O Lado Humano do Guaxinim
2 O que Acontece Quando se Usa um Novo Corpo
Notas iniciais
— Como é? – Peter inquire, alarmado.
— Calma, Quill, é brincadeira – Rocket responde com uma risada leve – Humanos machos não podem conceber bebês.
— Eu sei disso, seu idiota, mas você me assustou – O terráqueo põe as mãos no rosto – Então, não sabe o que tem de errado comigo?
— Lembra do sanduíche que eu comi semana passada? – Inquire, perdendo a expressão bem-humorada. Perceber que a relação de gozação entre ele e Peter continua a mesma, sem que o terráqueo tenha algum ressentimento, machuca mais do que ele gostaria – Pois é, ele não fez eu me sentir bem no outro dia, mas foi só até lá, então, parei de comer os ingredientes dele, e pelo que vi na última semana, toda vez que você melhora ou que decide comer algo da nave, você come exatamente o mesmo sanduíche.
— Eu não sei porque, mas sinto vontade de comer só aquilo, meu apetite não abre a outras coisas.
— Agora isso é realmente estranho – Rocket ergue uma sobrancelha, encafifando-se com a nova informação – Quill, você sabe a raça do seu pai?
— Se eu soubesse, teria ido atrás dele a essa altura – Peter declara, esfregando os olhos – Me sinto tonto... Acho que eu vou...
Peter golfa antes de terminar a frase e sai correndo, em direção ao banheiro. Rocket fica para trás, pensativo a respeito da brincadeira que acabou de fazer e disposto a realizar algumas pesquisas.
E ele não é o único.
Peter termina de botar seu café da manhã para fora e nem mesmo avisa a Rocket antes de sair da nave em direção a um posto médico.
Seu coração quase para ao ver Drax e Gamora voltando. Ele não quer que ninguém saiba onde está indo e porque está indo. Por sorte, consegue se esconder e esquivar-se dos dois, chegando ao seu destino em sigilo.
A enfermeira não é uma espécie muito peculiar. Até parece humana, mas tem quatro olhos amarelos bem grandes.
— Posso ajudá-lo? – Pergunta ela.
— Eu preciso de alguma coisa que ajude a detectar gravidez – Peter inquire. Nunca se preocupou com isso antes, para saber se realmente existe.
A enfermeira entra em uma sala e volta com um pequeno aparelho em forma de cilindro, fino, mais parecido a um termômetro, com uma ponta vermelha e outra verde.
— Obrigado – Diz ele pegando o objeto – Como isso funciona mesmo?
— A sua companheira deve molhar a ponta vermelha com uma gota de urina. A composição química vai ser analisada no interior e caso haja hormônios de gravidez, a ponta verde irá acender.
— Isso funciona com homens?
— Você não parece com uma espécie em que homens engravidem.
— É só por curiosidade.
— Sim, funciona. Os hormônios da gravidez são o mesmo para maioria das espécies. Caso queira ter certeza, uma consulta médica pode ajudar.
— Obrigado, mais uma vez – Peter agradece e guarda o aparelho em seu bolso.
Na nave, ninguém reclama sobre sua ausência. Apenas Gamora o encara com um olhar suspeito, antes de ter que abrir passagem para que ele vá ao banheiro. Peter não está com vontade de urinar, mas ainda assim coloca seu amiguinho para fora e aguarda até que pelo menos uma gota saia e no momento em que um curto esguicho é liberado, ele coleta as gotas com a ponta do aparelho entregue a ele pela enfermeira, esperando o resultado.
Seu coração acelera, enquanto encara a ponta verde, na estranha expectativa que ela se ilumine.
~
Rocket encara o monitor do seu computador, vendo as opções. Existem pelo menos dezoito espécies de alienígenas em que o macho também pode engravidar e somente duas são parecidas com Peter, porém, nenhuma delas é a raça humana. Rocket lê a respeito dos cruzamentos entre raças, se existe a possibilidade de a anatomia ser passada para descendentes vindos do acasalamento com outra espécie e, para sua surpresa, a primeira raça confirma isso.
Batidas em sua porta o fazem desligar o monitor holográfico imediatamente.
— Só um minuto – Exclama, se levantando da cama. Pode ser Groot, e provavelmente isso gerará perguntas a respeito do porque ele estar trancado, já que nunca faz isso. A única que se tranca no quarto, normalmente é Gamora, para evitar a “feitiçaria pélvica” de Peter.
A porta abre-se, revelando o próprio Quill, com um olhar aflito.
— Rocket, eu preciso falar com você – Declara ele.
— Eu queria falar com você também, entra – O ex-guaxinim dá passagem para ele.
— Bem, vou direto ao ponto... Você sabe o que é isso? – Quill retira um objeto cilíndrico fino do bolso de sua calça. Os olhos de Rocket se sobressaltam.
— Isso é um teste aurexiano de gravidez, funciona para 90% das espécies – Responde o outro – E quando a ponta fica verde é porque... – Os olhos de Rocket se dirigem aos do terráqueo com aflição – Peter, de quem é esse teste?
— Meu – Peter responde, após tomar um longo fôlego – Acabei de pegá-lo no posto médico e fiz há dez minutos.
— Isso quer dizer que...
— Rocket, você foi o último homem para quem eu fui passivo sem usar proteção, mas isso nunca aconteceu antes – Declara o terráqueo – Eu não sei porque está acontecendo agora, eu tenho... – Uma extrema agonia toma conta de Peter e ele não consegue conter as lágrimas. O ex-guaxinim não sabe como reagir, então, se aproxima e envolve o terráqueo em seus braços.
— Fica calmo... São os hormônios que estão te desestabilizando. Senta um pouco – Aconselha, sem saber se isso realmente vai ajudar Peter. Não sabe nem como se ajudar. Quill ocupa um lugar na lateral de sua cama. Enquanto isso, Rocket abre a página de seu computador que estava lendo antes – Vê isso? – Aponta. Peter acena positivamente, enxugando uma das lágrimas – É uma lista de espécies cujos machos podem engravidar.
