O Legado Olimpiano
2 O Filho dos Doze
Notas iniciais
Após o velho ter percebido a fome com a qual eu estava, mandou Jack preparar alguns sanduíches na cozinha da Casa Grande. Percebi pela cara com a qual Jack estava com que ele estava cansado e que não estava com a mínima disposição de preparar algo, mesmo que seja uma coisa tão fácil. Ele obedeceu a ordem e dez minutos depois, trouxe dois sanduíches e um suco de laranja que estava horrível, mas fiz questão de dar outro gole, sorrir e dizer obrigado. Fiquei em sérias dúvidas se ele não havia feito isso de propósito; mas deixei passar.
Estávamos todos sentados em sofás marrons e confortáveis. As paredes da sala da Casa Grande eram brancas, rosas e de outras cores bem fracas, como azul claro, bege, etc.
Comi os sanduíches e deixei o suco por questões óbvias. Coloquei o prato e o copo na mesa de vidro que se situa na frente dos sofás, e sentei na poltrona novamente. O velho de bermuda amarela, azul e verde olhava fixamente para mim, como se estivesse tentando reconhecer algo ou alguém que há dúvidas se já havia conhecido. Que complicado.
— Bem.. Quem começa primeiro? — pergunto, afim de respostas.
Jessica não entende. O nervosismo parece ter passado.
— Digo, quem começará a responder? — silêncio. — As primeiras perguntas poderiam ser: O que raios eu estou fazendo em um acampamento? Quem são vocês? E quem são aqueles.. monstros? Que tipo de fantasia é essa em que estou vivendo? Não estou sonhando, né?! Por que aquele touro e aquele Hulk falso estavam atacando vocês? Por que eles ficaram inofensivos e depois saíram correndo? Eu por acaso sou como vocês? Por qu... — Uma porta que ficava do outro lado da sala e perto da que levava a saída, foi aberta por algo que achei ser uma pessoa. Ou um.. cavalo?
— Eu só posso estar sonhando. — me afundei no sofá.
— Olá para você também, amigo. — a voz parecia ser autoritária. Da cintura para cima era humano; com olhos e cabelos castanhos, uma barba desalinhada e sobrancelhas espessas. Sua parte inferior era a de um cavalo branco e limpo. — Creio que esteja quase ficando louco nesse tão pouco tempo que ficou aqui. Só para tirar a dúvida, eu sou um Centauro. — eu já estudei mitologia grega, e sei que Centauros são criaturas com cabeça, braços e dorso de um ser humano e com corpo e pernas de um cavalo. Ele cumprimentou o velho de bermudas, Jack e Jessica, e depois veio até mim, estendendo um aperto de mãos. Estendi a minha também. — Sou Quíron.
— Sou Andrew. — falei, um pouco perplexo. — Andrew Gall.
O Centauro se afastou e depois foi até um armário de vinhos, que ficava na parede próxima a porta. Pegou um vinho escocês, encheu uma taça e bebeu um gole.
Eu não havia visto antes, mas na mesa de vidro tem uma taça cheia de vinho também. O velho a pegou e bebeu saborosamente. Tudo se encaixou.
— Você é Dionísio. — falei para o velho de bermuda e sandália. Ele assentiu e depois levantou o dedo, esperando que alguém completasse algo importante. Jack suspirou e depois disse:
— O Deus do Vinho.
— E das Festas! — disse Jessica, desanimada.
— Voltando ao assunto — disse Quíron, chegando mais perto. —, o que houve?
Jessica contou exatamente tudo o que eu presenciei com eles, e também as coisas que aconteceram antes de eu chegar na quadra destruída. Tais como: Jack, Jessica e outras pessoas, intituladas de semi-deuses, foram atrás de pistas sobre um ex-campista desse mesmo acampamento, que havia se metido em encrenca e depois fugira daqui. Ao chegarem lá, a única coisa que puderam avistar foi a saída do próprio ex-campista, que antes de desaparecer, sorriu com um olhar de 'quero te matar, mas estou ocupado demais'. Depois da saída, monstros surgiram no local e eles começaram a lutar, quebrar mais ainda a quadra que estava destruída, até eu chegar, gritar, os monstros pararem e blá-blá-blá.
— Obrigado, Jessica, Jack. Podem ir descansar! — Quíron os despensou, e quando os irmãos iam saindo, falei:
— Ei! — ambos olharam para trás. Olhei de Dioniso para Quíron, de Quíron para Jessica e de Jessica para Jack. — Vocês vão me deixar sozinho aqui? Com o Centauro e com..
— Dionísio! — lembrou o velho, nervoso por eu tê-lo esquecido.
