O Líder Da Máfia
31 Eu preciso de você
Notas iniciais
Já faz mais de duas semanas que fui resgatada daquela cela, e nesse tempo, algumas coisas mudaram.
Infelizmente, ainda não consigo dormir de verdade durante a noite, mas já suporto ficar com a luz apagada e Alecssander já voltou a dormir em seu próprio quarto. O que mudou também é que ele já não tenta mais me tocar. No início, ele tentava, as vezes propositalmente e as vezes por força do hábito, mas agora, já faz dias que ele nem encosta em mim. Quando estamos perto um do outro, ele mesmo faz questão de manter um certo espaço.
Já na faculdade, nada parecia ter mudado. Amber voltou a implicar comigo, mas dessa vez com coisas mais leves. Meus amigos e eu passamos o intervalo conversando sobre coisas idiotas, e o relacionamento de Oliver e Rosalya anda muito bem, tirando o fato de que Oliver ainda não sabe sobre a máfia.
— Bom dia. — disse Alecssander quando entrou na cozinha. — Não vai para a faculdade hoje ?
— Hoje é sábado. — respondi.
— Ah... Verdade. Nem percebi o quanto essa semana passou rápido. — ele disse enquanto tomava um copo de água.
— Conseguiu algo com as investigações ?
Ele suspirou.
— Nada.
Ficamos algum tempo em silêncio.
— Alecssander — comecei, dando alguns passos para perto dele. — Acho que precisamos conv-
— Bom, preciso ir. — ele disse enquanto se afastava, sem me dar chance de terminar. — Mesmo no sábado tenho algumas coisas a resolver na máfia. Te vejo a noite.
— Espere ! — ele já estava quase saindo quando gritei. — Por que está sendo tão frio comigo nos últimos dias ?
— Não est-
— Sim, você está. — o interrompi.
Ele continuou de costas para mim, sem dizer nada durante um bom tempo.
— Preciso ir. — murmurou.
— Jante comigo esta noite. — falei rapidamente antes que ele pudesse sair. — Naquele restaurante que jantamos pela primeira vez. Eu faço as reservas e-
— Sinto muito, não posso. — ele me interrompeu.
— Alecssander... Por favor.
Ele ficou em silêncio antes de suspirar.
— Está bem. — disse. — Mas não estou prometendo nada. Só irei se tiver tempo.
— Já é alguma coisa. Farei as reservas para as vinte horas.
Ele assentiu antes de sair e me deixar sozinha naquele imenso apartamento.
[...]
Como eu disse, fiz as reservas no restaurante, e quando era perto das vinte horas eu já estava pronta, prestes a pegar o táxi. Eu estava vestindo um vestido tubinho preto que ia até o joelho de mangas que caiam no ombro; um salto alto de tira; uma bolsa Chanel; acessórios em prata e uma peruca de cabelo castanho. Fiz uma maquiagem leve e passei um batom vermelho.
Peguei o táxi e ele me levou novamente ao restaurante de paredes e teto de vidro. Logo na entrada, o recepcionista já veio falar comigo.
— Eu tenho uma reserva para dois em nome de James Fairchild. — falei, séria. Mesmo estando de noite, precisei usar óculos escuros para não ser reconhecida. Se me lembro bem, a primeira vez que viemos aqui acabou com vários policiais entrando por todos os lados e Alecssander baleado.
O recepcionista me conduziu até a mesa mais afastada com uma ótima vista para a rua. Assim que me sentei, peguei o celular e vi que era exatamente vinte horas. Dei um longo suspiro. Agora era só esperar.
[…]
— Com licença, senhorita, desculpe o incômodo, mas se não for pedir nada, terei que liberar a mesa. Tem muita gente aguardando. — disse o mesmo recepcionista de mais cedo.
— Por favor, deixe-me ficar mais um pouco. Ele vai vir. — pedi.
Meio a contra gosto, ele assentiu.
— Tudo bem. Mas só posso deixá-la ficar por mais alguns minutos, se passar disso a senhorita vai ter que sair.
Eu assenti e ele se retirou. Já fazia mais de duas horas que eu estava esperando Alecssander, e nada. A cada vez que a porta se abria, eu olhava até a entrada com esperança, mas nunca era ele. Para ser sincera, não sei nem porque tive esperança; ele mesmo disse que só viria se pudesse, e pelo visto, não pôde.
Derrotada, me levantei e fui até o caixa pagar pelo copo de água que pedi e em seguida, fui embora, desistindo de esperar. Ao chegar no apartamento, retirei os saltos e os ataquei em algum lugar, depois me joguei no sofá. Aproveitando que Alecssander não estava, dei um grito ensurdecedor para tentar amenizar a raiva e a frustração. Eu me sentia humilhada por ter ficado plantada naquele lugar por duas horas. Ele poderia ter simplesmente me ligado ou mandado uma simples mensagem avisando que não poderia ir, mas não fez nada disso.
