O Legado

2 A Púrpura de Wenlock


Notas iniciais
- Existe uma espaço cronológico e uma mudança de cenário considerável do primeiro capítulo em relação ao prólogo, embora pareça estranho no começo é algo proposital.

Much Wenlock, Inglaterra, 1713.

Much Wenlock é uma pequena cidade rural situada na zona oeste da Inglaterra entre Bridgnorth e Shrewsbury, sendo essa última a capital do condado de Shropshire. É uma cidade fria e escura, envolta em brumas. Mas, apesar do clima pouco estimulante, é um lugar repleto de deslumbrantes construções onde vivem nobres famílias. É também a cidade perfeita para a família Santtori, uma tradicional e ilustre família inglesa, muito respeitada entre os nobres e querida pelos habitantes da charmosa Wenlock.

O Duque de Wenlock, Frederick Santtori III, vive com suas duas filhas e seu filho mais moço na magnifica mansão dos Santtori, conhecida na cidade como “A Púrpura de Wenlock”. Apelido dado devido aos jardins da frente compostos de flora diversa cuja predominância está nas rosas vermelhas sempre bem cuidadas que fariam a propriedade parecer ilhada em um oceano carmesim; não fossem os gramados e o alvo mármore da majestosa fonte que preenchia o centro do jardim. Um campo aberto se estendia atrás da propriedade, e nos limites do descampado iniciava-se o bosque.

Todavia, a maior beleza da Púrpura de Wenlock não estava nos bosques, nos jardins nem tampouco na fonte, mas sim na filha mais velha do Duque de Wenlock, Eleanor Marie Santtori. Uma jovem cujas madeixas douradas ondulavam até a cintura, a pele pálida e macia contrastava com um leve rubor nas bochechas, as longas pernas e o corpo esguio lhe davam uma aparência elegante e a íris azulada era o mais próximo que os moradores de Much Wenlock chegariam de olhar para o céu límpido.

O Duque de Wenlock apreciava passear pelo centro da cidadezinha de braços dados com sua adorada filha. Os dois sempre passeavam durante o pôr-do-sol, seguidos por duas damas de companhia encarregadas de segurar as sombrinhas que protegiam pai e filha dos resquícios de luz solar.

A jovem estava sempre elegante com o cabelo penteado para trás e parcialmente preso ao topo da cabeça enquanto o restante caia-lhe sobre os ombros e costas, usava um vestido azul claro, de mangas cumpridas, fechado do pescoço aos pés que pendia largo do quadril para baixo e luvas de linho brancas protegendo as mãos.

Naquela noite de 15 de julho, Eleanor e o pai caminhavam pelo centro de Much Wenlock, sem a presença das damas de companhia, quando foram interceptados por um mensageiro com uma carta para o Duque de Wenlock. O Sr. Santtori recebeu a carta do mensageiro e a examinou. Eleanor também a examinou de forma discreta e reconheceu o selo de seu tio o Conde de Leeds, pai de seu primo e noivo Albert Santtori.

— Uma carta de meu tio?! De que assunto se trata papai? — Perguntou Eleanor sem conseguir disfarçar a ansiedade por saber possíveis notícias de Albert.

O Duque guardou a carta no bolso interno da casaca.

— Venha Eleanor, vamos voltar para a carruagem.

A jovem consentiu com um movimento discreto da cabeça. Logo que voltaram à carruagem o Sr. Santtori retirou a carta do bolso da casaca e rompeu o selo, puxou para cima os papéis escritos e deixou o envelope atrás das folhas enquanto lia o seguinte:

“Leeds, Condado de West Yorkshire, 10 de julho de 1713.

Digníssimo Duque de Wenlock.

É com imensa satisfação que venho por meio deste convidar a vós e a vossa família a comparecer à minha residência em Leeds, na próxima Lua Crescente, para o baile em homenagem ao centésimo trigésimo quinto natalício de meu filho Albert Philip Santtori, seu afilhado e futuro genro.

Data em que intento trazer a público para nossos familiares e distintos amigos, o compromisso matrimonial de minha queridíssima sobrinha Eleanor Marie Santtori com meu único filho, e homenageado da noite.

Sabendo-se que a cerimônia de união ficara acertada de suceder-se em minha vivenda, convido-vos também a passar conosco os dois últimos meses que antecedem o casório para que planejemos os aprestos necessários para a realização do evento, e os dez dias de festividades, em honra ao vindouro casal, que precedem a celebração da união de nossas proles.

Partindo do pressuposto de que vós aceitareis a este convite, adiantei-me em invitar desde já alguns de nossos prezados parentes mais distantes. Também me antecipei em designar para vós e vossos filhos um segmento de minha morada que seja disposto ao vosso agrado. Nesta questão, porém, Albert prontificou-se a tomar a frente e comandar a organização dos aposentos de seu futuro sogro, cunhados, futura cunhada e sua futura esposa, assim como do leito nupcial.

