O Legado da Fênix
15 Orgulho e Preconceito.
Notas iniciais
“São as coisas que mais amamos que nos destroem.” –Presidente Snow, A Esperança.
–Garota, você é suicida ou o quê? –Perguntou-me Petrius estarrecido.
–Preciso que me leve até lá, pode haver alguma pista sobre onde o pergaminho, eu preciso saber. –Respondi.
–Olha, sei que você está determinada a dar uma de Super man e salvar o mundo e tals, mas saiba que você não é. Você é uma criança e ainda não tem essa força toda. Mas caso você queira virar uma super-heroína você já está com meio caminho andado.
–Como assim? –Perguntei confusa.
–Você é órfã, cresceu sentindo na pele a crueldade humana, é sozinha, tem senso de justiça e blá, blá, blá...
Eu ri.
–É sério Petrius, não quero dar uma de heroína, só não quero que pessoas inocentes morram, não quero que ajam mais Hazel Flaming’s no mundo.
–Hazel Flaming’s?
–Órfãos confusos e solitários.
–Mas você não é solitária.
–Não quando se trata de ter amigos. Mas no quesito família, lar, eu não tenho mais nada.
–O branquelo tarado parecia gostar de você.
–Branquelo tarado?
–Sim, aquele que estava agarrando você perto do matinho.
Eu caí na gargalhada instantaneamente.
–Hahaha você se refere ao Levy? Oh não, fui eu quem pediu para ele dormir comigo!
–Então você é a tarada da história?
–Eu não sou tarada! Apenas não conseguia dormir. –Defendi-me ruborizada.
Petrius riu, divertido.
–Você é tão inocente menina... sorte sua por ainda estar imune a perversão dos adultos, que sabem de tudo.
–Hã? –Indaguei confusa.
–Nada. Apenas... Permaneça criança, enquanto puder ser criança. –Respondeu enigmático. Resolvi não questionar sobre isso.
–Mas então, você vai me levar lá ou não? –Perguntei.
–Depois, primeiro você irá descansar, precisará de forças para o que puder vir.
–Tudo bem.
Petrius pousou numa caverna perto do topo de uma montanha, era meio escura e úmida, mas era confortável.
Quando pousei meus pés no chão Petrius se transformou novamente, dessa vez em uma miniatura de dragão, era semelhante a um lagarto, mas suas escamas prateadas diferenciavam as raças.
–Sinto muito, mas eu não posso fazer uma fogueira para você se aquecer, isso iria denunciar aos monstros o nosso paradeiro.
–Não se preocupe, eu não sinto frio, não como um humano normal sentiria.
–Ah é claro, a hospedeira do Dragão deus de gelo não sente frio...tinha esquecido esse detalhe.
–Não tem problema.
–Está com fome?
–Não.
–Ótimo, por que aqui não tem comida.
–Na minha mochila tem mantimentos, mas ela ficou para trás...
–Eu pego para você.
–Sério?
–Sim! Não tenho problemas com monstros, quem tem é você.
–É mesmo né?
Petrius se transformou novamente em águia, e se preparou para levantar vôo.
–Mantenha-se no fundo da caverna, faça o que quiser, volto em vinte minutos.
–Ok!
E assim Petrius tomou impulso e voou pelos céus, fiquei o observando até ele desaparecer de minha vista por entre as nuvens cinzentas.
10 minutos depois de sua partida eu dormi por exaustão.
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Quando os garotos pousaram os pés na sede a primeira coisa que deram falta foi da amiga morena.
–Cadê a Hazel? – Perguntou Seth.
Levy estava vermelho de tanta fúria, sua raiva era tanta que seus olhos já lacrimejavam.
–Ela... ela...soltou a chave. –Murmurou com a voz furiosa e ao mesmo tempo embargada.
–ELA O QUÊ? –Berrou Seth incrédulo.
–Salve o Rick, depois eu te explico. –Falou o albino, o moreno mais velho assentiu e correu com Rick para a enfermaria.
