Quando eles se conheceram, Lily era uma garotinha de quatorze anos que só sabia passar o dia no quarto chorando. Não saia com ninguém. Não comia quase nada. Tinha medo de qualquer coisa que não era conhecida. Ele fez ela voltar a viver normalmente. Fez ela conviver com o medo da perda. De certo modo ele fazia isso para se sentir melhor pela própria perda.
Lily desceu as escadas com Dean logo atrás dela. Seus tios estavam sentados a mesa jantando.
–Tio Jack! –ela correu até a mesa e abraçou o pescoço do tio, que olhou para Amy com um olhar arregalado de dúvida e depois com um sorriso para Dean.
–Como você está Lily?
–Estou bem –esse era o problema. “Estar bem”. Isso quase nunca é uma fala verdadeira. Se uma pessoa diz que está bem, ela provavelmente não está e está querendo mudar de assunto- Dean e eu vamos até o Hayes.
–Andando? –ele estava surpreso
–Não –Lily se apressou- Vamos de carro.
–Mas onde está o carro?
–Ah –Dean se atrapalhou- O carro?
–Está na casa dele tio Jack. Vamos até lá buscá-lo –Lily respondeu sorrindo.
–Tudo bem –ele disse com desconfiança- só não voltem muito tarde. Já são quase nove horas.
–Claro –ela disse e sorriu.
–Você tem dinheiro? –Amy perguntou.
–Eu tenho Senhora Davis –Dean respondeu.
Ninguém nunca chamou Amy pelo sobrenome do marido: Miller. E sim pelo sobrenome dela e do pai de Lily: Davis. Todos conheciam os dois como os irmãos Davis. E mesmo depois que ele morreu, ela não quis que parassem de chamá-la de Senhora Davis, ou Amy Davis.
–Não precisa se preocupar conosco –Dean continuou- Eu trago ela de volta assim que terminarmos.
–Ótimo –Jack respondeu e sorriu.
–Tchau gente –Lily disse e ela e Dean foram até a porta.
–Então Lily, por que é que você precisava de mim tão urgentemente? -ele perguntou quando ela fechou a porta.
–Está vendo esse papel? –ele assentiu- então, eu encontrei na internet, aqui tem algumas dicas pra pessoas que procuram pistas em cenas de crime.
–Aham.
–Então, -Lily continuou- a primeira dica é voltar ao local. Mas isso é óbvio. Enfim, decorei isso aqui e agora quero voltar a minha antiga casa e ver se encontro...
–Espera aí –ele interrompeu- você está querendo voltar a sua antiga casa para procurar coisas sobre seus pais?
–Isso mesmo.
–Mas você não parou para pensar que alguém pode ter comprado a casa?
–Eu passo lá na frente toda semana Dean, ela não foi vendida e as coisas estão por lá já que nem eu, e nem ninguém teve coragem de trazer tudo. E também a imobiliária disse que quando eu quiser ir buscar minhas coisas, posso ir! –ela deu de ombros antes de ficar tensa- Você não quer me ajudar?
–Não, é claro que quero. Mas a pergunta certa é: Você esta pronta para entrar lá?
–Olha, eu não sei. Então acho melhor descobrirmos -ela sorriu abriu o portão do jardim que batia em sua cintura- E da próxima vez que meus tios quiserem me dar dinheiro, deixe-os fazerem isso por favor?
–Vou tentar me lembrar disso –ele sorriu e andou até ela.
Eles viraram a direita e andaram duas quadras, depois viraram a direita novamente.
–Você nunca me falou muito sobre a sua antiga casa –Dean puxou assunto ao ver que Lily não parecia bem.
–Não tem muito o que dizer. Só que eu fui muito feliz nela –ela sorriu antes de olhar para Dean- Você não era feliz quando vivia com seus pais?
–Era sim, muito mesmo –ele disse com nostalgia- É claro que sempre brigava com meu pai. Mas, no fundo sempre soube que ele estava certo. É uma pena que nunca pude contar isso a ele.
