O Lamento Da Lua
17 Epílogo
Bem, alguns meses se passaram depois que Orion voltou a ser uma constelação e as coisas se normalizaram um pouco mais. Não fiquei muito por dentro dos acontecimentos do acampamento desde quando voltei para casa, mas soube que as coisas estão um pouco complicadas no Olimpo.
Não quis ficar pensando muito sobre esse assunto, pois desde a morte de Camilla preferi me distanciar um pouco desse tópico importante sobre minha vida, que estou pensando seriamente em começar a colocar nas minhas redes sociais. Algo do tipo, Ps: Perigo, sou um semideus. Ultimamente tive que me procurar mais em recuperar os dias perdidos na escola, pois no próximo ano eu não queria correr o risco de retornar ali outra vez na nova turma de terceiro ano.
Julia Araújo quase se desidratou de tanto chorar quando retornamos, fazendo varias perguntas sem deixar espaço para respondermos nenhuma. Eu só conseguia rir enquanto Matheus fazia cara de assombrado e dizia a ela que estava assustando ele. Ela estava com o fundo dos cabelos tingidos em verde claro que me lembravam algodão-doce.
Tudo até que passou bem durante o resto do ano. Poucos foram os casos que um monstro cruzou meu caminho e tive de parar o que estava fazendo para transforma-lo em pó, mas nada grave.
Julia parecia mais grudada a mim e a Matheus, como se nunca mais quisesse nos perder de vista de novo. Algumas vezes ela fuzilava Alice com os olhos quando estávamos conversando, e um dia Matheus me deu um alerta quando me mandou apenas imaginar uma briga de Alice e Julia sendo as duas em período pré-menstrual. A partir desse dia procuramos evitar o máximo que elas tivessem oportunidade de estarem juntas no mesmo lugar.
***
Enfim os resultados de fim de ano saíram e fomos aprovados, recebendo a tão esperada carta de alforria. Matheus teve que ser apanhado por Corneta no dia que o resultado saiu, pois este queria pular na piscina só de cueca depois de ter corrido por toda a escola gritando “LIBERDADE, LIBERDADE!”.
–Você é louco. – disse quando encontramos com ele na frente da diretoria depois que havia sido dispensado.
–O que eles iam fazer? Darem uma suspensão me proibindo de vir na formatura? – ele respondeu, fazendo eu e Julia rirem por um longo período.
A formatura ainda era em um mês, por que tinha o resultado de recuperação para entregar (sim, no meio disso tudo ainda consegui passar sem recuperação). O final do colegial para uma pessoa normal pode até ser uma coisa estranha, como se não soubéssemos o que fazer no futuro que nos espera, mas para um semideus é diferente.
Não perdi tempo em ficar me lamentando de que já estava com saudade da escola (sendo que havia saído a menos de uma semana), me preocupei no momento em que não estava achando um lugar se quer para alugar a zorra do smoking sem que o atendente virasse um monstro medonho.
Estava sendo um mês até bastante tranquilo para dois semideuses como eu e Matheus, até que estranhamente, de um dia para o outro, Julia simplesmente desapareceu, sem deixar nenhum aviso.
Quando ligávamos para a casa dela a avó apenas dizia que ela não estava em casa e que a gente não tentasse mais tarde, porque Julia não estava querendo muita conversa. Comportamento estranho que nunca havia acontecido nesses anos que a conhecíamos e o mais curioso era que faltavam apenas duas semanas para o dia da solenidade.
Pensamos que também não a veríamos pegando canudo algum quando chegou a noite anterior ao dia da formatura. Não consegui dormir muito bem nessa noite, pois era tão confuso se preocupar com o que poderia ter acontecido com ela e ao mesmo tempo saber que a família estava consciente de por onde ela andava que eu não sabia ao certo o que imaginar sobre a mudança estranha e repentina de Julia Araújo.
A tarde passou e sem uma ligação da menina de cabelos tingidos.
***
O auditório estava lotado. Familiares, professores, alunos, todos estavam sorridentes a espera do inicio da noite de solenidade. Encontrei Matheus, Alice, Bruno e outros amigos do lado de fora, onde todos se arrumavam para a entrada. Corneta e outra mulher, que trabalhava na escola, nos posicionavam em uma fila, sendo uma garota acompanhada por dois garotos.
Julia iria entrar junto a mim e a Matheus e isso deixava minhas mãos inquietas. Não havia sinal dela subindo as escadas que levava a entrada do auditório. As garotas estavam lindamente vestidas em diferentes modelos de vestidos longos e brancos. A escolha da cor me deixou, juntamente com muita gente, uma sensação medonha de referencia a casamento quando foi escolhido em sala de aula, mas o resultado foi surpreendente e original. Só que em que adiantava admirar as garotas que na maioria das vezes eu vi com cara de sono nas manhãs de aula se a principal que eu e Matheus esperávamos estava prestes a nos deixar na mão?
Faltando dez minutos para começar, eis que surge ela. Julia estava em um vestido não muito detalhado, mas os poucos detalhes que tinham possuíam uma cor prateada como raios no céu de tempestade. Os cabelos estavam presos em um penteado bonito e os fios castanhos se misturavam com alguns em prata e branco; deixando-a lindamente misteriosa. Ela se aproximou e enquanto eu e Matheus sorriamos para ela feitos dois idiotas, esta parecia indiferente, com uma expressão séria e sombria que eu nunca havia visto no rosto dela.
Não deu tempo para conversar. Quando ela nos alcançou a musica de entrada indicou que a noite havia enfim começado.
***
A formatura foi engraçada e ao mesmo tempo triste, mas Julia em momento algum transmitia sentimentalismo com as coisas que eram ditas e apresentadas na grande tela do palco.
Todas as vezes que tentei perguntar alguma coisa durante a solenidade ela respondia com um vago “Agora não.” Ela estava completamente diferente, com um ar estranho de superioridade e desleixo, como se algo a esperasse do lado de fora daquele auditório.
Uma chuva de prata anunciou oficialmente o final do Ensino Médio e choros e abraços tomaram conta na área reservada aos formandos. Antes de qualquer pessoa, abracei os dois que estavam ao meu lado no momento em que enfim uma lágrima escorreu no rosto rígido de Julia que a enxugou rápido e aceitou o abraço da forma adorável de sempre.
–Para nós três isso não é uma despedida de verdade – disse ainda abraçando os dois – Não é mesmo?
Matheus confirmou com a cabeça e prendia o choro com uma cara engraçada que fez até Julia soltar um sorriso e encostar a cabeça na dele em sinal de conforto.
–Não importa o que vai acontecer – disse ele conseguindo travar completamente as lágrimas – Vocês tem que estar ao meu lado no futuro.
Julia continuava com o sorriso no rosto quando nos afastamos do abraço e, antes que fôssemos cumprimentar os outros amigos e colegas de sala, ela falou:
–As coisas simplesmente mudaram, e de agora em diante tudo está para ficar mais imprevisível.
Meu cenho franziu imediatamente. Algo se escondia naquelas palavras, o que tornou a frase misteriosamente complicada de se decifrar e meu palpite era um risco tremendo o que o tornava algo realmente particular.
Talvez eu estivesse delirando, talvez fosse a vontade de dividir as novidades sigilosas com a amiga que sempre estava comigo e com Matheus, mas as palavras de Julia Araújo simplesmente se assemelhavam com o que um recém descoberto semideus diria.
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