Levy levou Morin até a sala de Mestre Chang para que ele pudesse ir para casa em paz.
Quando o menino adentrou a sala de Chang sem bater os membros que estavam lá dentro se assustaram de imediato.
–Levy? –Jack se assustou ao ver o filho, principalmente naquele estado.
–Rick está ferido gravemente, tivemos que voltar com urgência. –Explicou o abino com a voz sem emoção alguma. Não teve coragem de olhar para seu pai.
–Onde está a Hazel? Ela se machucou? –Violetta era um dos membros ali presentes no momento, junto de mais dois sacerdotes.
Levy ficou em silêncio, sua cabeça estava baixa, escondendo as lágrimas quase transbordando por seus olhos.
Violetta interpretou o silêncio do albino como um mal sinal, seus olhos imediatamente lacrimejaram.
–Ela...ela, mor...
–Eu não sei. –Interrompeu Levy com lágrimas escorrendo pelos olhos. –Eu não sei!
Violetta caiu de joelhos no chão aos prantos, seu coração estava apertado. Todos os que estavam presentes na sala ficaram em silêncio, incrédulos.
–O que aconteceu exatamente Levy? –Perguntou Mestre Chang.
–Quando voltamos para a sede...ela estava conosco...mas daí ela soltou a chave e ficou para trás.
–Mas por quê?
–Ela quer concluir a missão a qualquer custo. Ela nos disse que iria fechas os portões sozinha.
–Ela ficou louca? –Perguntou Jack. –Ela queria se matar?
–Ela já é louca, você a conhece pai, ela nunca iria desistir dessa missão, ela queria salvar a todos, mesmo que significasse que ela pudesse perder a própria vida.
–Não... minha menininha não... –Lamentava Violetta.
–Não lamente Violetta, não se lamente por ela. –Ralhou Levy.
Violetta olhou para o albino com fúria e indignação.
–Como você ousa? Ela era sua amiga! –Repreendeu Violetta. –Como tem a audácia de ousar tirar-me o direito de chorar por ela? Você é tão hipócrita! Diz para eu não me lamentar enquanto você também está aos prantos.
–Não estou chorando por isso, estou chorando por que estou com raiva, por que estou frustrado.
–Com raiva do quê? De ela ter morrido?
–PARE DE FALAR COMO SE ELA ESTIVESSE MORTA! –Exaltou-se o albino, surpreendendo a todos. –Hazel prometeu a você que voltaria, viva ou morta, eu acredito que ela voltará e não vou admitir que alguém ouse falar que ela não vai cumprir sua promessa, nem mesmo você Violetta!
–Vamos ser realistas Levy, Hazel é uma garotinha pequena de 12 anos apenas, não sabe quase nada sobre como se defender, acha mesmo que ela sobreviveria? –Perguntou Violetta.
Levy ficou em silêncio, caminhou em direção à porta e pousou a mão na maçaneta.
–VOCÊ ACHA QUE ELA SOBREVIVERIA? –Tornou a perguntar Violetta aos berros.
–Acho. –Respondeu.
–Você sonha demais. –Murmurou a morena.
–Vocês deveriam confiar mais nela, se você a ama tanto como diz Violetta, deveria acreditar nela não mata-la dentro de si na primeira oportunidade. –Falou o albino. –A propósito, aquele ali é o Morin, ele deve voltar para casa.
Até então ninguém havia notado o velho senhor, que apenas observava a discussão quieto.
–Aonde você vai Levy? –Perguntou Jack.
–Pro meu dormitório. –Respondeu e saiu da sala rapidamente.
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Rick estava em sérios apuros, os ferimentos eram muito graves, tiveram de chamar mais médicos para tratarem do mesmo. Pouco depois subiram ele para o segundo andar para efetuar uma cirurgia.
Depois que os médicos restauraram alguns órgãos internos, fizeram transfusão de sangue e fecharam todas as feridas, o menino estava fora da zona de risco. Porém estava em coma profundo.
