O Lamento Da Lua
11 Onze - M.I.G.
As Gordinhas da Ondina não ficavam tão distante assim do zoológico, mas era uma distancia um tanto considerável para quem estava a pé, como nós. Demorou um pouco até enfim chegarmos ao nosso primeiro lugar suspeito de presença da deusa-descontroladamente-apaixonada-e-sem-noção.
Quando chegamos aos portões azuis, percebi que os letreiros da entrada, que diziam “PARQUE ZOOBOTÂNICO”, pareciam embaçar cada vez que eu tentava ler. Pisquei algumas vezes, pensando que fosse talvez alguma coisa que havia caído no meu olho e não percebi ou talvez na possibilidade de ser o déficit de atenção atacando. Mas ao tentar mais uma vez olhar para a entrada do local, as letras haviam se transformado em outras. “CATIVEIRO DA LUA”.
Camilla nos tirou do caminho dos visitantes que transitavam, tanto saindo como entrando no parque. Ficamos próximos a um muro onde não havia muita gente, só um vendedor de algodão doce. Eu continuei observando o letreiro que havia modificado totalmente.
–Olha só – falou Camilla olhando alguns visitantes que passavam por perto – Se vocês já vieram aqui antes, talvez algumas coisas mudarão do que foi visto para o que vocês irão ver. Ártemis tem ligação com animais selvagens, então ela sempre tem um cativeiro só dela nos lugares que ela visita.
–Então você quer dizer que o zoológico da cidade é dela? – disse Matheus olhando agora os letreiros, provavelmente vendo a mesma coisa que eu.
–Coisa dos deuses... – disse Alice que também olhava para a entrada, mas não dava muita importância para a mudança.
–Então... Vamos tentar ficar o mais próximos possível. – disse Camilla colocando o arco prata junto às flechas na aljava – Quem está lá dentro sabe quem somos.
***
Quando entramos, percebi dois homens paralelos em frente a um portão verde. Eles se vestiam com um terno esverdeado e usavam óculos escuros. Se não fosse o tom do paletó, levantaria a possibilidade deles fazerem parte da organização dos MIB. Sei que isso é besteira, mas vai saber? Já vi tanta coisa que eu não acreditava na semana passada, porque duvidar de mais alguma coisa?
Os homens eram realmente um tipo de segurança, não um caçador de alienígenas e tal, mas o que estava no lado esquerdo do portão olhou para o que estava no direito que em seguida levou a mão ao ouvido e sussurrou algo. O que um verdadeiro espião de filmes faria.
Por um momento pensei que os dois estavam olhando diretamente para onde estávamos.
–Ei – sussurrei para os três, que andavam na minha frente no meio das pessoas – Os Homens de Verde ali parecem ter nos notado.
Camilla olhou disfarçadamente.
–Fazem parte da empresa. Trabalham para Ártemis. – disse ela, mas mesmo assim manteve-se seria.
–Mens In Green – riu Matheus para mim depois de entender a referencia que eu havia feito. Não consegui evitar e ri também.
–Vocês dois. Por favor, né? – disse Alice.
Quando parei de rir, olhei mais uma vez para trás, checando o comportamento dos MIG. Os dois realmente olhavam em nossa direção e o da direita continuava a sussurrar algo enquanto apertava o tal aparelho no ouvido.
Quando voltei a olhar para frente, vi uma mulher sinalizando para as pessoas que chegavam. Ela usava uma camiseta polo branca com um lenço verde amarrado no pescoço e calça jeans. Quando nos aproximamos ela sinalizou diretamente para nós, indicando que fôssemos até lá.
De perto pude ver que sua pele tinha um tom esverdeado e seus cabelos se misturavam delicadamente com pequenos ramos de folhas. Era uma dríade. Uma Recepcionista-Ninfa.
–Olá semideuses. – disse ela em um sorriso – Podemos saber o que nos dar a honra de tê-los aqui no Cativeiro da Lua?
–Er... – tentou Matheus que logo foi interrompido por Alice.
–Viemos dar um passeio, oras. Nos esbarramos com um monstro aqui por perto e decidimos dar uma passada por aqui.
A recepcionista não queria deixar o sorriso morrer, mas sua cara de duvida estava estampada.
–Sim. – confirmou Matheus desnecessariamente – Vai dizer que semideuses não podem esfriar a cabeça vindo visitar um local como este?
–Mas é claro que podem. – disse a ninfa continuando a forçar o riso. Percebi que ela olhou para alguém atrás de nós, o qual disfarçadamente eu procurei e não encontrei – Só vou pedir o favor que deixem suas armas aqui na recepção comigo. É regra da casa. Nada de violência.
