O Jogo dos Deuses: A Casa da Esperança
19 Larissa: A Mãe Antiga a Casa Ilumina
Notas iniciais
O palácio era enorme. Aparentemente o deus do submundo não estava em casa. Perséfone nos guiava por cada corredor até que enfim chegamos ao salão principal ou também conhecido como a sala do trono.
Como forma de agradecer pelo serviço que Ethan, Ysla e eu prestamos, a deusa da primavera nos deu uma rosa negra para cada. Ela dissera que breve iríamos precisar de seus efeitos especiais.
Para a nossa surpresa, não éramos os únicos semideuses a chegar ao palácio de Hades.
Kayanne, Harry e Carol estavam sentados em poltronas confortáveis. Eles se levantaram e foram ao nosso encontro para um caloroso abraço apertado.
– Onde está Hades? – perguntou Ethan.
– Ele está no Olimpo ajudando como pode. – respondeu Perséfone – Temos que nos apressar.
– Por quê? – questionou Kayanne – Onde estão os outros?
– Devem estar na casa da esperança neste exato momento. Aconteceram alguns imprevistos e eles foram direto para a casa.
Ficamos em silêncio até que surgiu um esqueleto trazendo uma bandeja com bebidas de cor amarela e laranja.
– Sirvam-se. Voltarei logo.
Não pude parar de pensar em qual tipo de imprevisto poderia ter ocorrido. Estávamos divididos em seis novamente.
– Néctar. – disse Kayanne que bebia o liquido amarelo em um copo transparente de vidro.
– O que pode ter acontecido? – perguntou Carol como se estivesse com um enorme ponto de interrogação pintado em sua testa.
– Não consigo parar de pensar a mesma coisa. – respondi a ela e aos outros que aguardavam uma boa resposta para acabar com a preocupação.
Será que algo acontecera na casa da esperança? Isto estava começado a me perturbar. Tentei parar de pensar nisso mudando um pouco de assunto.
– Por onde vocês andaram? – perguntou Ethan antes das minhas cordas vocais entrarem em ação.
– Vagamos pelos campos de Asfódelos até encontrar uma falsa casa da esperança. – contou Harry, em seguida dando várias ênfases para os acontecimentos posteriores – E enquanto vocês?
Eu e Ysla nos entreolhamos e nos perguntamos mentalmente se diríamos algo sobre a maldição que pesava sobre nós duas, mas Ethan foi mais rápido e respondeu.
– Encontramos com Hermafrodito e salvamos o tesouro de Perséfone depois de vagar por uma floresta sombria.
Olhei agradecida para Ethan.
A sala do trono de Hades variava em tons fortes de vermelho, eu nunca vira algo parecido, nem mesmo no Olimpo onde tudo parecia ser bem simples.
Algo começou a rosnar perto de nós. Olhei para o meu lado esquerdo e levei um susto ao ver um jaguar a me olhar com os dentes cerrados prontos para me devorar, mas em vez disso, ele deitou-se no chão como se pedisse um pouco de carinho.
Respirei fundo e ergui minha mão para caricia-lo. Até o momento o jaguar parecia ser inofensivo.
– Jimmy gostou de você. – disse Perséfone que voltara com um longo e duradouro sorriso em seu rosto – Ele vai guia-los até a casa da esperança.
– O que ele é exatamente? – perguntou Kayanne – Nós nos surpreendemos com Dexter.
Perséfone continuava a sorrir.
– O Jaguar Triturador do deus da tempestade, ou como vocês o conhecem, Huracán. – respondeu ela – Vou acompanha-los até a saída.
A deusa nos levou pelo caminho contrário ao que tínhamos entrado. A porta da saída ficava exatamente ali, ao lado do trono.
– Não seria mais rápido se fossemos por Pontos?
– Certamente, mas os Soldados Negros tomaram a região há algumas horas. Provavelmente tentarão quebrar o feitiço de Morfeu para despertar o deus.
Um extenso jardim surgiu a nossa frente quando passamos pela porta ao lado do trono.
– Que lindo. – eu disse a deusa da primavera.
– O jardim de minha mãe Deméter. Ela cuida dele todos os dias. — Perséfone olhou adiante como se tentasse ver se algo estava vindo – Jimmy irá guia-los até a casa. Boa sorte semideuses.
