O Ladrão De Ases

1 Um ás com marca de batom.


João do Ás estava blefando. Checava as cartas como se não tivesse certeza do que via, mas sabia que ganharia aquela rodada de uma maneira ou de outra. Se Ricardo fugisse, ele levaria a mesa e se pagasse João teria de usar uma de suas cartas escondidas. Era verdade que não tinha muito dinheiro na mesa, mas valeria a pena o blefe. Ele torceu para que o homem não pagasse sua aposta. A mesa estava uma zona. Tinha copos de bebidas de todas as cores por todos os lados e o dinheiro apostado estava colocado no centro de qualquer maneira. Três pares de cartas se apresentavam à frente de cada um dos jogadores daquela pequena mesa e João estava com duas de suas seis cartas na mão. Mantinha a expressão de escárnio enquanto olhava para cada um dos jogadores da mesa. Aquele jogo seria fácil, mas ele queria distraí-los um pouco antes de fazer sua jogada. Decidiu começar

– Anão, não ganhaste nada hoje! Poderias sair do zero ao menos uma vez?

– Ás, — retrucou o negro — sabes que estou em uma maré de azar no momento, mas já tirei muitas pratas de sua mão, não venhas me dizer que não tem recordação disso!

– Se houve esse caso, foi em outro jogo, meu caro, pois sabes que ninguém me bate na trezeta. Meu nome não nega, o Capital sabe que sou o melhor nisso. Falando nisso — Ás deu uma olhadela nas cartas da rodada mais uma vez e começou seu teatro — Ah! Não acredito que não tinha visto antes, como disse, não há maior sortudo do que eu nesse jogo. Vossas mercês só olharão minhas cartas com o dobro de pratas na mesa. Vamos, pederastinhas, quem vai pagar?

Ricardo, o homem grisalho que esteve em silêncio até o momento vislumbrou novamente seu jogo e expeliu o ar de seus pulmões com força. Ele não queria pagar, sabia que não tinha cartas o suficiente para derrotar aquele sortudo filho da mãe, mas não conseguiria dormir à noite sem ver o que tinha seu adversário. De contragosto colocou a mão no bolso de dentro de seu colete, mas um barulho interrompeu seu movimento quando a porta do bar se abriu em um estrondo. Todos olharam para uma menina suada à porta. Luiza era pequena demais para seus quase 13 anos de idade, mas muito bela também. Seus cabelos loiros estavam bagunçados e os olhos azuis exteriorizavam o mais puro horror. Sua dificuldade de respirar demonstravam a distância que havia corrido até chegar naquele local, mas apesar disso conseguiu pronunciar algumas palavras soltas enquanto brigava com seu diafragma:

– João... A casa... Marlene...

Foi o suficiente três dos quatro jogadores se levantassem em um susto. Ás pôs o chapéu na cabeça, puxou o paletó por cima do ombro e pôs-se porta afora seguido por Anão, Ricardo e Luiza. O quarto jogador, um desavisado que estava no bar a fim de perder algum dinheiro, e encontrou as pessoas certas para isso, ficou olhando para a mesa e reparou os outros tinham esquecido de recolher as apostas do jogo. Tinha dinheiro o suficiente na mesa para um bom almoço em um bom restaurante, esticou sua mão esquerda lentamente para recolher o que havia lá, quando o homem que estava atrás do balcão de bebidas o alertou:

– Nem pense nisso, meu bom homem. Se encostares aí será o último objeto que essa mão irá encostar.

O homem olhou para o balconista reticente, pensando em suas opções. Temendo que o alerta fosse de fato real desistiu de sua façanha. Levantou-se da mesa e saiu do bar sem olhar para trás.

As ruas corriam por debaixo dos pés dos três amigos, a Alameda dos Imigrantes, a passarela dos Brancos, Avenida São Januário até que chegaram aos pés da ladeira Baixa. Uma viela de terra batida subia espremida por um aglomerado de casas simples de tijolos mal construídas, continuava até onde a vista não mais alcançava. Apesar do cansaço subiram a ladeira correndo, não sabendo o que encontrariam ao final. João estava desesperado pra descobrir o que tinha acontecido com sua amante e na correria até a casa dela não tinha falado nada com Luiza, que acabara ficando para trás. Na verdade ninguém disse mais nenhuma palavra desde que saíram do bar do Guido. O rosto sardento do homem suava como nunca e aquela camisa já estava ensopada. O negro Anastácio estava ao seu lado correndo enquanto Ricardo não conseguia manter o ritmo. Sua farta barriga parecia pesar centenas que quilos quando o assunto era correr. Quando chegaram próximos à rua de Marlene viram a barricada policial.

