Narrado por Renesmee


O cheiro de ferrugem, maresia e gasolina impregnava o ar do galpão. Eu tremia. Não sabia se era de frio ou de medo. Estava encolhida no canto, as pernas dobradas junto ao peito, o rosto ainda ardendo da pancada que levara antes. Meus olhos estavam inchados de tanto chorar.

Ouvi o som do trinco e meus músculos se retesaram.

A porta abriu lentamente com o rangido metálico que me dava calafrios. Ele entrou. Logan.

Me encolhi mais quando ele se aproximou. Mas ele apenas se sentou no chão, ao meu lado. Acendeu um cigarro com calma irritante, como se aquilo fosse uma conversa qualquer.

— Não precisa se preocupar. — disse ele, soltando a fumaça devagar. — Eu não vou te machucar mais... Não se continuar colaborando.

Fiquei em silêncio, as mãos trêmulas, os olhos fixos na parede.

— Eu sei que você está apavorada. — ele continuou, agora me encarando. — Mas esse medo... ele não é pra você, Renesmee. É pros malditos dos Black.

Meus olhos se voltaram para ele com um misto de raiva e confusão. Ele deu uma risada curta e amarga.

— Ninguém nunca te contou, né? Que o tal do Billy Black roubou o que era do meu pai, Liam Young. Roubou a ideia, a patente, o futuro inteiro da nossa família.

— Isso não é verdade. — murmurei, sem saber se era coragem ou instinto. — Você está doente...

— Não! — ele bateu a mão na parede e eu me sobressaltei. Em seguida, ele baixou o tom novamente, como quem falava com uma criança. — Meu pai morreu sem nada. Desacreditado. Suicidado… enquanto Billy subia no palco e fundava o império dos Black com a ideia que era nossa.

Ele me olhou, os olhos brilhando de fúria.

— Eu prometi ao meu pai, jurei no velório dele... que tudo que os Black construíram seria meu. Eu só precisava me tornar o presidente da Black Enterprises. E pra isso... era preciso que Bonnie Black saisse de cena.. Carlisle Cullen soube que eu não era leal aos Black e então me fez uma proposta. Ele queria se livrar de dois problemas. Isabella Swan e Bonnie Black. E eu trouxe a solução.


O som do isqueiro estalando rompeu o silêncio tenso do galpão. Logan acendeu mais um cigarro. O cheiro enjoativo da fumaça se misturava ao sal do mar e ao medo que impregnava o ar.

Ele andava de um lado para o outro, como se falasse sozinho — mas eu sabia que cada palavra era para mim.

— Trinta anos atrás... — ele começou, a voz baixa e carregada de rancor. — Bonnie estava furioso com Isabella Swan. Eles tinham discutido feio. E eu vi ali a oportunidade perfeita.

Logan se virou na minha direção, os olhos brilhando.

— Bonnie comentou comigo que iria até o apartamento dela. Disse que queria se desculpar... se redimir. — Ele riu, seco. — E eu pensei... ótimo. Se ele aparecesse na cena do crime, sujaria as mãos por mim. Um Black acusado de assassinato. O prestígio da família acabaria. A reputação deles ia por água abaixo. E o melhor… Edward Cullen ficaria livre do fardo daquela mulher. Poderia focar naquilo que Carlisle sempre quis: o poder.

Fiquei sem reação. O nome de minha mãe em sua boca fazia meu estômago revirar.

Logan se aproximou, tragando fundo o cigarro.

— Bella era linda. Isso ninguém pode negar. — Ele me olhou com um sorriso enviesado. — Não é à toa que Bonnie e Edward quase se mataram por ela. Mas era um desperdício. Um desperdício que precisava acontecer.

Meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu os mantive fixos nele.

— Naquela tarde, eu fui ao apartamento dela. Sozinho. Levei a arma. O plano era simples: matar Bella, deixar um rastro, plantar a culpa em Bonnie… e sumir. Mas…

Ele se virou, deu as costas e soltou a fumaça com raiva.

— Irina estava lá. — disse entre os dentes. — Não sei o que fazia naquele lugar, naquela hora… talvez um acerto, um pedido, uma chantagem. Mas ela estava lá.

Eu levei a mão à boca. Irina…

Logan virou-se novamente, o olhar sombrio.

— E tudo deu errado. Ela morreu. No lugar errado, na hora errada. E Bella viveu.

Ele jogou o cigarro no chão e o esmagou com o sapato.

— Sua mãe passou trinta anos pagando por um erro. Um detalhe que destruiu meu plano perfeito. Mas agora… — ele se aproximou e agachou-se à minha frente — agora eu vou terminar o que comecei.

— Você é um monstro. — sussurrei, com a voz embargada.

Ele sorriu, como se minhas palavras fossem um elogio.

— E você… é a chave da ruína deles.


O som cortante de sirenes ecoou lá fora, sobrepondo-se ao barulho ritmado das ondas que eu ouvia todos os dias desde que fui trazida para cá. A porta se abriu com violência, e Logan entrou apressado, o rosto transtornado.

— Como…? — ele murmurou, indo até a janela minúscula do galpão. — Como eles descobriram?

Ele olhou para mim. O olhar era diferente agora. Não havia controle. Apenas fúria.

E então ele se lembrou. Eu vi quando a ficha caiu.

— O iate. — ele disse entre dentes, como se estivesse cuspindo veneno. — Você… sua vagabunda miserável! Foi isso que você fez? Foi isso que aquela frase ridícula sobre o mar significava?

