O Jogo Assassino
3 Capítulo II
“Muitas vezes penso nas minhas folgas, mesmo sabendo que nunca terei uma por causa do meu trabalho. Mas sonhar não faz mal, não é?”
— Mikaella Park, Agente Especial.
O dia começou frio. O céu nublado estava começando a ter suas nuvens dissipadas, lentamente, junto aos raios de sol que começavam a aparecer, tingindo o azul de amarelo.
Sim, era outro dia, outro que não trazia mais segurança entre as pessoas que ali moram, onde cada novo dia tornara-se o mais inquietante de viver as horas, pois a qualquer momento algo do tipo poderia acontecer novamente, com qualquer um, em qualquer lugar. E a notícia à noite só intensificara tal pensamento, fazendo a população adormecer atormentada, desacreditada com o fim disso.
O que estavam, completamente, enganadas.
Washington, D.C.
A moça estava acolhida em seu edredom, dormindo. Sua expressão estava suave, chegando ao angelical; seu cabelo castanho espalhado como leque pelo travesseiro ressaltava cada linha de seu rosto, e seus lábios curvados em um singelo sorriso deixava transparecer quanto o sono parecia agrada-la, todavia esse logo se desfez quando um som inoportuno começou.
No começo tentou ignorar: rolou para o outro lado da cama para “distanciar-se” do barulho, cobrindo as orelhas com o travesseiro, o que abafou o intruso por um curto período, porque, esse, de calmo e baixo, tornara-se insuportável e insistente. Assim, desistiu de ignorar: acordou de vez, jogou o travesseiro de lado e fez menção de aguçar as orelhas para ouvir e saber do que se tratava, e percebeu, com desgosto e tristeza, que era seu celular.
Soltando um suspiro estendeu o braço até o criado-mudo do lado da cama e procurou o aparelho as cegas, o qual encontrara na beirada, quase pulando para o suicídio. Com rapidez o agarrou, impedindo tal façanha, e levou-o ao rosto, qual ergueu minimamente para ver na tela a foto do contato: um homem a beira de seus 25 anos; aparentava ser alto, de pele parda; olhos azuis brilhantes e juvenis demais; cabelo preto e desgrenhado, e um sorriso amigável nos finos lábios.
Não precisava ver o nome para saber de quem se tratava: seu colega de trabalho Michael Wonder. E mesmo sabendo quem era não conteve um grunhido de desaprovação. Mas, sem escolhas, atendeu:
— Oi. — Cumprimentou, sem esconder o cansaço da voz. Sua cabeça estava afundada no travesseiro e seus olhos fechados, esperando que o sono voltasse logo.
— Bom dia para você também — a voz do homem soou baixa e risonha.
— O que você quer Michael? — questionou, sem se preocupar com formalidade, já que essa havia acabado há tempos entre ambos.
— Sempre um amor às cinco da manhã. — Disse em meio a um riso, que, para uma pessoa que fizera seu celular quase pular de tanto que ligou, estava muito calmo.
A moça abriu a boca com intenção de apressa-lo, mas parou. O dizer do homem passou-lhe pela cabeça.
“Cinco da manhã?” Questionou-se, confusa. Para confirmar, distanciou o celular da orelha, e pedindo que aquilo fosse só uma brincadeira, olhou a tela, onde os números pareciam querer pular: 05:33 AM.
— Michael — começou, tentando manter a calma —, por que está me ligando a essa hora?
O sono pareceu pouco lhe importar naquele momento, tinha outra coisa como prioridade, pois, ela estava de folga, ou seja, seu momento de descanso. Mas o que as pessoas não entendiam nisso?
— Por um assunto sério Mika. — Retrucou calmo demais e inquieto de menos.
— Espero — murmurou, sem preocupar-se se o colega havia ouvido.
Ela esperou a explicação, mas teve apenas o silêncio: Michael não manifestou-se, talvez estivesse esperando ela perguntar novamente, ou tirar suas conclusões, mas sem paciência para pensar, decidiu questionar:
— Qual é o motivo? — sua voz soava calma, encobrindo realmente seus sentimentos: o cansaço, a irritabilidade. Quase não tinha tempo para descansar, e quando tinha, sempre era interrompida, muitas vezes pelo mesmo motivo! E pensando nisso... — Tem a ver com o trabalho?
— Tem. — Retrucou de prontidão.
— Por que não estou surpresa? — pronunciou sarcástica, começando a massagear a têmpora, exausta: aquela resposta era a qual menos queria ouvir. — Então, o que houve dessa vez? — questionou, jogando o cobertor de lado e levantando-se da cama. Mais um dia de folga arruinado! E outro estaria bem longe...
— Reunião as sete. — Foi à única coisa que respondeu, sem nenhum detalhe, talvez, por não ter tal.
— Tudo bem. — Descalça caminhou em direção ao banheiro de sua suíte. — Obrigada por me informar — agradeceu, já fechando a porta atrás de si e ligando o chuveiro.
— Nos vemos lá. — Despediu-se com ar profissional e desligou o celular, sem mais. Quando o assunto envolvia trabalho, à atmosfera entre eles mudava rapidamente.
Sem demora, Mikaella colocou o celular sobre a pia, despiu-se e logo entrou embaixo da água quente, querendo mandar o cansaço embora, junto à água que escorria-lhe pelo corpo e sumia pelo ralo.
Departamento de Investigação,
Sede do FBI.
Ela avistou o enorme edifício, há alguns metros de distancia. Enfim chegou!
