O Jogo dos Deuses: A Casa da Esperança

6 Yasmim: A mulher com cobras na cabeça


Olá! Eu sou Yasmim Hudgens, filha de Poseidon, o deus dos mares.

Antes de sairmos do castelo de Circe, nós procuramos pela cozinha e pegamos tudo o que tinha até não caber mais nas mochilas.

Seguimos o caminho que Dexter nos mostrava para a saída. Era estranho ter um tigre no lugar de um cachorro, mas o felino sabia farejar.

Subimos o caminho de terra que outrora havíamos descido e que levava ao riacho e olhamos para o castelo morro abaixo. Continuamos andando em sentido contrario do rio, para o leste.

– O que significa aquilo que Circe disse sobre os doze semideuses? – perguntou Emilly.

Jane suspirou antes de começar a responder.

– Alguns interpretam como o Jogo dos Deuses. A profecia de meu pai menciona um deus traidor. Delfos disse que inimigos retornariam quando os deuses estivessem vulneráveis.

– Como agora? – perguntou Ana

Jane assentiu e bebeu um pouco d'água.

– Huracán e Atena tiveram a maravilhosa ideia de convocar doze semideuses para que pudessem ajudar. O conselho do Olimpo se reuniu no último solstício para tratar do assunto. Todos os doze olimpianos concordaram com o plano, então Huracán e Atena escolheram seis semideuses cada. Como já sabem, vocês são as escolhidas de Huracán.

– E onde estão os outros seis? – perguntou Kayanne, enquanto saboreava uma maça verde.

– Provavelmente ainda estão sendo observados por Atena, ou já foram recrutados por Hebe, a deusa da juventude.

– Então em breve nós iremos nos encontrar certo? – perguntou Larissa.

Jane assentiu.

– Não sei dizer quando, mas sim, é necessário que isto aconteça. Vocês precisam estar todos juntos.

Não sei se eu me sentia bem ou mal com tudo isso, mas uma coisa era certa, aquilo iria acontecer mais cedo ou mais tarde.

Horas haviam se passado e nós ainda caminhávamos abaixo do sol. Dexter era o único que estava animado.

O campo sobre o qual andávamos era muito extenso. Um pouco mais a frente eu pude ver a imagem de uma pessoa tremeluzir.

– Vocês estão vendo? – perguntei as outras.

– O que? – perguntou Ana.

Aparentemente eu era a única a ver tal imagem.

O homem usava uma camiseta quadriculada de cor azul e uma bermuda. Em sua mão direita ele segurava um tridente de ferro. Ele cheirava a oceano.

Poseidon estava a minha frente sorrindo, mas nenhuma das meninas o estava vendo. Dexter passou a andar ao meu lado, o que me deixou um pouco apavorada.

– Ele quer falar com você. – disse-me Jane.

– Como você...

– Estou sentindo cheiro de mar. – respondeu ela – E creio que não tenha um oceano por perto.

As garotas olharam sem entender o que estava ocorrendo.

Segui em frente com Dexter ao meu lado. Parei em frente ao deus dos mares.

– Filha – começou ele – Não tenho muito tempo então escute. A caverna possui armadilhas ocultas, uma delas é mortal. Leve a filha de Hefesto e sua irmã para ajudar. Ninguém mais. Vocês ouvirão isto novamente, mas tome isto e o mantenha consigo.

Poseidon me entregou uma concha lilás. Sua imagem tremeluziu novamente e ele desapareceu.

– O que houve? – perguntou Larissa quando regressei ao grupo.

– Poseidon me entregou esta concha e disse para Ysla e Ana me ajudarem na caverna. – respondi.

Jane arregalou os olhos.

– Você sabe de alguma coisa? – perguntou Ysla a ela.

– Só existe uma caverna nesta região, um bunker aonde Hefesto trabalhava em projetos sigilosos.

– Meu pai está lá? – perguntou Ana.

Jane balançou a cabeça negativamente.

– Ele fechou o bunker há muito tempo.

– Por que não podemos ir também? – perguntou Emilly.

– Porque elas precisam provar quem são para merecer as armas. — respondeu Kayanne – Assim como nós fizemos.

– Exatamente. – disse Jane – A caverna fica logo à frente.

Na entrada da caverna, que ficava na base de uma colina, alguém nos esperava. Um homem musculoso com o cabelo em corte militar. Seus olhos tinham a cor de sangue e ele vestia um traje grego de guerra. Sua pele era morena.

– Achei que não durariam, mas ai estão vocês.

Ares começou a bater palmas e logo fez uma espada de pedra surgir cravada no chão.

– Você esqueceu isso no castelo de Circe filha de Hades.

Emilly pegou a espada inquebrável e a prendeu no cinto de seu jeans.

– Hum, obrigada.

– Tranquilo. – respondeu Ares – Não vou ficar enrolando e explicando o que devem fazer. Apenas entrem e peguem o que precisam. Você, você e você de rostinho bonito. – disse ele apontando para Ana, Ysla e para mim respectivamente – Vão em frente. Voltarei quando terminarem.

Ares desapareceu.

– Prazer em conhecê-lo também. – reclamou Ysla.

– Seja o que tiver lá dentro, vocês terão que enfrentar. Boa sorte. – Nos disse Jane.

A parte inicial da caverna era uma decida. As estalactites aumentaram o meu medo. E se elas começassem a cair de repente? Tentei espantar tal pensamento de minha mente.

Havia um pequeno rio no fundo da caverna, eu podia senti-lo, mas um cheiro diferente me incomodava, e eu não sabia o que era.