Eu me encolhi no canto, mas era tarde demais. Logan avançou.

— Você… sempre você… tentando arruinar os planos que meu pai esperou uma vida inteira pra ver acontecer!

Ele me puxou pelos cabelos com força, me arrancando do chão. Gritei de dor, minhas mãos tentaram se agarrar a qualquer coisa para impedir, mas ele era forte. Descontrolado.

— VOCÊ NÃO SABE O QUE É PERDER TUDO! — ele berrou, me jogando no chão com brutalidade. — O QUE É SER ENTERRADO VIVO NUM ERRO DOS OUTROS!

O primeiro chute veio no estômago. Eu tentei me proteger, mas outro acertou minhas costelas, depois a perna. A dor me cortava como lâminas. Eu gemia, sem forças.

Ele me agarrou pelo braço, me levantando com brutalidade, e sacou a arma do cós da calça.

— Agora você vem comigo, sua desgraçada. Se eu cair, você vai cair comigo. Vai ser meu escudo.

Ele abriu a porta do cativeiro, e eu pude ver a claridade do fim da tarde do lado de fora. A marina, os contêineres empilhados. A água logo adiante. Estávamos mesmo nas docas.

Ele me arrastava, pressionando o cano frio da arma contra minha cintura. Eu mancava, mal conseguia manter os pés no chão, mas me obrigava a continuar andando.

Meu coração batia tão rápido que doía.

— Ninguém vai tirar tudo de mim de novo. — ele sussurrava para si mesmo. — Nem você. Nem Jacob Black. Nem Bonnie. Nem o maldito Edward Cullen.

E foi nesse instante que, à distância, ouvi uma voz amplificada vindo de um megafone:

— Logan Young, você está cercado! Largue a arma e solte a refém!

Logan parou. Seu corpo tensionou.

Eu respirei, com dificuldade, e olhei para o céu.

Eles estavam ali.

Agora... tudo dependia do próximo segundo.


O som das sirenes parecia cada vez mais alto, misturando-se ao rugido do mar. Eu mal conseguia ficar de pé, a dor nas costelas latejava, meu corpo doía em lugares que eu nem sabia que existiam. Logan estava agitado, furioso, transtornado. A cada passo que ele dava, me puxava pelos cabelos, a arma tremia em sua mão.

— Maldita… você sempre estraga tudo! — ele rosnou, me empurrando contra a parede enquanto os sons da polícia cercavam o galpão.

Foi quando percebi. Ele estava distraído. A arma não estava mais tão firme.

E eu não ia morrer ali.

Com um impulso desesperado, empurrei Logan com o ombro, com toda a força que ainda restava em mim. Ele cambaleou. Lutei contra seus braços. A arma virou, um disparo ensurdecedor ecoou.

— BANG!

Ele caiu. Sangue escorria por entre os dedos que pressionavam o abdômen. Seus olhos arregalados ainda me procuravam, mas seu corpo não respondeu. A arma caiu, escorregando no chão de concreto.

Eu caí junto. Minhas pernas não me sustentavam mais. A visão ficou turva. O gosto metálico na boca. Estava tudo girando.

E então… ouvi.

A voz que eu mais precisava naquele momento.

— Renesmee!

Era Jacob.

Meu peito se apertou e, por um segundo, achei que estivesse alucinando. Mas quando senti seus braços fortes me envolvendo, soube que era real. Ele se ajoelhou, me pegou no colo com cuidado, como se eu fosse feita de vidro.

— Você veio… — murmurei com dificuldade, minha mão trêmula tocando seu rosto.

— Eu vim, meu amor. — ele respondeu com a voz embargada. — Eu tô aqui. Tá tudo bem agora. Acabou, Renesmee. Acabou.

Desabei. Chorei contra o peito dele, sentindo o cheiro familiar, o calor, o lar.

— Jacob… — murmurei, tentando falar, mesmo com a garganta seca e a dor apertando o peito. — Eu… preciso te contar… o bebê…

Ele franziu a testa, preocupado, os olhos atentos ao meu rosto.

— Fica calma, amor, já chamei a ambulância. Você vai ficar bem, eu prometo.

— Não, Jake… — minha voz falhou, e eu senti o pânico crescendo por dentro. Minhas mãos pousaram instintivamente sobre o ventre. — O bebê… nosso bebê…

Seus olhos se arregalaram, mas antes que eu pudesse explicar melhor, senti o mundo girar. Uma tontura violenta me tomou. O som do mar, das vozes, dos passos ao redor… tudo foi se apagando. Jacob ainda segurava minha mão, apertando forte.

— Renesmee! Fica comigo! — ouvi sua voz, desesperada, mas distante.

A luz vermelha da ambulância tingia tudo ao redor. Fui colocada cuidadosamente sobre a maca. Senti a máscara de oxigênio no rosto e mãos apressadas tentando verificar meus sinais.

— Ela está grávida! — Jacob avisou aos paramédicos, agora entendendo.

— Vamos estabilizá-la. Pressão baixa. Ritmo cardíaco fraco! — disse um deles, correndo ao meu lado.

Queria dizer mais. Queria gritar. Queria proteger o meu bebê. Mas já não conseguia. As vozes foram se afastando.

A última coisa que senti antes da escuridão me engolir foi a mão de Jacob segurando a minha.

E o pensamento desesperado:

“Por favor… que meu bebê esteja bem.”