“Contempla Baldwin! Os novos guardiões.”- disse alegremente o Oráculo, mostrando uma imagem ao elfo.

“Não falta o Killian?”

“De facto, meu caro irmão. Ao que parece Killian é mais reservado e introvertido do que aquilo que esperávamos inicialmente. Mas vai haver quem o puxe para cima.”

“Conhecem-se… Mas ainda não estão unidos.”- constatara Baldwin. O elfo era um ser pouco mais alto que um humano normal, com cerca de um metro e setenta e cinco de altura, e de longos cabelos loiros cacheados. Poderia ser imensamente belo e luminoso, não fosse o facto de ostentar duas grandes cicatrizes, mais propriamente um X , que lhe dividiam o rosto. Os grandes olhos cinzentos carregavam uma melancolia e uma energia dentro de si que quase se contradiziam.

“Não terás que esperar muito! O segredo cedo será revelado e os cinco acabarão por ficar juntos.”

“Cinco? Mas, meu senhor, pelas minhas contas, estão presentes seis humanos.”

“Um deles irá atraiçoá-las, meu irmão. A hora da união será também a hora do engano.”

"Quando lhes divulgara a profecia, senhor?"

"Deixemos pormenores para depois, meu irmão. Fiquemos felizes pela iminente união dos nossos jovens."

*

“Alana! Alana!”

“Eu estou bem, Sam. Foi só uma quebra de tensão.”- tranquilizou-o a jovem. Sentia uma repulsa enorme dentro de si, uma vontade de explodir internamente incapaz de controlar. Tinha medo de expelir algo enquanto servia os clientes.

“Vai para casa. Eu trato disto aqui.”

“Não. Eu fico e ajudo-te.”

“Com essa cara só vais assustar os clientes.”- brincou Sam, passando a mão no rosto da filha.- “Anda, não quero que faltes logo no primeiro mês às aulas. Consegues ir até casa?”

“Acho que sim.”

“Boa. Toma, leva o meu carro.”- disse entregando-lhe as chaves.

A rapariga afastou-se do balcão cambaleando. Tinha que aguentar até chegar a casa, pelo menos. Empurrou a porta do estabelecimento com dificuldade e saiu para o exterior. O ar limpo e respirável purificava-lhe os pulmões

“Precisas de ajuda?”

“Não, eu estou bem.”- respondeu com dificuldade.

“Não és lá grande coisa a mentir, deixa-me que te diga.”

Um fardo vulto de cabelo cor violeta aproximara-se a passos confiantes e seguros. Alana não conhecia a rapariga, mas não pareceu ser do tipo de pessoa que aceitasse um não facilmente.

“Eu estava lá dentro, no bar. O meu nome é Alice.”- declarou veemente a jovem.

“Prazer, sou…”

“Alana. Sim, eu sei.”

“Como é que sabes?”- indagou espantada.

“Eu sei muitas coisas sobre ti.”

“Isto está a começar a ser estranho.”– pensou Alana, começando a ficar assustada.

“Isto é, és a rapariga nova de St. Laurel. É uma cidade pequena sabes? Mais dia, menos dia, tudo se sabe. As pessoas aqui gostam imenso de fofocar, de pegar no mais pequeno pedaço negro, numa simples migalha da tua existência e fazer um bolo de mentiras e situações embaraçosas pelas quais nunca passaste. De qualquer das maneiras, não podes ir sozinha para casa. Ainda morres, ou pior, podes magoar alguém.”

“Tudo bem, mas eu conduzo.”- afirmou Alana.

“Por mim está ótimo.”

As duas raparigas entraram no carro e puseram-se em marcha. O caminho até casa dos Dixon não era longo, apenas uns dez minutos de carro. A cidade estava deserta. Alguns seres noctívagos habitavam naquele silêncio ensurdecedor: dois ou três mochos numa árvore, alguns outros pássaros com insónias, grilos que passeavam nos jardins das casas e traças que seguiam a luz como um religioso devoto segue Deus sem se questionar.

“Então Alana estiveste mesmo em Espanha?”- Alice odiava ter que fazer conversa de circunstância. Quanto mais naturais as coisas fossem, melhor para ela.

“Sim, sete anos.”

“Hum, e eles lá têm aquele espetáculo das touradas. Não é? Ou será no México? Bah, é tudo o mesmo suponho.”