Seth estava em seu dormitório no casarão dos mestres, estava frustrado consigo mesmo, tinha falhado em sua missão, quase perdeu um dos melhores elementais da sede, e perdeu uma amiga recente.
Sentou na beirada de sua cama, pôs o rosto entre as mãos e suspirou profundamente.
Ficou por um tempo ali esfriando a cabeça, em seguida se dirigiu ao banheiro para tomar um longo e necessário banho.
“O que você tinha na cabeça sua pirralha? Por que escolheu ficar?”-Pensou enquanto afundava na banheira.
Já faziam 3 dias desde o incidente na Floresta das Sombras, o clima entre Levy e Violetta só havia piorado, Seth não parava de descontar sua raiva nos treinos e Rick continuava em coma.
Até aquele dia.
Levy resolveu enfim visitar Rick na enfermaria, o moreno havia acordado fazia dois minutos, portanto ainda estava meio zonzo.
–E aí cara? Está melhor? –Perguntou o albino.
–Quanto tempo eu dormi? –Perguntou de volta o moreno.
–Três dias. –Respondeu.
–Hum. O que aconteceu? –Perguntou confuso.
–Depois que você se feriu nós voltamos para cá, eu e Violetta estamos em pé de guerra, Seth está treinando feito louco, e você acabou de acordar.
–Cadê a Flaming?
–Ela não veio conosco. –Respondeu de cabeça baixa, seu tom de voz era melancólico ao extremo.
–O QUÊ? –Berrou o moreno incrédulo.
–Ela quis terminar a missão sozinha, quando fomos tele transportados ela soltou a chave.
–Ela é louca? Por que ela decidiu ficar?
–Por que ela não queria que mais ninguém morresse. Acho também que ela se sentiu culpada por nos envolver nessa missão, já que foi ela que pediu, principalmente por que você saiu ferido.
–Como assim ela pediu pela missão? –Perguntou Rick confuso.
–É uma longa história...
–Tenho todo o tempo do mundo.
–Acho que não tenho direito de falar sobre a vida dela. –falou Levy. Ambos se mantiveram em silêncio até Rick resolver puxar assunto.
–Você gosta da Hazel, não é?
–Sim.
–Admite logo de cara?
–Não tenho medo de dizer a verdade, sei muito bem o que sinto.
–Porque não tenta conquistá-la?
–Por que eu sei que não tenho chances, não sei nem se ela está viva.
Rick riu da resposta do albino.
–Fala sério, de todos os caras do mundo você é o que mais tem chances, sem mantém presente a cada momento da vida dela, a ajuda, a compreende...
–Mas não é a mim que o coração dela pertence. Ele já tem um dono, e ele toma o coração dela por inteiro, não sou páreo para ele.
–Ele quem?
–Findris Belthor. Ela o ama mais que tudo, ele e a mãe dele, ela chegou a me dizer que eles são tudo o que importa para ela. Ela pediu pela missão por que queria provar que conseguia se proteger sozinha, e que tinha condições para investigar o que aconteceu com eles mais a fundo. –Explicou o albino.
–Findris? Quem é esse? –Perguntou Rick.
–O irmão postiço da Hazel, ele era um elfo, o qual ela ama com todas as forças. –Respondeu. –Mas porque está me fazendo essas perguntas? Também está interessado nela?
–O quê? Não! É que... eu me sinto confuso em relação ao que sinto por ela, não a odeio, mas também não a amo, nem gosto, apenas simpatizo.
–E o que há de confuso nisso?
–Não sei se é normal simpatizar e detestar alguém ao mesmo tempo. Como disse eu não a odeio, e não entendo como você pode gostar tanto assim dela, logo você que sempre afastou as pessoas de si.
–Ela é diferente. Eu nunca tive amigos por que as pessoas costumam me ver como um fracassado, os poucos que se aproximavam de mim era por pena, eu odeio isso.
