Quatro meses da minha vida foram passados com o jogo. Pudera ser quatro anos; quanto a mim, sinto que não importaria se fossem dias, meses ou anos: a imagem que permaneceria em mim ao final seria a mesma. Para mim, porém, foram quatro meses.

Toda vez que ia a universidade, ouvia falar deste tal jogo que tanta gente insistia em jogar. Não vou mentir que sentia uma certa curiosidade, mas não sentia vontade de jogar: isso me era indiferente. Mas descobri que não é possível manter a indiferença para sempre; o jogo parecia estar chamando as pessoas, espalhando-se como um vírus, ou um meme, e eventualmente, ele apareceu na minha frente. Um grande amigo, com quem compartilhei muitas gargalhadas, um belo dia apareceu me convidando para jogar o bendito jogo com ele. Estávamos eu, ele e um outro amigo dele sentados numa mesa próximo à cantina. Os dois ficaram conversando animados e eu acabei cedendo à oportunidade de jogar.

De início, o jogo não me era tão interessante: era organizado em partidas — algumas vezes eu ganhava, mas a maioria perdia. Ainda era inexperiente. Foi depois de algumas partidas, talvez na segunda semana, que eu decidi começar a pensar sobre o jogo e planejar minhas ações. Mal sabia eu que já havia caído na armadilha. Tão logo comecei a fazer isso, o jogo se tornou uma disputa, onde eu lançava toda uma rede de expectativas e esperava para ver se eram cumpridas ou não; e toda vez que falhava, eu pensava mais e mais sobre como conseguir superar o problema.

Durante as partidas, eu conversava com meu amigo e outro pessoal — porque, afinal, sempre jogávamos juntos: o jogo era online. As conversas não eram bem diálogos, eram mais parecidas com o que um grupo de combatentes conversaria entre si diante de uma guerra, se pudessem de fato conversar (o som dos tiros e o nervosismo monopoliza o ambiente): numa hora eram ordens, ou então xingamentos, ou ainda brados de euforia. Mas ao final do jogo.... ao final do jogo, ganhando ou perdendo, vinha uma sensação de completude. Era como se a vida fizesse sentido: se ganhássemos, a missão estava cumprida; se perdêssemos, podíamos nos reunir para amaldiçoar o adversário ou a nós mesmos, e era divertido.

O triste, porém, era quando o jogo acabava e eu tinha que fechar a tela do computador ou me afastar dela. Porque, afinal, uma partida chegava a durar mais de uma hora, e por vezes eu jogava até duas — e se pudesse, jogaria mais — seguidas. Quando eu saía, eu lembrava não de quanta coisa podia estar fazendo naquele momento, porque aquilo era o que eu queria fazer, mas lembrava de quanta coisa faltava fazer: eram trabalhos, era ir pra faculdade, era estudo e assim por diante. Na época eu ainda não trabalhava, então pelo menos nisso as coisas estavam mais leves. Mas eu queria trabalhar, sentia ânsia disso. Mas ainda não trabalhava.

Era engraçado, porque durante o tempo que passei jogando e por um bom tempo além, tão logo eu fechasse os olhos, não era o vazio com que me deparava, nem com qualquer outra coisa: eram cenas do jogo que eu via, trechos de partidas, reais ou imaginadas, que se repetiam e tomavam minha concentração: era naquilo que eu queria pensar, eu tinha que pensar nas próximas estratégias para ganhar mais partidas.

No jogo tinha ainda um sistema de ranking, com títulos de acordo com a sua posição. E como era tentador quando se atingia um título! Dava uma sensação de evolução, uma prova da minha capacidade — mas tão logo a atingisse, não conseguia deixar de conter um pensamento invasivo, um desejo oculto que logo se apresentava, de evoluir mais um nível, de provar que meus limites vão além daquele nível. E assim eu permanecia jogando, não só pela diversão com os amigos, não só para vencer com minha própria inteligência, mas também para provar, não para os outros, mas para mim mesmo, que eu podia ser melhor. Podia ser só um jogo, mas eram necessárias habilidades reais para conquistar vitórias. E isso me movia, e me alimentava.

Durante as partidas, era como se eu fosse transportado para aquela realidade. Não sei se é a isso que chamam de "foco", mas todo o meu ser parecia estar presente naquele instante, dentro da tela do notebook, de modo que a realidade ao meu redor parecia um sonho. Durante e após as partidas, era como se eu ainda estivesse sonhando. Eventualmente aparecia o rapaz que dividia o quarto alugado comigo e me falava alguma coisa. Eu o respondia, ainda que estivesse jogando. Era estranho, porque eu ouvia e falava, e me lembrava disso — eu sabia que tinha acontecido -, mas era como se não ouvisse nem falasse; a sensação era similar a de quando se acorda pela manhã e o sonho está claro. Você sabe que o sonho aconteceu, e consegue dizê-lo, mas ainda assim, não é real. No caso da realidade a minha volta, durante o jogo, não parecia real.

E assim o tempo foi passando. Eu sabia que não conseguiria desistir enquanto não atingisse o ranking máximo: eu queria chegar no topo, eu sentia que podia chegar. Eu queria chegar por mim mesmo, e para provar para os meus amigos — os mesmos que me chamaram — que podia chegar. Comecei a ficar competitivo demais, até que um dia, nossa amizade rompeu. Eu estava obcecado, até eles, que jogavam e eram viciados, percebiam isso. Eu não podia parar; eu não queria. Mas, um dia, eu tentei parar. E nesse dia, foi como se um vazio se apossasse de mim; os pensamentos permaneciam no jogo, os olhos fechados permaneciam a ver as cenas do jogo, mas eu estava triste. Não havia conseguido ganhar de verdade. Para mim só havia dois jeitos de terminar este jogo: como vitorioso ou como desistente. Desistente, portanto, perdedor.

No quarto mês eu cheguei a um dos níveis mais altos. Nesse meio tempo, havia conseguido novos amigos, rompido com eles, achado outros amigos, mais fortes, conhecido uma garota por quem me apaixonei, mas que isso nada significou, visto que também rompemos por causa do jogo. E agora, eu estava sozinho: até o sujeito com quem eu compartilhava o quarto não conversava mais comigo. Acham que isso me fez parar? Claro que não. Parar, eu parei. Não foi também quando me olhei no espelho e me vi todo sujo e bagunçado, sem expectativa de melhorar. Não foi nada disso.

Eu parei — e parei no dia em que percebi, não intelectualmente: não foi um conselho, não foi que eu lesse em qualquer lugar, mas quando as palavras saíram da minha própria mente e se refletiram em meu rosto, na minha expressão e nos meus olhos, que não havia vitória. O raciocínio foi complexo, não sou capaz de repeti-lo, mas lembro que, depois que me veio essa percepção, eu comecei a pensar: "é verdade: mesmo que eu chegue ao nível mais alto do ranking, ainda assim, eu teria que continuar jogando para permanecer nele e não ser superado por ninguém". Eu permaneceria para sempre ali. E não havia mais amigos: só havia eu e ninguém mais. Os outros eram ou adversários ou fracotes, n00bs, que nada representavam para mim. Mas... eu parei.

Sim, essa foi a minha vitória. Não havia outra; não venci no jogo, mas venci o jogo. Para mim isso basta. Larguei o jogo; agora havia novos desafios, ainda piores e mais complexos, que faltavam ser conquistados, um a um.

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