Nos olhamos brevemente. Eu podia sentir algo muito estranho acontecendo ali e já me perguntava se estava sendo realmente uma boa ideia entrarmos no lugar.
–Tudo bem então. – disse Camilla por fim, tirando a aljava das costas e todas as facas e outros tipos de armas que ela carregava pelo corpo.
Repetimos o mesmo, mas preferi manter o saco das Bombas de Delicadeza no bolso, caso qualquer imprevisto. E vai ocorrer imprevisto, se não essa missão não é uma missão de semideuses.
–Muito bem – disse a mulher esperando enfim Alice depositar o cinto dos lápis no canto da recepção – Podem ter certeza que tomarei conta para vocês. Espero que se divirtam.
Seguimos sem dar muita atenção a ela.
Gritos de crianças empolgadas, puxando os pais para ver os animais, adultos sentados nos gramados, pessoas comprando nas lojas. O movimento humano era normal, ninguém parecia perceber que mulheres esverdeadas os recebiam na entrada e alguns animais nas jaulas não eram animais exatamente. Existiam sim animais exóticos e comuns, porem a variedade do Cativeiro da Lua apresentava monstros que nenhum mortal normal ali presente se quer imaginaria.
Camilla olhava tudo com atenção e nos mandou parar depois da jaula de um monstro que ela e Alice nomearam de Manticora. Era medonho. Por um momento achei ter visto um rosto de homem escondido na escuridão do fundo da jaula, até que o rosto se moveu e desvendou seu corpo imenso de leão e uma calda longa e espinhosa na ponta. Quando nos viu, a calda disparou diversos espinhos compridos em nossa direção, mas, além das grades, um tipo de campo de força nos separava da fera.
–Precisamos fingir o máximo que conseguirmos que só estamos mesmo visitando o local. – disse Camilla ao pararmos ao lado de uma placa escrita “Não pise na grama” sendo que tinha um casal ditado nela. Mas pensando melhor... Eles não estavam pisando. – Se não acharmos pista alguma de Ártemis, saímos de imediato.
Confirmamos com a cabeça. Um pouco distante observei mais MIG espalhados pelo parque e alguns deles fixavam o olhar em nossa direção, assim como os da entrada.
–Não sei se vocês já perceberam – sussurrei antes de começarmos a andar novamente – Mas acho que estamos sendo vigiados.
–São sátiros treinados em combate. – disse Camilla depois de ter observado nosso redor.
Acho que talvez eu tenha me adaptado aos sátiros do acampamento nos poucos dias que passei lá e isso tenha feito com que eu não reparasse nas pernas dos homens. Eram realmente pernas de bode, mas de todos os sátiros que eu conheço eu nunca tinha visto um pelo acampamento no porte daqueles. Eram fortes e sérios e a maioria não tinham vestígios de chifres aparecendo na cabeça.
–Vamos continuar. Só não podemos demonstrar que estamos com medo da supervisão. – disse Camilla.
–Ah claro. – disse Matheus – Imagino que eles devem nos levar a um deposito onde prendem alienígenas capturados com frequên...
–Agora já chega Matheus... – disse fazendo-o parar e parecer um pouco sem graça.
***
A quantidade de Sátiros de Combate nas redondezas de onde estávamos aumentava cada vez mais de uma forma bastante estranha. Percebi diversas trocas de olhares significativas entre eles o que me levou a questionar se o que quer que fosse nos envolvia.
“Precisamos sair daqui e agora” Pensei, indo em direção aos outros para comunicar a retirada, porem uma voz vinda de trás de umas grades me interrompeu quando passamos em sua frente.
–Ora, ora. – disse a voz feminina – Esse zoológico nunca foi tão movimentado assim como nessa temporada...
Quando me virei para observar quem falava, me deparei com uma mulher recostada na parede, parecendo um pouco entediada. Seu tronco humano era ligado a um duplo corpo de serpentes e sua pele escamosa possuía um tom esverdeado.
–Cala a boca, dracaenae – disse Camilla como se tivesse intimidade com a tal mulher cobra. –Ninguém está aqui por você.
–É uma pena... Lembro quando fui seu foco por um dia. – disse a tal serpenteando com o corpo duplo de cobra.
–Do que ela está falando? – perguntou Matheus com um olhar um pouco de nojo quando a viu se mover.
–Fui eu quem a capturei e coloquei atrás das grades. – disse Camilla ainda sem dar atenção a mulher. – Bobagem. Não dá ouvido a ela, vamos continuar a procurar.
