o que vi, aquela bagunça e gritaria, foi no mínimo inesperado.

E nem era preciso muita inteligência — ou sequer alguma — para saber que o homem com muletas era Elijah. Tinha ele e mais três, outro homem,que deveria ser Jasper, o que ajudou Elijah com o torta, e duas mulheres, me fazendo crer que uma deveria ser Althea e a outra Theia, as minhas tias.

Elijah estava tentando descer as escadas, sua perna ainda machucada dificultando sua tentativa de andar direito, mas seu maior obstáculo eram eles, Jasper, Theia e Althea, que estavam o circulando, uma delas quase gritando, o rosto todo vermelho e uma veia saltando do pescoço. A outra, muito mais tranquila, segurava o irmão pelo braço, impedindo dele andar, falando suave, porém firme. E Jasper… oh, Jasper, coitado, estava apanhando das muletas.

— Saiam da minha frente, seus acéfalos — mais um tapa de uma muleta em Jasper. Fechei minha boca depois de perceber que ela estava aberta e tive de respirar fundo para não rir.

— Irmão, por favor, contenha-se — pediu a mais calma.

— A sua perna, Elijah — falou Jasper. — Ela ainda não está boa, você precisa descansar.

— Deixem esse idiota aí — começou a do rosto vermelho. — Vá, desobedeça o médico e saia andando, aproveite para terminar de se matar se jogando da escada. Sua filha vai adorar saber que perdeu o pai antes de conhecê-lo.

Eles estavam ainda na metade da escada e ela era longa, e mesmo que por fora as portas grossas fossem intimidantes, dali de dentro, no meio do grande salão de entrada, elas não eram tão chamativas assim, tanto que eles nem notaram nossa entrada.

— O que está acontecendo aqui? — Olea falou num tom ameno e tranquilo, sem elevar nem um pouco a voz, eu a escutei mais por estar ao seu lado, mas os três da escada pararam de discutir no mesmo instante.

Quatro pares de olhos da mesma cor que os meus se viraram ao mesmo tempo para Olea e depois desceram para mim, numa sincronização que eu teria achado graça se não estivesse tão nervosa.

O tempo pareceu pausar, não mais do que o necessário até eles trabalharem na associação da minha imagem com a do bebê levado há quase quinze anos.

Foi uma pausa curta, menos de dez segundos, mas tudo passou pela minha cabeça naquele momento. O que eles estavam vendo? Era realmente eu? Por que tinham a mesma cor de olhos? E de cabelo? Era eu? E mais uma dezena, talvez centena, de pensamentos. Não sei, não estava contando, eram tão rápidos que não dava nem para racionalizá-los.

E como se o tempo fosse feito de vidro, sua pausa se quebrou em um rompante pelo grito abafado da mulher estressada junto aos passos rápidos pela escada.

Dessa vez eu não aguentei o impacto, o grande portão que ribombou o som de trovões foi mais suave do que as duas mulheres que se jogaram em cima de mim, num piscar de olhos eu estava no chão, sentindo muito por Althea e Theia cujos braços que levaram o maior impacto da queda, uns rodeando minha cabeça e outros meu tronco.

— Althea e Theia! — Olea não controlou mais o tom da voz, deixando-o sair com todo o horror que imaginei que ela estivesse sentindo pelo ataque das suas filhas.

— Por favor, vocês duas vão matar a Red! — reconheci a voz de Jasper por debaixo de toda aquela carne.

— Soltem ela! — eu só podia escutar, os corpos trêmulos das duas tapavam minha visão, meu rosto sendo espremido contra os seios de uma delas e tudo que pensei por um momento foi em um pouco de fôlego. — Deixem minha filha em paz, seus cães de duas cabeças do inferno!

Quando Althea e Theia se afastaram me dando espaço para levantar, notei porque estavam tremendo tanto contra mim: elas choravam em silêncio, as lágrimas banhando seus rostos bonitos tão semelhantes por terem a mesma cor de olhos e cabelos, mas diferentes na mesma medida por seus traços distintos.

As empregadas vieram rápido até nós três, nos ajudando a levantar, e assim que fiquei em pé, estava sendo espremida em outro abraço, mais firme e apertado que antes. Eu estava tão atordoada que não tinha notado quem era.