A posta as nossas costas se fechou bruscamente enquanto o jaguar Jimmy ronronava nas pernas de Ethan.
Embora estivéssemos literalmente no inferno, o Mundo Inferior tinha suas qualidades que antes era impossível de ser notados devido a agitação de missões quase suicidas. O céu era uma delas.
Às costas do palácio de Hades o céu vivia em um alvorecer constante, pássaros de aspecto estranho voavam em voltas de árvores assustadoramente mortas.
Seguimos adiante com Jimmy tomando a dianteira. A casa da esperança estava desesperada para ser protegida dos inimigos que a cercavam sem esforço.
Não sabíamos se Huracán poderia proteger a casa ou mesmo nossos seis amigos que lá estavam. Tínhamos pressa e muito pouco tempo para chegar ao nosso destino final.
Andamos pouco, mas foi o suficiente para que o palácio do submundo fugisse do horizonte atrás de nós.
Jimmy parecia o mais animado e de vez em quando dava voltas entre as pernas de Kayanne.
Ysla e Ethan andavam juntos dando gargalhadas das histórias que ela contava de sua irmã Yasmim. O cajado de Ethan brilhava intensamente com as quatro pontas coloridas.
Harry trazia uma garrafa do que parecia ser suco de uva, levando em consideração quem era seu pai, eu não duvidava. Ao seu lado estava Carol que parecia irritada pelo fato da bexiga dele nunca ficar cheia.
Olhei para o meu bracelete, que antes fora um cajado usado pela minha irmã feiticeira do mal, Circe.
Não pude deixar de pensar de que ela poderia estar em algum lugar do Mundo Inferior esperando por sua vingança.
Fique atenta, disse uma voz em minha cabeça de repente.
Levei um susto compreensível que chamou a atenção de Kayanne que estava paralela à minha esquerda.
– Está tudo bem Larissa? – perguntou ela.
– Acho que sim. – consegui responder.
A voz feminina que eu ouvira ainda estava em minha cabeça dizendo a mesma frase. Ela está atrás de vocês, estejam preparados, disse ela novamente.
– Alguém está nos seguindo.
Kayanne me olhou de esguelha.
– Tem certeza? – perguntou ela para ter certeza do que eu dissera.
Canalizei um pouco de minha magia para tentar identificar a possível ameaça que estava atrás de nós.
Definitivamente havia alguém nos seguindo. Senti uma força poderosa. Poderia ser qualquer tipo de coisa, mas minha intuição dizia ser ela, a irmã atrás de vingança.
– Circe está atrás de nós. – confirmei enfim, alto e claro para os outros ouvirem também.
O horizonte a nossa frente começava a mudar de cor. De um laranja espectral para um azul vivo com nuvens brancas e fofas.
Nossa visão foi bloqueada por uma densa névoa que surgia lenta e de repente a nossa frente. Mal conseguíamos ver uns aos outros.
– A causadora do meu sofrimento não está entre vocês – disse uma voz de mulher com muita raiva – entretanto, alguém precisa levar a culpa.
Apesar de tudo o que tinha vivenciado nessa jornada, minha falta de crença predominava meu ser. Eu vivia cada momento como se fosse parte de um sonho qualquer que não parecia ter fim.
Moros, o deus do destino, me alertara de que minha falta de crença em outros mundos poderia comprometer a missão e impedir o crescimento de meu poder. Talvez estivesse na hora de acreditar no que estava acontecendo e enfrentar meus pesadelos e falsas esperanças como inimigos a altura.
Canalizei o poder do bracelete de Hécate e fiz com que a densa névoa se dissipasse revelando a presença de Circe bem a minha frente.
Os deuses nos ajudavam apenas quando podiam, então não era tão diferente do que eu acreditava. Eu estava nos limites do Mundo Inferior, isto era o presente, era a realidade, e minha irmã me encarava com um ódio incomparável.
– Quero meu cajado de volta! – ordenou Circe – Você não o merece sua traidora.
– Não fui eu quem se voltou contra a própria mãe. – retruquei – Você vai perder, e desta vez será pelas minhas mãos.
Invoquei uma espada de cristal com a magia do bracelete. Nunca me senti tão poderosa. A magia corria por minhas veias como sangue. Larissa é o meu nome, e eu sou filha de Hécate.
