Narrado por Jacob


O saguão do aeroporto de Nova York estava como sempre — lotado, barulhento, um caos organizado. Encostei em uma das colunas perto do setor de desembarque internacional, olhando para o painel digital. O voo de Frankfurt acabara de pousar. Respirei fundo.

A última vez que vi Heidi, tínhamos dezesseis anos. Ela era só uma garota espirituosa, cheia de ideias sobre o mundo. Cresceu na Alemanha com a mãe depois do divórcio, e embora Sarah nunca tenha cortado os laços com a sobrinha, o tempo e a distância fizeram seu trabalho. Até agora.

— "Ela quer voltar às raízes," — minha mãe disse. — "Talvez até recomeçar aqui."

Minutos depois, ela apareceu.

Heidi surgia entre os últimos passageiros, puxando uma mala vinho e com um casaco bege elegante. Estava mais alta do que eu lembrava, os cabelos castanhos levemente ondulados caindo sobre os ombros. Os olhos verdes buscaram o ambiente até me encontrar. Sorriu.

— Jacob Black? — a voz dela estava mais madura, mas ainda tinha aquele brilho.

— Em carne e osso — respondi, abrindo os braços. Ela veio até mim e me deu um abraço firme e rápido.

— Você cresceu. E ficou mais bonito. — disse com um sorriso provocador.

— E você virou uma mulher de tirar o fôlego. Ia passar por você se não fossem esses olhos.

Ela riu, me entregando a mala.

— Ainda carrega a bagagem das damas?

— Só das primas distantes que sabem elogiar bem — respondi, piscando. — Vamos, o carro tá logo ali.

Entramos no SUV e seguimos viagem. No banco do carona, ela admirava a cidade como se fosse a primeira vez.

— É tudo tão vivo aqui… — murmurou. — Sarah sempre dizia que Nova York tinha sua própria alma.

— Tem sim. Mas não se compara ao jeito como La Push fazia o tempo parar.

Ela virou o rosto para mim e sorriu com saudade no olhar.

— Sinto falta daquele lugar. Mais do que imaginei.

Cerca de meia hora depois, viramos na longa alameda que levava à mansão de Sarah. As luzes do jardim já estavam acesas, refletindo nos janelões envidraçados. A casa parecia ainda maior à noite. Heidi soltou um suspiro admirado.

— Nossa… a tia Sarah realmente está vivendo como realeza.

— Ela diz que a mansão é muito grande, mas nunca cogitou sair daqui.

Descemos do carro. Sarah estava na entrada, esperando, com um sorriso largo e lágrimas nos olhos. Heidi correu para os braços dela, como uma filha que voltava ao lar.

Fiquei parado, observando de longe. Era uma imagem bonita. Familiar. Em algum lugar dentro de mim, uma lembrança se acendeu. A vida era cheia de recomeços — alguns inesperados.

Voltei ao carro com um leve peso no peito. Não era tristeza… mas também não era paz.

Era só a vida virando mais uma página.

E o nome daquela nova linha era Heidi.


Narrado por Renesmee

O salão estava decorado com delicadeza, repleto de flores em tons suaves e luzes amareladas que criavam uma atmosfera calorosa e familiar. A pedido de Clara — ou melhor, Sophie, como eu começava a me acostumar a chamar em silêncio —, fui à festa de aniversário de Sarah Black. Confesso que, no fundo, estava nervosa. Ainda não sabia como lidar com todos esses laços novos e antigos que se entrelaçavam ao meu redor como fios de um novelo que escapara das minhas mãos.

Mal atravessei a entrada, fui surpreendida por um abraço apertado. Braços pequenos e ansiosos me envolveram com força.

— Mãe! — disse Clara, sorrindo com os olhos brilhando de alegria.

Meu coração aqueceu.

— Oi, meu amor — retribuí o abraço com força. — Você está linda!

Ela rodopiou, mostrando o vestido azul claro que combinava com uma tiara delicada no cabelo.

— A vovó Sarah amou a surpresa. Vem, ela está ali!

Me deixei guiar até Sarah, que me recebeu com um sorriso gentil. Entreguei a ela um presente embrulhado com cuidado — uma echarpe de seda com estampas florais, vinda de Annecy.

— Feliz aniversário, Sarah — disse, sincera.

— Obrigada, querida. Você ter vindo já é um presente para mim — respondeu ela, com olhos marejados, segurando minha mão.

Logo em seguida, Billy se aproximou, e me cumprimentou com um abraço e um sorriso largo.

— Sempre bom te ver, Renesmee. Clara está radiante com sua presença.

— É um privilégio estar aqui — respondi, verdadeiramente tocada.

Então senti uma mão no meu ombro e me virei.

— Boa noite, Nessie — disse Bonnie, com sua voz grave e serena. — Que bom que veio.