–Entendo. Só não consigo entender o que sente pela Hazel, porque você gosta tanto dela? O que ela tem de diferente dos outros? Porque ela se sacrifica tanto por pessoas que nem conhece?
–Isso você só descobrirá quando conversar civilizadamente com ela. –Respondeu o albino. –Eu tenho que ir, melhoras.
–Valeu ovelha!
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Dois dias atrás...
Quando despertei de meu sono profundo de início não enxerguei nada, estava tudo tão escuro.
–Petrius? –Chamei pela criatura, pouco depois ele apareceu junto com a minha mochila.
–Presente! –Respondeu ao meu chamado.
–Quanto tempo eu dormi? Que horas são?
–De acordo com os meus cálculos, acho que são 7:00 da matina. –Respondeu espreguiçando o corpo fofo de coelho-gato.
–Não clareia por aqui? É sempre assim tão escuro?
–Aparentemente sim!
–Eita... –Murmurei e peguei minha mochila. Tirei de lá uma garrafa com água e pedaço de pão que eu havia deixado lá.
Enquanto comia em silêncio Petrius apenas me observava com curiosidade.
–Quantos anos você tem? –Perguntou-me.
–12. –Respondi.
–Você é muito pequena para 12!
–Eu sei disso.
–Termine de comer logo, quanto mais cedo formos a tumba, mais cedo retornamos.
–Ok!
Quando terminei de me alimentar eu arrumei minha trança novamente, ajeitei o meu moletom, este estava imundo, mas pelo menos disfarçava o meu cheiro. Coloquei o capuz e peguei a mochila, me dirigi para perto de Petrius, o mesmo havia se transformado em águia novamente.
E assim partimos.
Mais da metade do caminho foi percorrido no céu, fomos para a terra por que chegamos numa área que era repleta de monstros aéreos.
Eu estava montada em Petrius, que assumira a forma de um lobo gigante, e corria com uma velocidade impressionante.
–Onde estamos? Falta muito? –Perguntei.
–Estamos perto do Lago das Almas Perdidas, teremos de atravessá-lo para chegarmos até à tumba de Ogon. Fica no coração central da floresta.
–Esse lugar só tem nomes bizarros assim? –Perguntei.
–Não são bizarros, apenas nomeados pelo que eles são. –Respondeu Petrius. –Por exemplo, você e seus amigos estavam no Vale da Morte Sussurrante, com certeza você ouviu vozes estranhas por lá antes de ser atacada. O Lago das Almas Perdidas não é diferente, já que ele é um rio profundo de coloração rubra repleto de almas agonizando, tanto de monstros quanto de humanos que perderam a vida aqui. Somente as piores almas saem de lá, e daí se tornam sombras.
–Então aqui é uma espécie de cemitério ambulante?
–Sim, onde só os mais resistentes sobrevivem. –Respondeu. –Este sem dúvidas é o maior cemitério do universo.
Quando chegamos ao lago eu percebi que Petrius falava mesmo sério, o lago era profundo, tinha uma ponte que nos levaria ao outro lado, mas era realmente assustador tudo aquilo.
Era como se fosse uma fenda que separavam dois precipícios, no seu fundo havia um imendo lago, o qual parecia ser feito do mais puro sangue, quente e fresco, de lá era possível ouvir gritos de agonia, de dor, de ódio, almas implorando por sua liberdade.
Um verdadeiro inferno.
Atravessei a ponte agarrada a Petrius, tive medo de cair, tudo o que eu mais queria era sair dali naquele momento, pois o choro já estava engatado na minha garganta.
Petrius atravessou o mais rápido que pôde, mas mesmo assim eu ainda o segurava com força.
–Está tudo bem pequena, já passou. –Consolou-me.
–Não quero mais passar por lá Petrius, é muito ruim. –Implorei.
–Tudo bem.
A parte da floresta em que estávamos agora era cheia de árvores, com folhas e tudo, porém as folhas eram secas, como se fosse outono, tinhas folhas secas espalhadas pelo chão, alguns arbustos verdes, e diversos tipos de cogumelos no chão.