Creio eu que tudo estará perfeitamente em ordem logo antes de sua chegada, e espero sinceramente que a visita e as festanças sejam agradáveis a todos que nos honrarão com suas presenças.

Outro assunto que precisava ter contigo é o dote, que eu já lhe disse se faz dispensável, mas como insistes é preciso acertá-lo antes da união para prevenir possíveis complicações durante os dias de festa. Mas este é um assunto para outra carta.

Albert me pede para lembrar à minha futura “filha” que após o casamento ele pretende permanecer em Leeds onde nasceu se criou e pelo visto onde pretende findar. Diz ele: “Explica a minha querida Eleanor que seu futuro marido é turrão e não consegue ao menos cogitar a possibilidade de deixar o norte. Transmita-lhe minhas condolências caso fique aborrecida e esclareça-lhe que toda vida terá liberdade para visitar o pai e os irmãos quando desejar, assim como receber visitas dos mesmos para que passem temporadas conosco. Por último, diga-lhe que aguardo ansiosamente por nosso encontro.”.

Tendo já comunicado tudo que gostaria, e atentando-me ao fato de que já me alonguei demais, despeço-me aqui de meu estimado irmão e de meus queridíssimos sobrinhos Eleanor, Bridget, Alphonse e John, embora saiba que este último receberá outra notificação dos eventos devido ao fato de ter deixado o conforto da Púrpura de Wenlock para morar na agitada Londres com a esposa e o pequeno herdeiro.

Mande lembranças minhas e da Condessa de Leeds a todos da Púrpura de Wenlock.

Atenciosamente: Gregory Philip Santtori.”

Frederick dobrou a carta e guardou-a junto ao papel no bolso interno da casaca. Olhou para Eleanor que o fitava com um doce sorriso nos lábios, ela geralmente não deixava transparecer suas emoções, mas ele conhecia sua filha bem o suficiente para saber o que estava pensando.

— Você o ama Eleanor?

A jovem ponderou por um segundo antes de responder a pergunta do pai.

— Tenho grande carinho por Albert, meu pai. E acredito que esse sentimento é o mais próximo que meu coração limitado conseguirá chegar de amar alguém. Albert é atencioso, trata-me de forma cortês e sei que se esforça ao máximo para ser gentil comigo. Espero ter uma vida normal ao lado dele.

— Vida normal não é para nós minha criança, mas desejo sua felicidade. Que os outros filhos não me ouçam, mas você sempre soube que é a mais próxima de mim.

A carruagem seguia seu caminho, acabara de entrar na pequena estrada de terra que levava até a Púrpura de Wenlock. Altas árvores enraizavam-se a beira da estrada e misturavam-se com árvores de lilac roxas. Logo a diante, no fim da pista, um alto portão de ferro, todo trabalhado, se erguia e do outro lado do portão a pista continuava com uma bifurcação que possibilitava dois caminhos, ambos contornavam o imenso jardim da frente levando até a entrada da mansão.

O cocheiro parou a carruagem aos pés dos degraus que levavam até a porta da mansão. O jovem condutor abriu a porta da carruagem para o Duque de Wenlock que desceu da mesma e estendeu a mão para ajudar a filha a descer, essa por sua vez, segurou a barra do vestido com a mão direita enquanto usava a esquerda para apoiar-se na mão estendida do pai. O Sr. Santtori tomou a filha pelo braço e subiu as escadas da casa.

— O Senhor Duque ainda precisará de meus serviços por hoje? — Indagou o jovem cocheiro.

— Apenas guarde a carruagem e os cavalos e está dispensado Domini, obrigado.

— Sim senhor, com sua licença Senhor Duque. — O rapaz fez uma reverencia e subiu na carruagem tirando-a da entrada da mansão.

O interior da mansão era tão belo, ou até mais, do que o exterior. O piso de porcelanato branco estendia-se majestosamente pelo chão refletindo uma imagem quase nítida dos que se mantinham de pé sobre ele. O hall da Púrpura de Wenlock era grande e arejado, com janelas de vidro que se estendiam quase até o chão. Janelas que, durante o dia eram cobertas por elegantes cortinas de veludo em tom purpúreo, mas durante a noite ficavam desnudas deixando a luz entrar e permitindo uma vista privilegiada para o céu noturno. Contornando o hall, entre uma janela e outra, castiçais de ferro seguravam três velas cada um iluminando o ambiente. Uma larga escada coberta por um tapete, da mesma cor e tecido das cortinas, ficava entre dois pilares de gesso, de aproximadamente um metro de altura e base plana, que sustentavam vasos de vidro cheios de gardênias. Ninguém que pusesse os pés no hall adivinharia que ali morava uma família de vampiros e era justamente por isso que a casa fora decorada daquela forma.

Ao pisarem no hall o Duque e sua filha foram recepcionados por Abigail, a governanta da família na época.

— Sejam bem-vindos de volta Sr. Duque e Srta. Santtori. Posso pendurar sua casaca My Lord?