Havia carruagens da polícia fechando a rua em frente à casa. Dezenas de Líderes impediam a circulação da população enquanto outros entravam e saiam do local que protegiam. Alguns tinham charutos na boca, outros comiam bolinhos que lhes renderam o mais infame de seus apelidos. A maioria dos que cercavam o perímetro falavam asneiras entre si e trocavam ofensas com os curiosos na rua. Cavalos relinchavam de medo por conta da aglomeração em volta, pessoas chegavam a cada minuto para dificultar a ação dos Líderes, distrações que facilitariam a entrada de João na casa estavam em todo o lugar. A única coisa que ele não queria era chamar a atenção para si.

– Os bolinhos estão por todos os lados — disse Anão – não há passagem por eles. Vamos voltar ao bar e esperar o pronunciamento oficial no rádio, então descobriremos o ocorrido.

– Luiza, — disse Ás — vieste nos avisar da barricada dos líderes ou viste o que aconteceu antes deles chegarem?

– Fui alertar sobre a barricada. A vinda deles aqui nunca é em vão, algo sério possivelmente aconteceu com Marlene. E foi por esse mesmo motivo que os chamei aqui. Se existe alguém que pode investigar isso és tu, Senhor Ás.

João ajeitou o Ás de espadas que tinha preso na fita de seu chapéu e foi em direção da multidão. O caminho até o bloqueio não foi dos mais difíceis, já que todos que viam o símbolo em seu chapéu abriam caminho sem nenhum questionamento. O único menino que não tinha liberado a passagem foi puxado pela mãe e levou um tapa na orelha. A reputação o precedia no Bairro da Baixa Produção de Capital, era extremamente temido e respeitado e suas histórias sobre a expulsão de traficantes de drogas, a eliminação de estupradores e torturadores ficavam na idéia do povo não só como símbolo de medo, mas também símbolo de proteção. Ao passar pela multidão deu de cara com um sujeito gorducho e mal encarado com um grande bigode e o uniforme azul característico dos líderes. O charuto pendia em sua boca e seu bastão de contenção balançava em sua mão direita. O Jogador começou a considerar se seria falsamente educado ou genuinamente estúpido com o bolinho, mas temendo atenção desnecessária, optou pela primeira opção:

– O que está havendo nesse sitio, meu senhor?

– Ãhn? Não entendi... — Disse o homem mal encarado.

– Eu que peço sinceras desculpas por não ter sido claro o suficiente. Meu senhor, por conta desse tumulto, minha velha mãe não pôde atravessar a barricada para chegar à sua casa, ela é uma senhora muito doente e precisa de repouso em casa, por esse motivo perguntei ao senhor o que estava acontecendo e logo após eu iria perguntar se o senhor nos deixaria passar até o outro lado, só para minha idosa mãe não ter que dar a volta andando em todo esse morro, já que ela é uma senhora muito enferma e cansada.

– Achas mesmo que vou acreditar nessa baboseira? O que se passa aqui é de interesse apenas da convenção de Líderes e não lhe diz respeito, agora saias de minha frente se quiseres continuar com todos os dentes na boca.

A resposta não tinha sido satisfatória como já era de se esperar. Por alguns minutos os dois ficaram se encarando esperando que o outro desistisse de suas intenções, mas João sucumbiu primeiro com a consciência de que não conseguiria nenhuma informação daquele inútil. Ao voltar para o grupo questionou se havia alguma outra possibilidade de descobrir a informação, senão teria que fazer o que menos queria: Teria que invadir o apartamento de Marlene e descobrir por si só o ocorrido. A circulação de pessoas era incessante dentro daquele conjunto de minúsculos apartamentos e não existia nenhum caminho por terra no qual ele poderia se adentrar. Esse pensamento foi o bastante para que ocorresse um estalo em seu campo das idéias. Ás olhou para cima e viu que a incompetência dos engenheiros públicos o tinha ajudado pelo menos uma vez.

