O Jogo dos Deuses
2 Uma Amiga Desconhecida
Dezessete anos haviam se passado. No reino de Fioretti, o príncipe Allen Lanowl se preparava para uma grande festa que reuniria os Doze Reinos para celebrar o aniversário de dezessete anos da princesa Melody. Allen não entendia o porquê de tão grandiosa festa, a ponto de convidar os nobres de todos os Doze Reinos. Porém ele não estava preocupado com isso. Na verdade, estava bem ansiosos pois iria, pela primeira vez, ver seus amigos pessoalmente.
Há cerca de dois anos, Allen foi chamado por seus pais, que lhe deram uma bola de cristal. Esta poderia ser usada para se comunicar com alguém, podendo até ouvir sua voz, por mais distante que a outra pessoa esteja. Mas, para isso, ambas pessoas precisam ter uma bola de cristal encantada.
— Allen, meu filho. — Chamou, Rei Louis, pai de Allen. — Quero que você conheça algumas pessoas. Há alguns dias eu reuni os reis dos Doze Reinos para conversa. Nessa reunião acabamos por decidir que já estava na hora de apresentar nossos filhos. Para isso, eu contei com uma ajuda de minha amiga de infância.
— Filho, esta é a rainha do reino de Greonlie e a maior feiticeira do mundo, Larissa, a Sábia.
Allen, que não percebera a presença da mulher, se assustou quando a viu.
Larissa era uma mulher alta e muito bela, com cabelos lisos e morenos, com olhos pretos, porém muito brilhantes.
— Oras, Louis — Disse Larissa rindo — Eu não sou tudo isso. — E se virou para Allen — É um prazer conhece-lo, jovem príncipe.
— Bem, vamos para o que é importante. — Continuou Louis — Larissa me fez o favor de encantar doze dessas esferas de cristal e distribuí-las entre os herdeiros do trono de cada reino. Esta é sua. Tome conta dela, pois é frágil e não haverá outra. Com elas, você poderá se comunicar com os príncipes e princesas dos outros onze reinos. Todos eles têm quase sua idade. Mas não vou falar mais, para não estragar a surpresa.
—Uma das pessoas que você conhecerá é minha filha, Viollet. — Disse Larissa — Ela é um mês mais velha que você. Espero que sejam bons amigos. — Completou sorrindo.
Allen estava confuso, porém retribuiu o sorriso.
— Bem, se não tem mais dúvidas, por que não vai até seus aposentos para testá-la? Tenho ainda alguns assuntos para tratar com Larissa. Em 30 minutos eu vou lá para ver como está se saindo, certo?
Allen concordou com a cabeça, agradeceu com uma reverência, e se retirou.
— Então, sobre o que queria conversar, Louis? — Perguntou Larissa, séria.
— Oras, Larissa. Não podemos mais ter uma conversa casual de velhos amigos?
— Claro que sim, porém, conhecendo você, eu sei que não é simplesmente isso. E julgando pelas coisas que aconteceram nas últimas semanas, eu diria que tem haver com os Deuses e a proposta, certo?
Louis riu com gosto.
— Pelo visto não consigo esconder nada de você, não é?
— Pois bem. — Continuou Louis — Como você sabe, a hora está chegando. Segundo Eles, daqui cerca de dois anos, Eles vão aparecer para nossos filhos e lhes concederem um dom especial, seja lá qual for. Queria saber a sua opinião sobre tudo isso.
— Olha, sinceramente, acho interessante, porém temo que algo possa dar muito errado. Mas minha curiosidade fala mais alto neste momento.
— Entendo. É um bom ponto de vista. Também estou muito curioso. Agora nos resta esperar para ver o que vai acontecer, mas por hora, devo ir ver como Allen está se saindo com os outros. Me acompanha?
— Não desta vez, Louis. Preciso voltar para Greonlie e resolver alguns assuntos. Também preciso ir até o reino de Thundrall e conversar com a rainha Pérola, mãe de Melody. Nós já devemos começar a nos preparar para a Grande Festa. Agora, com sua licença...
Ao dizer isso, Larissa se afastou, pegou seu cajado, levantou os braços, proferiu certas palavras e, com um clarão, desapareceu.
— Essa Larissa... Sempre me surpreendendo — Monologou Louis rindo. — Bem, agora vamos ver como os garotos estão se saindo...
