O Lado Sombrio do Amor
30 A história não contada parte 2
Narrado por Bella Swan
O tribunal estava frio, impessoal — mas meu coração batia como se estivesse prestes a explodir. Ao meu lado, Edward segurava minha mão discretamente sob a mesa, tentando me passar alguma força. O advogado dele, o senhor Hartman, ajeitou os papéis à frente e se levantou com firmeza.
— Excelência, trago aqui laudos psicológicos e testemunhos que comprovam o estado emocional da senhorita Isabella Swan à época da assinatura da adoção. Ela havia acabado de dar à luz, sob forte pressão emocional, e sofria ameaças diretas da senhorita Irina Denali. Os documentos também apontam que a senhora Isabella Newton, hoje falecida, omitiu à senhora Swan seus direitos e usou da sua fragilidade para concluir a adoção — declarou com a voz firme.
O advogado dos Newton, um homem de meia-idade com olhar frio, se levantou rapidamente.
— Meritíssima, a adoção seguiu todos os trâmites legais. Nenhuma prova foi apresentada que demonstre coação direta por parte de meus clientes. Não se pode revisar um processo consolidado com base em emoções do passado. Além disso, a criança foi criada com amor e estabilidade até aqui. Tirar essa criança agora dos Newton seria um trauma irreparável.
A juíza, uma mulher austera de cabelos grisalhos, folheou os documentos à sua frente. O silêncio que se instalou parecia me asfixiar. Até que ela falou, com voz firme:
— Após analisar os documentos, os depoimentos e os registros hospitalares... entendo que houve sim manipulação emocional e violação dos direitos da genitora à época da adoção. Declaro, portanto, a adoção de Renesmee Swan Cullen como nula. A guarda volta, imediatamente, à sua mãe biológica, Isabella Swan, e ao pai biológico, Edward Cullen.
Meu coração disparou. Levei as mãos à boca, os olhos marejados, e olhei para Edward. Ele sorriu. Não aquele sorriso contido — um verdadeiro sorriso de alívio. Nós conseguimos.
Mas antes que pudéssemos sair, o advogado dos Newton se levantou de novo:
— Excelência, com o devido respeito, entraremos com um pedido de apelação. Essa decisão não encerra este caso.
A juíza assentiu, séria:
— Têm o direito de recorrer. Mas, até nova ordem judicial, a decisão está mantida.
Enquanto saíamos da sala, eu mal conseguia respirar de tanta emoção. Edward me puxou suavemente para o corredor e me envolveu em um abraço apertado.
— Ela é nossa, Bella. De novo. — ele sussurrou.
Eu queria sorrir... mas uma sombra crescia dentro de mim.
Eu mal conseguia conter as lágrimas quando parei diante da porta da casa da minha mãe. As emoções da audiência ainda martelavam em mim, como ondas quebrando contra as pedras. Eu tinha minha filha de volta. Eu tinha Renesmee.
Renée abriu a porta e, no momento em que viu meu rosto, soube que algo grande havia acontecido.
— Mãe… conseguimos — minha voz saiu embargada. — A juíza anulou a adoção. A Nessie vai voltar pra mim.
Renée arregalou os olhos e cobriu a boca, antes de me puxar para um abraço apertado.
— Oh, Bella! Graças a Deus… Eu sabia! Eu sempre soube que um dia isso ia acontecer. Ela é sua filha, nunca foi da Isabella Newton! — disse ela, entre soluços de alegria.
Eu sorri, por um momento permitindo-me aquele alívio, aquele consolo tão raro. Mas então Renée afrouxou o abraço e me encarou com seriedade.
— Mas você sabe que isso não vai acabar assim, né? Quando Edward der o sobrenome Cullen a ela… Carlisle não vai aceitar. Você não terá só Irina pra enfrentar.
— Eu sei. — respondi, respirando fundo. — Mas agora que tenho minha filha de volta, não importa mais. Assim que for buscá-la… eu vou embora. Quero começar uma nova vida com ela. Onde nenhuma dessas sombras do passado possam alcançá-la.