Os prédios eram uns amontoados de construções mal feitas nos quais um terraço distava do outro não mais do que três metros, fora quando a construção não estava inclinada diminuindo ainda mais a distância entre os prédios. Talvez fosse o perto o bastante ir de uma casa a outra com um salto bem feito. A questão era a seguinte, como ele conseguiria acesso a um prédio vizinho naquela bagunça toda? Se é que ele conhecia alguém que morava ao lado de Marlene, a possibilidade de encontrar essa pessoa a tempo de descobrir o que tinha acontecido e ainda de dar uma olhada no apartamento antes dos líderes Limparem tudo era muito pequena. Enquanto ele pensava, Ricardo e Anão discutiam a possibilidade de uma revolta contra o bloqueio:

– Nada que um tijolo bem jogado na fuça de um desses infelizes não resolva! — Disse Ricardo.

– Isso não será o suficiente, teríamos que nos por em risco para que as pessoas em volta se revoltem também. — Retrucou Anão — Alguém deveria ir lá e dar um bom tabefe em um daqueles comedores de bolinho e tomar outros de volta. Isso criaria um tumulto que quem estiver em volta não conseguirá ignorar. Todos sabem que nada de bom vem dos bolinhos. Eles aparecem em seu bairro, causam tumulto, limpam os vestígios do ocorrido e nunca mais se atrevem a tocar no assunto, como se o crime nunca tivesse acontecido. Como se não valesse a pena a investigação.

– Eu poderia saltar, — Disse João como se estivesse em um transe – de um terraço a outro. Não haveria alma viva a me ver lá em cima!

– Ruivinho, o que andaste fumando? Estávamos falando de tumulto e tu vens com essa história de pulo, homem, compartilha os teus pensamentos comigo e com o Ricardo, por obséquio, pois não tenho certeza que estejas pensando no mesmo que nós.

– Oi, desculpe-me, estava pensando alto. — Colocou a mão na cabeça e olhou novamente para cima — Anast... Anão, vê aqueles terraços lá em cima? Eles só não estão ligados por o que? Dois, três metros? Eu facilmente pularia de um prédio a outro, entraria na casa, verificaria o que está acontecendo e voltaria aqui para fora como se nada tivesse acontecido. Só não sei como conseguir acesso àquela casa. – Disso João apontando para o pequeno conjunto de apartamentos verdes que estavam logo ao lado do de Marlene — Vossas mercês conhecem alguém que esteja próximo e resida ali? Será que Luiza conhece?

Todos olharam em volta procurando a pequena menina de cabelos loiros, mas sem sucesso. O local estava abarrotado de gente e eram todos diferentes. Loiros, morenos, ruivos, de pele clara, de pele escura, de pele amarelada, de olhos puxados ou não. Pessoas de todas as aparências moravam em Santa Cecília e procurar uma menina loira em volta daquela palheta de cores ambulante era como procurar uma agulha em um palheiro. A maioria dos moradores do Baixo Capital eram pretos, apesar de existirem também alguns brancos e vermelhos recém libertados.

Ricardo, Anão e João eram brancos, já que tinham a própria renda e não eram amarrados a ninguém. Luiza era filha de pretos, ou seja, era filha de servos que trabalhavam em casas ricas e não recebiam dinheiro em troca de seu serviço, mas recebiam o que era necessário para sobrevivência, como comida e moradia. Eram conhecidos por esse nome, pois quando trabalhavam estavam sempre vestidos de preto. Já os vermelhos são criminosos que foram sentenciados a escravidão por um tempo determinado. Todos se vestiam de vermelho. O fato era: todos os moradores do Capital eram pessoas de baixa ou nenhuma renda, que viviam à margem da sociedade.

De repente, enquanto os três olhavam em volta, uma cabeça loira apareceu em movimento subindo a ladeira. Luiza tinha se atrasado, mas logo se colocou ao lado dos amigos. Novamente lutando contra o a sua respiração por conta do cansaço ela disse:

– Alguém tem alguma idéia de como iremos descobrir o que está acontecendo na casa de Marlene?

– Eu tenho, — disse João apontando para o terraço mais próximo do prédio que ele queria chegar — preciso chegar naquele terraço, mas não conheço ninguém que tenha acesso aos prédios ao lado, conheces alguém?

– Sim... Eu moro lá, mas por qual motivo queres ir para lá?