— Elijah, por favor, não empurre o seu primo — dava para escutar toda a exasperação de Olea por sua voz, mas Elijah não deu a mínima para isso e continuou ali, me apertando. — Essa não foi a educação que eu te dei.

Eu não me atrevia a abraçá-lo de volta, não gostei nem um pouco de admitir, medo era uma palavra banida do meu vocabulário, mas era uma situação especial, então poderia ser uma exceção:

Eu estava com medo de tocar. Qualquer um deles, tocá-los e não senti-los, então despertar, descobrir que foi um sonho. Medo deles se desfazerem nas minhas mãos como partículas, como as tantas imaginações que eu tive com esse momento, deles e eu, uns com os braços ao redor dos outros, O Reencontro — algo tão especial que merece inicial maiúscula.

Porém por dentro eu sorria, eu os acolhia de volta, os recebia com o amor reprimido que eu consegui restaurar e sentir, pois a sensação de tê-los me fazia, por um instante, acreditar em Olea. Que eles não tinham me abandonado. Que nunca pararam de me procurar.

Eu não sorria por fora, mas sentia água morna se desfazer na camisa de Elijah. Eu não o abraçava, mas meu corpo inteiro tremia.

Ele não falava nada, mas seus ombros se sacudiam mais do que os das irmãs. Ficamos assim não sei por quanto tempo, o escutando fungar baixinho em um choro controlado, até me afastar um pouco. Enquanto olhava cada canto do meu rosto, ele sorria e chorava; então gargalhou, a risada saindo trêmula no início e tomando firmeza aos poucos, e me abraçou de novo dizendo: é ela, vocês estão vendo? É ela!, mas ninguém estava me vendo, era pelo menos um metro e noventa me cobrindo.

— Elijah, acalme-se. Céus! — foi a voz da mais calma que consegui distinguir entre as risadas de Elijah e suas exclamações. — Você vai cair em cima da Red assim. Mamãe, faça alguma coisa — e foi respondida por Elijah com um Althea, fique calma.

Olea não fez nada. Pelo canto dos olhos a vi sorrindo, olhando para nós dois, feliz demais para atrapalhar aquele momento de pai e filha. O porquê da reclamação de Althea me atingiu quase tardio, e, quando o fez, desviei meus olhos pro chão e lá estavam as muletas de Elijah, as mãos que deveriam estar as segurando me apertavam, todo aquele tamanho sendo apoiado apenas em uma perna e em mim.

Mas se Olea não faria nada, tinha quem temesse pela saúde dele — e pela minha —, porque a estressada, Theia, o segurou pela orelha e o pobre Elijah se desvencilhou de mim saltando em uma perna.

— Mas que inferno, seu imbecil, e todos os passeios que você disse que faria com a Red? Hein? Vai poder com essa perna? Não! Idiota — e com um tapa na cabeça dele, ela concluiu: — Depois eu que sou a acéfala.

Com relutância e a cara retorcida — de choro ou desgosto, talvez ambos —, Elijah se afastou de mim, recebendo as muletas, mas sem se afastar muito.

Jasper também me abraçou; um embalo suave e carinhoso, nada de apertos, embaraços e quedas. Tirando Olea — que já havia derramado seus milímetros por me ver — e as empregadas que continuavam lá, ele era o único que não estava chorando. Mas sorria. Tanto que quando ele disse "seja bem-vinda de volta, Red" cada letrinha de cada palavra ressoou com um sorriso.

E tudo teria continuado muito emocionante assim, com eles me apertando para terem certeza de que eu era de carne e osso, os rostos e olhos vermelhos e o início de uma enxurrada de perguntas, se não fosse pelo som de passos estridentes.

Não era nada de mais, só uma garota descendo a escada — de trinta degraus, pelo menos — correndo.

— Coral, não corra na escada, você quer acabar como seu tio? — Althea ficou toda alarmada, recebendo com olhos afiados o pedido de desculpas da garota e sua promessa de que seria a última vez, mas seu foco era eu. Como tudo na mansão nesse dia.

E mais um par de olhos verdes estavam sobre mim.