–Essa é a parte mais rica da Floresta, muitos escolhem morar para cá, porém nem todos conseguem.
–Por quê?
–Por que antes de conseguirem vir para cá, morrem ou de fome ou de cansaço. Tudo lá do outro lado é escasso, com exceção da água, mas nem ela é totalmente limpa.
–Por isso você disse que só os mais resistentes sobrevivem.
–Exatamente.
–E o que você faz para se manter?
–Venho para cá comer cogumelos e algumas frutinhas, mas não passo desse início.
–Então como você vai me levar até à tumba se você não sabe onde fica.
–Você sabe por que eu não ouso passar daqui?
–Não.
–Por que eu já fui até a tumba, foi uma das minhas piores experiências, Ogon pode estar selado, mas mesmo assim, ele pode dominar mentes de criaturas que estiverem ao seu alcance.
–Ele é tão poderoso assim?
–Ele é um lendário Hazel, e só pelo fato de ser um dragão ele já é muito poderoso. Antes ele não podia fazer isso, mas o selo está ficando frouxo, e ele está se libertando aos poucos.
O caminho foi silencioso até chegarmos num lugar onde as árvores rodeavam em um círculo perfeito um único lugar.
Seu redor era feito de pedra, estas estavam repletas de limo e várias plantinhas que nascias de suas rachaduras e se enroscavam em uma enorme tumba feita de mármore preto e algum metal que eu desconfiava ser titânio, e estava rodeado de correntes de ferro trancados com cadeados de bronze.
Petrius parou de andar e eu desci de suas costas.
–Tome cuidado. –Aconselhou-me.
–Vou tomar.
Dirigi-me em passos lentos para perto da tumba, me sentia receosa por estar ali, mas agora não era hora para fraquejar.
–Finalmente veio me visitar menina Flaming, demorastes tanto que achei que estivesse morta. –Disse uma voz, era grave e imponente, senti um frio na espinha ao ouvi-la.
–Q-quem é você? –Perguntei sussurrando.
–Que você acha que é.
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A menina estava muito assustada, sabia a quem pertencia àquela voz, mas se recusava aceitar.
O dragão estava se divertindo com a inocência da menina, e a confusão dela também, tudo nela o mantinha entretido, fazia tempo que não assustava humanos.
–Ogon? –Perguntou ela.
–Menina esperta. –Respondeu. –O que a traz para a minha humilde tumba? Quer saber se ainda estou vivo?
–Não. Queria saber qual a sua ligação com os meus pais e o porque de você querer fazer mal aos humanos.
–Direta que nem...
–O meu pai, eu sei disso.
–Valente ainda por cima. Mas o que te faz pensar que eu responderia as suas perguntas? Eu tenho várias coisas que podem destruir você, mas você não tem nada para me destruir.
–Não estou lhe obrigando a nada. Não venho aqui para ameaçar ninguém, apenas quero saber mais sobre o que está acontecendo, já ouvi vária versões sore a minha história, agora eu quero saber a sua versão, para eu decidir no que vou acreditar.
–Você sabe que eu posso mentir, não sabe?
–Tanto quanto sei que podes me manipular. Eu não estou com medo.
–O que te faz estar tão segura de si? O que te faz pensar que sairá viva daqui?
–Nada, eu não tenho certeza de nada, também não tenho medo de morrer.
–Você me dá pena.
–Não sou uma coitada.
–É sim. Já dá para fazer um caderno com o papel de palhaça que a sede te faz passar.
–Como assim?
–Pessoas tem o hábito de mentir, são ótimos manipuladores, principalmente quando querem algo.
–Ainda não entendo aonde você quer chegar.
–Para ouvir a minha versão você terá que abrir mão de tudo o que você sabe, eu não vou mentir, até porque eu não iria ganhar nada com isso, a história em si já é muito complicada, então você vai decidir sozinha no que pretende acreditar.
