O Jogo Maldito
1 20 de Abril de 2012
Notas iniciais
20 de Abril de 2012 – 00h30
Meu nome é Pedro Oliveira Neves, tenho dezoito anos e estou escrevendo hoje para preservar o que ainda resta de minha sanidade. Registrar minhas impressões por meio da escrita foi o modo mais seguro que encontrei de desabafar sem que quisessem me colocar em uma camisa de força.
Se alguém um dia encontrar isso, e esse caderno de alguma forma vier a público, então algo de muito ruim pode ter acontecido a mim ou a qualquer um dos envolvidos nessa história que, faço questão de frisar, é absolutamente verídica, tanto quanto é certo que dois e dois são quatro, ou que o dia precede a noite. Realmente é um fardo muito pesado para um jovem de minha idade considerar a possibilidade de que estas poucas linhas redigidas nos raros momentos de lucidez atuais provavelmente serão as minhas últimas. Este registro pode vir a ser futuramente lido como uma espécie de testamento.
Agradeço o destino por essa clareza que alivia temporariamente minha dor e meu pânico.
Como tem acontecido frequentemente, não consigo dormir.
Estamos em abril.
A madrugada avança, o vento uiva e a chuva fria tamborila no telhado. Queria eu que as trevas permanecessem lá fora. Queria eu que as sombras que nos perseguem fugissem como a escuridão que se dissipa com um simples acionar de interruptor. Apesar de minha pouca idade, tenho percebido que na vida nada é tão simples assim.
A princípio, gostaria de esclarecer que sempre fui um jovem cético em relação a tudo que a inteligência humana não possa comprovar. Minhas raízes são de família assiduamente cristã, e desde criança fui incentivado a esse tipo de crença, mas minha natureza extremamente racional sempre me impediu de cultivar a mesma, digamos, fé que meus familiares. E isso não tem nada a ver com o estilo musical que ouço, que é o heavy metal.
Afinal, se, conforme os metaleiros mais tradicionais dizem, o heavy metal foi criado para exaltar o diabo, eu não poderia crer, já que dizem que o diabo era um anjo originado na Criação, e eu tampouco saberia afirmar se acreditava na existência de uma divindade suprema racional, organizada e criadora – que a maioria das pessoas costuma chamar de Deus. Ou pelo menos, era o que eu achava sobre minhas próprias crenças.
Dada a estranheza dos últimos fatos, já nem sei mais o que dizer ou em que acreditar. Minha mente rigidamente lógica não tem podido me ajudar muito no momento.
Enfim, vamos ao relato.
Tudo começou por causa de uma garota.
Desde o princípio tem sido assim: as coisas demonstram uma maior propensão a desandar quando há uma mulher envolvida. Mesmo sendo uma mulher perfeita como Julia.
Julia Marcondes é uma colega da minha turma.
Ela é diferente das outras meninas, sobretudo por seu estilo gótico. A despeito de suas roupas sempre pretas, sua maquiagem pesada ou seus longos cabelos tingidos, negros como penas de corvo, ela é uma das primeiras alunas da classe.
Inteligentíssima, séria, perfeita.
Quando ela pousa aqueles olhos cor de piche em mim, tão cheios de mistérios e promessas de um amor nada convencional, sinto o mundo e o tempo congelarem ao meu redor. Faço praticamente qualquer coisa para ser notado por ela.
Tenho lido bastante Poe, Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos, Goethe. E, se você fuçar na minha playlist, vai encontrar apenas Nightwish, Epica, Tristania, Lacuna Coil, Within Temptation, Evanescence e bandas similares.
Não sou exatamente um grande fã desse tipo de literatura ou música, então você pode imaginar como estar apaixonado influencia as pessoas.
Sondando os amigos e amigas dela, descobri que Julia era meio ligada nessas coisas sobrenaturais de inferno, diabo, ocultismo, limbo, morte, pactos etc. Mesmo não levando a sério nada disso, dei um jeito de pesquisar a respeito.
Na escola, uma moda é o tal do “jogo do copo” ou “jogo da caneta”, como chamam essas brincadeiras mórbidas de comunicação com os mortos, tidas como inofensivas pela maioria.
Espalhou-se como gripe essa mania quando começaram a circular boatos de que um grupo de jovens, enquanto realizava o jogo do copo, tinha presenciado o mesmo se encher de sangue e estourar, arremessando ruidosamente estilhaços para todos os lados. Depois do susto, vasculharam o local, e não encontraram uma gota de sangue sequer. Entretanto, o copo estava mesmo despedaçado.
É espantoso que garotos e garotas de dezoito anos apreciassem ainda essas coisas as quais, aos meus olhos, pareciam muito infantis (desculpem-me se aparento ser um cara chato; na verdade, sou apenas um pouco precoce). Mas se Julia gostava, eu teria que pelo menos fingir que também gostava.
A duas quadras da minha casa há pouco tempo um velho argentino abriu uma interessante loja de antiquários. Chamei meu melhor amigo para ir comigo conhecer o novo e inusitado estabelecimento.