— Oi — foi bom ver um rosto que não estivesse choroso. Eu já tinha segurado minhas lágrimas, mas os adultos não. E diferentes deles, Coral só sorria, como se estivesse vendo uma amiga depois das férias. — Nossa, como você se parece com tio Elijah! Eu apostei com o Orion, nosso primo, como você se pareceria, então obrigada, agora ele me deve cinquenta libras. Você deve estar querendo descansar, é um ótimo momento para eu te apresentar seu quarto. Eu ajudei a decorá-lo, só que mamãe e tia Theia estavam mais ocupadas brigando do que me dando atenção, mas espero que goste, juro que elas não destruíram nada — ela pausou só pra se virar para Olea e Elijah, sem retomar o fôlego, como se ele fosse infinito. — Vovó, tio, eu posso roubar a Red para a apresentar a seu quarto? Eu aproveito para ajudá-la a escolher o vestido para o jantar. Posso?

Olea já havia me dito ao menos quatro vezes o quão teimoso Elijah poderia ser, confesso que quase perdi minha paciência com seu protesto de que "ela acabou de chegar, por favor! Sabem o que é aguentar quatorze anos, dez meses e oito dias?". No que foi replicado por Jasper com "claro que sabemos, todos nós esperamos" seguido por Theia em "e pare de contar o tempo, ela está aqui agora, não está? E não me responda, eu sou a mais velha".

Só que nenhuma reclamação, tática ou teimosia tentando se sobrepor à teimosia, foi mais eficiente do que Althea e sua serenidade, que venceu Elijah com uma simples pergunta:

— Você quer ir, Red? — os três pararam de discutir para me darem atenção, tudo que fiz foi assentir com a cabeça depois de uma tentativa inútil de encontrar minha voz. — Vão, mas não subam a escada correndo.

Coral não esperou nem um segundo, ela saiu me puxando e me fazendo correr pela escada. A voz de Althea só um pouco mais alta às nossas costas, nos alertando dos riscos de subir os degraus na correria.

Paramos quando as paredes já nos encobriam, mas não pareceu suficiente para me tirar do holofote. Porções de quadros decoravam as paredes. Nem todos tinham olhos parecidos com esmeraldas, mas eu senti, por um instante, que os que tinham poderiam rasgar o papel, quebrar o vidro e sair da moldura só para terem certeza de que os sapatos esfarrapados que pisavam em seu território não eram os de uma intrusa.

— São nossos antepassados — ao meu lado, Coral observava os quadros com bem menos interesse que eu. — Ao menos os que sobreviveram tempo suficiente para estarem aqui. Quando morrermos, nos juntaremos a eles.

— Isso é tão mórbido — torci minha cara em uma careta no que Coral separou seus lábios em um sorriso.

Mas tenho que confessar, mesmo a contragosto: era bonito. Tinha vários toques de requinte nas molduras douradas, contrastando com as pedras cor de chumbo da parede e o fundo escuro de verde musgo das pinturas e fotografias.

Coral me explicou que era uma tradição: com no mínimo quarenta anos, todo Havilliard posava para uma pintura — ou foto, desde a criação das câmeras fotográficas — , todos com as vestes formais da família e seus medalhões.

— Você tem o seu ainda, não tem? O medalhão — ela perguntou. — Vovó disse que só achou a corrente no seu berço, então todos pensaram que ele foi levado com você.

Pisquei para uma vaga lembrança de um objeto semelhante ao que eu via naqueles quadros. Era quinze de setembro, a data que eu pensava ser meu aniversário, quando Charles o entregou a mim para que eu guardasse, dizendo que era meu.

Era a memória mais forte que eu tinha do suposto medalhão. Eu não entendia por que Charles achou que uma joia estaria mais bem protegida com uma criança de cinco anos do que com um adulto, mas depois de tanta divagação não foi difícil arranjar a resposta: ele já sabia que estava com câncer em estágio avançado, sabia que iria morrer de uma hora para outra, e sabia que aquilo era a única coisa que eu tinha, mas que deixaria de existir se continuasse sob suas posses. Mathilde tomaria conta de tudo.

E ainda não foi suficiente. Dois meses depois da sua morte, que foi só uma semana após aquele dia quinze, o objeto sumiu do meu esconderijo.

— Eu tinha — respondi, minhas sobrancelhas tão unidas que começava a ser desconfortável o franzir do cenho. — Acho que tinha. Aos meus cinco anos. Mas… sumiu.