–Às vezes a vida leva as coisas erradas da gente.
Lily e Dean passaram por quatro casas grandes e bem arrumadas. Um padrão era facilmente perceptível nas casas do bairro de Lily, mesmo no escuro da noite. A quinta delas era como as anteriores. Ao vê-la Lily sentiu uma dor no peito, a mesma que sentia ao lembrar-se dos pais, da casa e da vida que tinha ali.
–Era aqui –Lily sussurrou com dor, as mãos no portão. As luzes da varanda estavam ligadas para iluminar a placa VENDE-SE. As paredes beges da casa davam um ar de família, o que costumava ser verdade. A porta marrom de madeira grossa tinha um desenho abstrato esculpido nela, coisa que Lily sempre admirou por ser indecifrável.
–Você não precisa fazer isso Lily –Dean parou ao lado dela e afagou as costas da amiga ao ver o olhar dela, uma mistura de medo, saudades, raiva e fragilidade. Ele temeu que uma simples brisa pudesse derrubá-la.
–Está tudo bem –Lily disse tentando parecer convicta, mas sua voz tremia como o fogo. Ela soltou as mãos do portão e seus dedos estavam brancos. Ela olhou para Dean e tentou fazer um sorriso se formar nos lábios. Não conseguiu. Ele esticou os braços e ela enterrou o rosto na camiseta branca dele chorando novamente.
–Você devia fechar sua jaqueta –Lily disse soluçando- quando está comigo, sabe. Ultimamente eu só venho sujando suas camisetas brancas.
–Chorar é uma das melhores coisas do mundo –Dean disse quando segurou os ombros de Lily- Sempre que precisar de uma camisa para sujar, pode contar com as minhas.
–Obrigada –ela disse antes de abraçá-lo.
–Escuta, como vamos entrar aí?
–Tem um lugar –Lily começou enquanto forçava a maçaneta do portão que estava fechado- Por aqui –ela continuou e foi até o limite direito da casa e se aproximou do portão. Ele estava coberto por uma moita de cercas-vivas até a metade. Ela se abaixou e ao colocar a mochila no chão, pegou a lanterna.
–O que você está fazendo? –Dean não se conteve em perguntar.
–Tem uma entrada. Eu usava quando esquecia a chave do portão e precisava entrar ou sair –Ela respondeu iluminando o portão e observando com os olhos semicerrados. Lily apalpou a cerca viva em alguns pontos do portão- Aqui –ela disse e fez sinal para Dean se aproximar dela. Ele segurou a lanterna enquanto ela empurrava um quadrado de cerca viva para dentro do quintal da casa.
Era uma entrada, realmente, sem grades do portão. Dean ficou admirado.
–Quem foi que fez isso? –ele perguntou e entregou a lanterna a ela, que já estava passando pelo buraco e aterrissando do outro lado.
–Meu pai, quando ele percebeu que eu nunca iria me lembrar de pegar a chave do portão ao sair de casa.
Dean fez o mesmo que ela ao terminar de passar se levantou limpando os fiapos de grama que grudaram na roupa.
–Isso foi muito criativo da parte dele.
–Verdade –ela respondeu olhando para a casa com melancolia- Eu tenho uma chave da casa na mochila. Podemos entrar com ela se eles não trocaram a fechadura.
–Vamos tentar então.
Dean pegou a mochila que havia ficado do outro lado e logo que a entregou a Lily pegou o pedaço de cerca viva para colocá-la novamente no lugar. Ao tocá-la percebeu que não era de verdade. E sim de um material sintético como a grama de alguns campos de futebol. Ele colocou a cerca sintética no lugar e ao se virar para acompanhar Lily percebeu que ela já estava na porta de entrada colocando a chave na fechadura.
Ele foi cuidadosamente até ela e ao olhar seu rosto, conseguiu ler perfeitamente o que ela sentia. Dor e medo. Ao olhar para a fechadura que ela tentava abrir, percebeu que suas mãos tremiam e isso a impedia de colocar a chave na fechadura corretamente.
