Senti uma raiva começar a me corroer por dentro, nunca pensei que sentiria raiva de um fantasma, mas esse maluco assustou a mim e a minha namorada, e ainda nós fez brigar! Se ele não estivesse morto eu o mataria!

- Afinal o que você quer de nós?

J-O-G-A-R.

- Já estamos jogando esse jogo imbecil! O que você quer mais? – Minha voz era de raiva, talvez não fosse o melhor tom de se agir naquela hora, mas eu estava sem paciência.

Então uma panela que estava sobre a pia veio contra mim, abaixei a cabeça que passou raspando sobre ela, então se chocou com a parede.

M-A-I-S-R-E-S-P-E-I-T-O-N-I-K-K-I.

Engoli seco, fiquei estático nem soube o que responder para aquele maluco, ele tinha acabado de jogar uma panela em mim! Uma panela que estava à mais de um metro! Meus olhos vasculharam toda a cozinha, “Será que ele poderia fazer o mesmo com uma faca?”. Fiquei em silencio pensado, nenhum se atrevia a falar mais nada, foi então que Alejandro quebrou a quietude que fazia.

-Qual é o seu nome? – ele perguntou impondo um pouco de respeito ao defunto, certamente estava com medo de ser atingido por uma panela também.

Então o ponteiro se mexeu novamente formando as malditas letras de seu nome.

M-E-U-N-O-M-E-E-J-O-N-H.

- Ok Jonh, prazer em conhecer, mas agora pode nós liberar? – Falei um pouco ríspido, não conseguia disfarçar a raiva que estava sentindo.

O ponteiro foi para um canto oposto do tabuleiro que tinha ido antes que agora estava escrito NÃO.

-Por favor! Deixe nos ir! – Cass falou, pela primeira vez desde que recomeçamos a nossa “brincadeira”, mas sua voz era triste e desesperada – Não sei o que fazer! Não sei o que você quer!

Cortou-me o coração escutar o tom de voz dela, triste. Comecei a me encher de remorso e fúria. O que aquele maluco queria afinal?!

Mais uma vez o ponteiro foi para o espaço que ocupava a palavra NÃO.Não aguentava mais ver Cass daquele jeito, chorando, foi então que me decidi e fiz uma proposta ao fantasma que se chamava Jonh.

-Olha, eu jogo o jogo que você quiser... Apenas deixe Cass e Jane irem!

O ponteiro não respondeu por alguns momentos, então ele começou a se mexer e a formar mais novas palavras.

O-T-I-M-O-P-O-D-E-M-S-A-I-R

Cass olhou para mim apavorada, mas assenti a cabeça para ela esperando que não transparecesse meu medo que estava sentido. Jane foi a primeira a se levantar, então puxou Cassidy, que ainda olhava para mim com seus olhos molhados com as lagrimas, fechei os olhos e esperei que o ponteiro mexe-se novamente.

Ele não mexeu.

Abri os olhos a tempo de ver Cassidy e Jane saírem da cozinha e entrar no corredor, os quadros abajures e outras coisas que enfeitavam aquele local se agitavam muito bruscamente. Maldito fantasma! Ainda estava assustando elas, foi então que algo veio a minha mente. “Será que mesmo que ele nos deixe ir, Nós iremos ficar em paz com tudo isso? E se ele continuar nos assustando?!” Balancei minha cabeça pra tentar desviar meus pensamentos, aquele maldito teria que nos deixar depois de tudo isso.

A porta que dava para o corredor finalmente se fechou, deixando Alejandro e eu sozinhos para jogar com Jonh.

- E então o que vai ser? – Como sempre Alê quebrou o silencio, mas dessa vez seu tom de voz era ríspido, poderia apostar que ele também começava a perder a paciência com o defunto – Vamos! Nós iremos jogar!

O ponteiro se mexeu muito rápido para a extremidade do tabuleiro, não conseguimos evitar que ele sai-se. Tudo ficou muito quieto, comecei a achar que ele tivesse finalmente voltado para só Deus sabe onde tivesse saído aquilo.

Foi então que algo estranho e assustador aconteceu na minha frente diante dos meus olhos. Alejandro caíra no chão e começava a se debater, fiquei apavorado e não sabia o que fazer, de repente as luzes se apagaram novamente, e em questão de poucos segundos elas acederemfoi quando o vi, lá estava ele parado e de pé olhando para mim a poucos centímetros.

Outra regra do tabuleiro me veio em mente:

“Nunca permita que os espíritos levem o ponteiro para as extremidades do tabuleiro de forma que possam sair dele dessa forma. É assim que ocorre a possessão.”

Possessão.

Alejandro estava possesso pelo espírito de Jonh. Ele não parava de olhar para mim, seus olhos estavam mortos e frios, um olhar que colocaria medo até em Jason do filme sexta-feira 13.