— Oh… — tentei achar engraçada a cara de Coral, a boca escancarada, os olhos piscando rápido em desnorteamento. Mas eu estava tão desnorteada quanto ela, embora por motivos diferentes. — Bom — ela limpou a garganta e molhou os lábios; em mais um piscar, nem parecia mais surpresa por um pertence que era mais uma tradição da família ter sido perdido —, mas para quê medalhões, não é? A gente nem passa tanto tempo com eles.

Meus olhos desceram para o fio de ouro que escorria para dentro da sua roupa, Coral notou meu olhar, ficando toda nervosa e atrapalhada, dizendo em palavras emboladas que só ela usava constantemente porque era seu acessório favorito, e que eu não deveria me preocupar.

Não me preocupei, ou sequer me preocuparia, nem mesmo consegui me importar com isso por mais de um minuto, porque, entre tantos quadros, já no fim do corredor, perto de virar para o próximo, um rosto chamou minha atenção.

Tantos olhos verdes e cabelos pretos como corvos não eram mais tão novidade para mim, entendi rápido enquanto andava pelo corredor dos retratos — sim, esse é o nome do corredor — escutando as explicações de Coral que são características hereditárias e nenhum nascido Havilliard escapa dessa genética. Mas aquele par de olhos era tão familiar quanto os meus.

E malditos sejam os fantasmas.

Mil e uma coisas passaram pela minha cabeça enquanto eu encarava os olhos de At no quadro. Era mesmo ele ali? Sim, era. Infernos, entre mil olhos verdes eu reconheceria os dele e sua bendita-quase-maldita cara de simpatia e de quem ri dos tropeços dos outros.

Fiquei tanto tempo parada ignorando os chamados de Coral que, em um momento, ela teve que me beliscar para eu voltar à vida.

— Desculpa — ela disse depressa, mas eu quase pedi para que repetisse porque ainda me sentia flutuando em um sonho. — Você parece que viu um fantasma.

Como eu diria que ela estava certa?

— Levando em conta que estamos em um corredor onde só tem foto de gente morta… — tentei brincar, juro que fiz o melhor para as palavras saírem com humor, mas eu estava me sentindo… traída?

Como se sentir quando descobre que seu melhor amigo provavelmente sabe quem você é e de onde veio, mas nunca abriu a boca para dizer uma palavra sobre?

Provavelmente? Oh, não. Óbvio cairia melhor. Até o meu eu de cinco anos se questionou por que um fantasma queria ser meu amigo quando todos os outros mal me olhavam.

Porque ele é diferente. Foi o que eu me respondi. E eu estava certa.

— Esse é Atlas — tínhamos mergulhado de novo no silêncio, mas a menção do nome me fez submergir. Meu cérebro trabalhando rápido em associá-lo com o Atlas que a bruxa das borboletas azuis mencionou, mas logo descartando a hipótese. — Nosso avô.

A saliva desceu sem querer pelo caminho errado, indo parar na laringe, me deixando engasgada e tossindo. E descobri da pior forma que Coral tem uma mão pesada, o tapa que me deu foi suficiente pra me fazer arquear as costas e quase ir para frente pelo impacto.

— Mas que diabos… — a olhei com reprovação, mas Coral estava mais ocupada em rir do que se importar com minha cara feia.

— Desculpa, de novo — ela disse controlando a risada, eu tentei ficar irritada, mas de uma forma estranha não consegui, da mesma forma que não me irritei por Althea e Theia terem me derrubado. O fato de eu estar em uma casa que poderia chamar de minha, que aquela garota era minha prima, e meu pai, tias, tio e avó estavam no primeiro andar pesava em mim como chumbo. Fiz de tudo para espantar a sensação boa, um sistema de autodefesa querendo me proteger, mas a ponta de um sorriso ousou aparecer no meu rosto. — Meu irmão sempre me dá um desses quando me engasgo, só que mais forte. Ele pratica natação, sabe?

— Seu irmão está querendo te matar — eu falei o mais sério possível, mesmo brincando, mas o sorriso de Coral só fez aumentar.

— Se ele quisesse, já teria conseguido.