–Porque está disposto a me ajudar?
–Discórdia entre humanos me diverte, me sinto entediado aqui.
–Sua diversão é a nossa desgraça?
–É por aí.
–Você é desprezível. –Vociferou Hazel.
–Pense o que quiser. Saiba que eu não vou te contar tudo, o resto você descobrirá sozinha. –Falou. – Minha ligação com sua família vem desde o tempo que surgiu o seu primeiro ancestral, Dareon Flaming. Os humanos ao contarem a história dele distorceram a história, e eu acabei como o vilão da história, mas não foi bem assim.
–Então o que realmente aconteceu? –Perguntou a morena.
–Isso você irá descobrir sozinha. –Respondeu. –Seus pais vieram anos atrás até aqui esconder algo, não sei ao certo o que é, mas sua mãe estava desesperada e muito aflita. Seu pai escolheu esconder o que eles tinham em uma gruta a três metros daqui.
–Era um pergaminho, um muito poderoso por sinal.
–Pergaminho do quê?
–Isso você terá de descobrir sozinho. –Respondeu Hazel, entrando no jogo do dragão.
Ogon soltou uma risada, era rouca e pavorosa.
–Mas enfim...eles decidiram esconder perto de mim porque sabiam que não teriam coragem de passar por mim. Você é a primeira que fala comigo desse jeito.
–Desse jeito como?
–Como um igual.
–Como assim?
–As pessoas costumam sentir muito medo de mim, os poucos que tem coragem de me enfrentar usam sua arrogância para se sentirem superiores. Daí eu os mato.
–Eita. De certo modo quando eu era mais nova meus pais não me deixavam sair muito de casa, eu nunca tive muita liberdade por que eu era diferente das pessoas da Terra.
–Era a mesma coisa no passado, antes da Dareon, os humanos tem medo do diferente. A maior parte do tempo nós somos rotulados e tratados como lixo, sua ignorância e orgulho não permitem nos admitir como iguais, não importa qual dimensão seja, os monstros sempre são vistos como escória. Esse foi o preço que nós aqui pagamos quando eu perdi a guerra. –Contava Ogon, amargurado. –No passado éramos tratados com respeito, tudo estava em um perfeito equilíbrio. Eu fui destruído por tentar manter a paz, destruído por amar estes mundos.
–Então por que você quer nos destruir? O que você estabilizaria nos mundos senão ódio e medo? Por que fazer aquelas terras sangrarem novamente? –Questionava Hazel.
–Você tem idéia do que é ter que assistir tudo aquilo que você mais ama se destruir? Esse mundo está apodrecendo. sabe por que você está assim Flaming? Sabe por que você perdeu tudo? Por que foi isso o que eles se tornaram, os verdadeiros monstros são vocês! Não bastou nos destruir? Não foi o suficiente nos manter aqui? Não! Por que vocês continuam com medo.
Os humanos sempre foram uns fracos, ter poder não os tornou mais fortes, os tornou covardes! Vocês usam bênçãos destinadas a dragões para destruírem uns aos outros. Você foi só mais uma vítima! Por isso eu quero destruir os elementais, quero estabelecer a paz que nos foi tomada, quero o meu velho mundo de volta. Ser mau é ser isso? Ser mau significa isso para vocês?
–Não. Mas os seus objetivos podem leva-lo a desgraça de muitos, você destruiria pessoas que podem pensar como você, pessoas inocentes. O seu bem é o nosso mau, e vice-versa. Eu não tinha ideia de que os humanos eram tão maus assim, mas isso ainda pode ser concertado.
–Se vocês forem eliminados!
–Não, se resolvermos nos entender.
Ogon riu das palavras inocentes de Hazel, deixando a menina irritada.
–Você sabe que isso nunca vai acontecer né?
–Mortes podem ser evitadas se você aceitar se juntar a nós, se você souber nos compreender!
