O Legado Elemental
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Capítulo 4 — Instinto
Belle está na estrada, dirigindo rapidamente. Ciente de que com sua pouca experiência, não conseguiria liberar um fluxo de energia por vontade própria, ela havia bolado um plano. Este sendo passado e repassado na cabeça, não muito complicado, porém podendo ser fatal. Ela sabe que o poder seria como a adrenalina, correria por suas veias quando seus instintos animais mais primitivos fossem acionados, o instinto de sobrevivência.
Seu poder pode ser controlado, é claro, tanto que aos poucos ela conseguiu dominar uma parte dele, mas Belle sabe que muito desconhece a si mesma. Como, por exemplo, permitir que ele saia livremente, porém controlado, trabalhando a seu favor. Quando se trata do que pode ou não fazer, ela é circunspecta.
— Todavia terá de ser assim... Ao menos por enquanto — suspira.
Ela havia deixado todas as suas coisas em casa, inclusive sua adorada coleção de CDs de música erudita e rock anos 80, estilos que para muitos seria uma discrepância, para ela representa tudo que mais ama. Rachmaninoff não deve tocar bem embaixo d’água, pensou mais cedo enquanto retirava tudo do carro. Deu uma risada, que não saberia dizer se era de desespero ou porque fora uma boa piada. Ela duvida um pouco da segunda alternativa, mas sempre fora uma pessoa otimista, então prefere pensar que seria uma grande candidata a stand-up.
Agora, na estrada, com expectativa de não ter intenção alguma de voltar atrás, apesar do tremor e do frio na barriga, ela encara o asfalto com firmeza. Seu sucesso depende de quão perto da morte ela pode chegar sem ultrapassar a linha entre esse mundo e o outro.
— Se é que existe mesmo outro mundo — reflete.
Belle percebe que expressar seus pensamentos em voz alta a faz sentir-se melhor e menos solitária. Aproveitando a oportunidade, se desculpa com o carro por o que está prestes a fazer a ele.
Se não funcionar, pensa, meu testamento está em cima da mesa de cabeceira. Tudo será doado, sem exceções. Esse pensamento ela prefere manter na cabeça, acredita que as palavras têm poder.
— Mais uma vez — questiona a si mesma, coisa que vem fazendo com frequência neste mês — Por que estou fazendo isso mesmo?
Para sair do escuro, concluiu quando entrara no carro, então as palavras já se tornaram um mantra, repetindo-as agora com uma suposta convicção.
Belle está confusa, fora isso que a levara até ali, não entende quem é ou o que. Apesar de sentir-se solitária, tem conhecimento de que há outros, pode senti-los conectados a ela desde que nascera, e logo outros mais nasceram e foram conectando-se à sua teia. A ligação entre eles é como um imã, tentando atraí-la para lugares diferentes, lugares desconhecidos, porém o magnetismo é fraco e pouco preciso, indefinido. Ela não quer mais sentir-se sozinha.
Algumas semanas antes tivera uma conclusão: encontrá-los-ia. Já há um canal, raciocinou, por onde ondas de energia chegam a mim. E há os transmissores, incluindo eu. É uma via de mão dupla. Só preciso amplificar as ondas que envio e assim talvez eu consiga localizar os receptores com precisão, seguindo o rastro da minha própria energia. O plano parecia simples, mas ela precisaria de muito poder, o poder que ela não sabe liberar ou controlar. Contudo, teme que, se puder encontra-los, eles possam encontra-la também. Belle não tem certeza se pode confiar neles.
O silêncio começa a incomoda-la, e temendo que ele aumente seu nervosismo e a faça hesitar, ela liga o rádio e sintoniza em uma estação que nunca vira. A melodia preenche o espaço, acabando com qualquer resquício de silêncio e solidão. Ela não reconhece a música, mas o vocalista, em um tom barítono profundo, canta tão apaixonadamente que ela sente-se completada novamente, hipnotizada, deixa-o guia-la pelos acordes do baixo e, mais rápido do que ela gostaria, a música acaba. Só agora, desperta, percebe que falava sobre seguir os instintos, nunca desistir e manter-se vivo.
— É um sinal — conclui — E quando eu voltar para casa, viva e vitoriosa, descobrirei que música é essa! Prometo a mim mesma — porque não tem mais ninguém a quem prometer — e prometo ao vocalista, apesar de que não acho que vá fazer diferença a ele.
Estivera tão concentrada na música que nem notara que já se aproxima de seu destino. Para o carro, respirando fundo e encarando corajosamente a enorme boca do penhasco, pronto para devora-la sem hesitação. As ondas audíveis lá em baixo, chocando-se furiosamente contra as pedras afiadas, os dentes do monstro. Pergunta-se se essa vontade de pular se desperta em todos que encaram do alto o que os espera logo abaixo ou se é apenas consigo.
— Vai funcionar — declama para si mesma, e ao notar o tremor descontrolado das mãos, aperta o volante com força e repete com mais convicção — Vai funcionar!