— Não tem humanos aí – Peter exclama.
— Eu sei, mas olha – Rocket amplia as duas espécies que viu anteriormente – Esses dois podem engravidar e são muito parecidos. Segundo essa lista abaixo, se eles cruzarem com uma dessas espécies, as crias vão possuir características anatômicas que permitam que seus filhos homens engravidem, e bem no número sete desse aqui...
A palavra “Terráqueo” é circulada, bem no meio da tela. Os olhos de Peter arregalam-se mais uma vez e as lágrimas retornam.
— Pensa pelo lado positivo, já sabemos a raça do seu pai – Rocket tenta descontrair.
— Não é hora para piadas, sua... – Quill sente uma enorme vontade de chamá-lo de ratazana, mas isso já não tem mais sentido – Que droga!
Ambos permanecem em silêncio por um tempo, tanto por não saberem o que devem dizer, quanto pelo medo de como o outro irá responder. Peter finalmente rompe o silêncio, quando uma constatação lhe atinge.
— Ainda não sabemos por que eu só consegui engravidar de você.
— Bem, é como está na lista, você só poderia engravidar de alguma dessas espécies e, olha só, eu sou terráqueo agora, por assim dizer.
— Mas que... Você não podia ter se segurado?
— Você estava por cima, eu avisei o que estava por vir.
— Não é minha culpa, tá legal? – Peter parece prestes a chorar novamente, o que faz Rocket rolar os olhos.
— Essas suas mudanças de humor vão fazer eu dar um tiro em você, antes desse bebê nascer.
— Me deixa – Peter se recolhe para a cabeceira da cama e se encolhe, agora irritado, virando o rosto para o lado oposto ao que Rocket está.
O ex-guaxinim respira fundo, antes de sentar-se ao lado dele, brincando com seus dedos como se fossem incrivelmente interessantes. Mais uma vez, o quarto cai no silêncio mortal, sem provocações, sem mudanças de humor súbitas, sem nenhum enjoo, ou choro que possa atrapalhar o barulho do resfriador.
Após alguns minutos assim, Rocket toma coragem e leva sua mão até o ombro de Peter, que o olha, ainda aparentando choque pela notícia, e algum tipo de tristeza, que Rocket não consegue compreender.
— Olha, Quill, não sei como resolver isso, mas se quiser levar até o fim... Eu vou ajudar você no que precisar – Garante.
— E como poderíamos resolver isso, Rocket? Tem um bebê se formando dentro de mim no momento, se trata de cuidar de uma criança, formar uma família.
— Eu sei, e estou contigo nisso também.
— Pra você é tão fácil? Não era exatamente com você que eu queria formar uma família – Peter exclama, mas ao notar o desapontamento nos olhos de Rocket, arrepende-se imediatamente do que disse – Rocky, eu não...
— Tudo bem – O ex-guaxinim se levanta e esfrega o rosto com as mãos, antes de bufar – Olha, querendo você, ou não, eu também vou ser pai do bebê que está esperando, então, acho que não está em posição de escolher com quem formar uma família agora.
— Rocket...
— E acho bem difícil você encontrar alguém melhor do que o imbecil que salvou a sua pele do raio de um deus insano.
O peso na consciência de Peter só aumenta.
— Eu mantenho minha palavra. Estou aqui para o que precisar, mas por enquanto, quero um tempo sozinho. É melhor você sair.
— Eu não quis dizer aquilo, eu só...
— Sai, Quill! – Rocket exclama.
Seu tom é confuso entre raiva e mágoa, Peter não sabe explicar, porém, acha que dar a ele um tempo para pensar é realmente a alternativa sensata no momento. Ele se retira do quarto de Rocket e caminha até a cabine de comando, onde Gamora analisa algum tipo de dado no computador. Peter senta-se na cadeira do piloto e suspira. Não é para chamar atenção, mas a zehoberei percebe de qualquer maneira.
— Fez algo de errado? O grito do Rocket conseguiu atravessar uma parede que a maioria dos sons não consegue – Ela declara.
— Eu não sei, Gamora... Como você agiria se engravidasse por acidente?
— Mataria o pai por não ter usado preservativo – Responde a assassina, sem nem mesmo refletir.
— E se na hora você fosse a pessoa a decidir se ele gozaria dentro, ou fora?
— Que perguntas são essas, Quill? – Gamora desliga o computador, encarando-o com choque e um pouco de irritação.
Contar a ela não oferece nenhum risco. Todos os guardiões possuem o mesmo nível de confiança um no outro. Até porque, moram juntos, nenhuma mentira vai longe. Foi por essa razão que Peter resolveu falar diretamente com Rocket.
— Eu estou... Grávido – Afirma de uma vez.
— Sério? – Inquire a zehoberei, em choque – Achei que homens humanos não pudessem engravidar.
— Esse é o problema, não sou completamente humano, e foi por isso que... Eu não me preocupei na hora.
Os pontos se ligam na mente de Gamora. Peter acaba se sair do quarto de Rocket, depois de uma aparente discussão da qual o ex-guaxinim saiu bem irritado. Então, Peter revela que está grávido depois de tantas perguntas. O comportamento estranho dos dois na última semana começa a fazer sentido agora.
— O pai é o Rocky? – Inquire ela.
Peter acena fracamente com a cabeça.
— Como isso aconteceu?
— Foi bem inusitado, tá legal? Eu concordei porque o novo corpo do Rocket é terrivelmente atraente, só que eu não sabia que isso podia acontecer, eu nunca engravidei antes.
— Então quer dizer que já fez isso com outros homens? – Ela ergue uma sobrancelha.
— Vai me julgar também agora?