–Olhe ao seu redor! Vocês condenaram criaturas inocentes a esse inferno. “Monstros” tem os mesmos sentimentos que humanos, e todos os dias eles morrem pouco a pouco. Como você se sentiria se a prendessem aqui? Iria perdoar aqueles que machucaram tanto as pessoas que você mais ama? Seria capaz de conceder misericórdia a eles? –Questionou Ogon.
–Eu pelo menos tentaria...mudar alguma coisa. Isso só vai gerar um novo ciclo de destruição, o seu mundo vai ficar para sempre no passado. Nossa única oportunidade é batalhar por um mundo novo onde todos possam se entender, onde aja justiça para todos.
– Seria capaz de conceder misericórdia a eles? –Ogon tornou a perguntar, como se tivesse ignorado todo o discurso de Hazel.
–Eu não sei. –Respondeu a garota, decepcionada consigo mesma.
–Então descubra o que você faria, tenha um objetivo válido. Só então você será útil para mudar alguma coisa. –Disse Ogon.
–Desculpe se só tirei o seu tempo... eu só não quero que mais pessoas se machuquem. –Desculpou-se Hazel.
–Não se desculpe, você ainda é nova demais. Não tomou meu tempo por nada, eu sempre tive interesse em ter essa conversa com você, você é muito inocente e madura para a sua idade.
–Devo levar isso como um elogio? –Perguntou.
–Não se você quiser “mudar o mundo”. Você precisa ser esperta, estar sempre um passo a frente dos outros, você não pode ser inocente e se permitir ter misericórdia sempre.
–Sabe, Você é bem diferente do que eu imaginava, você só é incompreendido, assim como eu.
–Não somos não!
Hazel riu.
–Um dia nós teremos um futuro, e eu te tirarei daí. –Hazel se aproximou mais da tumba e passou seus finos dedos por cima do tampo de mármore e sorriu.
–Adeus.
–Não vai se livrar de mim tão cedo menina. Isso é um até logo!
Hazel riu e foi em direção a Petrius.
–Tem como nós irmos até uma gruta a três metros daqui?
–Tem sim. É seguro? –Perguntou se referindo a Ogon.
–Sim. –Hazel afirmou.
Então a menina montou novamente em Petrius e eles seguiram viagem.
A gruta era muito grande, toda feita de rochas, e o pior, era repleta de armadilhas, visíveis e invisíveis, Hazel nem chegou a entrar na gruta, pois tinha uma barreira que a cercava por inteiro, era “invisível”, mas Petrius conseguiu ver.
–Você tinha razão, eu não vou conseguir fazer isso sozinha. Precisaria de Levy para quebrar a barreira e de Rick para destruir as armadilhas, nós dois sozinhos não conseguiremos.
–Não se preocupe, podemos voltar para Elementary.
–Isso não iria o sobrecarregar? –Perguntou Hazel preocupada.
–Não, eu não me canso rápido, meu limite é de 4 dias, e só vamos levar 1 para ir para lá.
–1 dia? –Perguntou a morena abismada.
–Existem dois lugares para sair daqui, o segundo só eu sei, e apenas um caminho para vir para cá.
–Então vamos logo, precisamos correr.
–Ok!
–Espera!
–O que foi?
–Preciso fazer algo antes de irmos.
–O quê? Xixi?
–Não! Preciso de um pouco da magia vital desse lugar.
–Está por toda parte!
–Eu sei. –Hazel retirou a sua mochila uma espécie lácrima de extração de poder, era pequena e cilíndrica com o fundo esférico, na sua ponta havia uma tampa que protegia a “agulha” de extração.
Hazel fincou a lácrima no chão e começou a extrair a magia daquela dimensão. Era negra como a floresta.
Hazel retirou a lácrima e a guardou na lateral de sua mochila e montou nas costas de Petrius.
Dias atuais...
Hazel havia chegado nos portões da sede, Petrius havia se transformado em dragão, e repousava quieto em seus braços.