Depois de alguns minutos, me recompus e me sentei no sofá, decidida de que esperaria Alecssander chegar para termos uma conversa.
[...]
Eu já estava super entediada quando ouvi o barulho de chaves e da porta de entrada sendo aberta. Alecssander entrou logo em seguida, acendendo as luzes e dando um pulo ao me ver parada no sofá como uma estátua.
— Darella, o que você está fazendo aqui, sozinha, no escuro ? Está tarde, por que ainda não foi dormir ? E por que está toda arrumad... Ah... Merda. — ele massageou as têmporas. — O jantar. Desculpa, não pude ir.
— Eu sei. Percebi isso quando fiquei te esperando por duas horas e você não apareceu, nem mandou mensagem.
Ele suspirou.
— Estava ocupado.
— Eu já imaginava. — falei com uma voz seca me levantando e me aproximando lentamente dele.
— Estou cansado, vou dormir. — ele disse se virando de costas.
— É claro que vai, ultimamente você sempre está ocupado ou cansado e nunca pode tirar cinco minutos para falar comigo !
Ele ficou em silêncio e continuou andando.
— Ah, vai me ignorar agora ? — aumentei a voz. — Claro que sim, é o que você está fazendo desde a semana passada.
Ele continuou em silêncio
— PORRA ALECSSANDER ! — gritei, sentindo minha visão ficar embaçada e a voz chorosa. Merda. Não era pra isso acontecer. — Seu... Babaca. Por que não me diz qual o problema ? Por que não me diz o que eu fiz ? — ele estava parado ao pé da escada, mas ainda em silêncio. — POR QUE NÃO ME RESPONDE ?
Ele bufou e finalmente se virou de frente para mim, vindo em minha direção.
— VOCÊ QUER SABER QUAL O PROBLEMA ? TUDO BEM DARELLA, EU VOU TE DIZER. — esbravejou. — O problema é que você não suporta nem que eu toque em você, e eu respeitei isso porque você foi estuprada, porra ! Mas quando eu fui te levar na faculdade na semana passada, você não ligou quando aquele idiota do Oliver te abraçou ! Então me diz você, Darella, qual o problema ?
Desviei o olhar.
— Com você é diferente.
— O que é diferente ? — ele perguntou e eu fiquei em silêncio. — POR QUE NÃO ME RESPONDE ?
Engoli em seco e estremeci. Ele me encurralou; eu não sabia o que responder. Já consegui me acostumar com os abraços surpresa de Oliver, fico feliz em dizer que nem me sinto incomodada com ele por perto, mas com Alecssander... É diferente. Um diferente que eu não sei como explicar.
Felizmente, alguém tocou a campainha do apartamento, interrompendo nossa conversa e me dando mais tempo para arrumar alguma resposta.
Alecssander foi atender a porta e eu fui atrás, vendo os agentes Thompson e Collins parados à nossa frente com expressões nada boas.
— O que foi ? — Alecssander perguntou com a voz seca.
— Chefe, Darella. — Collins cumprimentou. — Viemos trazer uma notícia... — ele suspirou. — Triste.
— Que é ? — Alecssander arqueou uma sobrancelha. Eles se entreolharam. — Falem de uma vez.
Thompson suspirou e deu um passo à frente.
— É melhor falarmos logo. — ele disse para Collins que assentiu. Thompson olhou para Alecssander. — Sentimos muito senhor, mas a agente Grace Pines foi encontrada morta perto da interestadual no norte. Pelo que vimos, pareceu um acidente de carro, mas acreditamos que tenha sido proposital, causado pelos mesmos que invadiram seu apartamento e capturaram Darella.
Alecssander parecia sem chão. Ele estava com uma expressão vazia e perdida, e completamente sem reação, a não ser pelas juntas de seus dedos que já estavam brancas de tanto que ele apertava a maçaneta da porta, porém, Collins e Thompson aguardavam uma resposta. Sabendo que Alecssander não faria nada, dei um passo à frente.
— Obrigada por nos dar essa informação. Continuem as investigações para encontrar quem quer que tenha feito isso e providenciem um funeral adequado o mais rápido possível para a agente Pines. — falei.
Eles assentiram e se retiraram, e com isso eu fechei a porta. Alecssander ainda estava estático, e depois de alguns segundos em silêncio ele me encarou.
— Eu... Eu vou para o meu quarto. — murmurou e não esperou que eu respondesse e já saiu.
Suspirei. Eu não era tão próxima de Grace, mas me sentia triste, imagina Alecssander que conhecia ela a vários anos. Deve estar arrasado.
Já estava tarde, então subi para meu quarto, troquei de roupa e fui me deitar, mesmo sabendo que não conseguiria dormir.
[...]
De madrugada, ouvi alguns ruídos pelo apartamento e, como eu estava sem sono, decidi verificar.