Ao sair da sala de seu pai, Allen subiu as escadas apressadamente, mas cuidadosamente e seguiu direto para seu quarto.
Chegando lá, passou cerca de cinco minutos tentando decidir qual seria o melhor local para colocar a esfera.
O aposento de Allen era uma grande sala circular, na torre nordeste do castelo, cheia de decorações e quadros de paisagens e deuses. Encostada na parede havia uma grande penteadeira feita de mogno antigo. Allen gostava muito desse móvel. Ele adorava ficar arrumando seu cabelo enquanto se olhava no espelho.
No norte do quarto ficava sua cama. Uma bela e grande cama, com um véu de seda vermelha. O piso, sobre o qual Allen andava, era todo feito do mais nobre carvalho do reino.
Após pensar um pouco, o príncipe abriu um baú defronte a sua cama e retirou de lá um pedestal em forma de garra de águia feita em pedra, que havia ganho há alguns anos, mas que nunca tinha usado. Tirou o pó de cima da garra, posicionou-a acima da cômoda que ficava ao lado da cama, colocou o cristal na garra e, relutantemente, disse:
— A-alô?
Mal sabia Allen que isso mudaria o rumo de sua vida.
Allen vestiu o casaco, prendeu em seu cinto o punhal, com o qual sempre andava, olhou para a bola de cristal em sua cômoda, deu um sorriso e saiu de seu quarto.
Ele estava muito feliz, pois depois de dois anos conversando com pessoas que ele nem conhecia o rosto, mas que tinham se tornado seus grandes amigos, ia finalmente encontra-las pessoalmente.
Pelo que seu pai havia dito, no reino de Thundralll haveria uma festa de comemoração do aniversário de dezessete anos da princesa Melody.
Quando desceu a escadaria que levava ao hall do castelo, Allen encontrou com sua mãe, Alicia, uma mulher alta, loira com lindos cabelos cacheados.
— Já está pronto, Allen? Seu pai ainda vai demorar alguns minutos, portanto pode esperar um pouco, se quiser.
Allen agradeceu e se dirigiu para fora do castelo.
Atravessando o portão e indo para o jardim, o príncipe vê seu amigo Oliver Draconos pousando um grande dragão negro logo em sua frente.
A família Draconos era uma família muito prestigiada no reino Fioretti. Eles tinham um poder muito especial. Eles podiam se unir aos dragões muito mais facilmente que qualquer outra pessoa. Era um poder que já vinha de gerações anteriores.
O pai de Oliver era capitão do Exército Real, por isso tinha um posto respeitoso entre os nobres, enquanto sua mãe era líder religiosa do reino.
Oliver era um garoto loiro, de olhos amarelados, muito bondoso e solidário. Não é porque tinha um dom especial que se gabava disso para os outros.
— Levando Vann para dar uma volta, Oliver? — Perguntou Allen, sorrindo.
— É o contrário — Respondeu o garoto rindo — Vann é livre. Ele é quem me leva para dar uma volta.
Allen gostava muito de Vann. Oliver já havia pedido pra Vann levar Allen voar em suas costas algumas vezes.
— Até onde foram hoje?
— Hoje voamos até Syphit, a Floresta Central. Lá achamos uma clareira com um lago. Pousamos lá e Vann ficou me fazendo companhia enquanto eu pescava — Disse, enquanto levantava uma cesta com alguns peixes que carregava embaixo do braço. — Então fizemos uma fogueira e assamos alguns peixes. A cesta estava muito lotada, então comemos alguns, para não correr o risco de derrubar nenhum peixe lá de cima enquanto voltávamos.
— Mas e você? — Perguntou — Vai a algum lugar, Allen?
— Pois é. Vou até o reino de Thundrall com meus pais. A rainha Pérola vai sediar um baile em comemoração aos dezessete anos de sua filha, Melody. Lembra daquelas pessoas que te contei? Os primogênitos de cada reino? Então. Lá verei todos eles pessoalmente pela primeira vez.
— Oh, sim, eu me lembro. Uma vez eu já conversei com eles através de sua esfera mágica.
—Tem razão. Eu adoraria que você pudesse vir no baile junto, mas desta vez realmente não dá. Desculpe-me. Mas não se preocupe. Quando eu voltar, te contarei tudo, certo?