–Deixa que eu abro –ele pegou a chave da mão de Lily e quando colocou a chave na fechadura percebeu que ela tinha levado as mão ao rosto para limpar lágrimas que caíram sem permissão- Lily –ele largou a chave na porta e olhou para ela pegando em seus ombros- Podemos fazer isso outro dia, quando você estiver melhor e mais preparada.
–Deixe disso Dean –ela tirou as mãos dele do ombro- Abra essa porta logo.
Dean sempre achou engraçado como Lily tentava soar decidida e mandona mesmo quando era impossível. Agora não era mais engraçado. Era preocupante.
–Tudo bem –ele cedeu- Se você quiser eu posso entrar primeiro para dar uma olhada geral nas coisas e ligar as luzes.
–Está tudo bem. Podemos entrar juntos –Lily negou, mesmo querendo que ele entrasse primeiro- E eu tenho uma lanterna.
Ele assentiu e voltou o olhar para a fechadura novamente. Colocou a chave por inteiro na fechadura e a girou uma vez. Lily estremeceu.
Dean girou novamente e dessa vez, tento ela quanto ele estremeceram. Ele levou a mão à maçaneta e hesitou antes e girá-la.
Lily se aproximou de Dean e empurrou a porta com a mão que não estava segurando a lanterna. Quando a porta se abriu por completo, o silêncio ainda era surpreendentemente grande. Dean deu um passo à frente e esticou a mão direita para dentro da casa tateando a parede procurando por um interruptor de luz. Quando achou e ligou, percebeu a beleza e a impecável limpeza da casa.
Dean deu alguns passos para frente entrando na casa e Lily entrou atrás dele, mas muito mais devagar. Ela andava como se estivesse pisando em uma placa de vidro sobre o nada, sem suporte algum, que pudesse quebrar com um simples movimento errôneo. Suas pupilas estavam dilatadas, e ela olhava ao redor com um olhar de medo que o assassino dos pais pudesse estar ali.
Dean já estava na cozinha ligando a luz. Agora ele conseguia visualizar o que aconteceu. Quando Lily contou para ele o que tinha acontecido, ele não conseguira imaginar o cenário com clareza. Mas agora que via tudo a sua frente, as coisas ficaram entendíveis.
Lily parou em frente à lareira e fixou os olhos no vão em que se escondera há exatos dois anos. Depois de minutos encarando o vão e vendo o que havia acontecido ali como um filme ao vivo, ela se aproximou do vão e viu gotas de sangue no chão. Seu sangue. Que escorrera durante o pior momento de sua vida.
Dean parou ao lado de Lily e viu o que ela estava vendo.
–Lily eu sinto... –ele começou.
–Está tudo bem –ela interrompeu- Por que você não vai dar uma olhada lá em cima enquanto eu olho a escada?
–Pode ser então. Se encontrar alguma coisa me chame ou suba para me contar –ele disse se levantando e segurando o cotovelo de Lily para ajudá-la a fazer o mesmo.
Dean foi até a escada e a subiu calmamente. Ao chegar ao andar de cima se viu em um corredor escuro. Ligou o primeiro interruptor que viu. Quatro portas abertas agora eram visíveis.
Passando pela primeira, viu que se tratava de um banheiro, e a segunda, um quarto de hóspedes. A terceira era um quarto grande com paredes roxas.
Lily.
Dean entrou, o ex quarto de Lily era muito parecido com o atual na casa dos tios. A cama de casal tinha um travesseiro e um urso sobre ela. A direita da cama havia uma mesa com um computador e um abajur. À esquerda, um guarda roupas, e ao lado dele uma porta que devia ser o banheiro.
Logo acima da cama, na parede, havia um retângulo de ferro com várias fotos fixadas nele. Dean se aproximou para ver as fotos. A maioria delas era de Lily com os pais. Mas outras eram de Lily com algumas garotas. Antigas amigas dela, Dean deduziu. Ele saiu do antigo quarto de Lily e foi ao último quarto do corredor. O quarto dos pais de Lily. As paredes eram claras assim como a colcha da cama e os móveis do quarto. Dean foi até a penteadeira e se sentou no banquinho, abriu a primeira gaveta e começou a procurar por coisas que pudessem ajudar na investigação de Lily.