— Não, deixa pra lá. Então, você deixou que ele acabasse dentro de você? Não sei o que é mais inacreditável. Ele ter conseguido ser o ativo, ou você ter sido tão irresponsável.
— Grande ajuda.
— Desculpa – Gamora rola os olhos e sorri – Fiquei um pouco impressionada pela notícia, mas como o Rocket reagiu?
— Ele não parece ter problema com isso.
— Então por que os gritos?
— Eu... – Peter a olha envergonhado, sem saber se realmente conta, ou mantém sua burrada em segredo – Gamora, acho que eu fiz merda.
~
Rocket encara o teto, tentando segurar as malditas lágrimas, mas é bem difícil fazer isso nessa porcaria de corpo humano. Por que ele está fazendo isso, afinal? No fundo, sabe que foi estúpido em acreditar que Peter Quill valeria a pena, que conseguiria algo além do que todas as garotas e outros homens que já estiveram na cama dele conseguiram. Já imaginava que suas chances de satisfazer sua paixão platônica pelo maldito Senhor das Estrelas fossem nulas, então, porque se sentir tão mal quando a verdade apenas se confirmou?
Por que aquele desgraçado precisa ser tão lindo, mas também tão imbecil?
Ele está esperando um filho seu e isso o deixa ainda mais arrasado. Peter não quer ter esse filho e magoa que o único motivo seja por ser com Rocket.
Por um momento, deseja ir até a corporação e arrancar a magia do couro de Loki, pegando sua forma antiga de volta. Doeria menos se ele não precisasse lembrar que o novo corpo foi o começo de tudo.
A porta do quarto se abre e Groot adentra, sentando-se em sua cama e encarando-o. O ex-guaxinim até se vira para tentar esconder seu rosto, mas é em vão.
— Eu sou Groot? – Pergunta a árvore.
— Nada demais, amigão, só um sentimento que sobrecarrega esse corpo humano.
— Eu sou Groot.
— Não é mentira – Rocket enxuga as lágrimas e vira para encarar Groot, tentando intimidá-lo, mas o mesmo não parece se convencer tão fácil.
— Eu sou Groot?
— Sim, eu me rendo, Groot, eu estava chorando. Não sei se você vai querer saber o motivo.
— Eu sou Groot.
— Tem certeza?
— Eu sou Groot.
— Tudo bem... Tem alguém esperando um filho meu.
— Eu sou Groot – A árvore sorri e bate seus galhos – Eu sou Groot?
— Não, isso não é demais e... Quem é? Bem... Você conhece... Ah, pra quê eu vou mentir pra você? É o Peter.
A cara de espanto de Groot seria cômica, se não fosse trágica.
— Eu sei, é uma loucura, nem eu queria acreditar.
Assim, Rocket toma um bom tempo tentando explicar a Groot como tudo aconteceu. Devia ser embaraçoso, mas não há como não desabafar com ele. É simplesmente seu amigo mais antigo e o ex-guaxinim se sentiria mal se não pudesse dividir um segredo. Enquanto narra, não pode deixar de perceber o quão rápido foi o começo de tudo, sem nenhum tipo de ligação e talvez por isso Peter tenha se afastado depois.
Porém, foi rápido apenas para ele. Rocket tenta negar a si mesmo que não sentia nada por Peter antes de tudo, mas é impossível se convencer disso. Era como um maldito sonho se transformando em pesadelo.
~
Peter continua na cadeira, encarando o painel da Milano sem ter ideia do que fazer. Gamora não deu nenhum conselho a respeito da situação, além do óbvio: concordar que ele não disse uma coisa gentil a Rocket e que devia se desculpar. Nada a respeito de como ele realmente deveria lidar com a gravidez e se realmente devia seguir em frente com isso. A tontura volta e Peter precisa apoiar-se no encosto da cadeira e respirar fundo.
Assim que passa e ele para de ver tudo em dobro, sente vontade de comer algo e vai até a cozinha. Decide fazer mais um dos sanduíches, já que sabe que não é o verdadeiro culpado pelo seu mal-estar. Enquanto organiza os ingredientes, Rocket adentra a cozinha e os dois trocam um breve olhar, que Peter desvia rapidamente, desconcertado. Tem medo que os olhos do ex-guaxinim passem a expressar raiva pelo que fez.
Rocket vai até a geladeira e pega uma garrafa de suco, indo à estufa a procura de algum instantâneo. Peter termina de organizar seu sanduíche e senta-se, mas seu apetite se foi. Rocket senta em frente a ele com um pacote de salgadinhos.
— Se sente bem? – Pergunta.
— Acho que sim – Peter murmura – Rocky, me desculpa pelo que eu falei hoje mais cedo. É tudo surpreendente demais pra mim. Além disso... Tem algo que quero te perguntar.
— O quê?
— Você quer voltar a ser um guaxinim?
Rocket engole em seco pela pergunta. Deveria dizer a verdade e falar que considerou a possibilidade, ou mentir e dizer que não tinha essa intenção.
— Talvez – Decide deixá-la no meio termo.
— É isso que me assusta – Peter declara – Rocket, você não sabe como ser um humano ainda, como os humanos crescem. E se você voltar a ser um guaxinim...
Os dois mantêm-se em silêncio por alguns instantes, até o terráqueo rompê-lo.
— Por que se colocou na frente do raio por mim? – Questiona.
Rocket termina de mastigar seus salgadinhos, antes de responder.
— Achei que fosse letal.
— E estaria disposto a morrer por mim?
— Não é óbvio? – Rola os olhos.
— Mas... Por quê?
— Sei lá. Não queria que você morresse.
— Mas queria morrer?
— Era você, ou eu, eu me escolhi.
— E qual o motivo? É isso que quero saber.
