Narrado por Jacob


Escolhi o Domino Park, no Brooklyn. Um lugar onde os jovens gostavam de ir, com seu gramado bem cuidado, vista para o East River e um ambiente tranquilo, mas moderno. Clara gostava daquele tipo de lugar — e eu precisava de um espaço calmo para a conversa que estava por vir.

Ela caminhava ao meu lado, com os fones pendurados no pescoço e um sorriso tímido nos lábios. Logo começamos a falar da escola, das provas de matemática e do quanto ela odiava física com todas as forças de uma adolescente de doze anos.

— Eu realmente acho que o universo conspira contra mim quando é aula do Sr. Ramon. — ela disse com um suspiro dramático, me arrancando uma risada.

— O universo só tá testando tua paciência — brinquei, dando de ombros. — Mas se quiser, posso te ajudar com física. Sou bom com números… embora você provavelmente ache isso chato.

Ela me olhou de lado, sorrindo.

— Aceito. Vai ser bom… mesmo que eu reclame.

Ficamos em silêncio por um momento, ouvindo o som das crianças correndo pelo parque, o barulho da água batendo nas margens do rio. Clara caminhou até um banco de madeira e sentou. Eu a segui.

— Você me trouxe aqui pra conversar sobre o divórcio, né? — ela disse de repente, encarando o chão.

Meus olhos se apertaram com o baque silencioso da maturidade da minha filha.

— Clara… — suspirei. — Eu te amo. Isso não muda com o que está acontecendo entre mim e sua mãe. Você é a melhor parte de tudo o que vivi até agora.

Ela levantou os olhos para mim. Havia um brilho ali — não de lágrimas, mas de compreensão. De alguém que já sabia mais do que deixava transparecer.

— Eu sei. E… não tô surpresa. Vocês brigam há meses. Só queria que fosse diferente, mas entendo.

Eu engoli em seco e sorri, aliviado. Ela era forte. Mais do que eu merecia.

— Tem mais uma coisa… — continuei, com calma. — Você vai vir morar comigo.

Clara me olhou com os olhos arregalados, surpresa.

— Sério?

— Sim. — assenti. — Conversei com sua mãe. Ela cedeu. Achamos que, no momento, seria melhor pra você ficar comigo.

Não consegui contar toda a verdade. Ainda não. Ela não precisava saber que Claire simplesmente… desistiu.

Clara pareceu pensar por um instante e depois assentiu devagar.

— Tudo bem. Desde que tenha panqueca aos domingos. E espaço pra minha coleção de tênis.

Soltei uma gargalhada e a puxei para perto, abraçando-a.

— Fechado.

Enquanto ela recostava a cabeça no meu ombro, olhando o céu limpo de Nova York, algo em mim se acalmou. Pela primeira vez em muito tempo, eu sentia que estava fazendo a coisa certa.

Mas mal sabia que a tempestade de verdade estava só começando.



Narrado por Renesmee


O prédio era imponente. De vidro espelhado, moderno, brilhante — como tudo que os Young sempre fingiram ser. Na fachada reluzente, letras douradas e pretensiosas: “Maison Y”, a marca central do conglomerado de moda que Claire e Logan Young haviam construído nos últimos anos.

Não me surpreendi. Ainda me lembrava perfeitamente do dia em que, sentadas nos degraus da faculdade, eu e Claire sonhávamos com nossas próprias coleções. Fui eu quem sugeriu o nome, a ideia de algo que misturasse sofisticação e juventude. E ela… Ela simplesmente roubou.

Apertei o volante por um instante antes de sair do carro. Sophie… Clara… não importa o nome. Eles me tiraram tudo.

Caminhei até a entrada principal com passos decididos. A recepção era decorada com flores exóticas, mármore e um balcão minimalista. Uma jovem uniformizada me olhou com um sorriso profissional.

— Bom dia. Em que posso ajudá-la?

— Quero falar com Claire Young — respondi, mantendo minha voz firme.

— A senhorita tem hora marcada?

Olhei em volta. As paredes da entrada tinham quadros com capas de revistas: Claire sorrindo em lançamentos, premiações, eventos de gala. Tudo que pertencia a mim, ela havia transformado em vitrine para suas mentiras.

— Não. — dei um pequeno sorriso. — Mas diga que Renesmee Swan deseja falar com ela.

A recepcionista hesitou por um instante, surpresa com o nome. Com certeza o conhecia. Eu vi seu olhar fugir discretamente para o telefone.

— Só um momento. Vou verificar se ela pode atendê-la.

Enquanto ela discava, cruzei os braços e permaneci de pé, firme, diante daquele santuário de aparência impecável. A verdade, enfim, estava começando a encontrar seu caminho.

A recepcionista desligou o telefone e olhou para mim com uma expressão tensa, como se tivesse acabado de falar com um vulcão prestes a entrar em erupção.

— A senhora Young informou que não poderá recebê-la. Ela está em reunião.

Sorri de lado. Nada menos do que eu esperava.

Inclinei-me levemente sobre o balcão, mantendo o tom calmo, porém com o olhar firme como uma lâmina.

— Então, por favor, ligue de novo. Diga que Renesmee Swan deseja falar com ela... sobre Clara Black. Ou melhor, Sophie Black.

A recepcionista hesitou. O nome provocou exatamente o impacto que eu queria. A expressão dela mudou imediatamente. As mãos vacilaram, os olhos arregalaram-se brevemente. Ela engoliu em seco e pegou o telefone de novo.

Dessa vez, a ligação durou apenas alguns segundos.

— A senhora Young vai recebê-la — disse ela, baixando o telefone com mãos ligeiramente trêmulas. — Sala do décimo segundo andar. O elevador está à sua esquerda.