— Oi, Bonnie — sorri para ele. — Mas… cadê Jacob?

Bonnie fez um gesto com a cabeça, como quem conta um segredo casual.

— Foi buscar uma sobrinha distante da Sarah. A moça chegou de viagem hoje. Jacob quis pessoalmente ir ao aeroporto. Diz que ela vai passar uma temporada com a família.

— Sobrinha distante? — franzi o cenho, tentando puxar alguma lembrança.

Bonnie deu de ombros.

— Não sei muito sobre ela. Só que é por parte de um primo do lado do falecido pai da Sarah… coisa antiga. Mas dizem que ela é um pouco… intensa.

Soltei um pequeno riso desconcertado.

— Interessante. Estou curiosa agora.

Bonnie olhou em direção à porta e arqueou a sobrancelha.

— Não vai demorar muito. Logo você conhece a tal "prima misteriosa" da Sarah.

Assenti, mas algo no fundo do meu estômago se revirou. Talvez fosse apenas uma coincidência. Talvez fosse o calor da festa. Ou talvez fosse só o nome de Jacob em minha mente outra vez — o único nome capaz de causar esse efeito em mim mesmo sem estar presente.

Mas não por muito tempo…


O jardim da mansão estava lindamente decorado, com luzes douradas penduradas entre as árvores e mesas repletas de arranjos florais e comidas caseiras. Clara corria de um lado para o outro, mesmo com a perna ainda se recuperando, animada com os primos e os amigos que Sarah havia convidado.

Eu sorria, tentando manter minha mente focada na celebração — era o aniversário de Sarah, e ela merecia aquele momento — mas algo dentro de mim estava inquieto, como se algo estivesse prestes a mudar.

Foi então que o portão principal se abriu. Todos se viraram, inclusive eu. Jacob desceu do carro com uma mulher ao lado.

Ela usava um casaco bege elegante, que contrastava com os cabelos castanhos levemente ondulados que caíam com perfeição sobre os ombros. Os olhos verdes, vivos e penetrantes, analisavam o ambiente com um misto de curiosidade e nostalgia.

— Quem é? — ouvi uma das convidadas perguntar atrás de mim.

Sarah deu alguns passos à frente, os braços abertos, o sorriso escancarado.

— Heidi!

A mulher caminhou até ela e as duas se abraçaram com força. Sarah estava com lágrimas nos olhos.

— Você está ainda mais bonita do que da última vez, minha menina. — disse Sarah, emocionada.

— E você, tia… continua igualzinha. — respondeu Heidi, com um sorriso encantador.

Sarah virou-se para os convidados e anunciou, com orgulho:

— Essa é minha sobrinha, Heidi Klum Veio da Alemanha para passar um tempo conosco.

Heidi foi cumprimentando um a um com educação. Quando chegou até Clara, Sarah fez questão de apresentá-la com entusiasmo:

— Essa aqui é a nossa estrela, Clara, filha do Jacob.

Clara sorriu e apertou a mão de Heidi.

— E essa… — Sarah continuou, agora olhando para mim — …é a Renesmee, a mãe da Clara.

Heidi arqueou as sobrancelhas por um segundo, surpresa, antes de sorrir.

— Ah… então Jacob já é casado? — disse ela, voltando os olhos verdes para ele.

Jacob ajeitou o colarinho da camisa, visivelmente desconfortável.

— Na verdade… não. Renesmee e eu somos só amigos.

Heidi virou-se para mim com um olhar brincalhão, depois voltou a encarar Jacob com um sorriso insinuante nos lábios.

— Então… ainda tenho chances.

Algumas pessoas riram da brincadeira. Eu forcei um sorriso.

Heidi era bonita. Inteligente. E claramente não estava com medo de jogar charme.

Jacob apenas balançou a cabeça com um meio sorriso, como quem não sabia se ria ou mudava de assunto.

Meu peito apertou. E, por mais que eu soubesse que não deveria, meus olhos buscaram os de Jacob. Mas ele desviou, olhando para Clara que chamava a atenção de todos com mais uma das suas piadas infantis.

Fiquei ali, sorrindo por fora, enquanto por dentro meu coração se perguntava:

Por que isso me incomodou tanto?


A festa seguia animada. Risos ecoavam pelo jardim iluminado, crianças corriam entre os convidados, e Sarah, em sua elegância tranquila, parecia mais jovem celebrando a própria vida rodeada pelos que amava.

Sentei-me em um dos bancos sob as luzes penduradas, observando o movimento. Clara se aproximou com um pratinho cheio de brigadeiros.

— Mãe, quer um? — perguntou com os olhos brilhando.

Sorri ao ouvir ela me chamar apenas de mãe. Ainda não me acostumei, mas o som da palavra dita por ela fazia meu coração se aquecer toda vez.

