Um caixão preto por fora e por dentro de camurça vermelha, Marilda estava dentro dele com os seus olhos verdes arregalados, a pele pálida e em pânico sem entender o que estava acontecendo, desesperada. Ela abria sua boca tentando gritar, mas o sufoco e a sensação de claustrofobia a calavam, deixando-a imóvel, o silêncio reinava e ela não sabia mais se aquilo era sonho ou realidade, até que o caixão em que estava foi se desfazendo aos poucos e algo que estava sob ele antes, foi caindo em seu rosto, parecia uma pele, pele de ser humano, que enquanto cobria seu corpo ia se fundindo a ela, fazendo com que sua verdadeira pele caísse, tomando uma nova para si. Um misto de sentimentos que ela estava tendo foi se tornando cada vez maior e mais real, o medo, angústia, a confusão e no fim um estranho alívio, até que um som tomou conta do lugar e quando ela abriu novamente os olhos estava em seu quarto, ouvindo o despertador tocar.

Ela olhou em volta e tudo parecia em ordem, seu quarto era verde musgo, uma cor fria que deixava o local mais frio e aconchegante, ela se sentou na beira de sua cama barata e ficou olhando a chuva pela janela de seu quarto, coçou os olhos pensando na noite horrível de sono que teve e em seu sonho esquisito:

— Marilda! -gritou sua mãe batendo na porta do seu quarto.

— Fala mãe... -Marilda respondeu se jogando na cama novamente, enquanto cobria seu rosto com suas mãos.

— Márcio e Denise estão aqui fora te esperando, vê se anda logo!

Marilda se levantou depois de muito sacrifício e seguiu para frente de sua cama, onde existia um espelho enorme lá. Ela ficou se olhando por alguns segundos, com olhar de reprovação, o cabelo ruivo preso em um coque frouxo, uma blusa larga e rasgada e uma calça de moletom verde água. Seus olhos que deveriam esbanjar vida e alegria, que eram verdes e tão bonitos, mais demonstravam depressão e amargura, com uma olheira enorme e uma cara de cansaço, Marilda foi se aprontar para ir mais um dia para o colégio. Saiu do quarto sem nem tomar café, ou se despedir da mãe, saiu da varanda e deu de cara com seus amigos no carro, os irmãos gêmeos Márcio e Denise:

— Fala galera... Qual é a boa?! -perguntou com uma voz baixa, enquanto bocejava.

— Nossa, parece que um trator passou pelo seu cabelo, você tá horrível... Ninguém nunca te apresentou um pente não?! -perguntou Denise com cara de desgosto pra melhor amiga.

— Vai à merda, que hoje to sem paciência nenhuma, sério! -ela respondeu sendo ríspida.

— Nossa.... Fica de boa cara! Vamos lá pra casa hoje, temos uma surpresinha pra você! -Márcio retrucou com um bom humor olhando pra irmã.

Márcio e Denise eram inseparáveis, além de terem personalidades muito semelhantes, eles também eram quase idênticos fisicamente. Ele tinha um cabelo loiro, curto e cacheado, seus olhos eram azuis, com um princípio de barba no rosto e ela com um cabelo cor de mel longo e cacheado com olhos azuis também. Além de serem melhores amigos de Marilda, viviam sempre os três juntos na escola e fora dela também.

No caminho Denise que estava dirigindo o carro mudou a rota e ao invés de irem para escola, seguiram para a casa deles:

— O que vocês estão fazendo? -Marilda perguntou sem entender para Márcio.

— Cara, nossos pais saíram, vamos lá pra casa, a gente conversa melhor e você explica o motivo dessa tromba de elefante!

Marilda amava ir na casa dos amigos, a cidadezinha de Gangô era extremamente religiosa e fanática, com grandes líderes religiosos tomando não só conta das igrejas, mas também da política da cidade, influenciando a mente dos mais velhos e não aceitando outros tipos de crenças e formas de vidas, mas os pais de Denise e Márcio tinham um estilo de vida diferente, eles gostavam de coisas místicas, tinham a casa com um estilo mais rústico, com decorações diferentes, existiam muitas fadas, bruxas e duendes nas prateleiras e pela casa, livros de astrologia e cartas de tarô, a casa cheirava a incenso e eles levavam a vida de forma leve, longe de religião, isso incomodava muito o resto das pessoas, seus nomes eram Márcia e Dênis e o nome dos filhos foi uma homenagem a si próprios. Por ser diferente dos padrões da cidade, Marilda se sentia confortável na casa deles e acolhida pelo local:

— Amo vir aqui, me sinto mais a vontade do que na minha própria casa! -Marilda dizia aos amigos enquanto entrava na casa deles.