— Porque você é alguém especial pra mim – O ex-guaxinim dá uma longa golada em seu suco, antes de respirar fundo e continuar – Eu acho que faria o mesmo pelo Drax e a Gamora, e com toda certeza faria o mesmo pelo Groot. Mas era você quem estava em perigo.
— Então, não tem nenhuma diferença entre mim e eles? – Peter soa mais receoso do que gostaria. O discurso de Rocket antes deixou algumas esperanças de que tudo não foi apenas diversão na cama, e ele teme que a resposta para esta pergunta acabe com todas elas.
— Claro que tem – Rocket o olha nos olhos – Gamora e Drax são grandes companheiros e Groot é meu melhor amigo, já você... Você é a pessoa que me tira do sério, no bom sentido, me faz imaginar coisas bem... Íntimas, o tipo de coisa que eu só gostaria de fazer com você. Em outras palavras, Quill, você desperta o lado animal que ainda há dentro de mim, mas que não é um guaxinim.
— Então é tudo que você tem por mim? Desejo?
— Não – Rocket dá de ombros e suas bochechas ficam levemente rosadas – Gosto de ver você sorrir, acho doce a forma como você tenta aplacar as brigas sem magoar ninguém e com certeza não quero te ver sofrer por estar esperando o filho de alguém que você não queria.
— Rocky, eu já falei, aquilo não foi o que eu quis dizer literalmente – Quill insiste – Eu não queria ter uma família agora. Malucos invadem Xandar e o resto da Galáxia toda semana e nós temos que dar conta, mal podemos cuidar de nós mesmos, como vamos cuidar de uma criança?
— Nós não cuidamos de nós mesmos, Quill. Cuidamos um do outro, foi por isso que me atirei na frente daquele raio. Por isso, Gamora foi a primeira a cair, tentando impedir que os destroços daquele prédio me atingissem. Por isso, Drax ficou preso nos escombros para dar tempo ao Groot de sair. Quando estamos todos juntos, nenhum maluco tem chance.
— E você acha que conseguiríamos ser uma família?
— Nós já somos – Dá de ombros – A diferença é que os outros eu gosto de considerar irmãos... Você, eu gostaria de considerar algo mais.
Peter cora fortemente ao ouvir isso e recebe um sorriso desafiador de Rocket.
— E se eu aceitar? – Indaga, desafiadoramente.
— Então eu não volto a ser um guaxinim – Rocket afirma – Não sei se percebeu àquela noite, ou no decorrer das últimas semanas... Caramba, se não tiver percebido hoje, você é o ser mais lerdo dessa galáxia, mas se ainda estou nesse corpo, é por sua causa.
Peter emudece. É uma declaração e tanto para ele. As expectativas de que tudo fosse além de diversão foram atendidas, mas lhe resta saber: ele gosta de saber disso?
Tenta deixar o pensamento de lado e passa para a próxima pergunta:
— Você não se importa mesmo em ser pai, assim, de súbito?
— Eu nunca me imaginei tendo um filho – Rocket finalmente faz uma expressão séria – Mas posso me esforçar pra fazer dele uma boa criança, nunca se sabe. Se ele puxar pra você, vai passar o rodo em três quartos da galáxia. Se puxar pra mim, vai ser insuportavelmente irônico e com dedos rápidos... Quer lidar com ele sozinho?
— É, acho que não – Peter sorri.
— Então, acho que devemos fazer isso juntos, não?
Os dois se entreolham por um tempo. Rocket sabe onde isso vai acabar: suas esperanças trouxas de que possa ter um futuro com Quill vão continuar sendo alimentadas, nada vai mudar e ele irá quebrar a cara novamente. Enquanto isso, Peter tem uma perspectiva diferente: ele está dando uma chance para que o mesmo prove que vale a pena, porém, sabe que não há volta se não valer. O embrião que está dentro dele ainda não é um bebê, mas se demorar demais, não poderá fazer nada. Será tarde para desistir.
— Sim – Responde, com um sorriso incerto.
— Tudo bem – Rocket afirma, tentando não pensar muito na expressão de Quill. Precisa provar que está determinado a levar isso para frente. Fazer Peter entender quais suas intenções – Vamos começar isso levando você para comer alguma coisa que não seja esse sanduíche esquisito.
O terráqueo dá uma gargalhada e aceita quando Rocket se levanta e o oferece a mão para um aperto, antes de puxá-lo para um confortável abraço.
~
Nada muda nas semanas seguintes, quanto ao cotidiano. Rocket continua irônico, roubando peças reservas para improvisar instrumentos mecânicos, e nem todos são armas dessa vez. A única diferença é que agora ele dorme ao lado de Peter e fica alerta sempre que o mesmo acorda à noite para livrar-se dos enjoos, que já começam a diminuir. Ele também leu um bocado a respeito de gravidez e informou Peter que estes eram sintomas apenas dos primeiros meses, o que espera que seja verdade.
Em adicional, tiveram que explicar a situação a Drax, o que não foi nada fácil, já que ele não entende metáforas, logo, todo o gesto teve que ser explicado com os termos literais.
— Quill, seus enjoos estão passando para mim – Gamora diz, irritada com o fato de o terráqueo estar rodando a cozinha há mais de cinco minutos e ainda não escolheu algo para comer. Tarefa que devia ser impossível, já que Rocket e Groot reabasteceram os suprimentos pela manhã – Por que não come um doce, ou algo assim?
— Eu não quero um doce, eu estou precisando de algo azedo – Peter exclama – Não acredito que eles não trouxeram absolutamente nada azedo. Quem não traz nada azedo? Coisas azedas são fundamentais.
— Não pro Rocket e o Groot – Gamora dá de ombros, sem paciência.
— Ouvi meu nome – O ex-guaxinim aparece na porta, com Groot logo atrás.
— Eu sou Groot.
Rocket olha para a árvore aparentemente surpreso.
— O que ele disse? – Gamora inquire, constatando sua expressão.