— Sim, por favor, Abigail. — Ele retirou a casaca e entregou nas mãos da governanta. — Meus filhos estão em casa?

— O jovem Alphonse saiu para “jantar”, já a Srta. Santtori mais nova está lá em cima a praticar piano. — Informava a criada sobre Bridget, a caçula da família. — Deseja que eu a chame?

— Não é preciso Abigail, agradeço. Pode retirar-se, se eu precisar a chamarei.

— Com licença Sir. — Abigail dobrou os joelhos reverenciando rapidamente e deixou o hall da mansão com passos apressados seguindo para um dos corredores que se iniciavam logo após a larga escadaria do hall e que levavam à outros cômodos da mansão.

— Elle, venha comigo quero lhe mostrar algo.

— Aonde vamos, meu pai?

— Você verá.

O Sr. Santtori caminhou pelo hall e subiu as escadas de mármore que levavam ao primeiro andar da mansão. A parte superior da casa, assim como os quartos da família e dos hóspedes, era decorada ao estilo Barroco e iluminada inteiramente por velas.

Ele parou no topo da escada para conferir se sua filha o estava seguindo. Eleanor vinha logo atrás do pai segurando a barra do vestido. Ele então continuou seu caminho pelos corredores confusos do casarão, onde qualquer outra pessoa se perderia facilmente. Até que chegaram ao salão de dança. Retirou uma chave dourada do bolso das calças e a encaixou na fechadura que se destrancou com um suave “clic”, puxou as duas portas de madeira abrindo-as e adentrando o cômodo.

O salão era amplo, em formato cilíndrico, com duas enormes portas de vidro que levavam até a sacada e vitrais com desenhos gravados em forma de mosaicos. No canto da sala, isolada da decoração, um piano de cauda escondia-se debaixo de um enorme pano branco que o protegia da poeira do local, e pregado na parede, logo acima do piano, existia um quadro que retratava a mãe de Eleanor quando tinha mais ou menos a idade da jovem. No teto um espelho cilíndrico como o chão refletia a decoração do cômodo.

Eleanor entrou no cômodo logo depois de seu pai e olhou ao redor. Desde que sua mãe morrera ninguém entrara ali e por isso o salão encontrava-se empoeirado. A jovem viu o piano coberto no canto da sala e correu os olhos pelo salão até o lado oposto do mesmo onde um enorme quadro de sua família decorava quase uma parede inteira. Ergueu os olhos para o espelho no teto, que se achava capaz de refletir tudo, procurando por sua imagem essa, porém, conseguia ludibriar o espelho fazendo-o pensar que o salão permanecia vazio como sempre. Um meio sorriso se formou nos lábios de Eleanor ao lembrar-se de si mesma quando pequena brincando de caçar a própria imagem no grande espelho que a ignorava por completo.

Seu pai abriu as portas duplas de vidro da sacada permitindo que o ar entrasse no salão abafado. Uma forte corrente de ar passou pelo cômodo e fez voar o pano branco que escondia o piano revelando uma fina camada de poeira por cima do instrumento.

Elle então caminhou vagarosamente até o piano, sentou-se sobre o banquinho que ficava a frente do mesmo, retirou a luva de linho da mão direita e deslizou as pontas dos dedos pelas teclas de marfim do instrumento de forma tão suave que esse não emitiu nenhum som.

A jovem sabia que aquele belíssimo piano era um objeto ímpar que seu pai não permitia que ninguém tocasse.

Ficou absorta em pensamentos e lembranças por um momento, fechou os olhos e conseguiu ouvir a melodia suave do instrumento, que costumava ficar na sala de estar, misturando-se com o estalar das chamas da lareira no inverno quando ficavam todos reunidos a olhar das janelas a chuva fina molhar o descampado. Abriu os olhos e a música cessou aos poucos e a jovem calçou a luva novamente.

Eleanor nem havia percebido a aproximação do pai que a observara durante todo o tempo em que ficou perdida em lembranças. O Sr. Santtori pousou a mão sobre o instrumento.

— Eu não entendo meu pai. O que estamos fazendo aqui?

Sem pronunciar qualquer palavra ele desencaixou algumas das teclas do piano revelando um compartimento secreto, e de lá retirou um pequenino baú de madeira. Usou a mesma chave com que abrira o cômodo para destrancar o objeto que por dentro era inteiramente estofado com viena bege. No fundo do baú reluzia um colar que o Sr. Santtori apanhou com cuidado. Um medalhão de prata com um rubi avermelhado encrustado no centro pendia de uma cumprida corrente também de prata. O objeto era precioso e delicado, pequenas filigranas prateadas se encarregavam dos adornos ao redor do rubi e a corrente era composta por argolas finas e entrelaçadas.

O Sr. Santtori estendeu o colar para Eleanor que hesitando estendeu os braços na direção da pequena peça e a tocou com as pontas dos dedos segurando-o aos poucos nas mãos.

— O colar da mamãe...