— Obrigada — murmurei com um sorriso vitorioso.

Caminhei até o elevador sentindo o sangue ferver sob a pele. Eu não tremia. Não mais. Doze anos de silêncio, saudade e angústia me tornaram muito mais forte do que ela imaginava. Claire me devia respostas. E naquele momento, eu estava pronta para arrancar cada uma delas.

O elevador subia devagar, o visor marcando os andares como batimentos de um coração em fúria: 4… 7… 9… 11…

Ding — 12.

As portas se abriram e eu caminhei por um corredor de vidro com vista panorâmica da cidade. À frente, a sala da diretora criativa. E atrás da porta, a mulher que roubou minha vida.

Claire Young.

Ela não imaginava o que vinha pela frente.

A porta de vidro se abriu com um clique seco. Claire estava atrás da mesa de design, impecável como sempre, usando uma blusa branca alinhada e batom vermelho tão afiado quanto suas palavras.

Ela ergueu os olhos lentamente e me fitou com desprezo, inclinando-se levemente sobre a mesa.

— Renesmee Swan... — disse, com um sorriso irônico. — Veio pedir um emprego? Ou resolveu se ajoelhar e implorar para voltar a ser relevante?

Sorri com frieza, andando até a poltrona à sua frente.

— Não. Vim ver de perto como o dinheiro do Jacob ajudou você e sua família a saírem do fundo do poço.

O sorriso dela vacilou por um instante, mas logo voltou com ainda mais escárnio.

— Por que está aqui? E por que citou o nome da minha filha?

— Da sua filha? — recostei-me na poltrona, cruzando as pernas com calma. — Eu tive uma filha, Claire. Há doze anos. Se chamava Sophie. Foi roubada da minha casa, na França. Annecy. Nunca houve pistas. Nenhum vestígio... até agora.

Claire arqueou uma sobrancelha.

— Que história triste. Mas o que isso tem a ver comigo?

— Coincidentemente, você apareceu com a "filha de Jacob" poucos dias depois do sumiço da minha filha.

Claire riu alto, sarcástica.

— Você está maluca. Isso é um delírio.

Inclinei-me para a frente, sem desviar os olhos dos dela.

— Me diz, Claire... quanto tempo você acha que pega por sequestro de menor? Porque eu vou te entregar. Vou destruir sua carreira, sua família e o nome que construiu com o sangue dos outros.

— Saia da minha sala agora! — gritou ela, levantando-se furiosa.

Levantei com calma.

— Não, Claire. Você não vai se livrar tão fácil. Eu vou à polícia. E quando o exame de DNA provar o que eu já sei... — sorri de lado — você vai passar muitos anos relembrando o nome Sophie atrás das grades.

Ela empalideceu. Por trás da maquiagem e da pose, havia medo. Real. Genuíno.

— Ninguém vai acreditar em você — sussurrou.

— Não preciso que acreditem — respondi. — Só preciso da verdade. E ela está no sangue. No DNA. E nos doze anos de sofrimento que você me deve. Vai pagar, Claire. Eu juro.

Virei as costas e caminhei até a porta, mas antes de sair, olhei por cima do ombro:

— Aproveite seus últimos dias de liberdade.

E fechei a porta com um estalo seco.


Narrado por Jacob


Assim que destranquei a porta e entrei com Clara, senti o ar pesado da casa. As luzes estavam acesas e a bolsa de Claire estava jogada sobre o sofá. Ela surgiu no corredor, o rosto tenso, os olhos arregalados como se tivesse sido pega em flagrante.

— Claire? Está tudo bem? — perguntei, puxando Clara mais para perto de mim.

— Claro! Tudo ótimo. — Ela forçou um sorriso que não convenceu nem a mim, nem nossa filha. — Eu... preciso fazer uma viagem. Hoje. Urgente. E vou levar a Clara comigo.

— O quê? — Clara olhou para ela surpresa. — Mas mãe, semana que vem tem minhas provas finais. Eu não posso faltar.

— Arruma suas coisas, Clara — disse Claire, já indo em direção às escadas. — Vai ser só por uns dias.

— Claire, você tá maluca? — segurei o braço dela antes que subisse. — Você não vai levar a nossa filha pra lugar nenhum. E você sabe que, legalmente, precisa da minha autorização pra qualquer viagem internacional com ela.

Ela se virou devagar, me encarando como se eu tivesse acabado de ameaçá-la.

— Não faça isso, Jacob.

— Fazer o quê? Impedir que você fuja com a minha filha sem motivo? Porque é exatamente isso que parece! Fugir. — Meu tom saiu mais duro do que planejei.

Claire engoliu seco.

— Eu só quero proteger nossa filha.

— De quem? De mim? — ri sem humor. — Clara está bem aqui. Tem escola, provas, amigos... Você quer levar ela pra onde? Sem planejamento? Por quê?

— Você não entenderia, só quero um tempo com minha filha.

— Então me faz entender, Claire! — falei entre dentes. — Porque agora você me parece desesperada. E eu te conheço bem o suficiente pra saber que, quando você age assim, tem alguma coisa por trás.

Clara, parada entre nós, observava a cena com os olhos marejados.

— Pai... — sussurrou. — Eu não quero viajar, eu tenho provas na escola.

Respirei fundo, tentando conter a fúria e a urgência que começavam a borbulhar em mim.

— Vai pro seu quarto, princesa. Arruma suas coisas. Você vai pra casa comigo agora.

Claire fechou os olhos, frustrada — Você não pode levar minha filha assim...

— Como assim eu não posso? Você mesma disse que eu ficarei com a guarda da Clara , porque mudou de ideia?

Eu sabia. Ela estava escondendo algo. E agora, mais do que nunca, eu precisava descobrir o que.