— Não me diga que você se aperfeiçoou aos Jordan? — Jordan deveria ser o sobrenome de Jessica e Jack. Afinal, por que tanto J?
— Não. É que.. — Jessica deu um suspiro longo e me olhou confusa. — Deixa para lá. Podem ir. Obrigado por me salvarem na quadra.
Ambos saíram da Casa Grande e logo só sobrou eu, o Centauro e o Deus do Vinho.
— Olha, o que é tudo isso?
— Meio difícil de aceitar, mas vamos lá, né. — disse Quíron, começando a explicar. Finalmente estávamos chegando a algum lugar. — Bem, sabe a mitologia grega? Sabe os deuses? Os semideuses? As criaturas? — assenti com a cabeça. — São todos reais. Tudo é real, e é escondido dos humanos, que chamamos de mortais, há muitos, mas há muitos anos!
— Continue. — a mitologia era um dos meus assuntos favoritos. Foi como um choque ao ouvir ele falar tudo isso.
— E há monstros que caçam os semideuses. Não pense que eles são bonzinhos. A única coisa que eles querem é nos matar. Os monstros anseiam pelo sangue derramado de um semideus.
— Hã.. Sem..
— Semideus: Uma pessoa meio humana e meio deus. Ou seja — disse Quíron. —, semideus ou semideusas são filhos de um mortal com um imortal; um deus. Quase todos os deuses tem filhos. Alguns poucos, outros tem muitos! Aqui nesse acampamento é um lugar em que essas pessoas ficam. Aquela barreira que você deve ter percebido lá na trilha é uma barreira mágica que nos protege dos monstros afora.
— Eu sou um semideus?
— Não sabemos. Provavelmente é sim. Mas...
— Meus pais... eles não são deuses. Como seria possível?
— Quem são seus pais? — pergunta Dionísio.
— Lilian e Matheus Gall. — o queixo de Dionísio quase caiu quando falei isso. — O que foi?
— Hã.. nada, nada. — ele estava escondendo alguma coisa, mas Quíron voltou a falar.
— Existe a possibilidade de um deles não serem seus pais, Andrew. — Quíron também estava olhando para Dionísio, que continuava perplexo, mas continuou a falar. — Sinto dizer, mas você viu os monstros. Um mortal não veria um monstro, e sim algo como um cachorro grande, ou até mesmo nem perceberia alguém lá. O mais provável é que você seja sim um semideus, mas eu não conheço nenhum deus chamado Matheus Gall ou Lilian Gall.
— Não.. eles são meus pais. Tem de serem!
***
Dionísio e Quíron acharam melhor eu dormir no acampamento. Me disseram que era muito para processar e que tentariam obter mais respostas sobre o assunto Eu. Eles me deixaram com uma semideusa loira dos olhos castanhos. Ela se chamava Tayne e me levou por entre o acampamento até um lugar onde doze grandes casas, denominadas de Chalés 1 até o 12. Cada chalé era diferente, com suas próprias características, cores e etc. Não prestei muito em atenção nos outros onze, mas sim no que Tayne disse que eu iria ficar. O Chalé 11, de Hermes. Ela me explicou que os novatos ficavam lá até serem reclamados — quando são anunciados para todos saberem de quem se é filho — ou se forem mesmo filhos do próprio Hermes. Tayne me disse que costumam ser brincalhões, mas que hoje eles trabalharam muito construindo algo na floresta, dentro dos limites da barreira. Por isso estavam quase todos dormindo, ou conversando baixinho. Ela saiu, mas antes disse que eu ficaria com qualquer cama ali. Respondi um boa noite, mas ela acabou não ouvindo, então prossegui, até achar uma cama vazia e me jogar nela. Havia um cobertor no fim da cama, me cobri até o pescoço e olhei para cima. Era uma das únicas camas que não eram beliches ali no Chalé 11. Pude ver o teto e também o céu, através de uma janela. Foi com aquela visão que virei para o lado e dormi feito uma pedra.
***
Em meu sonho, vejo cenas e imagens diferentes sobre um único assunto. No começo, vejo uma BMW preta sendo dirigida por um homem — cabelos loiros, olhos castanhos e barba recém-cortada — em uma estrada com pouco trânsito e com uma vista sensacional. De um lado, só mato, do outro, também. As árvores vão de um verde a um amarelo e vermelho fraco. No banco traseiro, uma mulher — cabelos pretos, olhos verdes e com uma cara alegre — segura um bebê de poucos cabelos castanhos, olhos de cor ainda indeterminada, pois uma hora parece castanho escuro e outras azul escuro. É confuso.