– Preciso chegar ao prédio de Marlene para verificar o ocorrido. Ricardo, Anão, aquela revolta que estavam planejando será necessária. Há muitos bolinhos do lado de dentro e seria perfeito para tirá-los de dentro e causar uma distração. Só tenho um pedido: saiam vivos e evitem ser presos, certo?

Os dois concordaram e se misturaram à multidão. Luiza guiou Ás até a entrada de um conjunto de apartamentos pequenos de cor de barro. Tinha três andares de altura, assim como o qual Marlene vivia e era feio de doer, tanto por dentro quanto por fora. Era feito de tijolos com uma pintura muito mal feita, nas janelas havia roupas penduradas secando e havia também algumas pessoas se esticando para verificar o que acontecia ao lado. Os dois subiram até o último andar, foram para a janela de um corredor e tiveram que escalar para que chegassem ao terraço. João ponderou se teria que fazer o caminho inverso quando chegasse ao seu destino. Escalar uma parede é fácil, difícil é descer por uma sem se desequilibrar.

O homem e a menina ficaram olhando para o salto de três metros de distância que um deles estava prestes a encarar. Chegaram perto da borda e olharam para baixo. Era uma boa queda e se não matasse, com certeza machucaria bastante o infeliz a cair, que no caso seria João. Tinha duas opções: ou Às chegaria são e salvo até o outro lado ou cairia batendo e rebatendo nas paredes quebrando basicamente tudo o que era possível em seu corpo. Era algo arriscado, mas Marlene realmente significava bastante para ele e não poderia esperar nem mais um minuto naquele suspense doentio. E se por acaso esperasse o pronunciamento oficial, aí então que ele não descobriria nada.

João pegou seu paletó e enrolou nas mãos prevendo uma maneira mais firme e menos dolorosa de agarrar o parapeito oposto. Deu seu chapéu a Luiza e olhou bem para a distância do salto, deu alguns passos para trás, respirou fundo e como um raio foi em direção da borda com destino ao prédio de Marlene. Cada milésimo de segundo o aproximava mais de seu salto tão arriscado. Ele estava confiante, sabia que era possível, sentia-se como um herói dos romances que ele lia, sentia-se invencível, um verdadeiro guerreiro no caminho da vitória. Mas foi nesse momento que a realidade colidiu dura contra sua consciência. Ao olhar para o concreto duro no chão três andares abaixo João do Ás hesitou, hesitou por tempo o suficiente para frustrar totalmente sua tentativa de chegar ao seu objetivo, pelo contrário, após o salto ele não conseguiu altura o suficiente e já no ar se dirigia direto para a janela do último andar. Não tinha mais como impedir o impacto e a última coisa que conseguiu fazer foi posicionar suas mãos na frente do rosto e esperar pela destruição.

Ele estava inerte no chão, sangue escorria por sua testa e por partes diferentes de sua cabeça. Seu cabelo fogo realçou com o líquido vermelho por todos os lados. Em meio à confusão de sua cabeça ouvia passos fortes e rápidos de líderes dentro do local. Estavam vindo ao encontro dele. Para prendê-lo, ou pior. Ainda deitado colocou a mão no bolso direito de sua calça onde encontrou uma navalha de barbeiro dobrada. Pegou-a na mão e pensou consigo mesmo: "Estou pronto, venham malditos!"


***

Anastácio, conhecido como Anão por seus amigos, era um homem de pele escura com seus quase dois metros de altura e músculos implacáveis advindos de suas incontáveis horas puxando redes de pesca lotadas. Naquele momento estava seguindo Ricardo pela multidão rumo aos bolinhos que bloqueavam a rua. Ao mesmo tempo que se desviava das pessoas delicadamente, olhava para cima procurando seu amigo em sua missão suicida. Era óbvio que aquela era uma ideia ruim. Tinham muitos Líderes naquele lugar e mesmo que ele provocasse uma guerra mundial nem todos sairiam para conter a agitação. Era impossível que ele realmente pudesse entrar naquele apartamento sem que fosse visto. E se fosse visto provavelmente seria morto. O objetivo anterior dele era criar uma confusão e irem todos até o apartamento para ver o que tinha acontecido, podendo assim um defender ao outro e, conseqüentemente, enfrentar um ou outro Líder no caminho. Aquele plano de João era uma idiotice, mas aprendera meses atrás que discutir com ele rendia frutos. Por mais que Anastácio insistisse, quando seu amigo trazia aquele fogo no olhar, aquele transe inquebrável, não existia nada que o faria reconsiderar. Justamente por esse motivo que não disse nada.