Godlyn, o porteiro, estava adormecido, então Hazel entrou despercebida na sede.
Não chamou a atenção de ninguém, e foi se escondendo por entre os chalés até chegar na enfermaria, precisava checar como Rick estava. Amanha fora a sua surpresa ao encontrar seus dois amigos lá dentro, encostou-se na porta e os observou.
–Será que sou bem-vinda aqui? –Perguntou chamando a atenção dos dois.
–HAZEL!
Levy estava com os olhos tão arregalados que pareciam que eles iriam saltar a qualquer momento, sem mais delongas Levy correu até Hazel para abraça-la, mas foi impedido por um rosnado.
Só então o albino percebeu a presença do pequeno dragão nos braços de Hazel.
–Hazel, por que você está segurando um lagarto? –Perguntou Levy.
–DRAGÃO! Olha o respeito. –Corrigiu Petrius.
Levy quase caiu para trás quando Petrius o respondeu.
–E-ele fala! –Afirmou Rick também surpreso.
–É mesmo? Fez a descoberta do ano! –Ironizou.
–Petrius, pega leve. –Repreendeu Hazel.
–Ok, ok! –Concordou.
–O que ele faz aqui? –Perguntou Levy olhando para Petrius curioso.
–Ele me salvou, na verdade Petrius é uma criatura mágica da...
–Espécie mutano, deduzo. –Interrompeu Levy tentando cutucar Petrius, mas quase levou uma mordida.
–Exatamente! –Falou Hazel. – Levy, estou muito feliz em vê-lo, mas eu poderia conversar com o Rick a sós?
O albino concordou com a cabeça e já ia se retirando quando Hazel o parou.
–Leve Petrius para comer algo! –Pediu sorridente.
–O QUÊ? –Petrius e Levy gritaram juntos.
–Não gritem! –Ralhou Hazel, a morena entregou Petrius nos braços de Levy. Os dois saíram brigando da enfermaria.
–E aí Rick? Você tá legal?
–Tô sim. Não posso dizer que fiquei feliz em te ver, mas estou aliviado que esteja viva.
–Vou tomar isso como um elogio.
–Sinto muito por você estar assim, eu deveria ter te protegido...
–Você não consegue proteger nem a si mesma, imagine a mim!
–Fala, mas não ofende, man!
–Hahaha, desculpe.
Hazel olhou para Rick com espanto.
–O que foi? –Perguntou o moreno.
–Você me pediu desculpas...MEU DEUS O MUNDO VAI ACABAR!
–Não exagera garota.
–okay...
–Desculpe.
–Pelo quê? –Perguntou Hazel confusa.
–Por ter te tratado mal. Eu te julguei sem te conhecer, pensei que você fosse igual aos seus familiares, te tratei mal por nada.
–Ah deixa disso, eu curtia brigar com você, e além do mais, eu compreendo você perfeitamente, faria a mesma coisa se estivesse no seu lugar.
–Você não me odeia? –Perguntou o moreno.
–É claro que não! Você é meu amigo! –Afirmou.
O menino ficou surpreso, e então entendeu o que sentia pela menina.
Afeição.
Rick deu um sorriso leve e segurou a pequena e suja mão de Hazel.
–Obrigada. –Murmurou sorrindo.
–Disponha. –Sorriu Hazel.
Ambos ficaram em silêncio se encarando por alguns segundos.
–Rick, eu sei que não tenho o direito de te pedir isso mas, você toparia concluir essa missão comigo e o Petrius? –Perguntou nervosa.
–Você pretende voltar? –Rick perguntou, estarrecido.
–Agora eu sei o que devemos fazer, tudo vai dar certo, mas eu preciso de você e do Levy para conseguir.
–E como vamos para lá? Isso iria demorar um tempão!
–Eu tava pensado se você não consegue me moldar uma chave... –Falou Hazel tirando da lateral de sua mochila a lácrima com magia.
Rick sorriu malicioso.
–Começamos quando?
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