O LEGADO DE VIDRO , Os Lâfrer

9 ​CAPÍTULO 9: Entre o Sangue e a Seda


O destino final era o deserto, onde o calor do dia dava lugar a um frio cortante durante a noite. A base avançada era um emaranhado de tendas camufladas, cercadas por arame farpado e o som constante de geradores e comunicações de rádio.

​Como eram oficiais de diferentes unidades técnicas, Thomas e Maya foram designados para barracas separadas, seguindo o protocolo rígido de campanha. Mas o anel de tungstênio no dedo de Thomas e a aliança escondida sob a luva tática de Maya queimavam com o desejo de proximidade.

​À meia-noite, a base estava em silêncio relativo, exceto pelas sentinelas nas torres. Thomas, conhecendo os pontos cegos das câmeras de segurança — um truque que aprendera com Miller — deslizou para fora de sua tenda. Ele se moveu como uma sombra até a parte traseira da unidade médica, onde Maya já o esperava, escondida atrás de uma pilha de caixas de suprimentos.

​— Você está atrasado, Tenente — ela sussurrou, a voz carregada de uma antecipação perigosa.

​— Culpe a ronda do sargento — Thomas respondeu, puxando-a para um beijo rápido. — Consegui a chave do observatório antigo, a três quilômetros daqui. É um lugar isolado, fora do perímetro de varredura.

​Eles pegaram uma motocicleta militar silenciosa e atravessaram as dunas sob a luz da lua prateada. O observatório era uma estrutura de pedra abandonada, com o teto parcialmente desmoronado, revelando um céu coalhado de estrelas que pareciam diamantes sobre veludo negro.

​Lá dentro, longe dos olhos do exército e das sombras da guerra, o tempo parou.

​Thomas retirou a farda pesada, revelando o corpo marcado pelo treinamento e pelas cicatrizes recentes da luta com Eric. Maya, por sua vez, sentou-se em um banco de pedra. Ela começou a soltar as travas do seu colete tático. Com um movimento lento, ela desconectou os sensores de interface do seu braço mecânico, deixando o titânio exposto.

​— Você não precisa tirar o braço, Maya — Thomas disse, aproximando-se e ajoelhando-se entre as pernas dela. — Ele faz parte de quem você é agora. E eu amo cada centímetro de quem você se tornou.

​Thomas começou a beijar o ombro dela, exatamente onde a carne encontrava o metal. Maya fechou os olhos, soltando um suspiro trêmulo. Pela primeira vez, o braço mecânico não era uma arma ou um fardo; era apenas parte de um corpo que ansiava por toque.

​Quando as roupas foram deixadas de lado, o contraste era poético: a pele quente e macia de Maya contra o aço frio e preciso da prótese, tudo sob o calor das mãos de Thomas. Ele a conduziu para cima de uma manta militar estendida sobre a areia limpa do observatório.

​O consumo do casamento foi uma batalha de sentidos. Não houve o sarcasmo habitual, nem o deboche que usavam como escudo. Houve apenas a urgência de dois soldados que sabiam que o amanhã era incerto. Maya usou sua mão de carne para puxar Thomas para perto, enquanto sua mão de metal repousava suavemente nas costas dele, sentindo cada batida do coração do marido.

​Naquele momento, as cicatrizes de Maya não eram feias, e o nariz quebrado de Thomas não doía. Eles eram uma unidade perfeita de biologia e tecnologia, unidos por um juramento que ia além das ordens do exército.

​— Se não voltarmos... — Maya sussurrou entre beijos, a voz rouca.

​— Nós vamos voltar — Thomas interrompeu, olhando fixamente nos olhos cinzas dela. — Porque eu me recuso a deixar este mundo sem irritar você por pelo menos mais cinquenta anos.

​Eles se entregaram um ao outro com a fúria de quem enfrenta o fim do mundo e a ternura de quem acaba de descobrir o paraíso. Sob as estrelas do deserto, o Legado de Vidro se tornou inquebrável.

​Antes do amanhecer, eles voltaram para a base, entrando sorrateiramente em suas respectivas tendas. Thomas deitou-se com o cheiro dela ainda na pele, enquanto Maya olhava para o braço mecânico, sentindo que, pela primeira vez, ele não era feito apenas de titânio, mas da memória das mãos de Thomas.

​A paz, porém, durou pouco. Às 06:00, o alarme de emergência da base ecoou.

​— TODAS AS UNIDADES, POSIÇÃO DE COMBATE! O INIMIGO ESTÁ NAS PORTAS!