Quando os dois chegaram à barreira, contaram em torno de 30 guardas, fora os de dentro, com cassetetes e espingardas que disparavam apenas uma vez, contra 300 pessoas irritadas. Provavelmente seria o suficiente. Na melhor das hipóteses alguns sairiam com pelo alguns ossos quebrados. Na pior...

– Onde está aquele pivete, Anão? — Perguntou Ricardo.

Ao invés de Anastácio responder, ficou olhando para onde seria o ponto do salto de Ás esperando que ele aparecesse logo, para que a confusão pudesse ser iniciada. Apesar dos planos, a revolta não estava muito longe de acontecer por si mesmo. Moradores gritavam, xingavam e cuspiam para os Líderes, que por sua vez respondiam da mesma maneira. Os cavalos estavam começando a ficar mais agitados. Relinchavam e não paravam de se mover de um lado para outro até onde suas rédeas permitiam. Uma velhinha discutia inutilmente contra um dos homens que bloqueava a passagem. Esse era um dos poucos que estava calmo e fumava tranquilamente seu enorme charuto. Ele tinha duas estrelas por cima do bolso esquerdo de sua camisa, o que provavelmente dizia que era um dos superiores.

Foi então que dois vultos se apresentaram no alto de um dos conjuntos de apartamentos e o negro teve certeza que era seu amigo. Ricardo também tinha percebido e se jogou para cima dos líderes antes que Anastácio pudesse fazer algo, só teve tempo de gritar:

– Não! É muito cedo!

Depois ele descobriria que não era. O tempo foi perfeito.


***

João esperou e esperou. Sua visão começou a clarear dando lugar a uma dor de cabeça forte, mas pelo menos estava recobrando todos os sentidos. Olhou em volta e estava tudo muito quieto do lado de dentro, mas uma confusão tinha dado início do lado de fora. Uma revolta contra o bloqueio na rua e havia grandes possibilidades daquela revolta ter sido instigada por um de seus amigos, o que veio a calhar, pois provavelmente por conta do barulho e agitação do lado de fora ninguém chegou a ouvir o quebrar da janela. Quando pôs sua mão na cabeça, percebeu a quantidade de sangue que estava saindo. Não chegava a ser o suficiente para matá-lo, mas era preocupante de qualquer maneira. Ele precisaria ser rápido, ver o que tinha que ver, sair e encontrar alguém que poderia fechar aquele ferimento. Levantou-se com cuidado queixando-se da dor por todo o corpo. Havia cortes não só na cabeça, mas nas pernas, onde caiu por cima dos vidros, nos cotovelos e também nas roupas. Felizmente não tinha nenhum corte no torso fora as roupas, que já estavam bem velhas, de qualquer maneira.

O corredor no qual ele tinha caído dava direto para as escadas que tantas vezes ele beijou Marlene. Desceu, tentando fazer o mínimo possível de ruído, mas a dor era lancinante, os cortes abriam e fechavam a cada movimento. A cada passo que dava o barulho do lado de fora aumentava e já era possível ver alguns disparos das carabinas dos Líderes. Ele não tinha muito tempo, logo chegariam reforços e era possível que toda aquela confusão fosse controlada. Um lance de escadas já havia passado, a mão de João suava e sua lâmina estava quase por escapar. O último lance de escadas se foi e no interior continuava um grande silêncio contrastando com a mistura de sons, gritos, relinchos, tiros. Caminhando pelo extenso corredor o rapaz questionou se não haveria alguém dentro do apartamento. Se alguém não tinha ficado para trás para cuidar da cena do crime, se alguém não estaria esperando por ele para frustrar toda sua tentativa de e infiltrar no local. Suas pernas começaram a tremer, a coragem começou a lhe faltar exatamente quando era mais importante que ele tivesse, mas já estava lá, não teria mais como voltar. Não tinha condições de voltar pelo terraço e não queria dar tudo a perder exatamente quanto ele tinha chegado tão perto de seu objetivo.