Circe usou uma lança de cor rosa para investir contra mim. Por um centímetro meu braço teria sido perfurado. Esquivei o máximo que pude para deixar o caminho livre para os outros passarem.
– Sigam em frente! – gritei para eles – Alcançarei vocês logo.
– Não conte com isso irmã. Você morrerá aqui pela minha lança!
Minha espada brilhava de magia. Cortei o ar na horizontal quando Circe desviou e empurrou minha perna com a lança me fazendo cair no chão.
Felizmente ainda tinha posse de minha espada quando Circe tentou cravar sua lança em meu coração, mas rolei para o lado e cortei um pedaço da lança.
A raiva estava evidente no rosto da feiticeira. Ela tentou pisar em minha mão, mas levantei rápido o suficiente para derrubá-la no chão.
Comecei a sentir algo diferente em meu corpo. Minha pele começou a brilhar na cor de roxo enquanto meus olhos se tonavam duas bolas também roxas. O bracelete ardia em meu pulso.
Mate-a, disse Hécate em minha mente.
As mãos de Circe se transformaram em espadas pontiagudas e ela correu até mim. Fechei os olhos por um momento e quando eu os abri, ela estava bem a minha frente. Então eu levantei minha espada e a abracei.
Pude sentir minha espada cravada em sua barriga. Eu comecei a me sentir fraca.
Circe se desfez em cinzas lentamente enquanto minha espada caia ao chão manchada com o que parecia ser sangue. Por algum motivo seu braço não se desintegrou.
Cai de joelhos.
O que antes fora a mão de Circe, agora estava cravada em minha barriga. O sangue não parava de escorrer. Tirei a arma com dificuldade e cai deitada em minha própria poça de sangue que aumentava lentamente. Minha visão se tornou turva. O único som que eu consegui emitir foi um gemido de dor.
Não havia como os outros me ajudarem, pois eu os mandara seguir viajem.
Pude ver com dificuldade um clarão vermelho, ou seriam labaredas. Alguém caminhava a minha frente. Minha visão começou a escurecer e minha audição a sumir.
– Você está horrível. – disse uma garota.
Senti meus sentidos se desligando um a um. Minhas forças se esvaíram e eu apaguei.
Tive um sonho um pouco desconfortável.
Eu estava em frente a uma casa feita de madeira escura com no máximo um andar contando com o térreo. Havia uma varanda clássica de casas de campo americanas.
Às minhas costas um exército de monstros descansava esperando o momento chegar para finalmente atacar a casa da esperança.
Várias fogueiras rondavam a casa. Não tinha como sair sem ser visto.
O titã Hyperion estava ao meu lado com uma aparência assustadora. O titã que anteriormente nos atacara no Monte Vulcano, agora parecia ferido e com a raiva elevada.
– Não se preocupe meu irmão. – disse uma voz vinda da escuridão – Nós vamos matá-los, e você terá aquele maldito tigre para atormentar.
Um homem extremamente musculoso saiu das sombras e parou ao lado do titã do leste.
– Não confio em Clítio. – disse Hyperion – Ele vai pagar pelo que me fez. Ele não tem o direito de me desafiar.
– Conte a mãe-terra. – sugeriu o outro.
– Ela não vai abraçar minha causa Cronos. Terei que fazer por mim mesmo.
A fogueira crepitava atrás dos titãs.
Caminhei até a porta da casa da esperança. Subi os dois degraus da varanda e atravessei a porta de madeira de oliveira como se fosse um fantasma.
A sala de estar era espaçosa e a mobília bem colocada.
Ao centro havia uma pequena mesa circular com sofás que a cercava. Duas pessoas estavam sentadas em um sofá enquanto outra estava sentada no sofá em frente.
– Espero que ela tenha conseguido. – disse Emilly, que estava ao lado de Yasmim.
– Tenho certeza de que conseguiu. Ela é filha de Huracán não é? — disse Yasmim animadamente – Espero que minha irmã esteja bem.
– Ela vai estar não se preocupe. – disse a terceira pessoa, ou devo dizer deusa – Jane chegará logo pela manhã.
Hebe fazia esforço para manter um sorriso.
Um enorme tremor sacudiu a casa.
– O que foi isso? – perguntou Emilly.
– Estão atacando – respondeu Hebe.