— Este colar era de sua avó e quando pedi sua mãe em casamento eu dei isto a ela, e agora que você irá se casar ele é seu Elle. Permita-me. — Disse o Duque retirando o colar das mãos da jovem e passando-o ao redor do pescoço da mesma, enquanto esta erguia o cabelo.

A jovem segurou o medalhão admirando a pedra que reluzia.

— Ele é lindo papai. Obrigada.

O Sr. Santtori abriu um sorriso e acariciou ternamente o rosto da filha com as costas da mão.

— Você se parece com sua mãe Elle, mas herdou de mim “O Legado Santtori” e um dia um de seus filhos o herdará de você.

Eleanor e Albert casaram-se dia 12 de novembro de 1713 e como era previsto a jovem se mudou para a casa do marido em Leeds. A residência do casal ficava a poucos quilômetros da mansão do Conde de Leeds e nem de longe era tão bela quanto a Púrpura de Wenlock. Mas para Eleanor o casarão era igualmente aconchegante.

Os anos se passaram e Eleanor continuou bela, nunca mais retirara do pescoço a corrente com o rubi que seu pai lhe dera como símbolo de seu legado.

Em agosto de 1715 nasceu o primeiro filho do casal que recebeu o nome de Arthur Ardarath Santtori.

O jovem crescia forte e saudável cada vez mais parecido com o pai, o cabelo ruivo natural era ondulado e sempre cortado na altura do queixo, os olhos em tom verde limão eram opacos e inexpressivos, a pele pálida era macia como a de Eleanor, os cílios negros e alongados na pálpebra inferior davam a ele um ar misterioso e os lábios medianos, um tom mais escuro do que a pele da face, completavam a aparência do jovem.

Ele e o pai passavam muito tempo juntos, Albert o ensinara a manejar a espada e a cavalgar. Eleanor o ensinara a tocar piano e violino, e todos os membros da família tinham grandes expectativas no mais jovem Santtori.

Arthur aprendia tudo facilmente, era inteligente e muito educado. Tinha habilidades incríveis e com o tempo seus pais notaram que o jovem herdara “O Legado Santtori”. Como todo vampiro Arthur tinha sua capacidade intelectual e seu aspecto físicos rapidamente desenvolvidos nos primeiros anos de sua vida.

Quando Arthur completou dois anos já aparentava ser uma criança de quatro anos e era tão inteligente quanto uma de dez anos, a mãe Eleanor então decidiu que era hora de ensinar o rapaz a controlar o poder da família assim como seu pai a ensinara quando atingira a mesma idade.

— Ouça Arthur, existe um poder distinto em nossa família, algo que nós chamamos de “O Legado Santtori”. É um poder incrível tanto por suas dimensões quanto por sua periculosidade e é passado de pai para filho a cada geração.

O garoto ouvia a mãe com atenção enquanto caminhavam pelo jardim, demonstrava grande interesse sobre a história da família. A mãe sentou-se em um banco debaixo da laranjeira e fez sinal para que o jovem se sentasse ao seu lado.

— O mais importante Arthur é saber que quem possuir O Legado será o líder da família e terá grandes responsabilidades com todos. É um poder maravilhoso, porém muito perigoso para quem não consegue domina-lo e pode levar a loucura. Lembre-se Arth: quanto mais poder alguém tiver, mais perigosa essa pessoa se tornará para os outros, e principalmente para si mesma. O nosso Legado já destruiu seu portador mais de uma vez ao longo das gerações.

O garoto se calou por um tempo, parecia refletir sobre a frase da mãe “quanto mais poder mais perigosa uma pessoa se tornará para os outros, e principalmente para si mesma.”. Ele ergueu os olhos e fitou o rosto de Eleanor.

— Mas por que preciso saber de tudo isso Elle? — Indagou o jovem à mãe.

— Porque, Arth, eu herdei O Legado de meu pai e um de meus descendentes herdará de mim. Você é o jovem mais habilidoso dessa geração Santtori, para mim é quase certo de que você foi o escolhido para herdar esse poder.

— Você está dizendo... — começou o jovem medindo com cuidado suas palavras. — que eu tenho O Legado?

Eleanor balançou a cabeça positivamente e um sorriso misterioso tomou forma nos lábios do pequeno.

— E é por isso que eu devo começar a treina-lo Arth, para que aprenda a controlar esse poder.

Os anos se passaram e Arthur continuou a crescer forte e cada vez mais inteligente e poderoso. Quando completou quatro anos já conseguia dominar com perfeição sua força física e agilidade, não precisava da ajuda de um adulto para caçar uma vez que se tornara capaz de hipnotizar e apagar a mente dos humanos de quem pegava sangue “emprestado”, seus sentidos eram apurados, e ele conseguia manter-se em voo por alguns minutos quando transmutado para a forma de um morcego.