A primeira gaveta tinha algumas maquiagens, então Dean nem parou para procurar nela.
A segunda tinha alguns papéis. Ao mexer nos primeiros, Dean encontrou alguns documentos e separou-os em cima da penteadeira. Passando papel por papel, resolveu levar todos e lê-los com Lily, já que algum deles poderia conter alguma informação importante.
A terceira gaveta tinha alguns recibos e notas que Dean achou melhor não tirar do lugar.
Pegando o que tinha separado, se levantou e foi em direção a porta. Passou pelo corredor novamente cuidando para não derrubar nenhum papel e começou a descer as escadas. Quando chegou ao fim, viu que o último degrau estava aberto e então pulou do penúltimo para o chão. Quando aterrissou, alguns papéis se soltaram.
–Droga –ele resmungou enquanto os pegava. Levantando os olhos percebeu que Lily estava sentada em um sofá a sua frente com uma caixa de madeira marrom aberta em seu colo. A tampa da caixa tinha a letra P esculpida muito cuidadosamente. Ela tinha em mãos uma folha amarelada.
Dean se aproximou dela e se sentou no sofá colocando os papéis que segurava ao seu lado. Ao olhar para o papel, viu que se tratava de uma carta.
–Lily –ele chamou- Eu encontrei alguns papéis lá em cima no quarto dos seus pais e trouxe-os aqui para você dar uma olhada.
Ela não respondeu. Na verdade não pareceu nem ter escutado.
Ele olhou dentro da caixa que ela tinha no colo e percebeu que aquela letra P bem desenhada se repetia várias vezes nos papéis de lá de dentro.
Ele pegou a caixa do colo dela e colocou-a no seu próprio. Pegou alguns papeis na mão e leu algumas palavras. Muitas delas eram OPI ou CPI.
Viu também dois cartões de identificação, um com o nome de Marcelle Davis e o outro com Bryan Davis. Os pais de Lily.
–Dean –Lily sussurrou ao seu lado.
–O que foi? –ele largou os cartões sem ler o que havia escrito depois do nome e devolveu a caixa a ela cuidadosamente.
Ela esticou o braço para ele e entregou a carta.
Querida Lilith,
Nunca pudemos contar a verdade a você. E sentimos muito por isso, mas o que fizemos foi somente para tentar protegê-la.
Então já que está lendo isso, aqui vai à verdade sobre nossa vida:
Trabalhamos em uma empresa secreta chamada Organização dos Protetores de Informação (OPI). Como o nome já diz, nós protegemos informações confidenciais. Pessoas nos procuram para que nós tomemos conta de alguma informação para elas. Como uma senha de um banco que contém uma grande fortuna, ou uma coordenada geográfica que pode indicar algo importante para alguém.
Fomos treinados para combater pessoas que possam querer tirar essa informação de nós. Logo que nos casamos e resolvemos trabalhar para a OPI, fomos levados a Casa dos Protetores de Informação (CPI) e treinados arduamente. Aprendemos a manusear armas e a lutar para conseguir proteger nossa informação de qualquer coisa.
Nunca contamos isso a você porque sabíamos que você iria querer saber mais sobre isso e provavelmente ia querer ser uma de nós. E não podíamos deixar você fazer isso.
Tudo o que você precisa saber está nessa caixa. E esperamos muito que você entenda o porquê de nunca termos falado nada.
Podemos ser Protetores de uma informação, mas antes de qualquer coisa somos seus Protetores.
Com muito amor,
Marcelle e Bryan Davis ou, seus pais.
Dean ficou sem palavras. Não sabia nem se tinha entendido direito. Lily deveria estar tão confusa quanto ele. Então ele pegou os cartões novamente. Ao lado da foto, a identificação:
Marcelle Davis, Protetor nível cinco
e
Bryan Davis, Protetor nível cinco.
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