O Lado Sombrio do Amor

41 De volta a Nova Iorque


Notas iniciais
Estou amando os comentários e os palpites de vocês sobre o desaparecimento de Sophie.


Narrado por Renesmee


O avião tocou o solo de Nova York sob um céu acinzentado, como se a cidade estivesse guardando o fôlego comigo. Fazia doze anos desde a última vez que pisei ali. O mesmo cheiro, a mesma pressa, mas tudo tão diferente de mim. Talvez porque eu também tivesse mudado.

Renee me esperava do lado de fora do desembarque. Seus braços se abriram assim que me viu e eu não hesitei em correr até eles.

— Como é bom ver você querida— ela disse, apertando-me com força. — Alec não veio?

— Oi, Renée — sussurrei contra o pescoço dela, tentando conter as lágrimas. — Ele tinha muitos compromissos no hospital. Mas mandou um beijo. Que horas a Bella sai?

Renee se afastou só o suficiente para olhar nos meus olhos.

— Ao meio-dia. Temos tempo de sobra pra nos prepararmos pra esse momento. Phil estacionou o carro ali na frente. Vamos?

Phil me cumprimentou com um sorriso acolhedor e pegou minha bagagem com aquele jeito silencioso e gentil que sempre teve.

O caminho até o apartamento deles foi tranquilo, ao menos do lado de fora. Por dentro, eu era um furacão.

No elevador, Renee me observava em silêncio, mas ao entrarmos no apartamento, não aguentou:

— Como você está? — ela perguntou, servindo duas xícaras de chá.

— Bem. Cansada… algumas dores, mas nada que eu já não tenha sentido antes. — dei de ombros, sentando no sofá da sala. — Só um pouco mais fundo, talvez.

Ela assentiu, me entregando a xícara. Seu olhar era cauteloso.

— E sobre a última pista da Sophie? A polícia de Annecy chegou a alguma conclusão?

Suspirei, apertando o chá quente entre as mãos.

— Foi outra pista falsa. Um bebê parecido. Uma mulher com cabelo escuro… Mas não era ela. Voltamos à estaca zero.

Renee fechou os olhos brevemente, como se buscasse forças para não desmoronar comigo.

— Vamos encontrá-la, Nessie. Eu ainda acredito. Bella também.

Assenti em silêncio. Queria acreditar com a mesma força, mas depois de tantas tentativas em vão… a fé começa a rachar.

Olhei o relógio. 10h08.

Faltavam menos de duas horas para ver minha mãe em liberdade.

Doze anos de ausência.

De silêncio.

De memórias sufocadas.

Mas hoje… hoje, o tempo voltaria a andar.

E talvez, só talvez, fosse o começo de um novo recomeço.


O portão do presídio se abriu com um rangido lento, pesado, como se estivesse carregando junto com ele os anos de dor, silêncio e ausência. Meus olhos se fixaram naquela figura magra e de postura firme, ainda que os olhos carregassem o peso do mundo.

— Mãe… — murmurei, dando um passo à frente.

Bella parou por um segundo, como se não acreditasse no que via. Então nossos olhares se encontraram e eu soube. Ela sabia. Era real.

Corremos uma para a outra sem pensar. Nossos braços se encontraram num abraço que parecia costurar todas as feridas abertas ao longo dos anos.

— Você veio... — ela sussurrou com a voz embargada, seus dedos trêmulos tocando meu rosto como se eu fosse feita de luz. — Você está aqui mesmo…

— Eu prometi que estaria esperando por você. E estou. — sorri entre as lágrimas. — Não podia ser diferente.

Nos abraçamos de novo. Por um instante, o mundo se calou.

Até que uma voz conhecida quebrou o momento como um vento gelado.

— Bella.

Congelamos.

Me virei devagar e vi a silhueta alta se aproximando, os cabelos castanhos um pouco mais grisalhos, os olhos dourados fixos em nós duas.

Edward.

Ele parou a poucos passos de distância. Seu olhar percorreu minha mãe, depois caiu sobre mim.

— Renesmee. — disse, com um breve sorriso melancólico. — Fico feliz que você tenha voltado.

Não respondi de imediato. Meu corpo inteiro estava em alerta. Havia anos de mágoa, dúvidas e perguntas ali, entre nós.

Bella respirou fundo, afastando-se um pouco de mim, virando-se para ele.

— Edward. O que está fazendo aqui?