— Não agora, amor, obrigada. Já comi uns quatro — brinquei.

Clara sentou-se ao meu lado e passou os olhos pelo jardim. Seus olhos pararam do outro lado, onde Jacob e Heidi conversavam. Heidi jogava a cabeça levemente para trás enquanto sorria de algo que Jacob disse, depois tocou o ombro dele com delicadeza. Ele se aproximou e sussurrou algo em seu ouvido. Heidi riu, e Jacob também.

Senti um aperto esquisito no peito. Desviei o olhar antes que parecesse óbvio demais.

— A tia Heidi é bonita, né? — comentou Clara, ainda observando.

— É sim. — respondi, tentando parecer indiferente. — Muito bonita.

Clara mordeu um brigadeiro, satisfeita com a resposta, e mudou de assunto, como se não tivesse percebido minha tensão. Mas eu percebi.

Rachel se aproximou com duas taças de refrigerante. Me entregou uma e se sentou no braço do banco.

— Tudo certo por aqui? — perguntou, lançando um olhar cúmplice.

— Tudo bem… — respondi, fingindo um sorriso. — Só estava observando.

— Ah… o reencontro dos dois, né?

Fiz que sim com a cabeça e arrisquei:

— Fazia muito tempo que não viam a Heidi?

Rachel soltou uma risada suave e balançou a cabeça.

— Muito. Mais de vinte anos, se quer saber. A última vez que ela esteve com a gente, o Jacob tinha 16 anos, e ela 15. Heidi foi o primeiro amor dele.

Arregalei os olhos, surpresa.

Rachel continuou, divertida:

— Ele era completamente apaixonado. E quando ela se mudou pra Europa, o coitado ficou dias trancado no quarto. Achava que o mundo tinha acabado. Foi trágico e engraçado ao mesmo tempo.

Ela riu com mais vontade agora, lembrando.

— E agora ela está de volta — completei, tentando soar neutra.

— É. E pelo visto, ainda mexe com ele. — Rachel deu um gole no refrigerante e me olhou de lado.

Senti meu coração dar um salto. Quis perguntar o que ela queria dizer com aquilo. Mas preferi o silêncio.

Ao longe, Jacob olhou para onde estávamos. Por um segundo, nossos olhos se encontraram. Ele desviou.

Rachel percebeu e riu baixinho, se levantando.

— Vou pegar mais doces antes que a aniversariante devore tudo. — disse, piscando para mim.

Fiquei ali, com Clara do meu lado, e o coração dividido entre o passado, o presente… e tudo o que ainda não tinha coragem de admitir.



Narrado por Jacob


A festa estava animada. Clara corria com os primos e os risos preenchiam o jardim da mansão da minha mãe. Sarah parecia radiante — merecia cada segundo de alegria. Eu, por outro lado, tentava manter a mente longe de pensamentos perigosos… como os olhos de Renesmee me seguindo pelo jardim.

Estava encostado perto do bar, tomando uma bebida quando Heidi se aproximou.

— Vai ficar aí o tempo todo ou vai falar com a mãe da sua filha? — ela provocou, erguendo uma sobrancelha.

Sorri, sacudindo a cabeça.

— Vou sim… mas tô esperando o momento certo.

— Ah, entendi… — ela disse, brincando com a borda do copo nas mãos. — Está fugindo dela?

— Fugindo? — ri. — Claro que não.

Ela riu também, depois olhou de relance para Renesmee, que estava sentada ao lado de Clara. As duas conversavam, mas Renesmee olhava de canto para nós.

— Bom… — Heidi voltou o olhar para mim com um sorrisinho — ela é linda.

— Ela é — respondi, a voz mais baixa. — Mas é uma longa história.

Heidi deu um passo mais perto. Seus olhos verdes brilharam sob a luz suave do jardim. Ela não disse nada por alguns segundos, apenas me observou.

Depois se inclinou, com um sorriso travesso, e sussurrou perto do meu ouvido:

— Ela está olhando pra cá. Quer que eu te ajude a causar um pouco de ciúmes?

Eu comecei a rir, tentando conter o som.

— Heidi…

— Tô falando sério — ela disse, recuando um pouco, os olhos brincando comigo. — A gente dança, você ri das minhas piadas, ela te vê… e pronto, o joguinho muda.

— Você não mudou nada, né?

— E você também não, Jake — ela respondeu com um sorriso largo. — Continua com cara de durão, mas fica todo perdido quando está apaixonado.

Soltei uma risada, mas no fundo… as palavras dela mexeram comigo. Porque ela tinha razão. Eu estava perdido, sim. Sempre estive.

E talvez, só talvez… um pouquinho de ciúme fosse o empurrão que Renesmee precisava.


Notas finais
Acho que a Heidi chegou para por fogo . E vocês?