O Lamento Da Lua

4 Quatro - O sol brilha a noite


Quando passamos por uma sequencia de casas a beira mar, e chegamos a uma área ampla de mata, Alice nos olhou com um sorriso aliviado.

–Venham. Sigam-me. – disse ela nos guiando para dentro da mata que ficava logo depois de atravessar uma pequena lagoa.

Quando entramos na floresta, algo inesperado surgiu a nossa frente. Com um bote perigoso, e provavelmente fatal, caso nos atingisse, a gigantesca serpente reaparecera (só para não dizer que foi fácil chegar são e salvo...).

Nos espalhamos por entre as árvores enquanto a cobra retornava do seu bote. Parecia mais sedenta pela nossa morte do que quando nos encontrara em frente ao banco.

–Tenham cuidado! – disse Alice que se encontrava a alguns metros de distancia de mim, e analisava agora a cobra como se estivesse reconhecendo do que se tratava. – Não é possível... – sussurrou ela essa parte.

Peguei o arco da aljava juntamente com uma flecha, preparando-a para um tiro. Nunca manuseei uma arma como aquela, quer dizer, nunca manuseei arma alguma, mas de alguma forma parecia que me familiarizava com aquilo. Posicionei-a no arco e esperei o momento certo. A ponta de bronze reluzia de uma forma chamativa que atraiu a atenção da serpente para mim.

Perdi o foco. Saí correndo do campo de visão do monstro, que logo quando me mexi aplicou dois botes seguidos, o que resultaria em destroços da minha pessoa.

Alice estava desarmada, mas improvisava uma lança, escondida em uma árvore caída, enquanto Matheus corria de um lado para o outro.

Enquanto eu despistava a atenção do monstro, Alice enfim começara a disparar as lanças de madeira em direção à cobra que sibilava a cada momento que era atingida.

–Rafael! Não vai dar certo com essas lanças! – gritou Alice que saltara de trás da árvore caída, antes que a cobra conseguisse chegar até ela. – Use as flechas!

–Usa logo essas flechas!! – gritava desesperado Matheus que quase chorava, o que era estranho já que a cabeça da serpente ia de frente à Alice. A não ser que ele estivesse correndo da calda do bicho, o que prefiro não achar possível.

Me agachei para chamar o mínimo de atenção. Posicionei o arco e disparei atrás da cabeça da cobra. Um chiado agudo tomou conta da floresta, e uma fúria se projetou nos olhos do monstro. Ele agora vinha diretamente a mim, mostrando as presas que derramavam o veneno pulsante das gengivas. Preparei mais uma vez o arco com uma flecha. Seguiu um bote forte o qual consegui me desviar com dificuldade com uma cambalhota. Me levantei em seguida já atirando em cheio no olho da cobra.

Diferente do efeito que as lanças de madeira da Alice, minhas flechas deixavam marcas no corpo do monstro onde havia sido atingido, como se ali a carne estivesse apodrecendo.

Após sacudir a cabeça varias vezes, a serpente se empinava focando somente em mim e esquecendo completamente a presença de Alice e Matheus.

Quando ela estava para dar outro bote, lancei uma flecha, sem nem mesmo precisar do arco, em direção à garganta. O resultado foi uma dispersão em pó, assim como quando a Harpia havia sido acertada com o lápis da Alice.

Em seguida ocorreu uma coisa interessante. Tão importante que naquele momento eu não fazia ideia do quanto. Em cima da minha cabeça, um símbolo brilhava em um amarelo vivo, com tentáculos de fogo dançando ao redor do emblema como se fossem raios do sol visto no espaço. O símbolo era nada mais e nada menos que uma coroa de louros.

Alice sorriu para mim, da mesma forma que sorriu quando viu as escritas do arco. “Απόλλων”. Aquilo realmente significava algo.

–Rafael Dalmarco – disse Alice como se nunca tivesse pronunciado meu nome – Filho de Apolo!

***

Ser reclamado (termo usado pelo pessoal do acampamento) é como se você enfim acordasse e entendesse que realmente tudo aquilo era real. Apolo era meu pai, o mesmo cara que me reservara um arco para quando descobrisse da minha descendência e o mesmo o qual minha mãe mandara uma tapa na cara de encomenda.

Matheus e eu fomos recebidos naquela noite pelo acampamento. Alice nos guiara para uma entrada ao meio das árvores que nos desvendava um tipo de “vilarejo”. Todos no momento se encontravam ao redor de uma grande fogueira, sentados em enormes grupos em mesas separadas.