— E o Edward? — Renée perguntou, com hesitação.
Eu engoli seco, sentindo o peso da escolha já feita.
— Com ou sem ele, mãe. Eu vou.
Ela me puxou para mais um abraço, apertado, silencioso. Pela primeira vez em anos, senti que estávamos juntas de verdade.
Mais tarde, decidi passar no meu apartamento. Eu precisava respirar sozinha, organizar meus pensamentos antes de ver Renesmee. Precisava de um banho quente, de silêncio.
Mas ao abrir a porta… o silêncio que encontrei foi cortante.
— Quem esta ai? — chamei, ao notar a porta entreaberta da sala.
Meus olhos levaram segundos para se ajustar à cena — e foi como se o chão tivesse sido arrancado sob meus pés.
Irina Denali estava caída no chão da minha sala, os olhos abertos, o sangue escorrendo de um ferimento na lateral da cabeça.
— Oh, meu Deus! — gritei, levando as mãos à boca.
Corri até ela, ajoelhando-me, tentando ver se ainda respirava, se aquilo era real. Mas ela estava fria.
O som de sirenes me cortou como navalha. A batida na porta foi seca, autoritária.
— Polícia! Abra a porta!
Eu tentei explicar, dizer que havia acabado de chegar, que nem sequer sabia o que estava acontecendo, mas já era tarde.
— Isabella Swan? — o policial me olhou com dureza. — A senhora está presa, suspeita de assassinato.
— Não! Eu… eu acabei de chegar! — gritei, mas minhas palavras caíram no vazio.
Enquanto colocavam as algemas nos meus pulsos, tudo que eu conseguia pensar era em uma coisa:
Renesmee.
Ela era minha. De novo. E agora, poderia perdê-la. De novo.
◇◇◇◇◇◇◇◆◇◇◇◇◇◇◇
O tempo parecia ter perdido o sentido desde a noite em que encontrei Irina morta no meu apartamento. As semanas seguintes foram um borrão de interrogatórios, manchetes sangrentas e dias sombrios em uma cela gelada. Eu só conseguia pensar em uma coisa: Renesmee.
Edward fez tudo que pôde. Contratou o melhor advogado criminal do país, um homem renomado, conhecido por tirar até culpados da prisão. Mas, infelizmente, eu não era culpada — e isso, no mundo em que vivíamos, não parecia importar.
Na sala do tribunal, os olhares eram julgadores. A mídia se aglomerava nas janelas, prontos para o veredito. Eu, sentada ao lado do meu advogado, sentia as pernas fracas. Edward estava atrás de mim, como esteve todos os dias. Não perdia uma audiência. Mesmo depois de tudo, mesmo com as dúvidas que o passado tinha cravado entre nós, ele ainda estava ali.
A juíza se posicionou. O silêncio que se formou parecia pesar toneladas. Meu coração batia no ritmo da sentença que estava por vir.
— Após avaliar as provas apresentadas, os depoimentos e a argumentação das partes, declaro Isabella Marie Swan condenada pelo homicídio de Irina Denali a 30 anos de prisão em regime fechado.
Eu ouvi o som das palavras antes que elas realmente fizessem sentido. Trinta anos.
Senti meu corpo desfalecer, os olhos embaçarem. Ao meu lado, meu advogado ficou pálido. Edward se levantou bruscamente atrás de mim, gritando:
— Isso é um erro! Ela é inocente! Vocês estão condenando a mulher errada!
Do banco reservado aos espectadores, minha mãe chorava em silêncio, o rosto escondido entre as mãos. Mas foi ao olhar para o lado que meu sangue gelou de verdade.
Carlisle Cullen.
Ele estava ali. Com seu terno impecável, postura inabalável... e um sorriso nos lábios. Frio. Contido. Vitorioso.
Aquela expressão dizia tudo. Ele tinha vencido.
Mesmo que Edward não visse, eu via.
Aquilo não era justiça. Aquilo era vingança.