— Pela primeira vez, ele realmente quis dizer “Eu sou Groot”, tecnicamente. Por que estavam falando de mim?
— Peter está ficando louco e me deixando louca, porque não tem nada azedo pra comer.
— São os desejos começando a aparecer – Rocket ri.
— Não tem a menor graça – Peter implica – Foi você quem reabasteceu os suprimentos e não trouxe nem uma balinha azeda que fosse, eu te odeio!
— Quer sair pra almoçar?
— Já disse que eu te amo?
Rocket sorri convencido e Gamora rola os olhos.
— Alguém mais quer ir?
— Se eu tiver que ver o Peter indeciso sobre o que quer comer por mais trinta segundos, eu dou um soco no nariz dele.
— Eu sou Groot.
— Certo, Quill, parece que somos só eu e você.
~
— Você vai ficar aqui, sem reclamações – Rocket exclama.
— Eu ainda não virei uma donzela em perigo – Peter rebate.
— Está no quinto mês de gravidez, não pode se submeter a stress ou exercícios pesados e perseguir ladrões do banco Xandariano ultrapassa o limite de peso pra um exercício.
— Obedece ele, Quill – Gamora intervém – Você não pode se meter em nenhum tipo de problema agora. Nós vamos dar conta.
— Mas...
— Não sou nenhum médico, mas preciso concordar com eles. Seu corpo se encontra em estado periclitante com relação a esforço e tribulação. Repouso é mais indicado – Drax se intromete.
— Eu sou Groot.
— Pra começar, que diabos é periclitante? – Peter indaga, irritado.
— Arriscado – Gamora define.
— Eu sou Groot.
— Já entendi – Rocket interrompe – Eu estou tentando dizer isso a ele.
— Eu sou Groot – Exclama, apontando Peter com um olhar mal-humorado.
— Não precisa falar assim com ele. Se ele te entendesse isso magoaria.
— O que ele falou?
— Deixa pra lá, Peter. Estamos perdendo tempo com essa discussão. Você vai ficar nessa nave em segurança, nem que pra isso eu precise te amarrar numa cadeira.
— Ah, é?
— Quer apostar?
Peter se arrepende de ter aceitado a aposta, pois Rocket não é o único que se digna a prendê-lo. Gamora e Drax o ajudam a trancar Quill em seu quarto até que retornem, o que gera uma tarde bem mal-humorada... Ou dez minutos mal-humorados, que são o tempo que demora até Peter cair no sono. Já é a sétima vez em que ele é cortado da ação por conta da gravidez. Nos primeiros meses, ele estava bem com isso, afinal, sentia enjoos só de sentir alguns cheiros, nem precisavam ser estranhos. Mas a cerca de um mês, Peter já não sente nada disso, então, não vê motivos para se manter na nave.
Certo, ele não sabe o que poderia acontecer em combate, mas uma simples perseguição não ofereceria riscos ao bebê.
Quando acorda, Rocket está colocando uma bandeja de comida ao lado de sua cama.
— Voltaram? – Pergunta, ainda sonolento.
— Há meia hora. Se divertiu sozinho?
— Encarcerado, você quer dizer.
— Você não nos deixou escolha.
— Deixa pra lá – Peter desdenha, se interessando agora pela comida – Você quem fez?
— Me esforcei. Espero que não te faça voltar a ter enjoos.
— Você não disse que era só nos primeiros meses?
— Gravidez não é o único motivo de enjoo.
Peter lhe dirige um olhar entediado e Rocket sorri falsamente.
~
Pelo oitavo mês, Peter se sente pesando uma tonelada. No sétimo mês, Rocket mal deixava que ele se levantasse da cama para fazer qualquer coisa. Nem mesmo sugerir sair para ir a um médico para descobrirem o sexo da criança funcionou como pretexto para viajar além, o ex-guaxinim preferiu dizer que queria uma surpresa. Foi preciso uma discussão envolvendo os cinco guardiões para que Rocket o deixasse um pouco mais livre. Se houvesse uma comadre na Milano, nem mesmo no banheiro ele poderia ir. Drax e Gamora foram os únicos a conseguir convencer Rocket de que Peter não iria passar mal por fazer uma leve caminhada e que é até bom fazer exercícios durante a gravidez.
Nas primeiras vezes, Rocket respondia com suaves “E o que vocês dois sabem? Já viram homens grávidos antes?”, mas depois se acostumou com a ideia.
Mas não é só isso que o faz sentir inchado. Ele realmente ganhou peso nos últimos meses e a falta de exercícios não ajuda. Caminhar somente não está funcionando, principalmente porque o terráqueo volta das caminhadas com vontade de comer um elefante.
— Você vai poder se exercitar normalmente após o parto, relaxa – Gamora declara, enquanto limpa uma de suas facas – Pelo menos, eu acho. Como homens fazem um parto?
— Cirurgia – Rocket responde da sala vizinha, onde faz alguma coisa com suas ferramentas. Peter se irritaria com ele por ter roubado mais peças, mas até para tal ele está com preguiça.
— Nesse caso vai demorar um pouco mais.
— Vai ter mais uma cicatriz, além daquele golpe com garfo – Drax comenta.
Gamora ri.
— Muito engraçado – Peter debocha.
— Pronto! – Rocket comemora, entrando na sala e erguendo um objeto que mais parece uma bota.
— O que é isso? – Inquire Drax.
— Estica sua perna.
Afinal de contas, talvez seja uma bota. Rocky retira o sapato e a meia de Peter e encaixa o aparelho em seu pé, corretamente. Diferente do que parece, o interior o aparelho é incrivelmente macio.
— Apertamos esse botão, e...
— Uau – Peter não consegue conter a exclamação de surpresa.
— É um aparelho de massagem para os seus pés, pra usar depois de caminhar.
— Isso é muito bom – O terráqueo fecha os olhos, enquanto se deleita na sensação – Vou te dar um tiro a menos, por esse.