— Certo! — respondeu Oliver com empolgação. — Mas com sua licença, me retiro agora. Tenho que guardar estes peixes
— Até mais, então, Oliver
— Até, Allen
E jogando mais um pequeno peixe na boca de Vann, virou as costas e seguiu seu caminho até a propriedade de sua família, na entrada do castelo.
Allen olhou para Vann, que por sua vez lhe retribuiu o olhar, bateu as asas e levantou voo, logo desaparecendo no céu iluminado somente pela lua e estrelas.
— Allen, querido, venha cá. Seu pai está pronto e sairemos em cinco minutos — Ouvira sua mãe gritando.
Ele, então se virou e andou até a carruagem.
— Precisamos nos apressar ou chegaremos atrasados — Dissera Alicia.
O reino de Thundrall ficava há quatro dias de viagem a cavalo. Eles estavam saindo na noite do dia 8 de dezembro e precisavam estar lá na noite do dia 13, portanto contavam com cinco dias. Alicia quisera sair mais cedo para não correr o risco de se atrasarem por causa de imprevistos na estrada.
Allen afagou o focinho dos dois cavalos que puxam a carruagem, entrou na mesma e sentou no canto.
A carruagem era bem espaçosa. Cabiam lá cerca de seis a oito pessoas.
O jovem príncipe pode então ver, saindo do castelo, cinco servos, carregando pesadas mochilas de couro, as quais foram colocadas em cima da carruagem.
Ao ver o espanto do filho, Alicia justificou o excesso de bagagem:
— Mudanças de planos, Allen. Ficaremos em Thundrall até a virada do ano. Seu pai deixou Alex Draconos, pai de seu amigo Oliver, no poder enquanto estivermos fora. Ah, aí vem seu pai.
— Tudo pronto, filho? Então vamos. Não temos tempo a perder.
Alicia e Louis subiram na carruagem e o condutor estalou os arreios para os cavalos começarem a andar.
Conforme iam passando pelas ruas do reino, quem ainda estava acordado, parava para fazer uma reverência. Louis sorria e cumprimentava as pessoas pelos nomes.
Rei Louis era conhecido como Louis, O Caridoso, ou Amigo do Povo, pois respeitava os cidadãos do reino, bem como os viajantes e os tratava como igual. Todos os aumentos de impostos que ocorriam na cidade eram justificados, investidos e mostravam melhorias reais no reino, portanto os habitantes não reclamavam. Pelo contrário. Os habitantes adoravam o rei.
Quando estavam saindo dos portões do reino, Allen viu que cinco guarda-costas do Exército Real os seguiam a cavalo. Quatro estavam em cavalos marrons e um, que possivelmente era um comandante, estava em um majestoso cavalo branco. O comandante vestia uma armadura completa, toda cinza e com detalhes dourados. A armadura parecia ser muito pesada, pois o cavalo que a levava, mesmo sendo maior e mais encorpado que os demais, aparentava fazer muito esforço para não cair no chão com tanto peso em seu lombo.
A viajem estava bem parada. Ninguém conversava. Allen ficava somente admirando as paisagens, pelas quais pouquíssimas vezes havia passado.
— E então, filho. — Disse Louis, quebrando o silêncio, após algumas horas de viagem. — Se sente ansioso por saber que finalmente vai vê-los?
— Muito. — Respondeu Allen, com um sorriso. — Eu estava muito ansioso para encontrar todos eles. Quando vocês me deram a notícia, fiquei muito feliz
— Mas não entendo uma coisa. — Continuou o príncipe — Por que vocês estão fazendo este baile justo agora? Não poderiam tê-lo feito ano passado, por exemplo?
— Não quero te explicar isso agora, filho. Quando chegarmos lá, tudo será explicado. Não quero estragar a surpresa. Mas posso te adiantar uma coisa: Sua vida nunca mais será a mesma daqui em diante. — Concluiu em um tom de voz muito sério.
Allen soltou uma exclamação de espanto, abaixou a cabeça e começou a pensar. O que será que mudaria tão drasticamente? Por que o baile só iria acontecer agora? O que seus pais sabiam que ele não sabia?
