O Jogo Assassino
9 Capítulo VIII
Notas iniciais
“A televisão e internet são as quais lhe deixa a par de tudo que ocorre ao seu redor. Então, não se surpreenda se essas souberem mais que você”.
— Michael Wonder, Agente Especial.
Casa Wonder's
Era por volta oito da noite quando voltaram, ainda em silêncio, sem saber o que comentar, até porque não tinham nada: após a autópsia e das poucas informações que ganharam; tudo parecia ter perdido o sentido. Ou era apenas a sensação da mente em confusão.
Logo após comerem algo, foram dormir, desejando conseguir fazer tal ato para calar a mente. Mas sem resultado:
“Por que a mudança nesse assassinato?” Era uma das perguntas que dançava em suas cabeças. “O que havia acontecido para mudar?” procuravam à lógica, que muito menos fazia aparição. “Se esse foi há cinco dias, esse foi o penúltimo...” E assim prosseguiram: pensamento atrás de pensamento; pergunta atrás de pergunta, sem respostas claras. Era, na verdade, confusão fazendo mais confusão.
Aquilo estava tornando-se um enorme turbilhão de duvidas, quais queriam escapar. Quer dizer, quase todos, Michael era o único que se recusava a isso: não desistiria tão facilmente, e sentia-se desgostoso só de imaginar, recusava deixar a dúvida vencer.
E além de tudo, o assassino.
31 de Março
10:47 AM
As horas passaram e na opinião de Mika fora as mais rápidas que tivera. Não conseguira dormir, tivera apenas cochilos de hora em hora, mas não o suficiente para revigorar as forças — tanto mental quanto fisicamente —, e olhando-se no espelho do banheiro via isso, como tinta em tela.
Saindo do banheiro deparou-se com Lenon, qual encontrava-se no mesmo estado: cansado.
— Bom dia — cumprimentou. Tentou sorrir, mas parecia que o pequeno gesto necessitava de mais força que o normal, então dera, em seu lugar, um movimento de cabeça.
— Dia. — Cumprimentou, tampando a boca com a mão, impedindo um bocejo.
Encararam-se, sem nada a comentar, até que Lenon entrou no banheiro, sumindo ao fechar a porta, e sozinha, desceu as escadas. No térreo encontrara Michael sentado em frente à mesa de jantar, com olhar pregado em um pedaço de papel, rabiscado com tinta preta, enquanto brincava com a caneta, inconscientemente.
Mika aproximou-se calmamente, todavia o homem pareceu nem nota-la — e se percebera, não demonstrara.
— Quanto tempo está aí? — questionou tentando soar zombeteira, mas estava explícito o que realmente sentia: preocupação, já por saber a resposta.
O colega nada respondeu ou expressou. Ela se aproximou mais, ficando ao seu lado.
— Michael? — chamou calma. Aos ouvidos do mencionado, soara distante e sem importância, assim, continuou concentrado na folha, procurando a solução do quebra-cabeça. — Michael! — gritou perto de seu ouvido.
Não tinha mais como ignorar. Relutante, ergueu a cabeça, deparando-se diretamente com os olhos castanhos que expressava seriedade, tanto quanto preocupação.
— Tem que parar um pouco — aconselhou.
Ele olhou-a fixamente, deixando claro que não pararia — não naquele momento —, assim, ela insistiu:
— Já trabalhou muito...
Michael não duvidou das palavras: sabia que havia rabiscado aquela folha, fazendo setas e mais setas criando um fluxograma, por um longo período a procura de soluções. Mas isso não importava; o que importava era encontrar aquele assassino desgraçado!
— Depois a gente faz isso. — Pronunciou-se, quando ficou sem resposta, colocando a mão sobre seu ombro.
O de olhos azuis olhou para a mão delicada sobre seu ombro, e então erguer a cabeça; ela estava mais perto, tanto que dava para sentir seu perfume e até mesmo ver sua imagem naqueles olhos, uma imagem chegando a ser lastimável — cabelo bagunçado e olhos cansados pela noite mal dormida, ou melhor: noite que nem tivera.
Ficaram a se encarar por um tempo, até que desistiu, já que as palavras dela — trocadas pelo olhar — foram mais persuasivas.
Wonder desviou o olhar e soltando um suspiro, deixou a caneta sobre a mesa, junto ao papel. Ainda não estava conformado com a ideia de parar, mas era necessário...
— Vai tomar um banho — aconselhou, dando-lhe um pequeno sorriso — que enquanto isso, nós vamos preparando o café da manhã — recolheu a mão junto ao corpo e pegou caminho à cozinha. — Lenon, por favor! — Chamou o outro que há tempos havia descido e que permanecera parado só observando-os.