Fomos levados até um homem chamado Quíron. Quer dizer, meio homem. Ele possuía tronco, braços e cabeça de homem, porem uma traseira de cavalo. Centauro é o nome certo. Ele era o diretor de atividades do acampamento. De todos os acampamentos de semideuses gregos do mundo pelo que entendi. Só não consigo ver um jeito dele se manter presente em todos os lugares sempre que precisam da presença dele.

Alice, que já era da casa, nos apresentou ao híbrido, que nos recebeu com satisfação.

–Imagino que não tenha sido um caminho fácil... –disse ele sorrindo de braços cruzados a nossa frente.

–Não mesmo, senhor. – disse Matheus – Fomos atacados agorinha na chegada por uma serpente gigante.

–Serpente gigante? – se surpreendeu ele dirigindo o olhar para Alice.

Depois de alguns segundos se encarando, Alice lançou a pergunta a Quíron.

–Acha que seria possível?

–Não posso tirar conclusões precipitadas. – falou calmamente o centauro que lançou em seguida um sorriso receptivo – O que importa é que temos mais dois semideuses vivos para receber treinamento.

***

Depois de sermos apresentados ao redor da fogueira, e de acabarmos de comer o jantar, fui levado ao chalé 7, onde filhos de Apolo se hospedam.

O acampamento possui uma divisão de vinte chalés, pelo que entendi. Doze destinados aos filhos dos deuses do olimpo, e os outros para filhos de deuses menores. Mas não sou bom em mapeamento, então... Seguiremos.

Matheus ficou como hospede do chalé de Hermes, o 11. Já que esse é deus dos forasteiros, o chalé fica de portas abertas para semideuses ainda não reclamados.

Me despedi do meu amigo, que logo se enturmou com o pessoal do 11. Fui guiado por Alice até o chalé 7, que logo percebi não ter perigo de esquecer qual dos vinte ser. O estabelecimento era revestido em um dourado quase ouro. No topo da entrada se encontrava uma arpa cruzada por uma flecha, como se o instrumento fosse um arco.

O interior era mais que receptivo. O grande quarto era claro, com cores de branco a um amarelo alaranjado. Possuíam diversas camas bem posicionadas, algumas bagunçadas, com pertences espalhados por cima, outras bem arrumadas. Alice me levou até a minha que parecia nunca ter sido de nenhum semideus, o que não era verdade, já que até os próprios monstros colaboram com a rotatividade de espaço no acampamento (infelizmente, ou o meio sangue segue um rumo na vida, ou morre. Só assim para outros novos possam ficar no acampamento).

–Bem, sua cama vai ser essa aqui. Do lado da do David Felber. – disse Alice dando espaço para uma filha de Apolo poder passar – Sempre que der o horário de dormir, não ignore o toque de recolher. É serio. Não vai ser legal para você. A faxina das harpias limpa tudo que vê pela frente, tudo mesmo. Se é que você me entende.

Coloquei minha mochila em cima da cama e o arco dentro da aljava com as flechas, pendurado-o na cabeceira.

–Amanha vai ser legal... Você vai ver. – disse Alice começando a se retirar.

–Ei! – chamei antes dela se afastar – E você é de qual chalé?

Ela andou mais um pouco e se sentou em uma cama não muito distante da minha.

–Você é filha de Apolo?!

–Já te disse – disse ela sorrindo, soltando o rabo de cavalo e tirando os óculos de armação vermelha colocando em seguida em cima de um criado-mudo ao lado de sua cama – Existem muitas coisas sobre as pessoas que a gente não sabe.

***

Foi até uma boa noite. Mesmo com todas as coisas medonhas que conheci e todas as renovações que minha vida sofreu em menos de 24 horas, consegui dormir como se já estivesse me adaptando à minha mais nova casa. Imagino se Matheus conseguiu o mesmo. E peguei no sono enquanto pensava nos meus futuros dias como um oficial semideus, filho de Apolo, o deus do Sol.

***

Ok. Eu sei que sou filho do deus do Sol e tal, mas se tem uma coisa insuportável para alguém que está dormindo é acordar com a claridade da janela na cara. Os meus “queridos” irmãos já se mobilizavam para um dia de atividades. As cortinas eram abertas sem se importarem se tinha alguém dormindo ou não. E tinha! O novato aqui! Ninguém percebe?! Cadê a boa recepção? Não?

O pior de tudo era que as cores do quarto potencializava a claridade da luz que impediam cada vez mais meus olhos de abrirem.