Outra coisa que voltara a sua mente era o fato de todos terem nascido no dia 13, mas cada um em um mês diferente. Allen nascera em 13 de novembro. Melody nascera em 13 de dezembro. Cada um em um mês diferente, mas no mesmo dia. Allen achava que isso era apenas uma estranha e bizarra coincidência. Quando ele percebeu isso, há cerca de um ano, passou um bom tempo pensando nisso, mas, quando contou ao seu pai, o mesmo disse para ele descansar, pois isso não passava de uma coincidência.
Porém, com a situação atual, somado ao que seu pai acabara de dizer, Allen percebera que seu pai havia mentido para ele naquele dia.
O garoto pensou nisso por horas, mas não chegou em lugar algum.
De tanto pensar, sentiu dores de cabeça, então se deitou no banco e adormeceu.
Quando acordou, olhou para o céu e viu o sol nascendo. Ao longe, viu Vann voando na direção de seu reino, provavelmente para encontrar Oliver. Olhou para seus pais, que ainda estava.
— Bom dia, Sua Alteza — Allen ouviu o cocheiro chamar.
— Ah, bom dia, Rowel — Allen parou por alguns segundos. — Você dirigiu a noite toda?
— Pois é — Respondeu Rowel sorrindo. — Seu pai disse-me para descansar a noite, porém eu já havia tirado o dia de ontem para descansar e me preparar para a viagem de hoje, portanto eu aproveitei para guiar a noite inteira.
Allen olhou para trás e viu que os guarda-costas pareciam muito cansados. Os cavalos começavam a cambalear.
— Rowel — Chamou o príncipe. — Os soldados estão cansados. Pare a carruagem. Descansem um pouco, pelo menos até meus pais acordarem.
— Certo, majestade.
O homem começou a parar os cavalos. Quando a carruagem parou, Allen desceu e se dirigiu até os cavaleiros, que desceram do cavalo e tomaram formação — Descansar, homens. Vocês passaram a noite cavalgando. Descansem por agora.
Então ele voltou os olhos ao céu, para tentar identificar o horário através do Sol, porém se lembrou que não sabia ver a hora dessa maneira.
Os cavaleiros amarraram seus cavalos em árvores próximas, sentaram-se e, por o sol ainda estar nascendo e ser meados de dezembro, decidiram fazer uma fogueira.
Não havia se passado nem meia hora desde que haviam sentado, quando Allen decide dar uma volta. Olhou aos lados. A sua frente estava Syphit, a Floresta Central.
Todos os cavaleiros estavam dormindo. Rowel estava encostado em uma árvore próxima a carruagem, fumando um cachimbo. Allen sabia que ele não estava dormindo, mas estava absorto em pensamentos. Sabendo disso, o príncipe se levantou e adentrou a floresta.
Após andar por cerca de vinte minutos, Allen chegou na margem do rio Graam, o rio que cortava Syphit. Ele sentou-se na margem, tirou os sapatos e banhou os pés. Parando para lembrar, havia muito tempo que ele não conseguia ficar sozinho, em um lugar calmo, sem precisar se preocupar com afazeres e tarefas de príncipe.
Desde que completara treze anos, ele quase não tinha mais tempo para se divertir. Seu pai começara a ensiná-lo a executar tarefas reais, para quando herdasse o trono.
O pouco tempo que tinha para si, usava para conversar com seus amigos.
Passado algum tempo sentado ali, levantou-se, pôs os sapatos e quando se virou para voltar, vê uma coruja pousada em uma árvore que parecia olhar atentamente para ele. Parecia que ela estava analisando-o.
A coruja levantou voo e foi na direção do príncipe e então o olhou nos olhos. Allen estava paralisado. Queria fugir, mas não conseguia se mexer.
Quando a ave se afastou, o garoto sentiu que recobrara os movimentos. Ele pensou em fugir, mas nessa coruja ele sentiu um poder gigantesco. Algo sobre-humano. Quando deu por si, já estava seguindo a pequena ave que adentrava cada vez mais a grande floresta.
Allen a seguiu por quase meia hora. Seus pés já começavam a doer. Umas duas ou três vezes ele havia perdido a ave de vista, mas logo ouvia um piado e via a mesma pousada em uma árvore próxima. A coruja obviamente queria que o garoto o seguisse.
O Sol crescia no céu. O frio cortante da madrugada havia se amenizado um pouco. O tempo estava mais agradável, Allen pôde então tirar o casaco, o qual amarrou em torno de seu pescoço.