— Mas ainda vão ser muitos – Gamora brinca.
~*~
Rocket não fazia questão de tirar Peter da nave, mas conforme o nono mês se aproximava, ficava cada vez mais receoso em discutir com o terráqueo. Tinha medo de acabar estressando-o, leu que stress não é bom para gestantes, então, preservar o bom-humor de Peter era ordem suprema para todos os guardiões. E assim, era quando toda tarde os dois saíam para caminhar e comer – comer muito.
A trilha encurtou nos últimos dias, mas nada impede que Peter chegue pelo menos à primeira lanchonete antes de pensar em voltar. Enquanto ele come, Rocket apenas assiste, tomando alguns goles de sua bebida. Um suco galáctico azul doce. O ex-guaxinim logo descobriu que a língua humana tem muita afinidade por bebidas açucaradas em excesso.
Seu olhar nada discreto não passou despercebido por Peter.
— O que foi? Meu rosto tá sujo? – Inquire o terráqueo, fazendo Rocket despertar de seu devaneio.
— Não. Nada. Eu só acho que você fica lindo assim.
— Assim como.
— Gordinho.
— Está me chamando de gordo? Na minha cara e indiscretamente?
— Fala sério, Quill. Não é porque está grávido que precisa agir como uma fêmea – Rocket rola seus olhos e vira o rosto, porém, o silêncio de Peter o deixa intrigado. Ele deveria estar rebatendo o mais mal educadamente possível. Quando o ex-guaxinim volta a olhá-lo, Peter está com a cabeça baixa, seus olhos marejados – Ah, Peter, não foi tão forte assim, sem drama...
— Rocket... – O tom de voz de Peter não parece magoado, parece desesperado – Acho que não vou estar grávido por muito tempo.
No início, Rocket não entende o que ele quer dizer, até perceber a aflição em seus olhos. O bebê está nascendo. Mais do que apressadamente, joga uma a quantidade de unidades necessárias para pagar a comida – mandando o troco para o raio que o parta – e se encarrega de ajudar Peter a andar enquanto as contrações ainda não começam. Na indecisão de ligar para Gamora ou Drax, escolhe o último por motivo de: maior capacidade de carregar Peter de volta à Milano.
— Espera – Peter o obriga a parar de andar e põe a mão sobre a barriga, retorcendo a expressão dolorosamente.
— Só mais um pouco, Peter, Drax já está a caminho, fica calmo.
— Pede calma porque não é você que está dando a luz!
— Tudo bem, desculpa, eu... Eu tô perdido – Rocket declara, segurando firmemente a mão de Peter.
Os dois estão à beira do desespero quando finalmente Drax chega com Gamora e transporta o terráqueo até a nave. Segundo as pesquisas de Rocket, o planeta com hospital habilitado a fazer partos de machos fica a 10 minutos apenas, mas parece uma eternidade. Gamora precisa dirigir, mas não consegue imaginar como é possível se concentrar com a confusão de Drax e Peter atrás de si. O Kree continua apenas dando conselhos inúteis e Peter exclamando o quanto eles são inúteis. No fundo, tudo que Gamora quer é gritar por onde está Rocket, mas sabe que isso não irá acalmar ninguém.
No momento em que a nave pousa no planeta de destino, Drax trata de transportar Peter em direção ao prédio, informando aos médicos sobre a emergência, Gamora tratando de corrigir as informações erradas quando o mesmo se enrola.
— O Rocket, pra onde ele foi? – Peter inquire, enquanto os paramédicos trazem uma maca para apoiá-lo.
— Não sei, Quill, temos que cuidar de você agora. Ele deve estar pesquisando alguma coisa – Gamora mente. Ela não tem ideia do que ele possa estar fazendo.
Groot, por outro lado, espera por seu amigo do lado de fora do quarto. A porta está trancada e o ex-guaxinim se recusa a abrir. Nenhum dos argumentos de Groot foram suficientes para fazê-lo sair de lá até agora.
A verdade é que Rocket está em pânico. A ideia de ter um bebê nunca pareceu tão aterrorizante quanto agora – talvez porque o bebê esteja realmente chegando. A pergunta em sua mente é simples: de onde tirou que poderia cuidar de um bebê? Há nove meses ele era apenas um guaxinim, pequeno e com a língua afiada. Tudo que mudou quando se tornou humano foi o tamanho e nada mais. Se sente um verdadeiro lixo por ter dado tanto esperanças a Peter e sequer ser capaz de estar ao lado dele no momento do parto, mas é simplesmente impossível, a cada gemido de contração que Peter dava na cabine de pilotagem fazia Rocket ter ânsia de vômito.
— Eu sou Groot— Ouve mais uma vez do lado de fora. Sabe que Groot não irá embora se ele não for também.
— Eu sei que ele já deve estar na sala de parto agora, mas o que eu posso fazer? – Inquire.
— Eu sou Groot!
— A minha presença lá não significa nada.
— Eu sou Groot!
Dessa vez, Rocket não tem como responder. Groot está certo. Para Peter, sua presença significa alguma coisa. Ele pode não ser capaz de cuidar de um filho, mas foi capaz de cuidar do terráqueo por todos esses meses. Todos os conflitos que tiveram foram insignificantes comparados ao quanto os dois se aproximaram. Peter não precisa de Rocket lá, mas ele o quer lá, e isso é o que importa.
Groot sorri largamente quando vê a porta se abrir e Rocket toma fôlego determinado.
— Vamos lá, amigão.
~
— Cadê aquele maldito cabeça de guaxinim? – Gamora inquire. Peter está sendo preparado para cirurgia, enquanto ela e Drax esperam do lado de fora. O médico se comprometeu a alertá-los quando o parto fosse iniciar, para que um deles entrasse com o gestante.
