O Lamento Da Lua
7 Sete - Entre sol, lua e estrelas
Entrei na Casa Grande, realizado, porem tentei disfarçar um pouco a felicidade interior de estar indo descobrir sobre o que eles tanto falavam. Forcei uma cara mais séria, o que provavelmente deve ter ficado patética, pois Alice já me olhara duas vezes franzindo a testa enquanto subíamos para a sala de reunião.
Na terceira vez que Alice me olhou ela perguntou se eu estava me sentindo bem, foi no momento em que Enzo nos sinalizou para a porta onde a reunião acontecia.
–Relaxe... Eu to bem... – respondi Alice me sentindo oficialmente idiota.
–Venha, Rafael. – disse Enzo abrindo a porta. Mesmo ele sendo um professor de matemática, nunca tinha o visto, desde este primeiro semestre todo e parte do segundo, tão sério. Algo então me dizia que o que estava para saber seria realmente de vital importância.
***
Na comprida mesa, muitas cadeiras estavam ocupadas, e seus ocupantes dirigiram seus olhares para mim quando entrei no local. Do lado esquerdo, todas as caçadoras estavam sentadas elegantemente. Pude encontrar a Luana um pouco distante, muitas cadeiras depois da primeira, que estava ocupada por uma garota que provavelmente era a líder (um troço prateado que estava na sua cabeça a diferenciava das demais e algo me dizia que isso a tornava superior...). Do lado direito, os lideres dos Chalés ocupavam algumas cadeiras e completavam em uma curva na cabeceira da mesa.
Quíron rondava por toda parte, rodeando o centro da reunião e havia parado com a minha entrada. Ele sinalizou para mim uma cadeira que estava na frente, bem perto de onde eu me encontrava.
Realmente, todos os lugares seguintes estavam ocupados, menos as duas primeiras. Deduzi que uma era a qual Alice estava sentada, mas qual a minha importância para me sentar “em destaque” sobre os outros?
***
Um clima muito estranho estava no local desde que eu havia entrado e aquilo estava me deixando sufocado.
–E então? – falei quando percebi a dificuldade de Quíron começar a conversa – Vocês me chamaram até aqui e aqui estou...
Enzo fixou os olhos em Quíron que ainda tentava encontrar as palavras certas para começar. Alice não me olhava direito. Não parecia a mesma que eu havia visto no Caça a Bandeira hoje pela manhã. Mexia nas mãos nervosas, que brilhavam de suor.
–Bem, Rafael... – começou enfim Quíron. Me arrumei para ouvir tudo com atenção — Sei que deve ter se perguntado muitas coisas depois de ter visto a sua irmã, Luana Dalmarco, se apresentar no nosso território.
Nada falei, apenas olhei na direção dela, esperando um sorriso ou qualquer coisa natural, mas nem mesmo olhar para mim ela conseguia.
–Mas vamos esclarecer tudo, e lhe pedimos que não torne este assunto público. – disse Quíron, caminhando no lado direito da mesa, se dirigindo a mim – Alguns problemas devem ser mantidos em sigilo, pois se cair sobre conhecimento de muitos pode proceder em um não planejado resultado.
–Tudo bem. – foi a única coisa que falei. Não tenho paciência para juramentos formais, muito menos com ideias politicas envolvidas.
–Muito bem então... – disse Quíron pigarreando em seguida e olhando rapidamente para Enzo, que se encontrava, em pé, do meu lado – Vou lhe contar uma historia... Historia antiga. Muitos acham que faz apenas parte de suposições ou lendas, porem é com total certeza que afirmo que esta é a verdadeira e triste história de um longo passado da nossa audaciosa e virgem,deusa Ártemis. Você conhece uma constelação chamada Órion?
Não procurei pensar muito e respondi negativamente com a cabeça.
–Bem... Sei que sempre conheceu Ártemis como a deusa a qual evita ter relacionamentos e a que lidera o grupo das caçadoras a qual juram não se apaixonarem por homem algum. Porem, nem sempre Ártemis ignorou o coração masculino.
Ele deu uma pausa rápida, olhando um quadro onde os doze deuses do Olimpo estavam estampados à tinta.
–Órion. – disse ainda olhando o quadro — O único dono do coração da Lua. Gigante, filho de Poseidon com uma mortal, possuía grande habilidade em caça e era um dos melhores a serviço de Ártemis.
“Ártemis e Órion viviam próximos um do outro, e a cada momento de romance juntos, resultava em um desgosto ao irmão da deusa, Apolo. Apolo censurava o amor da irmã e suas criticas eram sempre ignoradas.”
“Em um dia, enquanto Órion se banhava no mar, Apolo enviou um escorpião de encontro ao caçador. Enquanto o gigante fugia da criatura, um pouco distante dali Apolo anunciava à irmã um desafio.”