— Pelos meus pais você moraria aqui! -Denise respondeu fechando a porta.

— Vamos lá, você já é de casa, senta em qualquer canto e desembucha o motivo desse mau humor todo aí... -Márcio ia falando depois de deixar a mochila no chão e ir se jogando logo no sofá.

A casa deles era grande e a sala de estar mais ainda, tinha um sofá enorme onde Márcio tinha se deitado, ao lado uma poltrona confortável e em frente ao sofá, um rec que tinha a televisão deles e do outro lado uma lareira que a Denise estava acendendo por causa do frio, as paredes eram de pedras e a casa era bem gelada, fui me sentando na poltrona enquanto pegava uma almofada para por no meu colo:

— Ah cara, sei lá, tive um sonho estranho sabe... Estava presa, tipo num caixão, aí algum tipo de coisa foi caindo e se fundindo ao meu corpo, tipo uma pele... Não sei, foi a sensação mais estranha que eu já tive, foi claustrofóbico, porém me senti aliviada depois que a tal coisa se fundiu a mim. Parecia uma metamorfose... Esse sentimento de depressão e sufoco que eu tenho diariamente desapareceu pelo menos, por um único segundo.

— Você imagina o que pode significar isso? -perguntou Denise se sentando ao lado do irmão.

— Não... Mas eu sinto que preciso fazer uma mudança, mas não sei em que. Hoje mais tarde vou na minha psicóloga conversar com ela, acho que vocês, seus pais e a minha psicóloga são as únicas pessoas sãs dessa cidade, que não vivem em função de religião. Não consigo nem imaginar a reação da galera daqui se souber que sou lésbica, acho que seria jogada na fogueira!

Márcio soltou uma gargalhada e concordou com a amiga:

— Falando nisso, você nem sabe quem vai vir pra cá amanhã... -ele olhou para a irmã com cara de mistério, enquanto a mesma abria um sorriso.

— Quem? Falem logo! Bobeira... -Marilda disse impaciente.

— Bárbara! Lembra? Nossa prima que você ficou toda apaixonadinha aí... Ela disse que tá doida pra te encontrar! -Márcio levantou cutucando a amiga pra ver se a animava.

— Não sei se estou feliz com isso... Sei lá, da última vez que nos vimos eu tinha uma aparência mais feminina e hoje não estou mais assim, nem gosto de estar assim! Provavelmente ela vai ficar frustrada. -Marilda respondeu enquanto se levantava nervosa e seguia para a porta.

Denise levantou de onde estava sentada e foi atrás da amiga por trás, direcionando a mesma até a frente do espelho que existia pendurado ao lado da porta de entrada.

— Que isso! A Bárbara sempre gostou de você e te achou interessante, ela é uma mulher mais velha e inteligente, não vai se importar com aparência física e mais... Se você está preocupada com isso, eu posso muito bem te produzir para ela!

— Não dá Denise! Eu mal consigo me olhar no espelho, mal consigo olhar no meu rosto que já me sinto uma droga, já sinto vontade de desaparecer, eu só queria descobrir um jeito de acabar com esse sentimento sufocante que existe dentro de mim... -Marilda colocou as mãos sobre o rosto, tentando esconder as lágrimas que desciam de seus olhos e ao mesmo tempo que ela queria continuar a falar, sua voz estava falha e trêmula, então ela preferiu esconder seu rosto num abraço dado por Denise.

Márcio veio atrás, com um tapinha nas costas da amiga dizendo que tudo ficaria bem e que logo eles encontrariam um jeito de ela se sentir melhor, afinal, eles tinham 17 anos e ainda estavam na fase de descobrimento.

— Estou indo embora, tá?! Vou pra casa tomar banho e depois vou conversar com a minha psicóloga, eu amo vocês e depois ligo avisando como foi! -Com os olhos cheios de lágrimas e o rosto vermelho denunciando o choro, Marilda secou suas lágrimas e saiu pela porta da frente da casa dos gêmeos, que ficaram só parados acenando para ela, que em um andar já estava do lado de fora.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.