O Julgamento
1 O Julgamento
Notas iniciais
A sexta-feira tão esperada amanheceu chuvosa e sem energia, parecia que o mundo estava conspirando contra ele logo cedo. Agora a casa, insuportavelmente barulhenta até alguns meses atrás, estava tão silenciosa que chegava a assustar. Marcos, um homem alto de meia idade, com os cabelos já grisalhos, levantou-se da cama e se encaminhou para o banheiro a fim de fazer sua higiene pessoal. Após vestiu um terno descendo pronto para a cozinha onde tomou um café preto sem açúcar e comeu algumas bolachas.
Depois do café, procurou a chave de sua caminhonete e a pegou, ao tempo que esperava ansioso a luz voltar, que não tardou a acontecer, então se pôs a dirigir sua Ranger preta até o tribunal onde tentaria um acordo com sua ex-esposa para ver quem ficaria com a guarda de Felipe.
Ao chegar à rua pretendida, estacionou a caminhonete o mais próximo que conseguiu da judicatura e correu em direção a mesma, a fim de tentar evitar o máximo que podia permanecer na chuva.
Entrou no estabelecimento fazendo barulho, chamando a atenção de todos que ali estavam para si inclusive de sua ex-esposa, Juliana, uma mulher loira de olhos escuros, tinha 1.70m de altura, era muito bonita e interessada no trabalho, e, pelo simples motivo de ser tão interessada em seu emprego, não dava mais atenção para seus familiares, quando dava era por poucos minutos, mas este não era o real motivo da separação.
Marcos caminhou até a cadeira ao lado em que seu advogado estava sentado.
– Está atrasado! – Cochichou Antônio, advogado de Marcos.
– Caiu à luz lá em casa, por isso demorei. – Respondeu no mesmo tom de voz.
– A sessão já está para começar. – Continuou sem dar muita importância para o que Marcos havia dito.
– São 9 horas e 25 minutos do dia 06 de outubro de 2014. Declaro aberta a sessão!- Disse o oficial de justiça, um homem que aparentava ter mais de 50 anos e uma longa caminhada nos tribunais.
Não tardou para que os advogados começassem a falar, cada um tentando defender sua causa com perseverança, mas o grisalho sabia que a demanda não estava ganha, porém era apenas uma questão de tempo para que a juíza lhe desse a guarda de seu filho, mesmo ele tendo traído sua ex-esposa com sua, agora, atual namorada.
– Senhora Presidente que preside a essa instrução de julgamento e júri, senhoras e senhores jurados, meus pares. –Disse Wilson já em pé, advogado de Juliana. – Uma mulher de família, que trabalhava todos os dias para sustentar a mesma é envergonhada pelo mesmo homem que se dizia seu marido, um homem que jurou perante Deus que seria fiel, amaria e respeitaria Juliana todos os dias de sua vida, coisa que não o fez. – Comentava o defensor indignado. – E agora, além de quebrar um contrato, quer lhe tomar seu filho, fruto de seu ventre. Um ultraje, uma pessoa que não consegue honrar um contrato e uma promessa feita a Deus, não se pode esperar muito em relação aos cuidados de um filho.
Assim que o Dr. Wilson terminou sua defesa e sentou-se, um murmuro se fez na plateia.
– Silêncio no tribunal – Clamou a juíza. – ART. 476 § 3o Finda a acusação, terá a palavra à defesa.
– Excelentíssima Senhora Juíza que preside essa seção de instrução e júri, senhores e senhoras jurados, meus cumprimentos. – Cumprimentou Antônio em pé. – Trago hoje um exemplo vivenciado em nosso dia a dia, senhora juíza, quando eu coloco uma moeda em uma máquina de refrigerantes, o refrigerante que sai é meu ou da máquina? – Comenta dando risada.
Ouvem-se risadas em todo o tribunal.
– Silêncio no tribunal! – Bradou juíza.
– Protesto, Meritíssima. – Interrompeu Wilson. – Ele esta difamando a imagem da minha cliente.
– Protesto aceito. Dr. Antônio limite-se aos argumentos e, por favor, sem exemplos esdrúxulos do nosso dia-a-dia. – Respondeu a Juíza.
– Desculpe-me vossa excelência, não voltara a acontecer. – Lamentou-se. – Bem, como eu ia dizendo, meu cliente tem mais condições de ficar com o filho, pois mesmo este ter solicitado a separação, foi por um motivo, se me permita dizer, obvio, já que a cliente do Dr. Wilson não é uma mãe presente, todavia, que ela dava mais preferencia ao trabalho do que a própria família.
As acusações se prolongaram por mais algum tempo, até que a juíza presidente apresentou a sentença.
– Declaro guarda compartilhada, onde o pai ficara com a criança nos dias de semana e a mãe nos fins de semana e feriados, dito isso, declaro encerrada a sessão. – Disse por fim a juíza.
Levantou aliviado, encarando seu advogado e sorrindo grato. A decisão havia sido sábia, afinal, era o mais apto para cuidar de Felipe. Saiu da sala, contente por poder ficar com seu filho, apesar de não ter ficado com a guarda total. Ainda assim poderia ficar por muito mais tempo com ele.
Afinal, os rumores eram de que as mães tinham mais chances de conquistar a guarda do que os pais. E ali estava ele, um pai, e mesmo assim havia conseguido ganhar aquela causa. Quando alcançou as ruas da cidade pode enfim sorrir com alegria, o céu estava limpo, a chuva havia cessado, e tudo parecia se encaixar. Respirou fundo e disse sorrindo: – Eu consegui!
Fale com o autor