O Jogo do Desafio Duplo - Leoa & Rhanylla

1 One da Leoa - A Diferença Entre Mim e o Espelho


Notas iniciais
Nome: A diferença entre mim e o espelho Mínimo - Máximo de Palavras: 1500-3500 Música: Gasoline - Halsey Tema: Transexualidade Personagem: Allan Silva

Já fazia bastante tempo que nenhuma palavra era dita naquele canto mais afastado da lanchonete, Eliza podia notar que Allan estava nervoso já que de cinco em cinco segundos o som da bolinha do piercing que ele tinha na língua se chocando com os dentes indo de um lado para o outro quebrava o silêncio, mesmo assim não conseguia pensar em nada para dizer e permanecia apenas olhando para as íris cor de avelã do outro lado da mesa.

— Liz, fala alguma coisa, to quase tendo um infarto aqui! — O garoto exclamou baixo para não chamar atenção desnecessária.

— Calma. Eu to tentando digerir isso. — Ela respondeu parando de encará-lo.

— Se quiser eu te explico desde o começo. Talvez fique mais fácil pra você entender.

— Eu agradeceria muito, an... Como... Como é mesmo o seu nome?

— O meu nome é Allan. — Um sorriso miúdo, porém genuíno lhe tomou os lábios. — Obrigado por respeitar isso.

— Com todas as vezes que você me apoiou em quatro anos de amizade, é o mínimo que eu poderia fazer. Allan.

Por alguns segundos, ele apenas admirou Eliza com certo orgulho de si mesmo por sua escolha de melhor amiga, porém, antes que ficasse estranho, pigarreou e disse. — Eu acho que a primeira vez que me senti confuso sobre o que sou foi aos cinco ou seis anos de idade, não tenho certeza. Eu odiava prender o cabelo porque me deixava com dor de cabeça, mas solto ficava voando na cara o tempo todo, me atrapalhava na hora de brincar e eu odiava também, então decidi pedir pra minha mãe pra cortar, ela negou e eu fiquei insistindo até que ela falou “Se eu cortar, você vai ficar parecendo um menininho. É isso que você quer?”, aí eu me calei porque não entendi o que ela quis dizer com isso. Depois daquele dia, a ideia de cortar a juba não saiu da minha mente, aí eu pedi de novo, de novo, de novo e de novo até atingir o limite da paciência dela e, pra me ensinar uma lição, ela cortou curto, mas tipo bem curtinho mesmo. Só que ao contrário das expectativas, eu adorei. Nunca tinha me achado tão bonito e me sentido tão bem olhando no espelho antes. Mas ao mesmo tempo me sentia mal porque a mãe ficava resmungando sobre eu parecer um menininho e eu ficava confuso por achar que eu não devia me sentir bem assim. Me fazia sentir todo errado.

— Nossa. Eu não sabia que começava tão cedo. — Eliza estendeu a mão por cima da mesa para segurar a do amigo que parecia um pouco emotivo com a história. — Deve ter sido difícil pra você.

— Um pouco, mas com o tempo a gente aprende a lidar. — Allan sorriu para disfarçar. — Além do que, de acordo com a lei da vida, complicado mesmo foi a puberdade.

— Tem certeza que quer falar sobre isso? — Questionou erguendo as sobrancelhas ao perceber a mão sob a sua tremer de leve.

— Tenho, Liz. Já guardei tudo isso pra mim mesmo por tempo demais. — O tom firme usado naquela frase convenceu e Eliza sorriu como um sinal para que Allan continuasse. — Ter doze anos foi uma desgraça. Nessa época que os meus peitos começaram a crescer. Eu negava, negava e negava, mas a minha mãe ficava dizendo que tava crescendo sim e eu já tava virando uma mocinha. Foi horrível, sério. Mas com treze foi bem pior, minha primeira menstruação veio. Nunca tinha me sentido tão humilhado na minha vida. E se não bastasse, os peitos cresceram ainda mais e, mesmo sendo relativamente pequenos, fui obrigado a começar a usar sutiã. Por isso que só tem foto minha dessa época com casaco. Casaco meio que virou cueca pra mim, eu usava o tempo todo, lembra? Não importava o clima que fizesse, não importava onde eu estava, eu só não podia deixar perceberem que eu tava usando a porcaria do sutiã. Já cheguei até a desmaiar na educação física uma vez.

— Para, respira um pouco. — Eliza pediu ao notar o brilho de lágrimas nos olhos cor de avelã. — Não precisa contar tudo de uma vez.

— Não se preocupa. — Allan apertou de leve a mão dela para acalmá-la. — Quanto mais rápido eu passar por essa parte sad da história, mais rápido eu chego na parte em que as coisas começam a melhorar.