— Eu esperava que ele fosse estar aqui como demonstração de seu afeto por Quill, assim como esteve nos últimos meses – Drax comenta.
— Eu estou – Rocket afirma, surpreendendo ao Kree, mas Gamora já o tinha visto chegar – Onde ele foi?
— Procedimentos pré-cirúrgicos – Gamora explica.
— Aplicação da anestesia e substituição das roupas, ainda vou poder vê-lo, não é?
— Sim, o médico disse que assim que ele for encaminhado para a sala de cirurgia alguém virá chamar. Ele exigiu a presença de alguém.
— Com licença – Uma enfermeira os interrompe, como se estivesse ouvindo a conversa – Quem de vocês irá acompanhar... Erm... Patar Quell.
— Peter Quill – Rocket corrige – Deixaram o Drax assinar?
— Eu tive que acalmar o Peter, ele não parava de perguntar por você – Gamora rola os olhos.
— Tudo bem. Sou eu.
— Siga-me, por favor – A enfermeira comanda.
Rocket precisa de alguma coisa para distrair o pânico, algo que o faça continuar pensando que aquilo é por Peter, ele tem que estar lá. Começa a observar a enfermeira e percebe que ela não possui pés. Suas pernas terminam em duas superfícies ósseas circulares que giram, empurrando-a para frente. Não conhecia essa raça da galáxia, faz uma nota mental para pesquisar sobre ela depois.
Rocket desperta de seu doce devaneio quando a moça abre a porta da sala de cirurgia e começam a lhe entregar o equipamento de segurança individual. Seu estômago se embrulha ao ver Peter deitado no centro da sala, cercado de materiais. Sequer pergunta aos médicos se pode se aproximar antes de ir até ele e pegar em sua mão.
Peter olha para ele com os olhos quase fechados, marejados de sono.
— Ei... – Ele murmura – Você veio... Ou já estou sonhando?
— Mesmo que eu fosse o sonho mais bonito que você já teve, eu precisava estar aqui de alguma forma – Brinca o ex-guaxinim.
— Babaca – Peter murmura, antes de fechar os olhos e dormir.
— Senhor... Sabe dos riscos desta cirurgia, não sabe? – O médico inquire.
Rocket balança a cabeça afirmativamente. Queria ter sabido disso há mais tempo, mas só recentemente, quando Peter ficou mais próximo do parto, pesquisou a respeito da cirurgia. Bem, por ser híbrido, o interior de Peter não está bem organizado como um macho puro de espécie; o que deveria ser seu útero provavelmente está escondido através dos outros órgãos de seu corpo humano. Os médicos vão precisar fazer incisões arriscadas. Um erro e Peter pode perder uma alça do intestino, e mesmo que isso seja corrigível, o bebê continuará tentando sair, não há tempo para se distrair com suturas. Se o bebê chegar à sua pelve, ou seu crânio será esmagado ou ele quebrará a pelve de Peter, pois machos humanos não possuem dilatação. O fato é que, se ocorrer qualquer erro médico, Rocket pode perder Peter, seu bebê, ou os dois, e ele não acha nenhuma das opções atraente.
Os médicos mantêm foco em seu trabalho e Rocket não ousa tentar olhar. Seus olhos se enchem de lágrimas toda vez que o doutor comenta um possível erro. Enquanto estão secos, ele olha para Peter. Parece tão tranquilo, tão pacífico dessa forma. Pelo menos, se acabar ali, ele não sentiria nenhuma dor, seria tudo rápido e indolor e ele continuaria assim, descansando em paz. Talvez sonhando com a futura família que ele e Rocket seriam. Mas como Rocket viveria? A única razão de ser um humano hoje é porque queria dar sua vida por Peter. Não imaginaria sua vida sem aquele babaca nem mesmo quando ainda não tinha nada entre eles.
Hoje ele pode acabar descobrindo como é isto de verdade. Seu aperto a mão de Peter é firme, poderia até estar machucando, mas em algum lugar de sua estúpida mente humana, Rocket imagina que talvez assim ele não o abandone, quem sabe com esse gesto ele esteja segurando Peter nesse mundo, impedindo-o de partir.
Está tentando não chorar, quando percebe que alguém se antecipou em chorar por ele. Primeiro vem um soluço, e depois começa o som de choro agudo. Rocket olha em direção aos médicos e vê um deles se virar com uma coisa pequena e rosada, enrolada em uma toalha.
— Acredito que seja um macho, não vemos muitos bebês terráqueos por aqui – O médico o entrega-lhe a criança.
Rocket a pega como se fosse de vidro – e talvez vidro seja mais resistente que um bebê. É de fato um garoto, seus olhos estão fechados e sua boca está escancarada enquanto berra seu primeiro choro. O pai o aconchega em seus braços, tentando de alguma forma fazê-lo parar de chorar. Por um instante, parece que não vai funcionar, até que o garotinho respira sem mais esforço. Seus olhos se abrem lentamente e Rocket assiste em surpresa ao ver a cor de ambos. O olho direito é tão azul quanto os seus, brilhante como o céu Xandariano. O esquerdo, porém, é verde caramelado, assim como os de Peter, vibrante como uma folha de Groot. Sente vontade de rir. Essa é a prova de que a criança realmente puxou para eles dois.
— Precisamos limpá-lo. Com licença – Uma enfermeira diz gentilmente, estendendo os braços para pegar a criança.
— Vocês têm um mecanismo de limpeza para crianças terráqueas? – Rocket pergunta, apreensivo. Acabou de ouvir do médico que humanos não nascem com frequência nesse planeta.
— Temos uma pia, creio que seja o mecanismo de limpeza para 95% das raças – A enfermeira ri, mas compreende a apreensão do mesmo – A anestesia vai demorar em torno de quarenta minutos para passar. O senhor pode sair e esperar lá fora, comer algo, quem sabe – Ela sugere, enquanto acolhe o bebê. Rocket acena positivamente e deixa a sala.