Os guardas me puxaram, algemaram-me diante de todos. Quando passei por Edward, ele segurou meu braço com força, os olhos marejados:
— Eu vou provar sua inocência. Nem que leve o tempo de uma vida, Bella. Eu juro.
— Cuide dela. — foi tudo o que consegui sussurrar, antes de ser levada.
Minhas últimas imagens daquele tribunal foram a face de Edward, cheia de amor e desespero, e o sorriso vitorioso de Carlisle Cullen, escondido sob uma máscara de respeito.
Naquele dia, eu perdi minha liberdade.
Mas ele... ele vai perder tudo o que ama.
Eu vou sobreviver.
E vou voltar.
Nem que seja a última coisa que eu faça.
◇◇◇◇◇◇◇◇◆◇◇◇◇◇◇◇
Dois anos após a condenação
O tempo no presídio é um assassino lento de esperanças. Cada dia se arrasta, impiedoso, me lembrando de tudo o que perdi. De tudo o que fui obrigada a abandonar.
Mas naquele dia, quando vi o rosto de Renée do outro lado do vidro grosso da sala de visitas, algo dentro de mim se acendeu — ansiedade, medo, saudade... tudo de uma vez. Ela parecia mais velha, os cabelos mais grisalhos, os olhos carregando um peso que não estavam lá dois anos atrás.
Quando me sentei, peguei o telefone do lado da cabine com mãos trêmulas.
— Como ela está? — foi a primeira coisa que perguntei. Não precisava dizer o nome. Ambas sabíamos de quem eu falava.
Renée respirou fundo.
— Bella... houve um acidente.
Senti o ar sumir dos pulmões.
— O quê? — minha voz falhou. — Não... Renesmee?
Ela se apressou:
— Não! Ela está bem. Estava na escola...
Uma lágrima escorreu sem que eu pudesse controlar.
— Quem...?
Renée engoliu em seco.
— Mike e Isabella... morreram. Foi instantâneo. Um caminhão invadiu a pista.
Senti o mundo girar. Mike... Isa... eles criaram minha filha. Não eram seus pais de sangue, mas a amavam. Eu sabia disso.
Antes que eu pudesse reagir, vi Edward entrando. Ele estava diferente. Mais sério, os olhos escurecidos pelas marcas do tempo e da culpa. Pegou o telefone ao lado da minha mãe e me olhou com ternura.
— Eu consegui a guarda dela. — disse com suavidade. — Ela está comigo agora.
Meus olhos se fecharam por um segundo. A vontade de sorrir veio, mas logo se dissolveu com a realidade.
— Não. — falei firme. — Você vai deixá-la com a minha mãe.
Edward franziu o cenho, confuso.
— Bella, isso não faz sentido. Ela é minha filha. Posso cuidar dela. Ela vai ter tudo...
— Menos uma infância livre do peso do nosso passado. — sussurrei.
Renée assentiu em silêncio, os olhos marejados.
— Ela precisa crescer em paz. Não pode saber do que aconteceu. Nem de mim... nem de você. Nem de Carlisle.
— Você quer que ela acredite que os pais dela foram os Newton? — Edward murmurou, chocado.
— Quero que ela tenha uma chance. — respondi, com a voz embargada. — Quero que ela se lembre de amor, não de tragédia. Que ela se veja como Renesmee Newton, filha de Mike e Isa. Que tenha liberdade.
Edward tentou falar, mas eu o interrompi:
— Jure, Edward.
Ele hesitou. Olhou para mim como se me visse por completo pela primeira vez. E então assentiu devagar.
— Eu juro.
Olhei para Renée.
— E você?
Ela segurou a minha mão do outro lado do vidro.
— Eu também juro.
As lágrimas caíam silenciosamente, mas dentro de mim havia uma certeza dolorosa e inabalável: eu havia perdido minha filha, mais uma vez.
Mas era por ela.
Pela vida que eu nunca pude dar.
Pelo futuro que eu ainda sonhava que ela teria.
E um dia… quando tudo fosse seguro…
Quando a verdade não fosse mais uma ameaça…
Eu voltaria.
Por ela.
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