Em 1719 Arthur, que agora aparentava ser uma criança de seis anos, já era um jovem respeitado por seus familiares e muito responsável. Em fevereiro desse ano, sua mãe Eleanor estava próxima a dar à luz ao novo descendente da família. Arthur não esperava ter irmãos, porém, quando soube da gravidez da mãe ficou ansioso por conhecer o próximo Santtori do clã.

Era uma noite de chuva forte e constante, trovões ameaçadores e ventos fortes varriam o terreno levantando as folhas secas ao redor das árvores. No casarão de Albert e Eleanor Santtori os parentes mais próximos se reuniam na sala de estar ao redor da lareira e um silêncio agonizante pairava no cômodo.

O pequeno Arthur, sentado no tapete persa, brincava entediado com um carrinho de madeira que ganhara de seu avô materno. Seu pai estava parado imóvel à frente da janela por horas sem dizer uma única palavra. Tio Alphonse e tio John fumavam charutos e jogavam cartas enquanto tia Bridget, tia Kathy e tia Amelin, mulher de John, corriam de um lado para o outro com bacias de água quente e toalhas limpas. Lionard, o primo mais velho, filho de Alphonse e Kathy, segurava o irmão de dois meses no colo e tentava faze-lo dormir. O Duque de Wenlock estava sentado na cadeira de balanço, olhava fixamente para Arthur, porém não o via, estava com olhar distante. O Conde e a Condessa de Leeds haviam ficado presos na tempestade e não estavam com os outros.

O pequeno bebê no colo de Lionard começou a berrar quebrando o silêncio do cômodo. Alphonse abaixou o leque de cartas que segurava na mão direita e retirou o charuto da boca segurando-o entre os dedos indicador e médio.

— Lionard, faça seu irmão se calar! O que ele tem afinal?

Lionard embalou o irmão nos braços andando de um lado para o outro na sala.

— Está assustado com os trovões, meu pai.

— Então o leve para dar uma volta pela casa, aproveite e leve seu primo Arthur com você. Pelo menos vocês se distraem um pouco.

— Ótima ideia tio Alphonse. — Disse Arthur largando o carrinho sobre o tapete e levantando-se. — Eu já estou farto de esperar nessa sala abafada. Vamos Lionard? — Arthur arrumou as vestes e dirigiu-se para a porta. Lionard foi logo atrás do primo carregando o irmão Elliot nos braços.

Fora da sala os meninos puderam ouvir os gemidos de dor de Eleanor.

— Acha que vai ser menino ou menina Arthur?

— Eu queria um menino, mas é menina.

— Como sabe disso? — Lionard olhou para Arthur com a sobrancelha direita arqueada.

— Eu senti a energia dela. É delicada e tem um cheiro doce. — Disse Arthur sem alterar sua expressão facial.

— Não sabia que já conseguia fazer isso Arthur. Então é verdade, você tem O Legado?

Arthur manteve-se calado e impassível sem responder a pergunta. Nesse instante, um grito estridente de dor ecoou pelo casarão ao mesmo tempo em que um barulhento trovão tomou o céu na parte de fora da casa.

Arthur e Lionard correram preocupados para o quarto onde Eleanor estava em trabalho de parto. Ao se aproximarem ouviram o choro baixinho de um bebê e diminuíram o passo. Arthur olhou pela fresta da porta e viu Albert em pé ao lado de Eleanor que segurava nos braços um bebê envolto em pano branco manchado de sangue. A criança chorava agitando os braços. Eleanor olhou para a fresta na porta e abriu um sorriso. A porta abriu-se sozinha repentinamente revelando a figura de Arthur parada de pé na entrada do quarto.

— Quer conhecer sua irmãzinha Arth? — Perguntou Eleanor chamando o pequeno por seu apelido carinhoso, apelido esse que Arthur detestaria ouvir da boca de qualquer outra pessoa que não fosse Eleanor.

O menino aproximou-se devagar até a cama da mãe e deu uma espiada no bebê barulhento.

— Quer escolher o nome dela? — Perguntou Albert ao filho.

— Tome, segure-a. — Disse Eleanor ao lhe entregar a criança.

Arthur segurou a pequenina no colo, ele olhou para ela e torceu a boca enquanto pensava em um nome para lhe dar.

— Eu não sei...

— Eu e sua mãe pensamos em Lindsay, o que acha?

O jovem Santtori balançou a cabeça para os lados negativamente e ficou em silêncio por mais alguns minutos.

— Eu gosto de Lilith. — Respondeu finalmente. — Decidi! O nome dela vai ser Lilith Saphire Santtori.

— Lilith Saphire Santtori. — Repetiu Albert. — É um belo nome.

Arthur devolveu Lilith ao colo da mãe.

— Já está quase amanhecendo, se me derem licença, preciso me recolher ao meu ataúde.

— Claro Arth, nós também iremos assim que seu avô e os outros conhecerem Lilith e deixarem o casarão. Até o pôr-do-sol. — Despediu-se Eleanor do filho.

O jovem fez uma reverencia e deixou o quarto recolhendo-se aos seus aposentos.

Dois anos depois.