Viramos a esquina e entramos em outro corredor. Esse era diferente. Muito extenso, sem quadros e portas longe demais umas das outras. E o susto que Coral teve quando uma delas se abriu do nada, com alguém gritando bu, me causou acesso involuntário de risos.

— Seu imbecil! — Coral gritou, a mão no peito enfatizando seu drama. — Eu vou cavar sua cova qualquer dia desses.

— Me comove que você pensa em ter o trabalho de abrir um buraco para mim, e não apenas desovar meu corpo em um penhasco qualquer, Cor — o rapaz sorriu, como se isso fosse realmente algo comovente. Parecia só um pouco mais velho que nós duas, e isso devido a sua altura. — Mas, se quer um conselho, quando for me matar não use esses sapatos, parecem de sapateado, dá pra despertar até os mortos.

— Ora, vá para o inferno.

Ele riu com bom humor, e veio para o meu lado ainda sorrindo, jogando um braço sobre meus ombros como velhos amigos.

— Ela está sendo sua guia aqui, Red? — suspirou, negando com a cabeça. Franzi o cenho para a intimidade com a qual me tratava, mas não precisei responder nada, logo ele estava continuando: — Eu sinto muito por isso, Sylvia seria uma guia mais eficiente, tenho certeza.

— Deixe ela em paz, Orion — o mau humor de Coral era forçado, eu não a conhecia, mas já conseguia saber disso pelo leve repuxar dos lábios que ela tentava reprimir, nem toda sua pose mandona de braços cruzados a faziam ser levada a sério.

— Para a sua sorte, minha bela Cor, eu vou, pois tenho mais o que fazer antes do jantar — quando ele se debruçou na minha direção eu entrei em alerta, mas foi tão rápido que não tive tempo de esboçar reação. O que me percorreu foi alívio assim que ele apenas estalou um beijo na minha testa. — É um prazer conhecê-la, Red, se precisar sobreviver ao falatório de Coral, é só me chamar — com uma piscada e o sorriso que não tinha tirado da cara em nenhum momento, Orion se virou e saiu, demorando um pouco a sumir por causa da extensão do corredor.

Depois disso, seguimos nosso caminho, Coral pisando duro, fazendo mais barulho que antes, e reclamando de como nosso primo não valia um centavo. Ao lhe perguntar por que todos me tratavam pelo meu segundo nome como se fossem íntimos demais, sua resposta veio rápida e certeira, me desestabilizando:

— Porque somos — ela disse, sorrindo como se a resposta a agradasse mais do que a mim. — Ou é essa a impressão que temos. Todos que eram grandes suficiente para se lembrar do seu desaparecimento sempre falaram de você. Até Sylvia, nossa governanta. De uma forma ou de outra, você nunca deixou essa casa.

Isso me fez encolher os ombros e me lembrar do que Olea disse enquanto estávamos no carro, nos dirigindo para a mansão, sobre um dia Elijah ter acordado às quatro da manhã e não ter encontrado Rosemary, sua esposa, ao seu lado. E a surpresa e início de desespero que teve quando, ao olhar no meu quarto para saber se ela estava lá, também não me achou.

Me encolhi ainda mais, sem saber o quê ou como me sentir. Ela apenas te levou, não sabemos até hoje o porquê, Olea tinha dito, e seu olhar distante, magoado e amargurado era sincero. Sentimentos dentro de mim se divergiram. A incredulidade de ter uma família, a tristeza amarga e espinhosa por minha mãe ter me abandonado sem motivo, a sensação boa quase incontrolável por terem me encontrado.

Mas Coral me salvou da minha mente e pensamentos difusos, anunciando que tínhamos chegado ao meu quarto.

Como cada parte da mansão, ele era estonteante, com sua mobília predominante sendo vitoriana, o espelho da penteadeira adornado em dourado vivo — que me deixou de queixo caído quando Coral alegou ser ouro. O lustre que não tive coragem de perguntar se era de ouro também, e a cama tão grande que faria eu me sentir em uma ilha.

Fiz uma nota mental para agradecer Althea e Theia pelo trabalho, me perguntando como eu teria cara para isso sendo que mal consegui achar palavras para agradecer Coral pela ajuda também, mais sem fala pelo luxo do que por timidez. Mas quando elas apareceram pouco tempo depois, dizendo que iam me preparar para o jantar, eu não tive tempo de abrir a boca direito, passando a entender o que Coral quis dizer ao falar que elas duas mais discutiam do que a escutavam.