— Esperando você. — ele disse, com simplicidade. — Soube que hoje era o dia. Achei que talvez... você precisasse.

Ela abaixou os olhos, visivelmente abalada.

Eu segurei sua mão com firmeza.

— Ela tem a mim. E eu estarei com ela. — minha voz saiu mais firme do que eu esperava.

Edward me olhou por mais alguns segundos, depois assentiu devagar.

— Eu entendo. Só queria que vocês soubessem… que me importo. — ele olhou para minha mãe. — Com vocês duas. Sempre me importei. Mesmo quando não soube como demonstrar.

Bella não respondeu.

Havia tanto entre os dois. Tantas palavras que talvez jamais fossem ditas.

Edward deu um passo para trás, como se respeitasse o espaço que agora era nosso.

— Se algum dia precisarem de mim… estarei por perto.

E então ele se virou e caminhou de volta para o carro preto estacionado do outro lado da rua.

Ficamos ali, eu e Bella, de mãos dadas, observando-o desaparecer.

— Você está pronta para ir para casa? — perguntei suavemente.

Ela assentiu. E juntas, deixamos o passado para trás, ao menos por aquele dia.



Narrado por Jacob


Os raioa de sol entravam tímido pela janela da cozinha, filtrado pelas cortinas bege que Claire tanto gostava. A mesa estava posta. Torradas, geleia de morango, café preto recém-passado. Clara já estava sentada, as pernas balançando enquanto passava a geleia com uma concentração quase cerimonial.

Pegava a fatia, pressionava levemente o centro com o indicador — como se assim impedisse que a torrada quebrasse — e, com a ponta da faca, espalhava a geleia devagar, cobrindo todos os cantos com cuidado quase obsessivo. Depois virava a fatia ao contrário e passava mais uma camada. Quando terminava, lambia a faca e os dedos melados de morango como se estivesse em segredo com a infância.

Exatamente como alguém que eu conheci fazia.

Meu coração apertou. Me vi, anos atrás, rindo enquanto Nessie comia daquela forma peculiar e dizia que era seu "ritual de proteção contra torradas secas". Ela ria, e eu ria com ela. Aquela risada ainda me visitava às vezes — especialmente nas manhãs mais silenciosas.

Observei Clara em silêncio. Os olhos baixos, os traços delicados, o formato do nariz... Não era apenas o ritual. A menina era o reflexo de alguém que eu não conseguia esquecer.

Ela ergueu o olhar, percebendo minha atenção.

— Pai... por que tá me olhando assim? — ela perguntou com a boca meio cheia, a voz doce e curiosa.

Desviei o olhar por um instante, tentando achar palavras. Mas elas não vieram fáceis.

— Você só... me lembrou alguém. — murmurei com um sorriso discreto. — Do jeito que come a torrada... igualzinho.

Clara sorriu, divertida.

— Alguém importante?

Assenti lentamente.

— Muito.

Ela voltou a comer, satisfeita com a resposta simples. Mas eu não consegui voltar ao meu café. Algo no meu peito se movia. Como se uma peça esquecida tivesse voltado ao seu lugar — mesmo que eu não compreendesse porque agora.

Eu estava ficando maluco.



Claire entrou na cozinha como se nada estivesse fora do lugar. Usava um robe de seda branco, os cabelos presos em um coque impecável e o celular já na mão, como sempre. Sentou-se à mesa e nos lançou um sorriso breve, automático.

— Bom dia. — disse.

— Bom dia. — respondi, sem desviar os olhos da xícara de café.

— Bom dia, mãe. — Clara completou com um sorriso mais largo.

Ela estava empolgada desde que acordou. Falava sem parar do passeio escolar ao museu de ciências. Já tinha preparado sua mochila, conferido os lanches, os ingressos, e agora, com o coração nas mãos, perguntou:

— Mãe, você vai mesmo hoje, né? Vai comigo? Prometeu.

Claire hesitou. Levantou os olhos da tela do celular e encarou a filha por alguns segundos. Respirou fundo.

— Querida, mamãe tem um compromisso com duas clientes importantes hoje. Um almoço de negócios...

Deixei a xícara no pires com mais força do que deveria. O som ecoou como um aviso.

— Você deu a palavra, Claire. Prometeu a ela. — falei firme, olhando diretamente para ela.