Era três de fevereiro de 1721, véspera do aniversário de dois anos de Lilith Saphire Santtori e todos preparavam o casarão para o baile da jovem dama, essa por sua vez, tinha a aparência de uma criança de quatro anos e era esperta como uma de seis. Arthur, seu irmão mais velho, tinha agora seis anos e o semblante de um rapaz de oito. Ele caminhou pelos corredores da residência até o quarto de Lilith, bateu na porta com os nós dos dedos e a abriu em seguida sem esperar resposta.

— Lilith, está pronta?

Lilith assim como Arthur parecia-se muito mais com Albert do que com a mãe. O cabelo era ruivo natural um pouco mais escuro do que o do irmão e caía-lhe ondulado até a altura do queixo onde começavam a despontar cachos medianos e bem definidos estendidos ao comprimento da cintura, os olhos verde grama eram mais claros do que os do irmão, a pele era pálida e ruborizada nas bochechas como a da mãe, os cílios longos e bem torneados na pálpebra superior não eram muito escuros (porém abundantes), e os lábios voluptuosos em tom salmão claro finalizavam o aspecto forte e ao mesmo tempo delicado da jovem.

— Estou quase. — Respondeu a pequena.

A jovem estava sentada sobre a cama com dificuldade para calçar as sandálias. Arthur aproximou-se e segurou o pé esquerdo da pequena introduzindo-o, impacientemente, no calçado, passou a tira da sandália por cima do peito do pé da jovem e a afivelou repetindo o mesmo procedimento no pé direito em seguida.

— Eu estava quase conseguindo. — Resmungou a menina cruzando os braços.

— Eu vi. — Retrucou o rapaz em tom sarcástico e levemente zombeteiro.

— Conseguiria em dois minutos se tivesse deixado. — Continuou a pequena, emburrada, querendo levar a diante a discussão sobre o assunto.

Arthur abriu um sorriso no canto dos lábios e brincou com a jovem.

— Só por que sou imortal não significa que tenho a eternidade para espera-la calçar as sandálias.

A menina fez uma careta parecendo não gostar do comentário do irmão, logo um sorriso lutou para despontar nos lábios da pequena e a careta da mesma tornou-se mais intensa enquanto ela tentava reprimir aquele riso indesejado que revelaria ao irmão não estar verdadeiramente zangada.

Percebendo o conflito em que a jovem se encontrava Arthur imitou sua careta e eles travaram uma disputa para ver quem conseguiria permanecer sério por mais tempo. Já nos limites de suas forças Lilith mostrou a língua para o irmão antes de abrir um enorme sorriso que a fez perder a disputa.

Arthur deu risada e estendeu os braços para pegar a jovem no colo, essa por sua vez saltou da cama desviando-se dos braços do irmão.

— Não preciso, vou sozinha.

— Eu não vou te carregar depois se ficar cansada no meio do caminho.

Ela pensou por um instante e depois inclinou a cabeça para o lado fitando o irmão.

— Aonde nós vamos mesmo?

— É uma surpresa.

— É uma surpresa longe ou perto? — Insistiu a jovem.

— Hm... — Arthur suspirou e coçou a nuca. — Vai querer que eu a leve no colo ou não?

— Já disse que vou sozinha!

Mais tarde, naquela noite, os dois caminhavam de mãos dadas pela estrada de paralelepípedo que levava até a praça da cidade quando a jovem de repente parou de andar.

— O que foi? — Perguntou o rapaz.

— Cansei. Leva-me no colo?

— Você não disse que ia sozinha?

— E eu vim! Vim sozinha até aqui não é?! Além disso, meus pés estão doendo e a culpa é toda sua. — A jovem cruzou os braços olhando para o irmão.

— Como a culpa por seus pés doerem pode ser minha?

— Afivelou as sandálias apertadas demais.

Arthur olhou incrédulo para a pequenina. Respirou fundo. Contou até cinco, depois até dez e pensou em um jeito de acabar com a petulância daquela criança. A primeira ideia que lhe passou pela cabeça muito o agradou, era um plano simples que consistia basicamente em arrancar os pés da jovem para que ela parasse de se queixar de dor nos mesmos. Essa ideia, apesar de divertida, acabaria causando muita sujeira e ele estava usando sapatos novos. Logo, decidiu-se pelo segundo plano.

— Então vamos fazer um trato. Esta vendo aqueles dois lampiões no fim da rua?

Lilith olhou na direção que Arthur apontava com o dedo e viu dois lampiões de ferro iluminando a extremidade da rua com suas chamas.

— Estou sim.

— Pois bem, se conseguir chegar lá mais rápido do que eu então vou carrega-la no colo o restante do caminho.

— Quer dizer, apostar uma corrida?

— Exatamente.

Ela olhou para os lampiões no fim da rua, olhou a distância que os separava dela e do irmão e por último olhou para o irmão com um ar de desconfiança.

— Não sei não. E se eu não aceitar?