— Então tá bom, vou tentar parar de interromper. Só não quero que se force a ir além do seu limite.

— Relaxa, Liz. — Sorriu e piscou. — Mesmo com esse episódio do desmaio, continuei usando casaco até que sem querer eu descobri que top disfarça os peitos. Vou te falar, eu fiz um estoque. Com blusa larga era melhor ainda. Aí vinha a hora de tomar banho, eu tinha que encarar meu corpo nu e lembrar que ele é assim. Era muito confuso, eu sempre chorava no chuveiro. E às vezes chorava antes de dormir também.

— “Ava”?

— Ok, talvez de quando em vez eu ainda chore. — Allan revirou os olhos e coçou atrás da orelha. — Mas as coisas melhoraram muito depois dos quinze. Papai finalmente colocou internet em casa e depois de ouvir Gasoline, amém Halsey, em looping eterno por um tempo, eu decidi dar uma chance pros canais de youtube e comecei a ver vídeos, um foi levando a outro até que eu descobri canais LGBT e pró-LGBT. Na verdade, primeiro foram os canais de gays e lésbicas, então eu achei que fosse só uma lésbica dyke mesmo, parei um pouco de me sentir um et, cortei o cabelo e me fiquei mais a vontade me vestindo com o meu estilo e tals. Foi uma época boa essa, mas ainda faltava alguma coisa, eu sentia. Então eu descobri uma coisa maravilhosa que mantenho na minha vida até hoje que se chama Canal das Bee, lá eles abordam assuntos de todas as letras do LGBT com convidados que tem autoridade pra falar. E, nossa cara, descobrir a existência da transexualidade foi incrível, sério. Simplesmente deu um estalo na minha cabeça e de repente toda a minha vida começou a fazer a sentido. Claro! Eu nunca fui aquela pessoa que queriam que eu fosse. Eu era o Allan o tempo todo, só não sabia disso. E agora que eu sei, quero que as outras pessoas saibam e me vejam como sou.

— Tá dizendo que você vai se assumir pra todo mundo? — Eliza exclamou arregalando os olhos, depois diminuiu o tom para que a atenção dos curiosos das outras mesas que fora chamada sem querer voltasse a se desviar. — Até a sua família?

— Ué, claro. Eles vão precisar saber quando eu for fazer o tratamento, vou parecer cada vez mais com o que sou por dentro.

— Você vai fazer tratamento hormonal também? Allan... Isso não é perigoso?

—Olha, Liz... É sim. Um pouquinho. — De novo o garoto coçou atrás da orelha soltando a mão de Eliza para enxugar o suor na calça jeans, depois voltou a segurar fazendo massagem de leve com o polegar. — Todo tratamento médico tem seus riscos e, pra mim, esse... Corpo é uma doença. Se você pudesse ver como é gritante a diferença entre mim e o espelho, se pudesse sentir o que eu sinto, você entenderia que isso é uma coisa que eu preciso fazer pra me reconhecer.

— Eu posso não entender perfeitamente, mas eu sou a sua melhor amiga a tempo o bastante pra sentir o que você sente só de olhar nos seus olhos. É claro que eu vou te apoiar na tua decisão, só quero te ver bem. — Allan sorriu grande, mas ergueu as sobrancelhas perguntando sem precisar usar palavras o que mais estava preso na garganta dela. — É que me preocupa, sabe? Tanto porque vai ser perigoso quanto porque eu sei que a sua mãe vai surtar.

— Vai mesmo. Oh se vai. Se tem uma coisa que a minha mãe vai fazer é surtar. — Allan torceu o rosto em uma careta de descontentamento. — E por você estar me dando suporte, ela ainda vai ficar te culpando, quer apostar?

— Eu sei que vai, conheço a peça. Até porque até hoje ela ainda que a gente namora e eu que te influenciei a “ser sapatão”. — Eliza riu fazendo o amigo rir também.

— Mas, olha, depois de me dar esse apoio todo até que tá surgindo uns feelings aqui no peito. Se tiver a fim pode rolar alguma coisinha entre nós.

— Uh que nojo. — Foi a vez de Liz fazer careta, enquanto soltava a mão do amigo. — Me respeita, dá uma boa olhada no tamanho do meu sapato, moço. Meu negócio é mulher.

— O meu não. #Gaaaay.

Allan riu mais uma vez e sentiu que estava bem. Bem de verdade depois de muito tempo. Sabia quem era e, principalmente, sabia que tinha alguém com quem contar. Não que tivesse dúvidas antes, mas agora tinha plena certeza.

Claro que não seria tudo um mar de rosas, dali para frente sua vida seria uma luta constante dia após dia para poder ser quem era, entretanto, só de ter ciência de que não precisava lutar sozinho já era um motivo para estar feliz.