–Ei Rafael. – disse Alice me sacudindo enquanto eu ainda tentava enxergar alguma coisa – Aproveita que ninguém tá usando o banheiro-4, e vá se arrumar logo. As atividades vão começar daqui a pouco e eu ainda quero te mostrar o acampamento antes.

Antes de eu entrar para o banho, Alice me entregou a camisa alaranjada do acampamento.

***

Saímos do 7, que por sinal refletia o dourado como se fosse o próprio sol. Vários campistas já se encontravam espalhados pelo acampamento, alguns dando “bom dia” quando passávamos e outros não tão educados assim.

Procurei Matheus para nos acompanhar no “tour”, porem não o encontrei por ali. Talvez tenha ido para o refeitório com o pessoal de Hermes.

No caminho, era engraçado como me via em frente de criaturas que todos ali já eram familiarizados. Em uma fonte, em frente à Casa Grande, onde as coisas do acampamento são resolvidas, havia um cavalo alado branco simplesmente bebendo a agua clara. Um Pégaso (pelo menos esse eu sabia o nome...). Na quadra de vôlei, além de garotos e garotas com camisas laranja como a minha, haviam homens metade bode, que jogavam entre os semideuses e chamava a atenção de garotas esverdeadas sentadas na arquibancada. Eram sátiros e dríades, espíritos das árvores.

O lugar era bem legal, e algumas áreas de atividade me fazia imaginar o que deve ser feito quando as coisas não terminam da melhor forma. Tipo a Parede de Escalada. Alice disse que enquanto tentamos subir, alguns obstáculos surgem no caminho e que até lava escorre do topo algumas vezes. (Para que monstros, se nossos treinamentos possuem comportamentos assassinos?) Mas pelo que ela disse, a estrutura é a mesma em todos os acampamentos do mundo, e que nada de tão grave ocorreu durante as atividades que o Néctar não resolvesse.

Ah! O néctar é a bebida dos deuses. Possui um gosto diferente para cada um que o bebe, se assemelhando sempre ao sabor do que a pessoa mais gosta. Recebemos um pouco quando estávamos no refeitório no dia anterior, para curarmos dos ferimentos causados pelos ataques da serpente, que por sinal ainda não me falaram nada sobre ela. Mas enfim, o néctar não pode ser ingerido pelos mortais, de forma alguma, se eles tiverem amor à vida, e pelos semideuses apenas doses pequenas. Por ser uma bebida sagrada pode causar danos básicos ao corpo humano, como uma simples incineração instantânea do corpo inteiro.

Alice me mostrou tudo no acampamento. A arena, o anfiteatro, o lago de canoagem, área de tiro ao alvo, e entre varias outras coisas.

Me explicou também uma coisa chamada Bronze Celestial. A substancia, presente nas armas dos semideuses. É mortal para monstros, só para monstros. Não são perigosas contra mortais. Por conta do bronze celestial, os monstros, ao serem atingidos pelas armas, viram pó instantaneamente. É exatamente a substancia usada na ponta do lápis-da-sorte de Alice e das minhas flechas, por isso as lanças de madeira improvisada na floresta não afetaram a serpente e minhas flechas sim.

Quando fomos para o refeitório comer alguma coisa antes das atividades, me surpreendo ainda mais com uma novidade (nem sabia que podia me surpreender com mais alguma coisa). Enzo, aquele professor de Matemática, que fazia questão que eu e Matheus sentássemos na frente na aula dele, que andava engraçado e dizia ter pés feios(bem feios por sinal, agora posso dizer), estava ali, cumprimentando algumas pessoas enquanto rondava por entre as mesas. Lembra dos sátiros? Bem, era exatamente o que ele era. Da cintura para cima homem e pernas de bode que eu não conseguia parar de olhar.

–Olha quem está aqui! – disse ele quando me viu chegar com Alice – Vejo que conseguiram chegar bem.

–Grupo Adaptativo para Pessoas com Déficit de Atenção? – perguntei lembrando do panfleto – Sério?

Ele sorriu.

–Precisava entregar, a vocês dois, o mapa de algum jeito... – disse ele.

–E que tal a ideia de nos trazer até aqui na próxima?

–Te entendo... Mas estava resolvendo uma coisa que o Quíron me pediu para informa-lo. – disse ele um pouco tenso na ultima parte, olhando para Alice. – Mas o que importa é que Alice, como uma boa semideusa conseguiu traze-los em segurança. Por sinal, já soube que foi reclamado. Filhos de Apolo são legais, pelo menos a maioria. Não deixe subir a cabeça a ideia de que vocês brilham mais que os outros...

–Não se preocupe. Não vou. – disse dando um sorriso.

