O Jogo dos Deuses: A Casa da Esperança

15 Kayanne: Quase mortos por uma sombra


Hebe carregava Yasmim por precaução já que ela estava fraca, enquanto Eos nos guiava para mais fundo do oceano. Eu estava começando a suspeitar dela.

Eos era a deusa do amanhecer e chegava antes de Hemera segundo a lenda. Ela era famosa por sequestrar homens atraentes, mas se Poseidon dissera para chamá-la, ela deveria ser confiável.

Quando mais caminhávamos para baixo, mais fraca Yasmim ficava e mais fraca nossa proteção se tornava.

– Onde está nos levando Eos? – perguntei à deusa que se virou para mim, mas continuou andando de costas.

Seus dentes e olhos brilhavam na escuridão do oceano.

– Para as entradas do Mundo Inferior. – respondeu ela – Está um caos do outro lado do oceano e lá em cima está pior. Nunca vi os titãs com tanta raiva de semideuses antes.

– Estão nos caçando. – afirmou Ophellia com ambas às mãos tampando a boca, como se estivesse surpresa.

Eos voltou-se para frente.

Comecei a me sentir tonta conforme continuávamos a descer. Eu poderia jurar de que vi vultos a nossa volta.

Acordei assustada em um túnel quente e fumegante. Felizmente não estávamos em baixo d'água, pelo menos eu achava que não.

A silhueta de uma garota pairou sobre mim, era Carol, a filha de Zeus.

– Ela acordou Harry. – disse ela em voz alta.

Harry surgiu de uma curva que o túnel fazia.

– O que aconteceu? – consegui perguntar apesar de ainda estar tonta.

– Fomos atacados por Soldados Negros. Sombras que trabalhavam para Nix e que agora estão do lado do mal. – respondeu Harry em um tem baixo – Nós estamos em uma das entradas do reino de Hades.

– Eos foi embora já que Hades não permite a presença dela. Hebe está com Yasmim, Julian e Ophellia. – completou Carol.

– Nos separamos em meio à confusão, temos esperança de encontrar os outros no palácio de Hades. – finalizou Harry – Venha.

Harry estendeu a mão para me ajudar a levantar. Eu ainda me sentia um pouco tonta. Harry passou seu braço em minha cintura para eu ter apoio ao andar. Minha cabeça ardia de dor, provavelmente por causa de alguma batida. Perguntei a Harry como eu apagara, mas foi Carol quem respondeu.

– Eles bateram em sua cabeça com uma pedra – disse Carol que encarava o túnel como um monstro terrível – Você não os viu chegar.

Para ser bem sincera, eu nem me lembrava de Carol, pois ela era mais quieta do que Daniel.

Estávamos chegando ao fim do corredor quando fomos surpreendidos por um vasto horizonte.

O céu tinha cor de sangue e as nuvens eram rosadas. Em algumas partes do céu era possível ver as rochas que certamente separavam o mundo dos vivos do mundo dos mortos.

Deixei que Harry me colocasse sentada no chão para descansar mais um pouco.

– Quando tudo isso acabar vou precisar de um ano inteiro de férias. – comentei.

Carol me encarou com aqueles olhos castanhos, foi assustador.

– Se estiver viva no final, eu te levo a um SPA.

– Vou cobrar.

Nós duas rimos.

Harry parecia estar preocupado com algo, pois ele olhava constantemente para todos os lados conhecidos.

– Algum problema? – perguntou Carol.

Harry correu até nós duas e se agachou para ficar da mesma altura já que Carol sentara ao meu lado.

– Tenho medo de os servos de Hades nos encontrarem. – começou Harry – Hades não é um deus receptivo e Emilly não está aqui.

– Compartilho seu medo. – eu disse a ele.

Permanecemos na entrada/saída do túnel por mais uns quinze minutos e então decidimos ir. Era estranho estar indo para a casa de Hades com um risco de noventa e nove por cento de não sairmos de lá. Não sei como ser otimista nesta ocasião.

A saída do túnel ficava no meio de uma alta colina com grama de cor laranja. Estranho não? Nós seguimos o conselho da gravidade e descemos a colina, felizmente eu já estava me sentindo melhor e não precisava mais da ajuda de Harry para andar.

Seguimos por uma estrada de terra vermelha que ficava ao lado de um rio. Não sei dizer qual era, pois eu não estava prestando muita atenção aos seus detalhes.

Carol fazia um pequeno tornado em sua mão direita enquanto caminhávamos. Decidi então conhecer um pouco mais sobre os dois estranhos cujo destino estava ligado ao meu.

– Então – comecei – Vocês moram em Olímpia?

Harry e Carol se encararam.

– Eu moro no Olimpo com meu pai, embora Hera me odeie. Ela votou contra mim, mas a escolha era de Atena e não dela. – respondeu Carol.

– Eu morava em Épiro antes de Atena me recrutar. Meu pai sempre trazia uma garrafa de vinho para festejar, embora muitas vezes não houvesse necessidade disso. E você?

Encarei a terra vermelha em meus sapatos.

– Há alguns dias eu era uma pessoa normal vivendo normalmente em uma Terra de um universo paralelo. Nunca pensei que minha mãe fosse uma deusa.

– Os deuses podem estar em diversos lugares ao mesmo tempo. — comentou Carol olhando para o falso céu – Nem sempre é legal.

Não paramos de andar. Carol tinha razão. Como éramos filhos de deuses tínhamos que aceitar o fato de que para os deuses existiam muitas coisas mais importantes do que os próprios filhos.