Não me atrevi a perguntar por qual motivo eu deveria me arrumar tão cedo, faltavam mais de uma hora até as dezesseis e Coral parecia bem tranquila jogada na minha cama. Até entender que elas precisavam de tempo para escolherem — entre discordâncias — qual roupa seria melhor.

Coral parecia se divertir com as intrigas das irmãs porque demorou a lembrá-las que Olea tinha pedido para irmos todos com as vestes formais da família. Trajes negros de tecidos pesados, o emblema dos Havilliard bordado contra o peito esquerdo em fios de ouro.

E depois de tudo, da fada, do bruxo Enoch, da queda, de conhecer minha família, de descobrir o mistério de At, eu pensei que minha cota de surpresas estava atingida por um dia.

Ledo engano.

Surpresas são algo que os Havilliard guardam aos montes, sua maioria em forma de segredos trancados atrás de portas, escritos em diários, guardados em cofres ou através do serpentear das voltas de um labirinto. E além do coletivo, há as surpresas e segredos individuais que cada membro da família guarda.

Nós estávamos no jantar — que Althea chamou de jantar de boas-vindas, e Theia riu do nome clichê e ridículo (concordei com Theia no meu íntimo, para não irritar ainda mais minha tia sensível). Coral disse para eu me sentar ao lado de Orion, que estava sentado na primeira cadeira do lado esquerdo da mesa, e estranhei quando ela pulou uma cadeira para se sentar.

— Aqui é por idade — foi o que ela disse quando a perguntei por que não se sentou ao meu lado. — Ainda falta o meu irmão.

Oh, o irmão dela, claro. Eu até tinha me esquecido dele, contudo, continuei não dando importância a isso. Elijah, Jasper e Theia me preenchiam de perguntas e histórias — vindas de Theia sobre Elijah, como ele fraturou a perna, como ele era chato, como ele era irritante (por dentro, notei que era tudo só para irritá-lo) —, Althea servia para tentar apaziguar os ânimos dos seus irmãos, e Olea… tenho a impressão que ela só não reclamava de tanto alvoroço porque o dia era especial, seus filhos mereciam passar por toda aquela empolgação depois de tanto me procurarem, e, se ela falasse, a mansão poderia cair.

Em algum momento, quando meu estômago começou a reclamar, eu reparei que ninguém tinha tocado na comida — um banquete, na verdade, tinha tanta comida que poderia alimentar quase o triplo de todos ali.

Vi o momento em que Olea abriu a boca, olhando para o local vazio ao meu lado, preparada para indagar onde estava seu neto, mas quando pronunciou meia palavra, a porta da sala de jantar se abriu.

Os olhos esmeraldas estavam lá, como eu já tinha aprendido a esperar, mas o cabelo era uma confusão de fios vermelhos. E essa não foi a surpresa, o baque veio quando Althea reclamou com o garoto indagando o significado das suas madeixas cor de sangue, o nome do qual ela o chamou quase fez meu queixo cair por descobrir que poderia ser ele.

Atlas caminhou devagar e em silêncio até seu assento, absorto ao distúrbio que a coloração do seu cabelo causou, os olhos sobre mim, não desviaram nem depois que se sentou.

Por alguma razão, meu olhar desceu para o brilho dourado sobre seu peito. Não dava para ver bem por causa da posição, mas não era preciso, eu já tinha memorizado: um grande H no centro de um escudo, duas cobras o entrelaçando de cada lado, uma mordendo a cauda da outra. Seria só mais uma releitura do Ouroboros, se não fosse pelas grandes presas à mostra em suas bocas abertas.

— Red — saudou, me fazendo erguer o olhar de novo para si. E tomando minha mão para levá-la aos lábios, Atlas sorriu, exibindo os dentes perfeitos de caninos pontudos, em algo tão genuíno quanto corrompido. — É um prazer conhecê-la.

Uma vez eu aprendi da pior forma que, quando cobras mostram seus dentes, é sinal de perigo.

Notas finais
Gostou? Se sim, eu adoraria saber o que achou desse capítulo ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.