Acordei toda suada.
Uma fogueira fora acesa.
Os outros estavam dormindo ao meu redor com exceção de uma garota ruiva que olhava para o fogo da fogueira.
– Você parece com o seu pai. – eu consegui dizer para Ophellia que deu um leve sorriso – Vejo o mesmo brilho dos olhos dele nos seus.
Uma lágrima escorreu pelo rosto dela.
Grilos cantavam pelo canto no qual nós estávamos.
– Achei que não ia mais acordar – disse ela – Como se sente?
– Com dor, mas estou melhor. Como está Huracán?
Ela abaixou a cabeça.
– Comparado aos outros deuses ele está a beira da morte.
Depois de um momento insuportável de silêncio, contei à Ophellia o sonho que tive, o que deixou ela bem agitada, mas manteve a calma.
– Estamos ficando sem tempo. Precisamos ir. Não sei dizer por quanto tempo Reia vai conseguir proteger a casa de ataques constantes.
– Reia? – perguntei.
– A mãe-antiga. Mãe dos primeiros deuses do Olimpo.
Ophellia acordou os outros para partirmos. Harry estava embriagado de sono, o mesmo poderia ser dito da filha de Apolo.
A filha de Huracán me carregou nos braços. Era incrível a força que ela tinha, pois em nenhum momento pareceu pesar para ela. Caminhamos o mais rápido que podíamos, quer dizer, eles caminharam.
Quando nós chegamos perto de uma colina eu disse à Ophellia que eu poderia ir andando, então ela me pôs no chão.
No topo da colina era possível observar tudo ao redor, o mar atrás da colina do outro lado da casa da esperança e o enorme exército que lançava pedras e pedregulhos contra a casa.
– Vamos ter que correr. – disse Ophellia.
Todos sacaram suas armas. Ysla preparou seu arco para entrar em ação; Kayanne transformou sua moeda em uma lança; Ethan e eu invocamos nossas espadas; Harry sacou sua adaga e Carol sua espada de tempestade; Ophellia desembainhou sua espada vermelho-sangue e Jimmy se alongava para atacar.
– Haja o que houver corram para a casa. Não saiam do caminho a menos que seja extremamente necessário.
Quando Ophellia deu o sinal, todos nós saímos correndo. Jimmy foi a frente para limpar ao máximo o caminho de inimigos.
Os primeiros raios de sol estavam surgindo atrás do oceano.
Lembrei-me da história de Moisés quando estávamos cruzando o mar de monstros. Jimmy literalmente rasgava toda criatura que ousava ficar em nossa frente. Tentei lançar alguns feitiços para a nossa proteção, mas eu ainda estava fraca, dependente da minha espada de cristal.
Carol criou uma pequena tempestade para dificultar a aproximação dos monstros. Consegui cortar alguns que insistiam em nos enfrentar.
– Estamos quase lá! – gritou Ophellia.
Eu não vi nenhum sinal de Clítio ao redor e muito menos dos titãs. Talvez porque estivesse amanhecendo, mas nada explicaria o motivo dos titãs não estarem presentes.
Ophellia lançou um mar de chamas em um amontoado de barris um pouco longe. A destruição foi enorme.
Chegamos à varanda sem problemas e me virei para trás pronta para matar mais algumas criaturas, mas eles não vieram.
Vendo nossas expressões de confusão, Ophellia decidiu explicar.
– Eles não podem avançar, não enquanto a casa estiver sob proteção da mãe dos deuses.
Ela abriu a porta, a sala de estar era exatamente como eu vira em meu sonho.
Um som alto de risadas vinha do que parecia ser a cozinha. Como alguém poderia estar feliz com a casa cercada de monstros.
Ophellia nos guiou até o cômodo seguinte, uma cozinha com um bom espaço para movimentação.
Os outros semideuses estavam ajudando uma mulher a fazer o que parecia ser um bolo de cenoura com cobertura de chocolate e outro apenas de chocolate.
A mulher se virou para nos receber. Ela tinha longos cabelos negros e lisos, seus olhos eram azuis e tinha um corpo definido. Ela vestia uma camiseta azul clara e uma saia até o chão.
– Olá jovens semideuses. – disse ela encantada com a nossa chegada – Sou Reia, a mãe do Olimpo.
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