O LEGADO DE VIDRO , Os Lâfrer

1 ​CAPÍTULO 1: O Som do Silêncio



​Thomas Lâfrer nunca gostou do silêncio absoluto. Na base militar, o silêncio era presságio de emboscada. Na fundação de seus pais, o silêncio significava que alguém estava sofrendo sozinho.

​Ele caminhava pelos jardins da Fundação Lâfrer, a farda de Tenente ainda impecável, embora estivesse em seu período de folga. Ele não estava ali como oficial, mas como o filho que herdara a empatia da mãe e a resiliência do pai.

​— Ela ainda não saiu do quarto? — Thomas perguntou a uma das enfermeiras assistentes.

​— Não, Tenente. A Sargento Maya está na Unidade 4 há duas semanas. Ela não fala, mal come e quebrou o último espelho que colocamos lá. Os traumas físicos da explosão estão cicatrizando, mas a mente... — a enfermeira suspirou. — Ela é como um deserto, Thomas. Nada cresce ali.

​Thomas pegou a bandeja de café e começou a caminhar em direção à ala mais isolada. Ele conhecia aquela história. Ele cresceu ouvindo como seu pai era um "monstro de mau humor" antes de Hadassa aparecer.

​Ao abrir a porta do quarto 104, o cheiro de antisséptico e sombra o atingiu. Maya estava sentada no chão, no canto mais escuro, de costas para a porta. Ela era jovem, mas seus ombros carregavam o peso de um mundo desabado. No braço esquerdo, uma prótese mecânica de última geração brilhava sob a luz frestada da janela.

​— Sabe, no manual de campo, dizem que a sentinela deve sempre encarar a porta — Thomas disse, a voz calma, mas com aquele toque de ironia que herdara da mãe. — Você seria uma péssima sentinela hoje, Sargento.

​Maya não se moveu. Sua voz veio como um sussurro seco:

— Saia daqui, Lâfrer. Eu conheço o seu sobrenome. Você é o filho dos "santos" que salvam soldados quebrados. Mas eu não sou um projeto de caridade. Eu sou apenas sucata.

​Thomas deu um passo à frente, sentando-se no chão, a uma distância respeitosa, mas sem pedir permissão. Ele colocou a xícara de café no piso de madeira.

​— Meu pai também se chamava de sucata — Thomas retrucou, observando o perfil rígido dela. — Minha mãe o chamava de idiota. Eu prefiro o termo "em manutenção".

​— Eu perdi o meu pelotão, Tenente — ela finalmente virou o rosto.

​A cicatriz que cortava seu supercílio e descia pela bochecha era profunda, mas o que realmente chamou a atenção de Thomas foram os olhos dela: eram cinzas, como fumaça após o fogo.

​— Eu perdi tudo. Não sobrou nada para consertar.

​Thomas olhou para a própria mão e depois para a dela.

— Minha mãe diz que as cicatrizes são apenas o mapa de onde a gente sobreviveu. Se você está aqui, Maya, é porque a guerra ainda não terminou de lutar com você. E eu não costumo deixar um soldado para trás. Mesmo que esse soldado queira me dar um soco com essa mão de metal.

​Maya o encarou, a primeira faísca de algo — raiva ou curiosidade — surgindo em seu olhar.

— Você é tão irritante quanto dizem nos relatórios, não é?

​Thomas sorriu, o mesmo sorriso torto que Richard usava para desarmar Hadassa.

— É o meu maior talento. Agora, beba o café. Ou eu vou ser obrigado a recitar o manual de ética médica da minha mãe até você implorar por misericórdia.

​Maya hesitou, mas estendeu a mão mecânica, cujos dedos se moveram com um som sutil de engrenagens, e pegou a xícara. O gelo do quarto parecia ter diminuído um milímetro.