Ao fim do corredor era possível ver uma esquina. Do lado esquerdo dava para a porta da rua, do direito tinham três portas de apartamentos diferentes. A mais longe era a de Marlene. Esgueirou-se olhando para os dois lados. A saída estava aberta, o que dificultava a passagem sem ser visto, mas não poderia voltar atrás agora. O apartamento que queria chegar também estava aberto, como um convite para intrusos. As paredes descascadas davam um tom de familiaridade no local, mas ainda assim era entranho, pois ele sabia que não voltaria a ver esse lugar por bastante tempo. Um pé seguiu silenciosamente o outro. Foi se espremendo contra a parede para evitar que algum infeliz o visse do lado de fora. João olhava em volta e não via nenhum sinal de vida. Chegou à porta, deu uma olhadela do lado dentro e nada. Não tinha uma alma viva dentro daquele local. Um suspiro de alívio passou por seus pulmões. Ele entrou com agilidade e encostou a porta para evitar que fosse pelo lado de fora do prédio enquanto vasculhava o local. Não acreditou em sua sorte, realmente não tinha sobrado um Líder para proteger o local enquanto os outros suprimiam a revolta. Realmente, quando a matéria é ser idiota, os bolinhos superam qualquer outro.

Era a hora da verdade. Olhou em volta e se surpreendeu por estar tudo absolutamente normal. Não tinha uma vírgula fora do lugar, como era de costume no apartamento de Marlene. A mesa de madeira de quatro lugares continuava intacta com todas as suas quatro cadeiras. Ao lado, as poltronas vermelhas contornavam uma mesinha de centro com dois cinzeiros de metal em cima. A grande janela que dava para o beco lateral estava fechada. Todos os penduricalhos estavam em seus respectivos lugares na estante. Não tinha nenhum sinal de luta, de invasão, de roubo. Não tinha nada. Quando o homem começou a questionar o que diabos a convenção de líderes estava fazendo lá, algo fora do lugar saltou a seus olhos. Bem na porta do quarto, em cima de um tapete minúsculo que sempre esteve lá, estava um balde. Um balde de alumínio no qual não era possível ver o que tinha dentro.

Foi se aproximando cuidadosamente. Não sabia o que tinha dentro, mas provavelmente era o motivo para toda aquela bagunça no local. Questionou para si mesmo se era algo relevante, se realmente tinha sido necessária toda aquela loucura para entrar no apartamento. Era possível que nada tivesse acontecido com sua amante, que talvez algum item que os meninos no bairro roubaram da gente rica da cidade foi parar naquele apartamento e nada demais tivesse acontecido. O balde era o recipiente onde Marlene tinha achado o item e chamou os Líderes para devolver. Ela nesse momento poderia estar apenas prestando depoimento enquanto seu apartamento é vasculhado para verificar se sua história era verídica. Esse momento de esperança que abateu João deu-lhe forças renovadas para encarar o objeto inerte à porta do quarto. Mas a realidade atingiu-o como um soco, o que realmente tinha lá dentro desfiou toda a sua teoria até não sobrar nada. Sentia pavor do que via, teve náuseas, sentiu-se frágil como nunca em sua vida. Ele não sabia o que poderia fazer para se livrar daquele problema. Pôs a mão na frente da boca como um esforço para não vomitar. Um suor frio começou a escorrer por sua testa. Ele estava perdido.

Dentro do balde tinha sangue. O suficiente para enchê-lo até a borda. Boiando tinha dois objetos: Uma fotografia de Marlene e o objeto que mais assustou João do Ás, aquilo que mais lhe deu a sensação de que estava realmente perdido. Um Ás de espadas com marca de um batom rosa na borda. Aquela carta de baralho simbolizava o primeiro jogo que ele tinha ganhado no Bairro Capital, a marca tinha sido impressa pelos lábios de Marlene. Aquele fora o objeto que lhe deu o apelido que era conhecido por todos e não deveria estar lá, deveria estar trancado no armário de João, no armário alugado da estação de trens. Aquele era o seu símbolo máximo, era o que tinha o tornado o que era, aquela carta era a que ele tinha mais estima de todas, e alguém a roubou dele. Alguém tinha usado a carta contra seu dono, alguém quis que João do Ás fosse caçado como um cachorro fora da coleira. E provavelmente tinha conseguido o que queria. Ele precisava sumir, e rápido, mas antes que pudesse sequer se mover para fora de lá ouviu alguns passos em suas costas, passos que iam em sua direção. Então uma voz encheu o ambiente e congelou completamente a espinha do malandro:

– Gosta do que vê, Sr. João do Ás?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.