Mandar um escorpião em direção ao cara já era ruim. Tive até angustia de imaginar o que meu “bondoso” pai havia em mente. Não posso negar que realmente naquele momento fiquei com raiva de Apolo, mas os deuses são uns mimados. Fazem o que querem e o que acham que é certo para eles, e imagino que naquele momento os princípios de Apolo provavelmente se realizaram.
–Ártemis é uma caçadora infalível. – continuou Quíron — Desta forma, não recusou ao desafio do irmão de tentar acertar ao alvo distante que se movia. Sem saber que estava para assassinar o seu amado, a flecha certeira a desviou de um destino diferente... E naquele momento ela não fazia ideia do seu feito.”
“Órion morreu. Boiando sob as obedientes ondas comandadas pelo seu pai, o gigante foi guiado à areia, onde em um desespero angustiante e alucinador entregou a Ártemis o seu prêmio de arco e flecha. Havia acertado o alvo. Perdera seu amor.”
Quíron parecia ter tirado aquela narrativa de algum livro, ou se inspirava de alguém que o havia contado a história. Mas a forma dele contar me fazia ter cada vez mais pena de Ártemis e mais raiva de Apolo.
–Em lágrimas, Ártemis se lamentava pela sua perda e pedira aos Céus uma ajuda. – continuava Quíron – Zeus, por compaixão, transformou Órion em estrela, juntamente com o escorpião e o seu cão de caça, Sirius. Desta forma, começaram então a brilhar no céu o novo trio: o escorpião, um homem, trajado com um cinto, uma pele de leão, armado de uma espada e de sua clava, e um cão, a estrela mais brilhante dos pertences de Zeus.
“E foi ali, numa noite qualquer, que Ártemis perdera o seu amado e junto a ele a vontade de substitui-lo. Pois um único gigante já era o suficiente para preencher seu coração.”
Essa frase com certeza não era dele... E posso dizer que Quíron dramatizava muito bem nas partes emocionantes.
–É realmente muito triste... – disse olhando para a líder do chalé de Afrodite que se afogava em choros – Mas, sem querer ser rude, o que isso tem a ver com a minha irmã ser caçadora? O que tem a ver com o que quer que elas tenham trazido como noticia para o acampamento?
Parecia estar soando realmente muito mal educado e talvez um pouco ignorante, pelos olhares que recebi, mas minha curiosidade estava me matando e a falta de respostas diretas estavam me deixando angustiado.
–Tudo está relacionado, meu caro. Tenha certeza. – disse Quíron com sua suave voz de costume.
–Me desculpe... – disse quando me dei conta que estava perdendo um pouco o senso de respeito – Mas é que eu... – parei de falar quando percebi que enfim recebi um olhar de piedade vindo da minha irmã. A significância do momento foi simples e eu havia compreendido. “Tenha calma” era o que os olhos castanhos de Luana me falavam – Deixa pra lá. Pode continuar de onde tinha parado...
Quíron sinalizou com a cabeça para Enzo e logo em seguida meu professor-sátiro se dirigiu a uma estante ali perto e pegou uma tela de pintura. Aquele tipo de tela que se pede nas escolas para fazermos pinturas de trabalhos de arte.
–Não sei, Rafael, se reconhece isto... – disse ele apontando para a tela, que agora havia sido exposta por Enzo mostrando a todos o que nela possuía – Mas esta pintura foi o que fez tudo dessa história antiga acordar das cinzas.
Era uma pintura. Uma pintura minha, por sinal. Eu lembro perfeitamente dela, tinha feito para um trabalho de Artes da escola no inicio do segundo-ano e até achei uma tremenda confusão o que havia feito quando terminei (mas pelo menos a nota que recebi foi aceitável).
–É um trabalho que eu fiz há um ano na minha escola... – disse ainda franzindo a testa sem entender o motivo de ele estar ali. Será que foi isso que Luana veio anunciar? Meus desvios mentais por ter desenhado uma coisa tão sem noção como aquela? Será então que Quíron só contou aquela deprimente história no velho modo de vovó-contadora-de-historias?
–Enzo o trouxe para o acampamento assim que o encontrou em uma exposição lá na sua escola. – disse Quíron.
“Que bonito... Um professor roubando trabalhinhos dos alunos...” foi o que pensei. Ele devia gostar de uma coisa abstrata.
–Mas o que tem de especial nele? – perguntei tentando examinar o mais absurdo que poderia se tirar daquela obra. Foi ai então que entendi.
–Perceba este lado, onde você fez um homem, como se estivesse se livrando de uma rede. Uma constelação. – começou Quíron quando eu já havia reconhecido o gigante Órion da história se transformando outra vez em homem, com vida. – E agora veja a forma que você o fez e a expressão dele para o sol que desenhou deste lado.