O céu está em um azul forte com nuvens branquíssimas. Nada poderia estragar aquele momento. O nascimento de um filho é especial. A chegada do pai, mãe e filho em seu lar deve ser maravilhoso. Todos em casa.
— Não. — a voz do homem no banco da frente é de pânico. A mulher não entende, mas percebe que as mãos descontroladas do marido tocam no volante sem parar. Os pés estão sendo empurrados contra o piso do carro. O freio. Mas nada funciona.
— Isso não pode estar acontecendo. — ele olha pela janela do carro e se assusta ainda mais. O carro saiu do lugar onde deveria estar. Uma grande ponte ainda não finalizada pelas obras se encontra a alguns metros do carro. Outros automóveis passam de raspão pela BMW.
A mulher tenta se acalmar, pensando mais no filho do que em tudo no mundo. Ela o beija e diz algumas palavras. O pai tenta virar o volante, mas de nada adianta. Ele pega o filho do colo da mãe, que se prepara para o pior, e lhe dá um beijo demorado. Segura o filho como se estivesse segurando a própria vida, e todos juntos, colidem com ferramentas, madeiras e várias coisas que estão pela frente, até o carro cair em direção ao rio.
Não ouço mais nada. Só vejo imagens indo e vindo da minha mente. Consigo ver um carro debaixo d'água. Sangue. A mulher com um ferimento na cabeça. Água. Muita água. Mais sangue. Alguém se mexendo. Algo passa pelo vidro e sobe para a superfície da água. O pai agarrado ao bebê. Um bebê sem arranhão nenhum. Um pai sangrando. Algo dourado na água. Sangue. Água gelada. Tudo isso vem como um turbilhão, fazendo eu voltar tremendo e gritando a realidade.
— Não! Não! — tiro a manta e saio da cama, caio no chão mas continuo indo para trás. Minhas costas colidem com a parede. Ouço passos vindo de vários lugares. As outras pessoas acordam, pensando que é tudo uma brincadeira, já que estão no Chalé de Hermes e estão acostumados com pegadinhas e coisas do tipo. Mas não é. Eu tremo fortemente. Era como se eu estivesse lá. Como seu estivesse lá há um minuto atrás.
Ouço mais passos vindos. Minha boca treme sem parar. Dos meus olhos saem lágrimas que há muito tempo não saiam. Uma. Duas. Sete. De repente, mais de quinze pessoas param ao meu redor e me olham. Alguns perguntam o que aconteceu, mas não consigo responder. Olho para cima e vejo que falta pouco para o sol começar a raiar sobre nós. Todas as luzes são ligadas. Posso ver que a metros e metros, pela brecha da porta quase aberta, que os outros chalés também estão com luzes acesas. Vejo mais pessoas. A garota que me trouxe está voltando para me tirar daqui. Ela olha assustada para mim. Como se algo de muito errado havia acontecido. Tayne e outra pessoa me ajuda a levantar enquanto outra grita para as pessoas saírem do caminho. Ontem não dava para perceber por eu estar com muito sono e ter dormido em uma cama consideravelmente próxima a porta, mas agora vejo que há muitas pessoas. O Chalé 11 é enorme; simplesmente está lotado de semideuses.
— Eu.. consigo ir sozinho agora. — Tayne e o garoto me soltam. — Obrigado. — agora saímos do Chalé de Hermes e nos esbarramos em outras pessoas. Apenas algumas pessoas de outros chalés acordaram e saíram para ver o que estava acontecendo.
Quíron e Dionísio vem até nós. Quíron de longe fica perplexo. Dionísio nem tanto. Nos aproximamos deles.
— O que aconteceu?! — pergunta Quíron, incerto.
— Eu sonhei que estava em um acidente. Eu acho que era o mesmo acidente em que meus pais morreram. Mas... eu tinha dias de vida. Não poderia me lembrar de algo assim! — tremi mais um pouco. Dessa vez acho que foi pelo frio que fazia. — Imagens. Várias imagens. Muito sangue..
Dionísio olhava para o meu rosto. Eu ainda estava chorando. Pouco, mas estava.
— Por que vocês estão tão... perplexos? — pergunto, tentando me acalmar. A luz do sol começa a penetrar sobre nós.
Tayne toca no meu rosto e de repente vejo algo dourado no dedo dela. A mesma coisa dourada que estava na água, quando sonhei. Enxuguei meu olhos com a mão e depois vi algo líquido. Era como a lágrima, só que dourada.
— Dionísio, eu tenho quase certeza de que você sabe alguma coisa. — digo, porque é o que a cara do velho demonstra.
Quíron se volta contra Dionísio e o próprio deus fica sem saída.
— Você é o Filho dos Doze. — ele me diz isso, como se eu soubesse o que significava.
Fale com o autor