...
Quando Peter acorda, Rocket está bem ali, do seu lado, ainda segurando sua mão. Seus olhos abrem-se lentamente, enquanto ele examina o local e reconhece seu companheiro, mas não consegue formular um pensamento. Ele sabe que se chama Peter e que o cara que segura sua mão é Rocket, mas ainda falta juntar algumas peças. Por que ele está ali mesmo?
— Ei, como se sente? – Inquire Rocket, pegando-o de surpresa.
— Eu... Eu tinha que me sentir como? – Pergunta, olhando em atentamente para o outro.
Rocket ri levemente.
— Suponho que bem. Um pouco cansado, talvez...
— Me sinto tonto... Nossa! Você é lindo.
— Obrigado – O ex-guaxinim entra na brincadeira, rindo da expressão que Peter fez – Você é lindo também, maravilhoso. Assim como nosso filho.
Filho? Ah, sim, filho. Peter estava grávido, então, teve que ir fazer um parto. Se está acordado é porque já acabou, mas porque não vê seu bebê?
— Onde ela foi? – Pergunta.
— Ela quem?
— Nossa filha...
— Ah... – Rocket morde um lábio – É um menino, Peter.
— Legal... – Peter sorri abobalhado – Então, nada de azul no quarto?
— Quê?
— Eu não sei – Dessa vez ele ri. Rocket beija as costas de sua mão e fica com ele até que o efeito da anestesia passe.
...
— Qual nome vão dar a ele? – Pergunta Gamora.
Assim que a anestesia passou, Peter foi levado a um quarto e autorizado a ver seu bebê. Fez uma tentativa fracassada de amamentar, mas acabou descobrindo que machos não lactam, nem mesmo se já tiverem tetas do tanto que engordaram na gravidez.
— Não sei... Meu nome é “Guaxinim Foguete”, acha que tenho experiência em dar nomes a crianças? – Inquire Rocket.
— E você, Peter? Alguma ideia?
— Ainda não sei, acho que não parei para pensar – Admite o terráqueo.
— Podemos usar Tekcor – Sugere Rocket.
— Quê? – Peter o olha com estranhamento.
— É meu nome ao contrário – Ri.
O terráqueo rola os olhos.
— Posso sugerir algum? – Gamora questiona.
— Sinta-se a vontade.
— Thanos sempre mencionava uma entidade terráquea irritante, algo como outro ser tão poderoso quanto ele. O chamava com o mesmo nome de um planeta do sistema solar.
— Júpiter? – Peter adivinha.
— Esse mesmo.
— Me soa um bom nome – Ele analisa – Mas a dúvida é, Júpiter Raccoon ou Júpiter Quill.
— Raccoon nem é meu nome de herança, Peter.
— Tudo bem, então, Júpiter Quill.
— Ficou até parecido com Peter Quill, se tirar o “Ju” – Rocket constata.
— Eu não vejo problema nenhum – Declara Peter, sorrindo ao olhar para seu bebê adormecido.
~
— Júpiter! – Peter grita, olhando em volta da sala de controle, mas tudo que vê é Rocket, sentado em uma das cadeiras, concertando uma de suas armas – Onde ele foi?
— Ele quem? – O ex-guaxinim inquire.
— O seu filho, aquele ladrãozinho de peças. O que você ensinou ele a fazer que envolve o núcleo-refrigerador da geladeira? – O de olhos verdes chega a assustar com tanta raiva nas palavras. Já se passaram seis anos e ele ainda não se acostumou em ter dois malucos furtando as peças reservas da nave.
— Eu não sei do que está falando, porque eu o ensinaria construir algo usando uma peça importante da nave? Eu uso o que é inútil – Rocket declara, rolando os olhos e voltando a trabalhar. Peter bufa e deixa a sala de controle. A cadeira do carona gira, revelando Júpiter, que segura o núcleo-refrigerador entre seus dedos ainda pequenos, mas espertos.
Rocket o cumprimenta com um sorriso orgulhoso.
— Agora, vai terminar aquela máquina de sorvete. Aquela garota deve estar ansiosa pra tomar um com você – Aconselha o pai.
— Tudo bem. A quarta peça vai no meio e preciso pregar, não parafusar.
— Esse é meu garoto.
— Então era isso? – Peter inquire, surpreendendo os dois – Roubou nosso núcleo-reator para impressionar uma garota?
Rocket e Júpiter o encaram, sem mais palavras, sob o rígido olhar sério do terráqueo.
— Por que não me falou antes? – Inquire Peter, rolando os olhos e suavizando a expressão e se aproximando de seu filho, que sorri com as bochechas coradas. O pai o ergue da cadeira e senta-se, pondo o garotinho em seu colo – Qual a raça dela?
— Uma com azul – Júpiter exclama.
— Ah, hizodita... As garotas hizoditas são muito carinhosas. Eu tenho um segredo infalível: sempre fale com elas olhando para o olho do centro. Esqueça que existem outros quatro, foque no do centro, elas veem isso como um gesto de confiança. E elogie o cabelo dela, mulheres adoram esse tipo de coisa – Afirma.
— Obrigado, papai e pai – Júpiter sorri para Rocket e desce do colo de Peter, correndo para fora da sala de controle.
Rocket olha para Peter com um sorriso admirado, mas quando o terráqueo encara de volta, o ex-guaxinim torna a trabalhar na sua arma. Peter nem precisa perguntar o motivo do sorriso, ele sabe o que acabou de fazer.
— Ah, Rocket – Suspira – Que monstrinho nós criamos?
Peter se apoia para tentar beijá-lo, enquanto Rocket gargalha. Não importa se Júpiter herdou tanto os dedos rápidos de Rocket quanto as proezas sedutoras de Peter, o que importa é que ele não é nada além do monstrinho perfeito.
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