Quando param, Allen percebe que a coruja o guiou até uma clareira onde viu uma linda mulher sentada em uma pedra, olhando para o céu com uma expressão doce, mas enigmática e profunda.
Então a mulher se virou para Allen e disse:
— Ora, ora... Estava esperando você chegar, Allen.
— Quem é você? — Perguntou o príncipe — E como sabe meu nome?
— Sei de muitas coisas, criança — diz sorrindo— Pode me identificar como uma amiga.
Sem baixar a guarda, Allen se aproxima:
— Meu nome é Amanda, e minha amiga aqui é Beatrice.
— É uma coruja muito esperta que você tem. Você a treinou sozinha?
Então uma voz feminina forte ecoa pela clareira.
— Ora essa! E eu tenho cara de quem precisa ser treinada?
Allen toma um susto e puxa sua adaga. Quando procura em volta, vê a coruja, Beatrice, Voando em sua direção
— Tome mais cuidado com o que você diz, senão vai se arrepender.
— O que é isto? — Gritou o jovem. — O que é você? Uma feiticeira?
— É cego agora? Sou uma CORUJA, não vê?
— Bia... — Chamou, Amanda — Acalme-se. Você está assustando o garoto — Disse segurando o riso.
— Queira me desculpar pelo comportamento de Beatrice. — Prosseguiu — Ela não é má. Só é um pouco estourada.
— De qualquer forma, nunca vi uma coruja falante. Se a coruja não é uma feiticeira, então deve ser você. — Disse virando-se para Amanda.
Amanda deu um sorriso e respondeu:
— Por enquanto pode-se dizer que sim.
— Ah, sabia — Disse Allen rapidamente. — Desculpe meu espanto. Feiticeiros são raros por aqui. De qualquer modo, você disse que estava me esperando.
— Ah, sim — Respondeu Amanda, cortando Allen. — Eu simplesmente gostaria de te ver mais uma vez antes do baile, meu querido...
— Por que você fala como se me conhecesse de algum lugar? Nunca nos vimos antes.
— E como pode ter tanta certeza?
— Eu...
— Você se enganou — Interrompeu Beatrice. — Nós te observamos desde que você nasceu. Você só não nos notava.
Na mesma hora Allen corou. “Até onde elas haviam visto? ”, pensou. Ao ver a reação do jovem e perceber em que ele havia pensado, Amanda o acalmou:
— Calma. Nós juramos para nós mesmas respeitar sua privacidade. Não te vigiamos literalmente o tempo todo, então não se desespere.
— Há mais uma coisa que preciso lhe dizer. — Concluiu — Todas suas perguntas serão respondidas no baile, então aproveite bem até lá. Sua vida passará por uma mudança drástica.
— O que você quer dizer com isso? — Perguntou Allen, assustado
Amanda riu.
— Você descobrirá por si mesmo no fim da semana. Até lá, tente pensar por si mesmo. Mas, no momento, devo me retirar. Ainda tenho outros afazeres antes do anoitecer. Beatrice, pode acompanhar Allen até sua carruagem por mim?
— Sem problemas. Nos encontramos no lugar de sempre depois?
— Com certeza. Adeus, Allen. Nos veremos em breve.
— Certamente. Adeus, Amanda. — Respondeu ainda confuso.
Amanda, então, se virou e entrou por trás de um carvalho que ali crescia. Allen esticou a cabeça para o lado para tentar vê-la mais uma vez, porém a dama já havia desaparecido.
— Por aqui, garoto — Chamou Beatrice — Tente não me perder de vista — Zombou
Allen seguiu sem falar nada.
Os dois seguiram o caminho por um tempo sem trocar uma palavra, até que Beatrice quebra o silêncio:
— Por que está tão quieto? Ainda está pensando em tudo aquilo?
Allen acenou com a cabeça
— Amanda disse uma coisa que não faz sentido. Como ela poderia me conhecer desde que eu nasci? Meu pai nunca me falara dela. E outras coisas também não fazem sentido, como o fato de você estar aqui comigo agora. Se você fosse uma evocação, não poderia se afastar dela. Porém, se você fosse uma coruja normal, só com o dom de falar, não estaria viva agora. Você mesma disse que passou a vida me vigiando junto de Amanda. Corujas não vivem tanto tempo. Você não é fruto de uma magia simples. O que é você?