Esse o fez, enquanto o outro se levantou da cadeira, para seguir o conselho de Park.
Um banho deveria ser carregado de tranquilidade e renovação, assim pensava Michael, mas esse não funcionara como esperado: enquanto a água caia-lhe sobre a cabeça, parecia trazer ainda mais ideia para tentar desvendar os mistérios. E por consequência o fazia ficar cada vez mais preocupado, pois nenhuma dava certo, todavia, para não prolongar a tortura, saiu, e assim trocado, voltou a descer as escadas.
— Está um pouco melhor agora — zombou Lenon, referente a aparência do colega.
Esse tentou sorrir, apenas por educação, mas não conseguira fazer:
— Como vai à lista familiar? — perguntou. Podia parar, mas sua mente não.
O sorriso de zombaria nos lábios de Black sumira, sendo tomado por uma expressão seria.
— Antepenúltima. — Respondeu recebendo um aceno de cabeça.
Pelo menos alguma coisa estava fazendo progresso!
Mika saiu da cozinha com a bandeja de comida, colocando-a sobre a mesa. Comeram em silêncio, que no fim, a louça ficou para Michael, e enquanto lavava, os colegas estavam na sala, sentados no sofá: Park com papéis na mão, lendo-os atentamente, e Black ligando seu notebook para continuar com sua parte. E esperando a tela azul dissipar de seu monitor, ligou a televisão, onde o canal estava em um jornal:
— Ontem, às quatro e meia da tarde, a polícia encontrou mais um corpo — a narração estava baixa por causa do volume, porém, mesmo assim, pareciam gritar para Mike, que parara até de lavar a louça para prestar atenção. — Por evidências e relatos dos vizinhos, as autoridades cogitam ser um assassinato seguido de homicídio — olhou para a televisão por cima do ombro —, onde o marido violento matara sua mulher, e logo após se suicidou. — Mike franziu a testa, confuso e surpreso: como ela tinha essas informações?
Os agentes olhavam a televisão, com interesse e confusão, e como se a jornalista escutasse suas mentes, respondeu-os:
— As informações foram dadas pelo chefe da polícia: Wallace Ramires, qual aceitou fazer uma entrevista. — Virou-se para a tela a suas costas, qual tomava cor e então forma: era ele, Ramires, sentado, com olhos parecendo mais calmos que da última vez que os vira, e a sua frente estava uma loira, com o microfone próximo ao rosto.
Michael perdeu o fôlego com a imagem. O pior de tudo aquilo não era o fato de esse decidir passar informações primeiramente à imprensa, mas sim que aquilo era tudo ao vivo!
— Bom dia — Ramires cumprimentou.
A esse momento Michael já havia deixado o afazer de lado; estava junto aos companheiros, olhando a televisão, esperando o que tinha por vir, querendo certificar-se de que aquilo não se tratava de uma obra do sono acumulado.
— É verdade que essas vítimas não foram mortas pelo assassino que estão à procura?
Ramires concordou com a cabeça, sem receio ou pensar, deixando claro que estava consciente do que estava fazendo, e principalmente, preparado para o que falar.
— Sim, há provas que nos faz pensar isso. — Confirmou.
Provas que não foram entregues a eles...
— E quais... — a voz da mulher sumiu em meio aos dizeres, mas sua imagem permaneceu na tela: reluzente e clara em HD.
Alguém havia colocado no mudo.
Os finos lábios da jornalista continuaram a se mexer, rapidamente: “Caso”, “Morte”, “Assassino”, “Vítimas”, “Tortura”, “Corte”, essas eram palavras que conseguia distinguir, mas a frase que as utilizava não dera para entender.
Tudo o que o povo não sabia, estavam descobrindo agora. Igual a eles.
— Michael? — novamente a voz de Mika estava distante.
— Como ele decidiu fazer uma entrevista? — era a única questão que passava pela sua cabeça. Achara que gritaria ao pronunciar a primeira palavra, mas essa sairá baixa, quase em sussurro sôfrego. — E ainda por cima dar informações confidências? E que nem ao menos nos deu? — o tom intensificou assim que o rosto do mais velho foi focado, sério. Tudo que dizia era verdade, essa que não ousou avisa-los.
— Mike. — Mika chamou receosa, colocando a mão em seu braço. Queria acalma-lo, mas não sabia como...
— Nada de Mike, Mikaella. — Tirou a mão dela de seu braço. Agora iria gritar, precisava gritar! — Isso comprometeu o nosso caso!
Não dizia esses por sentir raiva, na verdade, até entendia o propósito de Ramires: estava preocupado e decidiu amenizar a população que apenas ia contra eles; apenas queria acalmar as coisas, e não o culpava porque estava sentindo isso na pele.