Alana ia contra-argumentar quando algo quase fez com que o carro se despistasse. Um individuo tinha-se atravessado no meio da estrada, sem mais nem menos. A rapariga deu uma forte guinada no volante do veículo, pressionando ao mesmo tempo, o travão, na esperança de não atropelar aquele ser.

“Estás bem, Alice?”

“Sim. E tu?”

A rapariga acenou afirmativamente e tentou tirar o cinto do carro mas estava preso. O individuo aproximava-se, fundindo à sua passagem as luzes dos candeeiros, a única fonte de luminosidade que permitia distinguir as suas feições. Tentava cada vez mais freneticamente soltar-se do cinto mas parecia inútil.

“Porque é que não te abres? Abre-te, porra! Alice, o teu …”- mas não chegou a terminar a frase. A colega de viagem tinha desaparecido.

Alana podia sentir o seu estomago a contrair-se e o seu coração a ficar apertado. Há uns minutos Alice estava sentada no lugar ao lado do dela e do nada desaparecera. O que iria dizer aos pais da rapariga? Pior, o que iria dizer à polícia? Aqueles eram os pensamentos que lhe assaltavam a mente, indefesa, vulnerável e desprotegida. Sentiu, de súbito, o veículo a tremer debaixo dela. Deitou a cabeça pela janela: estava a levitar.

“Põe-me no chão!”- exigiu.

Mas sem efeito. A figura indistinguível apenas fez sinal para que ela descesse.

“Claro, queres o quê? Que pratique queda-livre?”

“Vamos Alana, tu consegues.”

“O quê?”- aquela voz era-lhe familiar.

“Alice?”

“Sim. Queres fazer o favor de descer daí? Não temos a noite toda para isto!”

“Mas do que é que estás a falar?”

“Desce daí e falamos.”

“E eu por acaso tenho asas?”

“Bem, parece que temos que dar um pequeno empurrão à coisa.”- disse uma segunda voz. As luzes dos candeeiros mais próximos fizeram um barulho seco e acenderam-se, permitindo distinguir duas outras pessoas: um rapaz e uma rapariga.

“Hey, eu conheço-te!”- gritou Alana.

“Fico feliz que a minha beleza te tenha tocado, mas daí não deves de conseguir apreciá-la muito bem. Alice, queres fazer as honras?”- perguntou Ethan, imitando uma pequena vénia em sinal de falsa cortesia.

“Terei todo o gosto.”- replicou a rapariga, fazendo um gesto com os braços que Alana não conseguiu distinguir do que se tratava. Enquanto o efetuava, era como se braços invisíveis empurrassem e esmagassem o automóvel com ela lá dentro. Tinha que fazer algo, ainda podia morrer graças àquela brincadeira.

“Alice, eu juro que te mato!”

“Para isso é preciso que me apanhes.”- desafiou-a enquanto ria.

“Eu vou-te apanhar pequena vadia!”- pensou Alana.

De repente, Alice começou a tossir compulsivamente, sentindo os pulmões a comprimirem-se à medida que tossia. O sangue saía-lhe voluntariamente pela boca e pelo nariz.

“Alice! Alice! Que se passa?”

“Nã… Não sei.”- respondeu limitadamente, agarrando-se à garganta.

“Eu disse-te para me fazeres descer.”

Os três adolescentes olharam para trás. Alana flutuava a cerca de um metro do chão. Os olhos estavam negros como a noite e os seus cabelos cor de sangue. Sentia um forte pulsar no seu corpo proveniente do exterior, como se o líquido que circulava pelo sistema vascular fosse bombeado através de uma bomba externa: o coração de Alice. Quanto mais fraca Alice se tornava, mais forte era pulsar que Alana sentia em si.”

“Eu disse-te que conseguias…”

“Alana, para com isto.”- suplicou Phoebe.

“E ela? Parou quando eu pedi? Não. Portanto: vamos Alice, tu consegues.”– troçou, soltando uma gargalhada fria e indiferente.

“Aquam, adjuva nos.”

Uma onda proveniente da terra rebentou com o solo, arrastando consigo Alana que embateu fortemente contra o tronco de uma oliveira que ali se encontrava estacionada. O poder que tinha sobre Alice desaparecera e finalmente a garota podia respirar.

“O que vamos fazer com ela?”- perguntou Ethan pegando em Alana ao colo.

“Vamos levá-la para dentro e esperar que ela acorde. Temos muito que lhe explicar.”

Notas finais
TRADUÇÃO PARA PORTUGUÊS: Aquam, adjuva nos.”- água ajuda-nos.