Ana andava a frente e Ysla ao meu lado.

Não sei como Hefesto poderia ter trabalhado naquele lugar estranho e vazio, mas alguma coisa me dizia que deveria manter esta aparência, de vazio. Hefesto trabalhava sigilosamente naquele lugar, talvez por isso parecesse vazio, para que xeretas como semideuses ou monstros não roubassem seus artefatos mágicos.

Chegamos ao fundo da caverna onde tinha uma estátua de Hefesto feito de bronze, que tinha posse de três armas que pareciam ser de verdade. Um martelo de bronze e cabo de couro em sua mão direita; uma espada envolta por uma fraca névoa de tom azul na bainha do cinto da estátua; e um arco na mão esquerda com uma aljava presa às costas.

A sua volta havia outras estátuas, mas estas tinham expressões assustadoramente horríveis, como se estivessem na presença de alguma criatura horripilante.

Um pensamente infeliz invadiu minha mente novamente, desta vez foi por causa ter eu ter ouvido algo como sibilos de cobra.

Involuntariamente juntei os pedaços: uma caverna cheia de estátuas horrorosas, o aviso que meu pai me dera e os sons de cobra que eu ouvira. Tudo indicava que a famosa górgona Medusa estava prestes a nos matar.

Pensei desesperadamente em fugir ou gritar. Não consegui fazer nenhuma das opções.

Ela estava atrás de nós e não poderíamos nos virar para enfrentá-la, caso contrário nós sofreríamos com o mesmo destino das estátuas ao nosso redor.

Pense Yasmim, deve ter uma maneira.

– Filha de Poseidon! Esperei ansiosamente por você, e vejo que trouxe amigas.

Legal, ela já estava a minha espera e duvido que ela oferecesse para brincar de casinha ou tomar um chá enquanto reclamava de sua vida de górgona.

Podíamos ver a sombra de Medusa com seus cabelos se mexendo para todos os ângulos, mas não eram cabelos e sim cobras, que pareciam famintas à espera de três semideusas para jantar.

Se eu tivesse uma espada eu poderia tê-la matado naquele instante, mas tudo o que fiz foi virar de frente para ela.

Burrice? Talvez sim se eu não tivesse fechado meus olhos. A tentação de abri-los era enorme.

– Deixe-me ver seus lindos olhos filha de Poseidon.

Era uma ideia louca, que parecia estar funcionando.

Eu me ofereci em silêncio como isca, e as meninas começaram a se afastar sem que Medusa percebesse. Toda a sua atenção estava voltada a mim. Ysla pegou a concha que meu pai me dera.

– Chegue mais perto para apreciá-los melhor. – eu disse à górgona.

Ysla assoprou a concha como uma trombeta. A caverna inundou até não haver nenhum espaço para respirar, mas por ser filha do deus do mar, eu consegui respirar sem problemas.

Medusa desmaiara antes de eu abrir meus olhos. Então tentei controlar o volume de água e reduzi-la ao pequeno rio. Sucesso.

Ela se afogara, mas inda parecia viva.

– Eu tive uma ideia. – disse Ana depois de recuperar o fôlego.

Ysla devolveu a concha a mim e Ana começou a trabalhar com as estátuas que tinham quebrado devido à inundação.

– Yasmim, você pode congelar a água nesta cabeça?

Ela construíra um espelho a partir dos restos das estatuas e o gelo daria o toque final, o reflexo. Será que funcionaria virar o feitiço contra a feiticeira?

– Acho que sim.

Ana encheu o crânio com água do rio e eu me concentrei para fazê-la congelar. Mais um sucesso.

Ysla não parecia bem.

Ana colocou quatro pedaços de pernas em volta de Medusa como apoios para o "espelho". Tínhamos esperança de que o plano desse certo.

Eu controlei a água para fora dos pulmões de Medusa e ela acordou num sobressalto quebrando o espelho.

Eu e Ana fechamos os olhos.

Medusa gritara e em seguida só ouvi silêncio. Será que tínhamos morrido de uma forma misteriosa?

– Podem abrir os olhos. – disse Ysla abafando um riso.

Nós abrimos os olhos novamente e Medusa havia desaparecido.

Ysla segurava um arco que brilhava em um tom que variava de amarelo para vermelho.

– Achei que estivesse passando mal. – retrucou Ana.

Ysla sorriu.

– Então meu plano funcionou o que fez Medusa ir atrás de vocês.

– Muito engraçado Ysla. – reclamei. Ela realmente achara a situação engraçada – Seu sendo de humor é estranho.

A estátua de Hefesto jazia espatifada no chão como as outras.

Ysla pegara sua aljava, eu minha espada com a bainha e Ana pegou seu martelo e o prendeu no cinto.

Saímos vitoriosas da caverna quando Ares apareceu para nos parabenizar ou quase isso.

– Parabéns semideusas. Gostei de sua atitude Raio de Sol. – disse ele a Ysla – Agora vocês podem seguir para onde devem ir. Sigam por aquele caminho de terra, ele termina na estrada da Noite. A partir daí, você já sabe o que acontece não é Jane?

Jane e as meninas se aproximaram da caverna. Ares riu e tremeluziu até desaparecer.

– Como você o aguenta? – Ysla perguntou a Jane.

– Não aguento.

Seguimos pela estrada de terra que Ares nos mostrara. Jane parecia com medo de algo. Isso de certa forma me deixava com medo também.

Notas finais
Fim da primeira parte de A Casa da Esperança. Em breve volto com mais 6 capítulos.