- O que foi? Pensei que jogariam o jogo que eu quisesse...

Jonh começou a falar por Alê, sua voz era tão morta e fria quantos seus olhos, eu estava tremendo de medo, aquilo ali não era parecido nada com um filme, era muito pior. Meu amigo possesso na minha frente por um fantasma de um louco. Eu tinha medo do que poderia acontecer a partir de agora.

- O que você... – comecei a gaguejar e atropelar as palavras – fez com ele?

Seus lábios se abriram mostrando um sorriso sádico.

- É chato falar através de ponteiros sabia? Mas não se preocupe, seu amigo ficará bem, é só o tempo em que eu explico o que vocês iram ter que fazer.

Olhei para ele atentamente esperando que continuasse a falar, demorou alguns segundos para que isso acontecesse mais finalmente aconteceu.

- Eu nunca gostei muito da cozinha sabia? – Ele se mexia me rodeando e olhando para a cozinha – Muito aberta, mas até que ficou melhor.

Franzia o cenho para ele, irritado, confuso e com medo. Esse cara realmente sabia como colocar medo nas pessoas.

- Bom – ele continuara com aquela voz fria – De todos os cômodos dessa casa, sem duvida o porão é o melhor – Ele parara de falar e começou a mim encarar com aquele olhar e sorriso sádico no canto do rosto.

De repente a porta o qual as meninas tinham saído antes se abriu.

- Você quer que... – parei um pouco para analisar – a gente vá pro porão?

-Boa sorte!

Foi só o que aquele maldito disse antes de pegar o tabuleiro e sair correndo pela porta do corredor. As luzes se apagaram novamente alguns segundos depois, aquele louco realmente gostava de mexer com as luzes daquela casa. Fiquei parado, ainda analisando confuso, por que ele quer que eu vá para o porão? Com certeza é para colocar mais medo. Levantei furioso e disposto a ir andando para o porão quando umas dez panelas que estava no armário vieram contra mim.

Não consegui me esquivar delas e caí no chão. Outros objetos vieram contra mim, se chocando comigo. Me levantei o mais rápido possível quando ele começou a usar facas, subi aos pulos a escada procurando algo que podesse ser a entrada do porão. Então eu olhei ao fundo, uma escada que levava pra um buraca na parede, tinha que ser lá!

Corri para escada, os objetos atrás de mim ainda me perseguiam, uma faca conseguiu cortar no braço, outra na perna, mas não parei se quer um momento. Então finalmente cheguei a um lugar escuro e úmido, aquele era o porão!

Analisei os cortes no meu braço, era profundo e sangrava bastante. Pressionei minha mão contra ele e fui em direção a um canto do porão onde eu vi Alê com o dedo em cima do ponteiro do tabuleiro, rodeados de castiçais e velas.

À medida que fui me aproximando pude ver que Alejandro também sangrava bastante, o que será que tinha acontecido? Foi então que me sentei e coloquei o dedo em cima do ponteiro com a mão suja de sangue.

- O que houve com você? – perguntei preocupado com o Alê.

Ele ficou em silencio e pelo canto do olho apontou uma coisa atrás de nós, me virei para ver o que ele estava querendo dizer. Era um par de olhos escuros e penetrantes que nos observava atrás de nós, contornado por uma forma escura que mais parecia uma pessoa curvada observando-nos. Era ele! Era o Fantasma de Jonh! Fechei os olhos e virei à cara, não queria mais ver aqueles olhos, foi então que Alejandro falou.

-Esse desgraçado mandou com que eu cortasse o a mão e colocasse álcool! – sua voz era furiosa, nunca tinha visto ele falar assim, então ele deu uma pausa, fechou os olhos e completou – E também disse para você fazer o mesmo caso chegasse.

Engoli seco. Caso chega-se? Então ele pretendia mesmo me matar? Fantasma maldito! Meu medo agora começava a se transformar num ódio. Minhas atenções foram desviadas quando o ponteiro começou a se mexer.

E-N-T-A-O-A-I-N-D-A-A-C-H-A-I-S-S-O-U-M-A-B-E-S-T-E-I-R-A-N-I-K-K-I

Não,definitivamente não.

P-E-G-U-E-A-F-AC-A-E-F-A-Ç-A-C-O-M-O-O-S-E-U-A-M-I-G-O

Olhei para Alejandro com uma interrogação enorme na testa. Alejandro me respondeu apenas com um olhar para a faca suja de sangue perto do tabuleiro.

Peguei a faca ainda suja com o Sangue do Alê, e tirei o dedo do ponteiro, de uma vez só eu cortei a minha mão. Alejandro fechou os olhos para não me ver cortando minha própria mão.

O ponteiro se mexia novamente indo pausadamente para as palavras.