Os ruídos vinham do quarto de Alecssander. A porta estava entreaberta e por isso, a empurrei lentamente, encontrando Alecssander sentado no chão com as costas encostada na beira da cama, as mãos juntas com os braços apoiados nos joelhos dobrados e a cabeça baixa.
Comecei a me aproximar devagar até ficar em sua frente, e quando ele percebeu minha presença, levantou a cabeça, e eu não pude evitar de ficar com uma expressão surpresa. Ele estava... Chorando. Alecssander, o grande líder da maior máfia da América, estava chorando igual uma criança.
— Ela morreu, Darella... — ele murmurou com a voz chorosa, voltando a encarar o chão.
Me ajoelhei no chão para ficar da sua altura, mas não disse nada. Eu não sabia o que dizer, e ele continuava chorando sem parar.
— A última coisa que eu disse pra ela... — ele começou de repente. — Foi que eu não queria mais vê-la. A culpa foi minha, Darella. De novo.
Completamente sem pensar, segurei seu rosto com as duas mãos e levantei delicadamente para que ele olhasse em meus olhos.
— A culpa não é sua, Alec. — falei, limpando suas lágrimas com os dedões. — Meu Deus, você ama dizer que a culpa é sua, não é ? — soltei uma risada baixa. — Mas não é. Pelo menos, não dessa vez. Então para de se culpar. Pessoas vem e vão, e infelizmente não podemos segurá-las pra sempre.
— Então o que devemos fazer ? — ele perguntou.
Pensei um pouco antes de respondê-lo.
— Amá-las. — dei de ombros.
Ele parou de me encarar e olhou para baixo, parecia estar pensando sobre o que eu disse.
— Amar Grace não vai fazê-la voltar à vida. — ele disse retirando minhas mãos do seu rosto.
— Chorar também não.
Ele ficou algum tempo em silêncio.
— Eu não tenho mais nada. Estou perdendo tudo, todos estão se afastando e eu estou sendo um completo fracasso como líder da máfia. — ele passou a mão pelos cabelos.
— Isso não é verdade. — falei, o que fez ele me encarar. — Você ainda tem a mim.
Ele desviou o olhar.
— Acho que também estou te perdendo. — ele murmurou.
Ele ficou algum tempo em silêncio até voltar a chorar feito uma criança. Eu não sabia mais o que dizer, estão simplesmente passei os braços ao redor do seu pescoço e o abracei. Ele ficou sem reação e demorou para corresponder, passando os braços ao redor da minha cintura e me apertando fortemente contra si enquanto deitava a cabeça no meu ombro. Ele continuou chorando por mais algum tempo até se acalmar e ficarmos em completo silêncio.
— Darella... — sussurrou.
— Hum ?
— Eu estou te tocando...
— Eu sei.
— Você não se sente incomodada ?
Me afastei para que pudesse olhar em seu olhos.
— Nem um pouco. — dei um sorriso fraco. Segurei seu rosto com ambas as mãos novamente e fiz um carinho com os polegares em suas bochechas.
— Mas... Mas você...
Suspirei.
— Eu não sei a diferença entre você e Oliver, porque eu não ligo que Oliver me toque. Mas você... É diferente. Diferente porque tudo com você é mais intenso. — desviei o olhar. — E, ao contrário de Oliver, eu preciso do seu toque. Preciso de você. E quando não tive, senti falta. Mas tive medo que me tocasse porque eu estava com nojo de homens, e não queria que a sensação que sinto quando você me toca se tornasse algo ruim. Então me desculpa... Por favor, me desculpa.
— Darella... — Alecssander murmurou, me fazendo encará-lo.
Ele não sabia mais o que dizer, assim como eu, então ficamos apenas olhando nos olhos um do outro. No escuro, os olhos de Alecssander pareciam pretos, mas continuava os mesmo olhos que sempre amei.
De repente, ele começou a aproximar seu rosto do meu, e eu já sabia quais eram suas intenções, mas não tentei impedir, pois eu queria aquilo tanto quanto ele. Quando nossas bocas se selaram, foi como se acendesse uma fogueira dentro de mim, junto de várias borboletas dançando em meu estômago. O beijo não foi nada além de um selinho demorado, mas foi o suficiente para me deixar tonta e com um formigamento gostoso nos lábios, que ansiavam por mais. Quendo nos separamos, Alecssander voltou a me abraçar com força.

Ficamos algum tempo assim até ele se levantar e me puxar para deitar junto dele na cama. Depois de nos cobrir, ele se deitou no travesseiro e passou o braço por cima do meu ombro, me abraçando de lado, enquanto eu deitava a cabeça em seu peito.
— Senti tanta a sua falta... — sussurrei, agora abraçando sua cintura.
— Eu também senti a sua... — ele sussurrou apoiando o queixo na minha cabeça enquanto passava a mão em meus cabelos. — Demais.
Fale com o autor