–Acho melhor vocês se apressarem. São dez horas. Dez e meia vocês tem que começar seus treinamentos. – disse Enzo me dando um tapinha nas costas – A propósito, lembre-se da prova daqui a duas semanas!

Prova. O que seria de mim agora na escola? Simplesmente sumiria? Ou será que Enzo tem algo planejado quanto a isso? Preocupante mesmo é eu aqui, pensando nisso sendo que lá fora existem criaturas me querendo no churrasco de domingo.

Depois de fazer um prato, me dirigi para a mesa de Apolo. Olhei para a de Hermes e nada do Matheus. E se ele estiver sofrendo bullying?... Será que aqui tem castigos tenebrosos? Não consegui evitar o pensamento de uma pessoa amarrada na parede de escalada esperando a lava escorrer ao seu encontro.

Foi ai então que ouvi muitas pessoas rindo, e outras dando gritos de apoio. Era uma roda, e no meio estava Matheus e uma filha de Ares, em um tipo de brincadeira que não resultaria em coisa boa.

A garota se chamava Lena Maia. Possuía algumas cicatrizes desejadoras, nos braços e uma na bochecha esquerda. Manuseava duas espadas de uma só vez, enquanto Matheus não possuía nenhuma.

A algazarra não era vista como errada, pelo contrario, o próprio Quíron ali se encontrava de braços cruzados, esperando para ver o resultado.

Pelo que percebi era realmente uma brincadeira suicida que o próprio doente do Matheus estava ciente. Lena se preparava para começar na hora certa, dando um sorriso ameaçador.

Matheus sorria também, mas com aquela risada forçada, que por dentro eu tenho certeza estar se borrando de medo. Estava em uma posição de combate que o deixava patético em frente de uma garota com duas espadas na mão. “Vai morrer. Infelizmente vou ter que ligar para a mãe dele para dar uma noticia como essa.” Pensei comigo mesmo.

Lena começou a golpeá-lo. A sorte dele é que impressionantemente, ele conseguia desviar dos diversos golpes que a lamina cortava o ar num zunido que dava para escutar de onde eu estava.

Quando percebeu que estava conseguindo fugir sem muito esforço das investidas da filha de Ares, ele começou a fazer a coisa que mais me irrita (e olha que são muitas coisas que me irritam vindo de Matheus). Da forma mais desumilde ele soltava gargalhadas irritantes a cada desviada.

Vários foram os momentos que esperei ver a cabeça do meu amigo rolando no chão. E sinceramente, com aquelas risadas dele eu estava quase desejando que isso acontecesse logo. Lena já parecia irritada com tantos golpes sem foco, e isso para uma filha de Ares é muito ofensivo. Ninguém precisou me falar, estava estampado na cara dela.

Minha esperança de ele continuar com todas as partes do corpo no lugar correto aumentou quando, impressionantemente, em um desvio rápido, ele conseguiu desarmar uma das mãos de Lena. Conseguindo enfim um jeito de se defender.

Tá, espada em mãos. Mas a pergunta é: que diferença isso realmente faz? Pelo que sei Matheus não sabe usar uma espada.

Pelo visto, eu estava enganado. Em uma sequencia de golpes de avanço, Matheus conseguiu roubar a segunda espada, desarmando agora completamente a filha do deus da guerra.

Ninguém gritou. Todos estavam de boca aberta, sem acreditar no que um novato havia feito com uma prole de Ares.

Para quebrar o silencio, enfim algo aconteceu. Sobre a cabeça de Matheus, um símbolo começava a surgir em uma cor esverdeada. Era um cajado com duas cobras entrelaçadas. Era Matheus sendo reclamado como filho de um deus.

Quíron deu um sorriso de canto de boca. Descruzou os braços e aplaudiu, dizendo:

–Contemplem todos, Matheus Brunelli! Filho de Hermes!

Depois de alguns filhos de Hermes que já conheciam Matheus terem o cumprimentado e o parabenizado, eu e Alice fomos falar com ele.

–E ai? – perguntei quando chegamos até ele — Como está se sentindo?

–Caramba... – foi a única coisa emocionante que ele conseguiu falar.

***

Filho do deus dos ladrões. Como não seria? Pelo menos agora sabemos de onde vem o descontrolado vicio por roubo vindo de Matheus. E o bom disso tudo é que ele não precisou mudar de chalé, já que já estava no do seu pai.

O que tirou mesmo o Matheus do momento “novo filho de Hermes” foi quando o sinal tocou para todos se encontrarem em frente à Casa Grande. Quíron se encontrava na frente de todos para anunciar a atividade no momento.