A criatura respondeu em uma gargalhada o que me pareceu um tanto forçada.
–Bobagem?... Não imaginei que fui uma presa tão fácil assim pra você. Ainda mais que você era nova... E pela situação que tinha acabado de passar... – disse ela enfatizando e colocando uma pitada de veneno nas ultimas palavras.
–Cale sua boca. Você não sabe nada sobre minha vida. – disse Camilla alterando um pouco o tom de voz. – Você devia me agradecer de não ter te transformado em pó naquele mesmo dia.
–É né. Mas sua chefia preferiu me deixar aqui de exposição. – disse ela parando de olhar as unhas e prendendo os cabelos em um coque – Mas entendo que Ártemis percebeu que sou algo a qual todos devem admirar.
Matheus fez cara de como se estivesse vomitando, o que me fez rir um pouco, mesmo que o comportamento dos seguranças ainda me incomodasse.
–Urgh, vamos continuar. Essa mulher não vale a pena. – disse Camilla dando as costas e começando a andar na nossa frente.
–Continuar... A procurar por sua comandante mor? A conhecida deusa da Lua? – ela deu uma risada baixa com total malícia. – Está perdendo o seu tempo.
Camilla franziu os olhos quando percebeu enfim os sátiros cercando a área.
–O que você quer dizer com isso? – perguntou ela sem se virar ainda observando o comportamento das figuras de paletó verde.
–Que ela não está aqui. – disse a dracaenae em um suspiro de tédio no final e voltando a se recostar na parede da prisão – Ela esteve até aqui, mas partiu logo. E estava acompanhada.
Meu coração congelou com a informação e desejei que não fosse o que estava pensando.
–Acompanhada? – perguntei tentando não demonstrar medo da resposta.
–Sim. Ela o encontrou e os dois estão juntos. – disse ela se rastejando para nossas direções e segurando as grades como um verdadeiro detento – E ele... está... a sua... procura. – disse sussurrando cada palavra.
–Rafael! – falou Alice no meu pé do ouvido – Estamos completamente cercados.
Observei agora os lados e pude ver que os sátiros estavam próximos demais e haviam feito um circulo naquela parte do zoológico.
–Vamos retornar para entrada – sussurrou Camilla ainda analisando-os. – Agora! – gritou ela quando percebeu que um deles havia colocado a mão no bolso.
***
Um alvoroço enorme aconteceu quando eles perceberam que estávamos tentando fugir. Os visitantes reagiam gritando, mas eu não fazia ideia do que eles estavam vendo. Joguei uma Bomba de Delicadeza nos sátiros que vinham pela frente fazendo uma onda de folhas, flores e terra abrirem caminho para passarmos.
–Para a entrada! – gritou Camilla empurrando as pessoas que estavam na frente – Desculpa.
Alice pegou dois lápis do bolso, mostrando que também havia se preparado por precaução. Ela lançou-os de vez acertando dois dos sátiros, derrubando-os e fazendo-os derrubar outros que vinham atrás.
Algo inevitável aconteceu e me preocupou imediatamente. Nos separamos. Me vi correndo sozinho na área dos macacos com uns seis sátiros na minha cola. Alguns deles lançavam um tipo de corda em minha direção e uma delas passou raspando em minha perna e atingiu um macaco que teve as duas pernas presas, uma junto à outra. Anotando: Não deixar a cordinha marota tocar em mim.
Lancei mais uma Bomba de Delicadeza para trás, fazendo crescer um paredão de fores de raízes. Os efeitos da invenção dos filhos de Demeter tinham mudado totalmente. Eu estava me sentindo mudando de um celular antiquado para um totalmente atualizado e renovado. Tenho que lembrar de dar os parabéns aos dois quando voltar. Foi ai que me perguntei se eu realmente iria ter essa oportunidade.
Quando olhei mais uma vez para frente, uma dríade vestida com roupas de domadora invocou raízes que surgiram em baixo dos meus pés e me cobriram feito um casulo, deixando só minha cabeça de fora. Dois sátiros a acompanhavam. Amarraram meus pulsos e pés com as cordas-de-contato rapidamente quando as raízes me soltaram sem me dar tempo de tentar fugir.
–Sinto muito Rafael Dalmarco – disse um dos sátiros de paletó verde cara a cara comigo depois de amarrar um pano em minha boca. – Sua missão acaba aqui. – terminou colocando em seguida um saco em minha cabeça.
A partir dai tudo ficou escuro.
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