A-G-O-R-A-O-A-L-C-O-O-L

Meu braço latejava junto com minha mão. Aquele maldito falava mesmo sério, peguei o álcool mas antes de jogar no corte que havia feito na minha mão fiz questão de lhe dizer um palavrão.

O álcool doía muito em minha mão, mordi meus lábios para não gritar de dor.Escutei um riso no fundo do porão, o desgraçado parecia estar se divertindo. A risada do fantasma fez com que eu me vira-se para encarar mais uma vez aquela imagem perturbadora, dois olhos na escuridão, um formato de pessoa esguia e curvada em pé que parecia nos observar desde quando nós chegamos ao porão. Era assustador, me virei de novo. Mas a cada barulho que ele fazia meus olhos se jogavam para lá.

O tempo se passava, e ficava cada vez sem esperança de sair dali, pelo menos vivo. Coloquei novamente o dedo sobre o ponteiro que começou a se mover, formando novas palavras.

S-A-L

“Sal? O que será que ele quer dizer com sal?”

O-S-E-U-B-R-A-C-O

- O que?! Só pode estar ficando louco! Você quer que eu coloque sal no meu braço?!

O ponteiro se moveu para o local que estava escrito a palavra SIM.

Comecei a ficar muito mais furioso, a dor da minha mão ainda não tinha parado e esse maluco queria me causar mais uma!

“Que viagem maravilhosa amor!” pensei com raiva, mas Cass não tinha nada haver com isso, não foi ela que quis brincar disso. Tinha que aguentar o máximo possível. O ponteiro se mexia novamente formando novas frases.

Q-U-E-R-O-Q-U-E-M-E-M-O-S-T-R-E-T-A-M-B-E-M

- Como assim, quero que me mostre?

A-T-R-A-S

Meu sangue fugiu do meu rosto mais uma vez, me virei para encarar novamente aqueles par de olhos. Então era mesmo ele! Não era fruto da minha imaginação, aquele era o fantasma de Jonh. Como sempre fazia virei meu rosto para não ficar com mais medo do que já estava, comecei a encarar o sal e ao lado dele estava o álcool. Minha mão latejava ainda de dor, comecei a estender ela para pegar o sal.

- Força Nikki! – Alejandro finalmente falara alguma coisa, olhei para ele, lembrando que fazia já algum tempo que não falava nada – Vamos lá cara, você é forte vai agüentar isso!

Ele falava, mas não olhava para mim, pelo menos não diretamente, seus olhos estavam focalizados em outra coisa. Percorri seu olhar e vi. Era o Álcool! Voltei olhar para o Alê que agora me encarava com um sorriso no canto dos lábios e com uma mão esticada a um castiçal perto dele. Me virei mais uma vez para encarar o fantasma, mas dessa vez não tinha medo nenhum, sorri para ele maliciosamente.

Ainda com a mão estirada para o sal eu avancei mais um pouco onde estava o álcool e o derramei em cima do tabuleiro, rapidamente Alejandro tirou o dedo do ponteiro jogou o castiçal em cima que em poucos segundo começou a pegar fogo!

Nos levantamos bem rápido também e corremos para a saída do porão. Um grito estridente vinha na direção do fantasma, virei meu rosto para encara-lo, assim como o tabuleiro ele estava pegando fogo, seus olhos se encontraram com os meus, agora aquele olhar frio era de fúria.

-Pode ficar com seu sal! Imbecil! – Debochei no tom mais sarcástico e triunfante possível, depois voltei a correr.

Os gritos de Jonh ecoavam por toda a casa, os móveis se agitavam mais bruscamente do que antes, tudo tremia o chão, as paredes, não parei para olhar mais nada daquela maldita casa onde eu passara o dia mais assustador de toda minha vida.

E então quando finalmente saímos nos deparamos com uma viatura policial e com uma ambulância, todos estavam pálidos olhando para uma janela que tinha certeza de que era do porão. Os gritos furiosos de Jonh não paravam, ele batia com muita força na janela e gritava, era uma cena assustadora de se ver, mas não foi nada comparado ao que eu vivi hoje.

O fogo se alastrou pela casa inteira, e já não conseguia ver mais o fantasma, mas os gritos eram fortes e não pararam até que o incêndio toma-se a casa toda.

Cassidy veio me abraçar logo depois que saí da casa, ela parecia apavorada e preocupada, eu retribui o abraço e sussurrei mais uma vez no ouvido dela de que estava tudo bem, tudo ficaria bem.

Pelo menos assim eu esperava, tinha aprendido minha lição, e não sei se exatamente se superaria tudo isso, mas de uma coisa eu tenho certeza. Não se deve brincar com aqueles que já se foram, porque nem todos que morrem vão para o céu.

Considerem-se avisados.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!