Passando um tempo com a minha mãe Atena eu tive esperanças de que pelo menos com ela isso mudasse, mas acho que foi algo de momento. Os deuses pareciam não estar preocupados com o nosso bem estar, com exceção de Hebe e Poseidon.

Tentei não pensar como os outros deveriam estar se tivessem ficado juntos ou se pelo menos ainda estivessem vivos. Tentei em vão, pois estes pensamentos não saiam da minha mente. Era como um vírus, infectando todas as células que encontrava pelo caminho.

À nossa frente tinha uma casa aparentemente abandonada com as janelas quebradas, a porta pela metade e faltavam alguns tijolos e partes de telha.

– Já estive aqui. – comentou Carol ao olhar a velha casa com tamanha surpresa.

– No Mundo Inferior ou na casa velha? – brincou Harry me fazendo uma careta.

Ela começou a caminhar em direção a velha casa que tremia a todo instante.

– A Casa da Esperança.

Confesso que me arrepiei quando ela disse aquilo. Como a Casa da Esperança chegara ao Mundo Inferior e por que estava naquele lugar?

Nós três decidimos entrar para buscar as respostas, mas eu duvidava de que Huracán estivesse lá.

A porta que estava pela metade havia caído com a nossa passagem. A casa estava vazia com apenas uma mesa de madeira podre no centro. O assoalho rangia a cada passo dado.

– Por que não disse que já tinha ido à Casa da Esperança? – questionei Carol.

Ela caminhou perto das paredes mofadas em busca de um interruptor, mas sem sucesso.

– Hera me trouxe uma vez aqui. Não achei que deveria contar, embora a rainha me alertara de que eu voltaria

– Mais alguma coisa que Hera te disse? – quis saber Harry.

– Ela disse que o fogo vai abrir a câmara, mas nunca cheguei a ver uma.

Depois de não sei quanto tempo, nós notamos que a porta pela qual passamos já não existia e aos poucos as janelas iam desaparecendo também.

– Vocês ficarão presos aqui por toda a eternidade. – ecoou uma voz pela casa vazia.

Uma sombra se levantou do chão e ganhou a forma de um homem velho cheio de rugas. Sua pele era literalmente preta, seus olhos brilhavam maliciosamente num tom de vermelho. Seus dentes brancos me assustavam, pois lembravam presas.

– Quem é você? – perguntei com a voz tremendo.

Ele deu uma gargalhada tão alto que chegou a cair poeira do teto.

– Sou o pesadelo, a ilusão e o desespero. Vocês serão os meus alimentos.

Já era obvio que tínhamos caído em uma armadilha e que aquela não era a verdadeira Casa da Esperança.

Harry tirou do bolso uma espécie de bumerangue em miniatura que cresceu e mudou de forma para uma espada de lâmina prateada e cabo amarelo. Ele a segurou com as duas mãos.

Carol invocou os ventos do mundo inferior para formar uma corrente de ar quente e o ficou rodando como uma vaqueira a espera do primeiro movimento do inimigo.

Eu transformei o anel que Iris me dera em uma adaga. De tantas armas pra escolher, por que uma adaga? Porque eu queria usar uma adaga.

Carol lançou sua corrente contra a sombra, amarrando-o, e então eu e Harry avançamos contra ele atacando cada parte com nossas armas, mas parecia que ele não estava sentindo, aliás, ele estava sorrindo.

– Sou feito de medo e escuridão, vocês não podem me ferir. Morrerão todos aqui!

Como matar uma sombra dentro de uma casa imaginária estando à mercê da criatura?

A alegre sombra do mal se desprendeu das correntes de Carol como se fosse um fantasma. A cada ataque que falhávamos, ele caçoava de nós.

– Vocês não podem me matar! – dizia ele sem parar dando altas gargalhadas.

Aquela casa podia ser apenas uma ilusão, mas estávamos presos como ratos de laboratório. Uma ilusão quase perfeita, até que enfim pensei em um plano e estava na esperança de que funcionasse. A ideia era aceitar que estávamos presos e lutar contra a sombra como se realmente fosse uma sombra.

– Carol invoque um raio. – gritei a ela que me enviou um olhar de "o quê?" – Aceite que estamos presos e invoque um raio!

– Escute parte do que a sua amiga diz. Vocês não sairão daqui. – disse ele.

Para a minha infelicidade, a sombra começara a atacar. Seus ataques eram imprevisíveis, pois ele atacava com mãos negras que surgiam quando menos esperávamos e em qualquer lugar.

Achei que a sombra suspeitara do meu plano, pois ele estava concentrando os ataques na direção de Carol.

Harry e eu tentamos dar cobertura a ela. Finalmente.

Carol levantara a mão na direção da sombra, e então ouvimos sons do relâmpago rasgando o céu e explodindo a falsa Casa da Esperança. Os destroços não nos atingiram, pois Carol fez um tipo de escudo para nos proteger.

A sombra se levantara dos destroços e começou a correr em nossa direção. Carol fez o mesmo enquanto eu e Harry apenas assistimos.

Ouvimos um raio cortar o céu novamente indo de encontro à mão direita dela. A sombra arregalou seus olhos vermelhos de susto. Estava acabado ele sabia disso.

Carol empurrou o rosto da sombra com a mão eletrificada e um enorme clarão vermelho se expandiu e ficamos sem ver o que estava acontecendo.

Quando a luz se dissipou a sombra já não estava lá. Ele se desintegrara com a ferocidade do ataque de Carol.

– Pra que lado fica a casa de Hades mesmo? – perguntei Carol com as mãos apoiadas nos joelhos recuperando o fôlego.