“Órion” se dirigia em direção ao Sol com uma expressão de raiva e gosto de vingança, espada em mãos e olhos em fúria. Não conseguia entender como eu poderia ter tirado tudo aquilo da minha mente. Eu não sabia nada daquela historia, nada sobre mitologia quando havia feito o quadro. Era inexplicável. Da mesma forma que Alice me perguntou do retrato de um homem que eu havia feito e da mesma forma quando ela havia dito que a maioria dos meus desenhos era sobre mitologia grega. Algo de muito estranho estava ali, e eu não fazia ideia do que podia ser.
–Há alguns anos atrás, Apolo recitou uma profecia. – começou Alice pedindo espaço e permissão a Quíron para poder falar aquela parte. Provavelmente ela sempre soube da história e deve saber tudo o que ainda não sei. – A profecia dizia do retorno de um inimigo do deus do Sol. Que tudo iria começar a partir do nascimento de uma prole de Apolo que possuísse uma conexão com o pai e que a partir deste filho ou filha as suas visões seriam projetadas em forma de imagens.
–Você está me dizendo que eu sou esse filho? E que o meu trabalho de Artes foi o estopim dessa profecia? – perguntei. Provavelmente meus olhos deviam estar arregalados.
–Rafael, você é esse filho. Eu tenho certeza disso. – disse ela. – Você tem o retrato do nosso pai desenhado sem nunca ter o visto pessoalmente. – disse provavelmente se referindo ao desenho do rosto de homem que ela havia visto no meu quarto – Você tem desenhos que nem você sabe o motivo de ter os feito... Isso é a ligação entre você e Apolo. Além dos seus desenhos normais, você projeta o que Apolo pensa ou prevê.
Eu era então uma conexão Wi-fi de Apolo para mandar imagens para o mundo dos mortais... A certeza de eu ser parte de uma profecia de um mundo que ainda sou novato me deixou nervoso e com medo.
–Mas, se o meu desenho, como vocês estão dizendo, indica o retorno de Órion, então, onde ele está? – perguntei.
–Desde que a própria Ártemis deu falta da constelação nos céus, percebemos um grande número de desaparecimentos de filhos de Apolo em todos os Acampamentos Meio-Sangues do mundo. – disse Enzo colocando a tela na mesa da reunião, perto de mim. Pude rever a vingança nos olhos do homem da pintura e engoli em seco quando imaginei o que ele deve ter feito aos meus “irmãos”.
–Por conta disso, as Caçadoras de Ártemis foram disponibilizadas pela deusa para fazer a vigia de cada filho do Sol. – disse Quíron.
–No entanto, senhor – disse uma das caçadoras em uma voz profunda e serena – É importante lembrar as ocorrências atuais. Infelizmente, nossa guia de caça perdera o senso do certo e recentemente permitiu que suas emoções a governassem.
Sabe um desperdício? Era ela. “Porque, deuses? Porque jurar nunca se apaixonar por homem algum?” O rosto era de uma delicadeza refinada. Possuía cabelos longos e loiros, apaixonadamente ondulados, acompanhados por olhos esverdeados que pareciam codificar minha alma no momento em que nossos olhares se cruzaram. Não podia deixar aquilo acontecer. Não podia simplesmente me deixar apaixonar por uma Caçadora de Ártemis. O que parecia ridículo era eu ali me iludindo com uma garota enquanto um assunto sério estava sendo discutido no momento.
–Como assim? Ártemis está do lado dele? – perguntei, (principalmente para chamar a atenção dela a mim) vendo Quíron suspirar de onde estava.
–Não podemos julga-la... – disse ele me respondendo — Ártemis nunca amou alguém como Órion. O retorno dele simplesmente a despertou de um passado que nunca imaginara a possibilidade de obter de volta. Está cega... Talvez nos prejudique no futuro, mas isso não terá como desfazer, até conseguirmos fazê-lo voltar à forma de constelação.
–As Caçadoras estão ainda aqui por serem justas. – disse Enzo – Ártemis nem se quer está percebendo a falta de suas aliadas... E provavelmente já foi a procura de Órion.
–Monstros como Píton, a serpente gigante que vocês enfrentaram na entrada do acampamento — dizia Quíron – São provas dos atos de Órion contra os filhos de Apolo. Píton, caso não saiba, foi a serpente que tentou matar Apolo e Ártemis ainda quando bebês. Apolo, provando suas habilidades desde novo, matou a cobra com um arco e flechas. – pausou – E o cão de hoje mais cedo... Era o próprio Sirius, o cão de caça de Órion. Atacou assim que teve a oportunidade de encontrar você e Alice como filhos de Apolo fora do campo de vista de alguém do acampamento.