— Então não pode reclamar de ir andando o resto do caminho.

— Então vamos acabar logo com isso, quando eu disser “já”. 1... 2... 3... e... já!

Lilith saiu correndo o mais rápido que conseguiu sem olhar para trás, já perto dos lampiões deu um salto e segurou-se a um deles. Ficou ofegante por um minuto e logo que olhou para trás viu Arthur caminhando em sua direção tranquilamente. Imaginando que ele desistira quando percebeu que não tinha chance de vencê-la na corrida, a jovem sorriu triunfante.

— Eu ganhei! Agora vai me pegar no colo?

— Não é preciso, já chegamos. — Respondeu o rapaz com um ar de satisfação por ter ludibriado a menor.

Ela ficou parada na frente do irmão a olha-lo com uma expressão inconformada.

— O que? E você não queria me carregar só até aqui? Eu não gosto de você Arthur!

— O sentimento é recíproco!

— O que viemos fazer aqui afinal?

Arthur abaixou-se até ficar da altura da criança.

— Vê aquele homem? — Ele direcionou o olhar para um rapaz que cruzava sozinho a ponte indo em direção à praça da cidade.

— Vejo sim. O que tem?

— Hoje você vai aprender a caçar Lilith.

Lilith olhou para o homem que caminhava sozinho e depois voltou seus olhos para o irmão exibindo um sorriso de ansiedade formado nos lábios salmão claros.

A cidade de Leeds, na época, era cortada pelo rio Aire e uma exuberante ponte havia sido construída para ligar uma parte da cidade à outra. A praça principal de Leeds ficava do lado esquerdo da ponte afastada dos comércios e da agitação da cidade. O lado esquerdo da ponte também era onde estava a maior parte das residências nobres de Leeds, incluindo o casarão dos Santtori.

— O que tenho que fazer? — Perguntou a criança.

— Cada um de nós tem seu próprio estilo Lilith, mas, a maioria resume a caçada em três etapas: atrair, hipnotizar e apagar a mente da vítima. Só existe uma regra que preciso lhe explicar: nunca beba todo o sangue do corpo da sua vítima.

— Por que não? — Interrompeu a jovem.

— Porque se fizer isso ela vira um vampiro também, mas diferente de nós se torna um ser irracional e insaciável, sedento por sangue, que vai atacar qualquer um por qualquer motivo até satisfazer suas necessidades. E se isso acontecer, as pessoas saberão de nossa existência e passarão a nos caçar.

— Então isso nunca aconteceu?

— Aconteceu uma centena de vezes, e foi por isso que nossos pais criaram A Ordem.

A Ordem era como os vampiros chamavam a organização responsável por manter o país a salvo das criaturas que não seguiam leis, padrões de comportamento e nem tentavam se adaptar a sociedade, andando livre e despreocupadamente pelo país e agindo como bem entendessem, comprometendo os outros de sua espécie e colocando em perigo a vida dos humanos.

Em geral nem os vampiros nem as outras criaturas ligavam muito para a segurança dos humanos, mas comprometer sua raça era algo inaceitável.

Embora os humanos fossem mais fracos eles eram maioria e sabiam disso. E embora as criaturas fossem menos numerosas elas eram mais fortes. Então ambos os lados concordaram que se uma caçada começasse não seria vantajoso para ninguém.

Por isso as criaturas, lideradas pelos clãs vampirescos , criaram a Ordem que era uma organização legalizada e financiada pelos governantes do país, os únicos cientes da existência de criaturas como os vampiros. A Ordem então se tornou uma espécie de “acordo” entre as duas raças.

— Entendo. Como posso atrair minha vítima? — Indagou a pequena ao irmão.

— Vampiros mais velhos costumam usar algum tipo de ilusão para chamar a atenção das vítimas, você ainda é muito nova para conseguir causar uma ilusão realmente convincente, porém, sua forma infantil lhe dá uma vantagem. — Ele trocou olhares com a irmã que logo captou o que o rapaz tentava lhe dizer com aquilo.

O homem, de aproximadamente trinta anos, havia acabado de cruzar a ponte e passava pelo centro da praça quando ouviu um choro baixinho. Ele parou de caminhar curioso e olhou ao redor tentando encontrar a origem daquele som angustiante, examinou a praça e foi seguindo o barulho.

Atrás de uma árvore próxima a rua que levava para o casarão dos Santtori, uma criança com lindos cabelos avermelhados se encolhia abraçando os joelhos e escondendo a cabeça nos braços abafando o choro e os soluços. A pouca iluminação do local vinha de dois lampiões acesos no inicio da rua.

O homem ajoelhou-se ao lado da pequena e pousou a mão sobre os cabelos da mesma olhando-a com preocupação.

— O que foi pequenina? Perdeu-se de seus pais?

Lilith ergueu lentamente os olhos secos que brilharam em um verde absoluto ao encontrarem os olhos do rapaz, ela manteve o contato visual por alguns segundos até o rosto dele perder totalmente a expressão e o brilho deixar seus olhos.

