O Legado Elemental
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Capítulo 1 — Mais Açúcar no Chá, Por Favor
Belle corre o dedo pela página amarelada, delineando as palavras quase apagadas por completo. Inspira profundamente, deixando o leve cheiro de poeira tomar-lhe as narinas. É um livro antiquado, com suas páginas manchadas cheias de orelhas e uma capa de couro gasto. Mas para ela, uma relíquia. Um velho ancião que compartilha sua sabedoria com os outros. Revelando seus segredos, desvendando seus mistérios. Por décadas, talvez séculos, ela pensa assim.
Coloca uma colher de açúcar em seu chá.
E Christa, sua meia-irmã mais nova, caçoaria e diria que está agindo como uma solteirona obcecada por velharias. Belle daria de ombros, ignoraria, e voltaria a admirar seu mais novo tesouro recém-descoberto no lôbrego porão de Helena, sua tia.
Helena, com certeza uma de suas únicas amigas e, além de Christa, seu único parente vivo. A mãe se suicidara, atirando-se ao mar e o pai desconhecido era uma figura morta e enterrada para ela. Não acho racional sentir falta de alguém que nunca conheceu e que, na melhor das hipóteses, nunca existiu. Ela repetira isso incontáveis vezes para curiosos e xeretas. A minha tia criou a mim e minha irmã sozinha, e isso é o bastante.
Belle sacode a cabeça e manda – silenciosamente – a si mesma que pare de divagar. Folheia o livro com cuidado e faz uma careta de desgosto quando avista, em uma das páginas, uma mancha onde alguma xícara de café fora apoiada.
— Descuidados — resmunga. Afasta o livro e leva a fumegante xícara de chá aos lábios — Mais açúcar — sussurra para si mesma. Adiciona uma colher de açúcar ao chá.
No auge dos seus vinte e um anos ela não está festejando, nem fazendo compras no shopping e muito menos saindo com pessoas. Sua vida se baseia apenas em estudar e trabalhar como recepcionista em um hotel. Careta, diria Christa, você é supercareta. Belle pergunta o por quê de ainda escutá-la.
Bufa, exasperada, e acrescenta mais uma colherada de açúcar.
— Isso é sinal de nervosismo.
Assusta-se e vira para encarar a simpática atendente.
— Perdão, o quê? — franze a sobrancelha.
— Ficar acrescentando mais açúcar — oferece-lhe um sorriso de compreensão, como se já tivesse passado por isto milhares de vezes — O chá vai esfriar e ficar doce demais.
— Ah, claro — Belle afasta repentinamente a mão que já serpenteava em direção ao açucareiro, a sobrancelha ainda franzida e uma frase grosseira na ponta da língua, não acho que seja da sua conta. As palavras são engolidas antes que escapem.
— Deseja mais alguma coisa? — ela ainda sorri e fala lentamente, como se Belle fosse algum tipo de pessoa mentalmente inválida.
— Ah... hum... um muffin de mirtilo, por favor — ela titubeia, desconsertada.
A atendente anota num bloco de papel e se retira, não antes de lançar um daqueles sorrisos irritantes em direção a ela. Belle sorri sem graça de volta e torna a ler seu livro, tão absorta nas palavras que não nota quando um garoto traz seu pedido.
— "Tenho de proclamar a minha incredulidade. Para mim não há nada de mais elevado que a ideia da inexistência de Deus. O Homem inventou Deus para poder viver sem se matar" — uma voz grave soa do seu lado.
Belle fecha o livro com um baque, o segundo susto em alguns minutos, e olha por cima do ombro, para atendente segurando um prato com um belo muffin e um sorriso astucioso marcando os lábios.
— "A verdadeira verdade é sempre inverossímil; para lhe dar verossimilhança é preciso misturar-lhe um pouco de mentira" — ela dá um sorrisinho irônico — Você errou. Os Possessos, não O Idiota.
— Ainda sim é Dostoiévski — ele inclina-se e deposita o prato na mesa, um olhar sagaz desafiando-a a perguntar como ele sabe.
Belle solta uma risada com a expressão dele.
— É agora que você tira o coelho da cartola? — e balança a cabeça, sinceramente divertida. Apesar de tudo, Belle é uma pessoa fácil de agradar. — Está escrito na capa.
Ele põe a mão sobre o peito, como se levasse um tiro, surpresa e sofrimento exagerado expresso na face. Belle ri mais alto.
— Ainda não cheguei à esse nível de habilidade — ele sorri, envergonhado — Sou Anthony Lawlor. Muito formal dizer o sobrenome, eu sei, mas espero que você também me diga o seu, então poderei persegui-la incansavelmente.
— Belle Shaw — os lábios se estendem pra cima, sobre os dentes brilhantes, enquanto aperta sua mão estendida.
— Belle — ele testa o nome da boca com um sotaque francês não muito convincente — Bela em francês. Uma bela interessada em existencialismo russo?
— Uma fã de Nietzsche e Dostoiévski fervorosa — ela diz — Também gosto de romance alemão — explica, dando de ombros.
— Scheisse! — ele exclama, teatralmente — Pretendia lhe impressionar com todo o meu conhecimento literário, mas não sei nada sobre Nietzsche.
— Uma pena, estava quase me impressionando com sua habilidade linguística — e então, completa, revirando os olhos e lançando um sorriso brincalhão — E com sua ótima capacidade de vidência.
— Lisonjeado — Anthony ri e esfrega as mãos no avental — Gostaria de ficar e ouvir mais elogios caridosos de sua parte, mas o dever me chama. Aproveite o muffin, senhorita Bela Shaw — ele sai andando até sumir atrás de uma porta nos fundos.
— Anthony Lawlor — ela repete em voz baixa, sorrindo ao pensar em seus modos divertidos. Põe mais uma colher de açúcar no chá. Ela mistura, mas não leva a xícara aos lábios — Vou me lembrar disso.
Belle termina de devorar seu muffin e deixa uma nota em cima da mesa. O sino da porta toca quando ela sai da cafeteria. O chá fica frio e a atendente volta com um muffin em um prato, olha confusa para a mesa vazia, dá de ombros e retira a xícara.
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