— Primeiro, não se refira a mim como um objeto. Eu entendo como você está confuso, porém acalme-se. Eu sou sim uma coruja normal. Amanda ainda não te contou toda a verdade, mas vocês logo se verão de novo. Acredite nela quando ela disse que você receberá todas as respostas no baile. Um destino grandioso aguarda você e seus amigos. Porém não contarei mais por ora. Primeiro porque eu não quero estragar a surpresa. Segundo porque...
— Allen, aí está você — ouviu uma voz chamando. Era Alicia, sua mãe, o chamando — Estava preocupada. Ninguém viu você saindo.
Quando avistou sua mãe, percebeu que havia voltado para a estrada. Todos os homens já estavam acordados e prontos para prosseguir a viagem assim que Allen retornasse.
— Só um momento, minha mãe. — Respondeu o príncipe e se virou para a Coruja. Porém a mesma já havia desaparecido.
— Onde você estava, filho? — Indagou a rainha.
— Fui até o rio Graam, mamãe. Vocês estavam dormindo, então fui até lá para me refrescar um pouco. Depois vi uma coruja e a segui. Daí eu conheci uma pessoa, mas falo sobre isso mais tarde.
E estava subindo na carruagem quando ouviu em sua cabeça uma voz. Era Beatrice falando:
— Até logo, Allen. Se precisar falar comigo ou com Amanda, só diga meu nome em alto e bom som. Eu te ouvirei.
Ao ouvir essas palavras, sorriu e voltou a pensar.
O dia havia se passado e já começava a anoitecer quando Allen finalmente começou a encaixar todos os fatos em sua cabeça, porém para adquirir mais informações e confirmar sua teoria, necessitava confrontar seu pai.
Rei Louis estava conversando com Alicia, ao que parecia, sobre mudanças no reino. Allen esperou o rei terminar de falar e chamou:
— Pai, quem é Amanda?
Louis olhou para Allen surpreso e em seguida trocou um olhar assustado com a mulher.
— De onde você ouviu esse nome, filho? — Perguntou a rainha aparentemente tensa.
— A mulher que conheci na floresta tinha esse nome. Ela também tinha uma coruja falante e disse que me conhecia desde que nasci.
— Filho, tens absoluta certeza que seu nome era Amanda?
— Tenho sim. Foi esse nome que ela me disse. Ela tinha uma bela pele morena, cabelos crespos e curtos e olhos escuros, mas ao mesmo tempo brilhantes, como uma noite estrelada. Ela também era acompanhada por uma coruja falante chamada Beatrice.
Os pais do garoto se olharam novamente e Louis respondeu:
— Sim, filho. Ela é uma mulher que conheci pouco tempo antes de você nascer. Ela realmente tem te observado durante esse tempo. Porém não posso falar muito mais. Apenas saiba que você terá respostas para todas suas perguntas no baile.
— Sim, o baile. — Respondeu Allen rapidamente. — Amanda comentou sobre ele. Ela disse que além de receber minhas respostas, minha vida mudaria muito após o baile.
— Sim, é o que parece, mas eu e sua mãe também não sabemos muito disso também. Desculpe-nos.
— E sobre meus amigos? Eu os conheço há cerca de dois anos. Por que só agora está acontecendo essa festa?
— Filho, só posso te dizer uma coisa: Conhecê-los não foi algo casual. Tudo já estava destinado. Você é inteligente. Deve ter percebido alguma semelhança entre todos vocês. — E Allen sabia do que seu pai estava falando. — A data de seus aniversários. Não é coincidência todos terem nascido no dia treze, porém cada um em um mês diferente. Porém isso também será explicado no baile. Você tem mais alguma pergunta?
O príncipe ia negar, porém, no mesmo momento, teve um lampejo de memória. Lembrou de um dia em que estivera na casa de Oliver. Em sua casa haviam muitos quadros. Em um deles havia uma alta e linda mulher de pele morena. Oliver percebera o interesse do amigo e contou que aquela era a Deusa da Sabedoria e que seu nome era...
— Amanda... — Disse Allen em voz baixa. Então olhou para seus pais. — Sim, eu tenho mais uma pergunta.
— O que os Deuses querem de mim?
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