Lilith levantou-se e ficou de pé a fitar a criatura inexpressiva ajoelhada a sua frente. Ela dobrou a cabeça do jovem para o lado deixando o pescoço em evidência. Abriu ligeiramente os lábios revelando caninos que cresceram ficando afiados e perigosos. Cravou agressivamente os caninos pontiagudos no pescoço de sua vítima que não demonstrou sentir qualquer dor.

O sangue espesso e quente do homem escorreu para dentro da boca da pequena Lilith e desceu progressivamente por sua garganta. A pequena bebeu insaciavelmente e quando se deu conta o rapaz jazia sem vida em seus braços.

Arthur se aproximou da irmã e viu que ela havia desrespeitado sua ordem. Lilith afastou-se assustada do corpo do homem e limpou um filete de sangue que escorria por seu queixo. Olhou para o irmão segurando o choro.

— A culpa não foi minha! Eu não sabia quando parar. Você disse que ia me ensinar. Por que não me avisou? Por que não me impediu Arth? Você viu que ele estava morrendo.

A pequena forçava-se para não chorar, sua voz tremia amedrontada. Arthur a olhava com uma firmeza gelada.

— Regra número um Lilith: nunca confie em um vampiro.

— Mas você é meu irmão! — A menina quase berrava.

— Mas não sou exceção à regra! — Retrucou o jovem.

No chão o corpo morto começava a debater-se convulsivamente, um cheiro insuportável de carne queimada subiu e espalhou-se pelo ambiente. O corpo do homem parecia queimar e começou a ficar deformado e escurecido.

— O que a gente faz? — Disse a menina desesperada.

— Precisa mata-lo, e rápido. Se a transformação se completar ele perderá totalmente o controle, ficará agressivo e A Ordem terá que intervir.

— Mas eu nunca matei ninguém Arth.

Arthur não conseguiu segurar uma leve gargalhada.

— Tem certeza? — Olhou para o corpo morto debatendo-se no chão.

— Foi um acidente. — Tentou justificar-se a pequena. — Eu não queria...

— Mas o matou! E matará duas vezes Lilith. Ou prefere colocar nossas vidas em risco?

A garota olhou para o corpo depois olhou para o irmão, estava histérica e assustada com a imagem daquele corpo que voltava a ganhar vida, porém, uma vida repugnante sem vontade própria ou consciência de seus atos.

— Então me diga como.

— Arranque o coração.

— O quê?

— É a única forma Lilith. Precisa arrancar o coração!

A menina começou a chorar com ódio do irmão e de si mesma por confiar nele e causar toda aquela situação.

As unhas da mão direita da pequena cresceram e a jovem aproximou-se do corpo que se debatia no chão, atravessou o peito do homem com a mão e arrancou o coração de dentro do peito. O corpo parou imediatamente de se debater e os olhos do rapaz ficaram negros por inteiro. A jovem segurava o coração exangue entre os dedos.

— O que fazemos agora? — Indagou ao irmão enquanto segurava o órgão que arrancara do peito da criatura.

— Não podemos deixa-lo aqui.

— Enterramos?

— Só o coração, podemos jogar o corpo no rio Aire.

A pequena assentiu com a cabeça e começou a abrir um buraco ao pé da árvore, jogou o coração dentro do mesmo e o tapou apressadamente.

— Ajuda-me a carregar o corpo?

— Não é preciso. — Respondeu Arthur.

Ele estendeu a mão sobre o corpo deformado e sem vida e este se elevou no ar.

— Arthur! Alguém pode ver, pare com isso.

— Pare de gritar Lilith! E acalme-se. Coloquei-nos envoltos por uma ilusão, qualquer humano que olhar verá apenas duas crianças caminhando pela praça até a ponte.

Os dois irmãos levaram o corpo até a ponte e o jogaram no rio. O corpo foi levado pela correnteza e em pouco tempo desapareceu no horizonte.

— Espero que não fique zangada comigo, eu tinha que te ensinar uma lição. — Disse Arthur à irmã após alguns minutos de silencio.

— Poderia ter escrito em um livro como meus professores fazem.

— Algumas lições não podem ser escritas em livros Lilith. Nós precisamos viver para aprendê-las. Se eu não a tivesse feito passar por isso essa noite você poderia ter cometido esse erro quando estivesse caçando sozinha, poderia deixar a transformação se completar e seria morta.

A pequena abaixou a cabeça refletindo sobre as palavras do irmão, virou-se para ele e chutou sua canela com força, entretanto, ele pareceu nem sentir o chute. Mesmo vendo que o rapaz não sentira nenhuma dor a jovem sentiu-se vingada e satisfeita.

— Pronto. Agora não estou mais zangada. E da próxima vez escreva!

Lilith virou-se de costas para o irmão e começou a traçar o caminho de volta para casa, Arthur seguiu-a.

— Ah! E como eu ganhei a corrida, você me leva de volta pra casa no colo!