— Jacob, não é simples assim. — ela rebateu com um suspiro impaciente. — É uma oportunidade que pode fechar uma campanha de um mês inteiro.

— E a nossa filha? — retruquei, tentando conter o tom. — Ela não é uma oportunidade. É a prioridade.

Claire rolou os olhos.

— Você vive cobrando, mas esquece que quem mantém a imagem da família viva sou eu. — alfinetou.

Foi quando Clara, até então quieta, largou o garfo na mesa com um estalo.

— Chega! — exclamou com a voz embargada. — Eu não aguento mais! Vocês dois sempre brigam por tudo!

Claire e eu a olhamos, surpresos. Ela continuou, os olhos cheios de lágrimas.

— Vocês não conseguem ficar juntos nem no meu aniversário, nem no meu passeio. Sabe de uma coisa? Eu não vejo a hora de vocês se divorciarem logo!

Ela empurrou a cadeira para trás e saiu correndo da cozinha, subindo as escadas com os passos pesados, como se cada degrau fosse uma tentativa de fugir daquilo tudo.

O silêncio que ficou entre mim e Claire foi mais alto do que qualquer grito.

Segurei a testa com a mão, sentindo o peso de tudo nos ombros. Não era só culpa dela. Nem só minha. Mas Clara... nossa filha estava pagando o preço por um teatro que já tinha acabado há muito tempo.

— Isso não pode continuar. — murmurei.

Claire cruzou os braços, o olhar fixo na xícara ainda cheia à sua frente.

— Finalmente concordamos em alguma coisa.


Subi as escadas devagar, tentando organizar meus pensamentos antes de bater na porta do quarto da Clara. O que ela disse na cozinha me atravessou como um raio. Minha filha, minha pequena, pedindo que eu me divorcie da mãe... Como chegamos a esse ponto?

Toquei duas vezes na porta, suave.

— Posso entrar, princesa?

— Pode, pai. — a voz dela veio abafada.

Empurrei a porta e a encontrei sentada na beirada da cama, fechando o zíper da mochila azul. O quarto estava como ela gostava: organizado, com as luzes do pisca-pisca acesas ao redor da estante de livros e as cortinas semiabertas, deixando o sol filtrar suavemente.

— Está empolgada para o passeio? — perguntei, tentando soar leve.

Ela assentiu e olhou para mim por cima do ombro.

— A Tia Rebecca vai levar a Rana, então... será que você pode me dar carona? — ela perguntou meio sem jeito.

Soltei um suspiro disfarçado.

— Clara, você não precisa pedir. Claro que eu vou te levar.

Ela sorriu, um pouco mais tranquila.

— É que... você sempre vai.

— E você fala como se isso fosse um problema. — brinquei, fingindo estar ofendido, cruzando os braços. — Se quiser, eu paro. Posso virar aquele pai que só aparece uma vez por ano, de smoking, com um presente caro e uma risada forçada.

Ela riu, balançando a cabeça.

— Não, eu gosto de ter você por perto. Mesmo quando briga com a mamãe.

Fiquei em silêncio por um momento, sentando ao lado dela.

— Sobre antes... na cozinha. Aquilo que você disse...

Clara respirou fundo e olhou para a parede.

— Eu não queria gritar, pai. Só... é verdade. Nenhum de vocês está feliz. Eu vejo. Vocês só estão juntos porque acham que é o melhor pra mim. Mas não é.

Olhei para ela, com o coração apertado.

— Clara... isso não é uma decisão fácil. Mas você tem razão. A gente precisa conversar. E cuidar de você da melhor forma possível.

Ela encostou a cabeça no meu ombro e sussurrou:

— Só quero ver você sorrindo de novo. Quero ver a mamãe sorrindo também. E... eu sei que você ainda pensa nela.

— Em quem? — perguntei, tentando não parecer surpreso.

— Na mulher que você ama de verdade. Eu ouvi a mamãe falando com.o vovô que você ainda ama aquela mulher.

Engoli em seco. Claire sempre com atitudes infantis.

— Vamos pro passeio? — perguntei, tentando aliviar.

Ela assentiu, sorrindo.

— Vamos, antes que você me envergonhe com discurso na frente da Rana.

Me levantei, dando um beijo no topo da cabeça dela.

— Hoje, só motorista e fã número um. Discurso só no fim do dia.

Ela riu, me acompanhando até a escada. Mas dentro de mim, as palavras dela ainda ecoavam.