O Legado
1 Prólogo
A tempestade havia cessado, porém, o vento voltava a se agitar aos poucos. O céu, de um azul escuro e profundo, trazia consigo nuvens carregadas que vez ou outra, ao colidirem, emitiam um forte clarão quase capaz de iluminar a floresta.
Frederick sentia a grama ainda úmida sob seus pés descalços, sentia a terra aliviar a dor das feridas causadas pelas pequenas pedras e galhos secos em que pisara durante todo o tempo que caminhara pela floresta. A lama e o suor, impregnados nas vestes surradas do jovem, já haviam deixado de lhe incomodar e mesmo o cheiro fétido que exalava não parecia mais lhe enfadar. A cada passo os pés sujos de sangue de Frederick pareciam doer menos, ele pensou que em pouco tempo deixaria de sentir os próprios pés e caminhar tornar-se-ia mais fácil.
Antes, porém, que isso acontecesse Frederick finalmente avistou a caverna que, reza a lenda, era a moradia de Eve, uma mulher que fora expulsa da aldeia há anos, acusada de praticar bruxaria.
A gruta escura escondia-se sob as raízes expostas de uma grande árvore sem vida no meio de dezenas de outras árvores igualmente mortas, a névoa baixa cobria toda a extensão do local dando-lhe um ar melancólico e dificultando a visão mais nítida da concavidade, a relva que crescia ao redor do terreno completava o ar sombrio e nauseante do lugar. Frederick sentiu um arrepio gelado percorrer seu corpo no instante em que ousou se aproximar da caverna. Ficou parado na frente da gruta por vários minutos, estava ciente de que sua jornada até ali tinha um propósito e havia sido difícil demais para desistir agora. Recuou com cautela instintivamente, era como se seus pés lhe dissessem para ignorar a dor e correr o mais rápido que pudesse suportar.
Respirou fundo e decidiu que ir até lá havia sido uma loucura. Olhou por cima do próprio ombro, parecia que durante os poucos minutos que permanecera parado diante da gruta a floresta ficara mais densa e a trilha que o levara até lá havia desaparecido na escuridão. Pensou, porém, que estava mais do que acostumado a locomover-se no escuro da noite e que traçar o caminho de volta para casa não seria o maior de seus problemas no momento.
Virou-se de costas para a caverna com a intenção de sair daquele lugar medonho, mas antes que começasse a caminhar seu corpo foi inteiramente tomado por uma súbita fraqueza, ele caiu ao chão de joelhos e apoiou as mãos sobre as coxas doloridas pelo exercício da caminhada, mais uma onda de fraqueza percorreu seu corpo e dessa vez veio acompanhada de uma forte náusea. Ele tentou se levantar, mas as pernas não respondiam, ergueu a cabeça e olhou ao redor o cenário desfoque oscilou à frente de seus olhos, outra forte onda de náusea percorreu seu corpo fazendo-o vomitar sobre a relva. A sensação que tinha era de que morreria naquele momento, nunca em sua vida sentira qualquer coisa parecida com aquilo.
Fechou os olhos impedindo que o cenário continuasse a oscilar e lhe causar tontura. Respirou fundo. Sentiu enjoo. Seu olfato parecia ser capaz de detectar qualquer odor, até mesmo o cheiro das roupas maltrapilhas sujas de barro e suor, que antes não o incomodava, agora se misturava ao cheiro da grama molhada e do próprio vômito fazendo-o querer vomitar ainda mais.
O vento começou a soprar mais forte espantando os maus odores. Frederick limpou a boca com as costas da mão direita e abriu vagarosamente os olhos. O cenário voltou a ficar nítido e a sensação de fraqueza aos poucos passou. Esforçou-se para ficar de pé.
Olhou assustado para a caverna, parecia que ela não o deixaria ir embora dali. Percebeu uma leve agitação brotar do meio da névoa. Cerrou os olhos para tentar descobrir o que causava aquela agitação.
De dentro da caverna começaram a surgir milhares de aranhas negras, do tamanho de azeitonas, que se agitavam na direção de Frederick. Assustado ele recuou alguns passos e parou no instante em que as aranhas também pararam, ficando a menos de um metro dele. A entrada da caverna, a relva ao redor e metade da árvore morta estavam tomadas pelas pequenas aranhas.
Outra sombra começou a agitar-se no interior da caverna, dessa vez parecia ser maior do que uma aranha. Frederick levou involuntariamente a mão direita até o punho de couro do punhal preso à cintura.