–Desde que Apolo recitou a profecia – disse Enzo – O deus do Sol e sua irmã selaram um acordo de que cada caçadora ficaria sob responsabilidade de um filho de Apolo, para que assim garantissem que nada de ruim acontecesse a eles.
–Rafa... – ouvi aquela voz rouca que pigarreou para limpar a garganta que se mantinha calada. Dei atenção a Luana que parecia enfim pronta para se dirigir a mim – Assim que nossa mãe deu a luz a você, Apolo em pessoa nos visitou e nos comunicou dos riscos que poderia passar por ser filho dele. – disse ela suspirando como se estivesse lembrando-se do dia – Foi um período complicado... Não conseguíamos parar em um só local... Tínhamos sempre que nos mudar, pois vários monstros procuravam por você e já não sabíamos o que fazer. – Ela pausou mais uma vez e me olhou com os olhos cheios de lagrimas – Eu tinha 17 anos... Não sabia nada da minha vida. Até que enfim percebi que era, ninguém, além de mim que devia te fazer guarda. E foi ai que me juntei às garotas. Sacrificando todo o meu futuro para poder te disponibilizar um melhor...
Aquilo realmente me tocou. Durante todo esse tempo da minha vida, às vezes cheguei a julgar a minha irmã como um tipo de pessoa que trabalha viajando e esquece a família, vindo só visitar para ocasiões importantes, como Natal ou essas comemorações anuais. E na verdade ela fazia de tudo para me manter em segurança e estava sempre próxima de mim sem que percebesse. Como eu nunca pude valorizar isso vindo dela?
Fiquei sem fala depois daquilo...
–Bem... – Alice cortou o longo silencio deprimido que ficou solto no local – Se não fosse por vocês, talvez o chalé 7 estivesse agora vazio... Quero que saibam a tamanha importância que estão sendo para nós nessa fase...
–Por nada, garota. – disse a líder que possuía a tiara de prata – Seguiremos o bem até que a ultima pessoa justa do mundo morra. Estamos a disposição sempre, ajudando com o que está ao nosso alcance, e sentimos muito com os que infelizmente não conseguimos proteger por todo tempo...
–Poupemos uns aos outros do passado e seguiremos rumo ao futuro. – disse Quíron – Precisamos pensar no que fazer agora que já possuímos Rafael em nossa área de defesa. Não fazemos ideia de onde Órion está agindo nesse momento, apenas sabemos que Sirius com certeza vai comunica-lo que a prole do Sol a qual a profecia falava já está no acampamento.
–Quíron?... – consegui enfim falar depois de um tempo de reflexão – Sobre a profecia do meu pai... Eu poderia saber?
Alice sorriu, insignificantemente, e olhou para Quíron que confirmou com a cabeça com calma e devagar. Ela olhou outra vez para mim e respirou fundo.
– Lembre do sangue no mar – disse ela com drama e orgulho na voz, deduzi que já se tratava da profecia tão citada na reunião – A morte a qual o Sol teve a se culpar,/ Virá em chuva de estrelas para tudo relembrar.
–Isso seria o retorno de Órion, com o intuito vingativo contra Apolo que fora o responsável pela sua morte – decifrei recebendo uma confirmação de Quíron que prestava atenção em Alice como se nunca tivesse escutado aquelas palavras. O que não era verdade.
–Desde o lamento da Lua / Até o surgimento da brilhante criança nua,/ A qual missão terá de projetar o que de seu pai enviar, – continuou Alice.
–O luto de Ártemis... E meu nascimento. O indicio de que tudo está para recomeçar... – disse em um sussurro de compreensão.
–Renascerá então um antigo desastre/Onde o final basta ser escolhido/Por quem o amor fora recolhido. – terminou Alice um pouco triste ao relembrar do final.
Fiquei fascinado com a profecia. Era impressionante a forma rítmica que o futuro era descrito aos poucos em palavras misteriosas. Claro que eu não havia decifrado nada desse enigma, já que Quíron que havia me apresentado todos os dados antes, e a partir dai pude ver que tudo estava ali, dito e previsto. Provavelmente, há algum tempo atrás, aquelas palavras eram mistérios a serem solucionados e necessitados de uma decifração urgente.
– Onde o final basta ser escolhido/Por quem o amor fora recolhido. – repetiu Quíron o final da profecia – Infelizmente é fácil perceber que essa profecia só será completamente realizada com uma palavra final vindo apenas de Ártemis, e pelos fatos recentes, não estamos muito confiantes com esse fim. Já que a deusa está perdidamente aliada ao inconveniente retorno de Órion.
–E o que vamos fazer enquanto não sabemos a decisão de Ártemis? – perguntei.
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