Carlos é um garoto tranquilo, daqueles que poucas pessoas gostariam de ter como amigo por considerá-lo diferente.
Muito alto e magro, pálido, cabelos arrepiados, óculos de armação excessivamente chamativa e lentes grossas devido o avançado grau de miopia. Gosta muito de ler sobre qualquer assunto, grande amante de música clássica e hipismo. Consegue achar graça em tudo, e seu modo de rir é muito engraçado, puxando o ar com força após o final de cada gargalhada, o que comicamente lembra o ronco de um porco.
Como já deve ter notado, pessoas que destoam dos padrões ditos normais costumam fazer com que eu inconscientemente me aproxime delas.
Uma vez na loja, estacamos um momento diante da vitrine e fitamos maravilhados a diversidade de quinquilharias antigas expostas. Objetos de várias partes do mundo a preços inacreditavelmente baixos.
Inexplicavelmente senti certo mal estar ao contemplar a fachada daquele estabelecimento. Meus instintos mais primitivos me alertavam, gritantes, ordenando que eu me virasse e fosse embora imediatamente.
Ao contrário, puxei Carlos pela manga da camiseta e entramos na loja. A porta de vidro se abriu, fazendo com que os guizos acima da mesma denunciassem nossa presença. Enquanto Carlos e eu investigávamos as prateleiras minuciosamente, com exclamações de espanto e franca admiração a cada novo item, o senhor Ramón, proprietário da butique, se aproximou para nos atender.
Ele estava sorrindo para nós e se preparando para oferecer sua miríade de objetos estranhos e chamativos, quando meus olhos pousaram exatamente naquilo que eu procurava: um tabuleiro.
Estava meio escondido entre os de damas e xadrez, ao lado das canecas feitas de alumínio, de times de futebol nacionais e internacionais. Parecia disposto de um modo propositalmente afastado do olhar de possíveis compradores.
Mas eu o encontrei.
Interrompendo o Sr. Ramón no meio de uma frase, apontei determinadamente o tabuleiro com o dedo e indaguei:
— Quero aquilo ali. Quanto é?
Seguindo meu olhar, Sr. Ramón remexeu-se inquieto antes de piscar, visivelmente desconfortável. Em seguida, desviou o olhar e desconversou:
— Aquilo não é tão bacana. Tenho coisas bem mais interessantes aqui na loja a um precinho camarada. Vocês chegaram a ver aqui a coleção de...
— Quero aquilo ali, senhor Ramón. — interrompi, decidido — Quanto o senhor está pedindo nesse tabuleiro?
Estudando-me com seus olhinhos de raposa ao mesmo tempo em que cofiava a barba branca, o velho disse com seu sotaque acentuado:
— Este jogo te custaria caro, meu filho. Um preço alto a se pagar. Além do que, já está reservado para outro freguês. — (somente agora enquanto escrevo me dou conta de que havia certo ar de mistério nas palavras daquele argentino. Estaria ele ciente na época de aquele malfadado tabuleiro podia carregar consigo algum tipo de maldição? Lá no fundo, bem no fundo, quase achando petróleo, mais forte do que seu espírito de extorsão haveria algum resquício de bússola moral movendo-o a tentar me impedir de comprar a tábua do jogo? Penso que esse questionamento é um dos muitos para os quais nunca terei uma resposta.).
— Quanto é? Eu pago o dobro do que ele ia pagar. — insisti provocador.
Os olhos do velho brilharam. Senti um cutucão nas costelas. Carlos me olhava apreensivamente:
— Pedro, tem certeza que essa é uma boa ideia? Pagar tanto por esse troço esquisito? — ele ajeitava compulsivamente os óculos sobre o nariz curvo aquilino, um gesto que ele só repetia quando estava preocupado, nervoso ou as duas coisas.
Meu melhor amigo, apesar de muito inteligente, nutria medos e receios infundados a meu ver. Ele não era tão cético quanto eu, vivia dizendo coisas sobre os tais maus pressentimentos que às vezes tinha.
— Relaxa, Carlos. — falei sorrindo – Vou gastar boa parte de minhas economias, mas procuremos encarar como um investimento. Esse tabuleiro, que você hoje chama de troço esquisito, ainda há de ser a minha chave para o coração da Julia.
— Não sei não, heim cara...
— “Os fins justificam os meios” – respondi garbosamente, citando Maquiavel, um de meus autores preferidos.
E dei a discussão por encerrada.
Ignorando os apelos de meu melhor amigo, teimosamente comprei e paguei o objeto. Senhor Ramón contava as inúmeras notas, satisfeito por ter extorquido mais um trouxa brazuca. O dinheiro gasto não me importava: na época eu imaginava que a aquisição valeria cada centavo. Dias depois eu maldiria aquela compra com todas as forças do coração. Se eu pudesse voltar no tempo...
Puxa vida, é tarde e essas memórias me consomem. Estou muito cansado. Preciso tentar dormir. Prometo que em breve voltarei a este caderno para prosseguir com minha narrativa assombrosa, incrível.
Que tenhamos uma boa noite, se isto ainda nos for permitido.
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