E com chamas dançando nos olhos, ela muda a marcha e afunda o pé no acelerador.
O carro cruza rapidamente a distância e cai no vazio.
A boca escancarada do penhasco os engole.
As ondas afoitam-se, mais ruidosas agora, ansiosas para toma-la.
O frio no estômago toma-a quando ela fica a mercê da gravidade e começa a cair em alta velocidade. Presa pelo cinto, ela vê o mar aproximar-se rapidamente em um borrão espumoso azul e negro. Quando o veículo atinge a água com violência, o tranco a joga para frente, o rosto bate contra o volante, e o cinto a puxa de volta com tanta força que ela fica nauseada e choca a cabeça contra o estofado. O pescoço estala ruidosamente e, sentindo o gelo percorrendo a espinha e a nuca e o sangue escorrendo pelo rosto, o terror finalmente encontra a porta de entrada e preenche cada poro de seu corpo. Tonta e enjoada, bile sobe por sua garganta. O pânico ameaça reivindica-la.
Sem demora, a água começa a entrar depressa pela saída de ar, enquanto o carro afunda impressionantemente rápido. A pressão o esmaga cada vez mais, rachando as janelas e reduzindo a cada segundo a possibilidade de escapatória de Belle. Com o rosto colado no teto do carro, sorvendo o máximo de oxigênio possível, este se retorcendo a sua volta em um monte de sucata distorcida, ela já perdia as esperanças e as forças. No último momento, enchendo os pulmões com o último resquício de ar...
Ela sente.
Invadindo-a como uma avalanche, tomando-a, preenchendo-a, irradiando e expandindo-se pelo mundo, puxando as teias com força suprema, ecoando.
XXX
Sorrindo para a plateia extasiada, a garota salta do trapézio com tal leveza que mais tarde os espectadores jurarão que ela estava voando. O suor brilhando na pele negra, os lábios rubros abertos em um sorriso malicioso, os olhos escuros e profundos desenhados com Kohl provocando a plateia, as tranças coloridas flutuando a sua volta com a sincronia de seu corpo, a roupa decorada com pedaços de espelhos refletindo as luzes e cores – ou a falta delas — para todos os lados enquanto ela dá piruetas no ar, o corpo tenso como um aríete, os braços estendidos. Sabine era uma visão indescritível, mágica e sombria, destacando-se até naquele circo obscuro.
Quando a onda de poder chega, rápida e pujante, ela ainda está no ar, pairando, os dedos esticados para alcançar as mãos do parceiro a centímetros de distância.
Então ela cai.
XXX
Ash afunda na banheira.
Uma forte pressão no peito a impede de emergir. A água jorra para fora quando ela se debate desesperada, o fôlego se esvaindo aos poucos, torturando-a lentamente, tentando fazê-la desistir. O cabelo se agita na água e embola em seu rosto e pescoço. A adrenalina corre tão rápida em suas veias que ela nem nota a libertação de seu poder, ou a forma como a água borbulha e o vapor sobe e escapa pela janela, como nubla e transforma o banheiro em uma sauna.
Ela finalmente toma fôlego com profusão. O chão inundado.
A banheira já totalmente vazia.
XXX
Lorcan acorda de repente. O suor escorrendo pela testa. O pavor acelerando o coração, que açoita suas costelas, como se quisesse escapar do peito.
Sobressaltado, cai de costas no chão, perdendo o ar. Ainda pode sentir a energia percorrendo seu corpo. Puxando-o. Para onde ele não tem certeza, mas sabe que quem a projetou estará lá, esperando por ele. Estremece – ainda no chão, esperando a respiração ajustar-se – ao pensar que alguém tão poderoso possa estar ligado a ele, como Henri está, possa localiza-lo, e já imagina por que.
Só não consegue imaginar quem.
XXX
O garoto não entende como ou porque aquilo havia acontecido. Em um momento eles estavam se divertindo, o namorado, Marcell, fizera pequenas luzes flutuarem e dançarem pelo ar, e no outro seu companheiro estava caído contra parede, lançado com tal força que jazia inconsciente, os cabelos brancos como nuvens – começando a manchar-se de sangue – caídos no rosto sereno. As luzes se apagam uma a uma, deixando-o sozinho no escuro.
XXX
Mal se mantendo de pé, Henri tenta controlar a respiração frenética. A força não o impulsionara fisicamente, mas quase fizera seu coração parar. Ele sabe que aquilo é uma convocação, sabe de quem é. Ela o está atraindo e a todos os outros, percebe. Henri não dá explicações antes de correr em direção à energia, para onde ela pulsa intensa e atraente, chamando-o. Atraindo-o. Se para uma armadilha, ele não sabe, mas mesmo que tente, nunca conseguiria fugir. Não se pode fugir do destino, uma vez dissera seu mentor.
E, finalmente, ele entende que não deve.
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