A silhueta aos poucos tomou a forma de uma mulher. Ela era baixa, os cabelos negros e desgrenhados se espalhavam pelo chão, a pele era quase azul como a de um cadáver, os olhos estavam cobertos por uma tira de couro preta amarrada atrás da cabeça, usava um vestido preto, volumoso e surrado que deixava o colo a mostra. Apesar de tudo não parecia ser velha. As mãos pareciam delicadas e as unhas eram compridas. Ele ficou a fitá-la no meio das aranhas percebendo que a mulher tinha grande intimidade com aqueles animais repugnantes que se penduravam em suas vestes e em seus cabelos sem que ela se importasse.
Ele respirou fundo e tentou fazer com que a voz saísse firme:
— Você é Eve?
Os lábios machucados da mulher abriram-se em um sorriso macabro revelando dentes pontudos e amarelados.
— Solte o punhal Santtori. — A voz dela não combinava com a aparência, era suave e aguda de uma forma quase sonora.
Frederick olhou para o punhal e percebeu que ainda o segurava com força, ergueu a cabeça voltando a olhar para a mulher relutante em largar seu punhal. A bruxa desfez o sorriso. Frederick sentiu sua mão direita ser arranhada e rapidamente a retirou de cima do punhal, olhou para traz de relance e viu a bruxa retirar o punhal de sua cintura. Quando seus olhos se dirigiram de volta para a gruta a mulher estava na mesma posição da última vez em que olhara como se jamais tivesse se mexido, porém, segurava na mão esquerda o punhal que arrancara da cintura de Frederick e levou aos lábios a mão direita lambendo das unhas o sangue do arranhão que provocara no rapaz.
Frederick levou alguns minutos para acreditar na velocidade com que a bruxa havia se movido. Tentou não parecer assustado quando fitou Eve, mas era evidente que a bruxa conseguia ver além das expressões de seu rosto. Os lábios da mulher se torciam no que o rapaz julgou ser um sorriso debochado.
— Sei por que está aqui Santtori! — Disse Eve.
Frederick apoiou um dos joelhos no chão e abaixou a cabeça mostrando que respeitava a figura à sua frente. Eve pareceu não gostar da reverencia feita pelo homem e mandou que ele se levantasse do chão.
— Se sabe por que vim, então também deve saber que farei qualquer coisa por isso.
Eve abriu um largo sorriso e com o dedo indicador convidou Frederick para chegar mais perto. Ele aproximou-se, as aranhas no chão abriam caminho para seus pés, ele parou de frente para Eve que estendeu a mão direita pousando-a sobre o ombro do rapaz.
— Tem certeza de que está disposto a pagar qualquer preço, Santtori?
— Eu não possuo nenhuma riqueza, nenhum bem de valor. Mas farei o que a senhora desejar.
A bruxa deu uma volta ao redor de Frederick como se o examinasse, voltou a parar na sua frente dessa vez mais próxima ao jovem. A mão esquerda ainda segurava o punhal do rapaz, a mão direita deslizou suavemente pela face do mesmo e se instalou em sua nuca. Eve ergueu o punhal rasgando a manga da blusa de Frederick.
— Se está realmente disposto a pagar qualquer preço... — Ela dizia enquanto rasgava a carne do braço do rapaz com o punhal. — Volte daqui a quatorze dias, na lua cheia... — Frederick sentiu a dor percorrer seu corpo, cerrou os punhos tentando não gritar. Eve parecia se divertir com a situação. — Volte daqui a quatorze dias Frederick Santtori e eu lhe darei o que você merece.
Ao terminar a frase Eve cravou o punhal no abdome do jovem e se afastou do mesmo observando o sangue de Frederick escorrer.
Frederick sentiu um choque de dor e abriu os olhos, estava de volta ao chão, caído de joelhos e vomitando. Olhou em volta e a floresta continuava igual sem qualquer indício de vida humana ou animal. Ele levou a mão até a cintura, o punhal estava lá do mesmo jeito que o havia colocado antes de partir para a floresta.
Olhou em volta novamente, não viu as aranhas, não viu nenhuma mulher e até mesmo a neblina desaparecera. Aproximou-se da gruta confuso, poderia jurar que tivesse visto Eve, que ela falara com ele, que lhe esfaqueara bem ali na frente da caverna.
Inconformado ele se virou para a floresta e deu de frente com a trilha que o levara até ali, começou sua caminhada de volta para a aldeia quando sentiu uma leve ardência no braço. Ergueu a manga da blusa e viu, cravado em sua pele, a marca disforme: “14”.
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