Dizia tudo, porque, além de estar se sentido usado; ficou a noite em claro, trabalhando apenas para ajuda-los, para, no fim, receber informações de uma televisão.
Uma maldita televisão!
— Não acredito — soltou em suspiro.
Os colegas apenas o observavam se desestressar, não iriam impedir.
Michael chacoalhou a cabeça, em negação.
— Vou ligar para Mye. — Anunciara se distanciando, pegando o celular sobre o balcão e saindo pela porta da frente.
Os que sobraram se entreolharam confusos, mas logo voltaram a atenção à televisão, qual passava um vídeo de três pessoas saindo da cena do crime: uma mulher, de cabeça erguida, puxando um homem enquanto um terceiro corria ao encontro desses. Esses passavam em meio à multidão sem se importar com nada — multidão ou perguntas de repórteres —, logo subindo a rua e sumindo a alguns metros, entre tantas pessoas. Seu rumo, ninguém sabia.
Essas pessoas eram eles!
A imagem do trio ficou pausada na tela do tablet, e a jornalista começou a dizer algo, e sem pensar Mika tirou do mudo:
—... são esses? — perdera parte da pergunta, mas ainda assim entendera: se referia a eles.
O chefe da polícia olhou a imagem ampliada na tela:
— Desses não ousarei a dizer — retrucou ajeitando-se na poltrona.
A jornalista concordou, e então se despediu. Sua imagem sumiu, e a mulher do começo retornou:
— A curiosidade continuará no ar por enquanto — sorria gentilmente e antes mesmo de continuar, Mika desligou a televisão.
Não queria ver mais nada.
Inglaterra
Já se passava da quatro da tarde, e o homem encontrava-se sentado em sua confortável poltrona preta, trocando os canais da televisão de forma frenética. Nenhum programa lhe chamava a atenção.
Até que parou em um jornal:
— Às quatro e meia da tarde, no fuso horário nova-iorquino, mais um corpo foi encontrado pela polícia — apresentava à ruiva, filha de um dos policiais de New York. Uma tentação para sua mente. — As vítimas foram encontradas em sua casa, por um vizinho. — Ao lado, apareceram às fotos das vítimas, qual não olhou. — Ganhamos informações do chefe da polícia... — continuou, mas esse já não ligou para o que dizia, estava concentrado nas letras miúdas que passavam no inferior da tela, o que lhe fez sorrir.
— Idiotas — única coisa que dissera ao ler todas aquelas informações.
Incrível como se surpreendia com as coisas, mesmo já esperando aquilo. Nada do que passava era verdade: fora tudo uma manipulação, um teste... Que erraram. A entrevista prosseguiu, e realmente queria assistir, mas com a tamanha felicidade que lhe envolvia, a única coisa a fazer era rir.
Rir o quanto conseguia.
— Depois de nove dias!
Estava satisfeito com aquilo, por a) eles demorarem mais que esperado, ou seja, estava claro que era mais inteligente que qualquer um e, b) percebeu que poderia manipula-los quando quisesse.
— Bando de inúteis — cuspiu as palavras, voltando à atenção a televisão, onde passava a entrevistas.
— No mesmo dia, três pessoas saíram da casa — mostrou a imagem desses para a câmera, e então ao entrevistado: —, não são policiais. Então, quem são eles?
— Não posso contar. — Disse convicto e de prontidão, sem cogitar olhar a imagem novamente, talvez por já ter a decorado. — Mas posso garantir que vamos conseguir resolver os casos. — Colocou fim deixando claro que não desistiria do trabalho dos outros assassinatos.
A entrevista teve fim, e a linda ruína voltou:
— Quem será esses? — indagou, apenas para colocar mais mistério. A foto do trio apareceu ao seu lado, de rostos que nunca vira, mas que não esqueceria facilmente.
Com essa deixa, o telespectador desligou a televisão. A ajuda que estavam recebendo... Como pode se esquecer disso?! E havia passado quanto tempo? Quatro dias? Como era possível?!
Não pensou duas vezes e nem ao menos esperou, apenas pegou o celular e ligou para o último que discou, e no primeiro toque, foi atendido.
— Alô? — a pessoa do outro lado da linha nem conseguira terminar o cumprimento.
— Vocês tem o que eu pedi? — questionou rapidamente. Um silêncio que durara segundos, mas o fizera se irritar, permaneceu do outro lado da linha: — Perdeu a língua? — vociferou. Uma coisa rapidamente podia mudar com ele...
— Desculpe — pediu, apenas por obrigação. Mas ele já sabia: não seria desculpado —, mas estamos procurando saber ainda...
— Façam mais rápido então! — exigiu, e sem esperar o típico “sim” ou “desculpe”, desligou.
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