A portadora do cabelo castanho estacionou seu Ford preto com pura sutileza na vaga em frente. Havia dirigido o mais rápido que conseguira para chegar a tempo na reunião que nunca, em toda sua carreira — que é pouca — começara um minuto a mais ou a menos.
Com rapidez tirou a chave da ignição e saiu do carro levando consigo seu celular e paletó, e então, trancou o carro, mas antes de pegar caminho para o enorme prédio de paredes claras, cheio de janelas, com as incríveis portas de vidro fume fechadas, dando a impressão que o local estava vazio, encarou seu reflexo no espelho, pela última vez: a calça social preta — que odiava usar — junto à camisa branca estava aceitável, e seu cabelo que estava preso por um lápis ainda seria arrumado, mas tudo estava em ordem!
Mikaella alisou a camisa pela última vez, até que colocou-se a andar as pressas em direção ao edifício, e atravessando a rua, deu uma olhada no celular em mãos: ainda faltavam cinco minutos, o que a fez suspirar de alivio — ainda tinha tempo!
Segurando o molho de chaves com a boca, vestiu o paletó, onde em seus bolsos enfiou o celular e o chaveiro. Na mesma pressa, tirou o lápis do cabelo, o qual, agora livre e bagunçado de um forma “agradável” cascateava suas costas; seus cachos pulavam com os passos apressados, acompanhados a um tilintar alto, reproduzido pelo salto da botinha que arrependeu-se de colocar.
Mostrou o crachá de identificação para a balconista, e sem ao menos esperar a confirmação, ou uma palavra, prosseguiu. Passou pelo elevador, sem tempo para esperar descer do décimo andar, e direcionou-se a saída de emergência: subiria de escada, uma ideia que considerou ótima, pois queria se “acalmar”.
— Em plena minha folga! Às cinco da manhã! — Praguejava enquanto subia os degraus de dois em dois, com agilidade e rapidez. — Meses de trabalho e recebo isso...
Calou-se ao ver a placa indicando o seu andar: cinco.
Mikaella respirou fundo, ajeitou a postura, e jogando o cabelo grudado na nuca para trás, abriu a porta.
A claridade lhe invadiu a visão, mas não se preocupou a analisar o local — já conhecia de cor —, apenas apressou mais os passos em direção a grande porta no fim do corredor: a porta da sala que sempre visitava. A caminhada prosseguiu sem mudanças: não cumprimentou ninguém, continuava sem tempo para gentilezas; manteve os passos firmes, o olhar erguido e sério e a postura profissional sem querer demonstrar desespero, ou qualquer tipo de sentimento.
Assim que parara em frente à porta dupla, abriu-a rapidamente, sem hesitar, sem bater e ao menos olhar as horas, apenas abriu, fazendo vários pares de olhos encararem-lhe por cima do ombro, surpresos. A sala ampla de paredes brancas; bem iluminada pelo auxílio das janelas de vidro temperado e de tapete cinza pacato que escondia a porcelana do chão, estava cheia, com todos os funcionários sentados em suas cadeiras de couro.
A única cadeira vazia era a sua.
Ainda sustentando o olhar de todos, fechou a porta as suas costas.
— Desculpe-me pelo atraso — pediu por pura educação. Ninguém nada disse, e de mesmo, caminhou para sua cadeira ao lado de Michael e outro colega de trabalho, sentando-se.
— Chegou a tempo senhora Park. — Sandra Vilder, a chefe, pronunciara-se quebrando o clima tenso que alastrou-se na sala, enquanto olhava a funcionaria com olhos estreitos.
Milkaella lhe sorriu, mas nada disse. E Sandra, não querendo mais demorar, continuou o que estava para começar, antes de ser interrompida:
— Primeiramente, agradeço pela presença de todos. — Começou. — E o motivo de chamá-los de última hora, foi porque ontem, por volta das sete e quarenta da noite, os policiais de New York descobriram outro assassinato — deu uma pausa, apoiando as mãos na mesa de madeira, entrelaçando seus longos dedos —, ligados com os outros sete que já ocorreram. — Finalizou séria, e todos anuíram à cabeça, sabendo do que se tratava já que tal notícia passava em todos os canais da televisão.
— Onde as vítimas, sem exceção, foram encontradas mortas por um corte profundo na garganta. — Incrementou à ruiva, Emilly Vandervil, a vice-chefe, sem desviar os olhos castanhos das folhas que descreviam corretamente sobre o caso.
— O senhor Ramires, chefe da 12° Delegacia de Homicídios de New York, pediu nossa colaboração nesse caso — a morena continuou, olhando um por um dos funcionários, procurando algum vacilo no olhar, mas ninguém o tinha. O trabalho deles era investigar e solucionar crimes, qualquer um, e estavam acostumados com isso, e com tal observação, a chefe ficou satisfeita. — Mas como temos ainda trabalho a fazer, só posso mandar apenas três de vocês para o caso — após o dizer, cada um da equipe se entreolhou.
Mikaella suspirou tediosa:
— Me acordou para isso? — murmurou para Michael, qual não deixou de sorrir.
— Só fiz meu papel de amigo.
— Amigo? — franziu a palavra.
— Não precisam preocupar-se — Sandra retomou as palavras, e todos a olharam, confusos. — Eu e alguns outros colegas conversamos a respeito disso antes de lhes chamar, e escolhemos quem irá.
A atmosfera do local se tornou mais tensa, pesada; qualquer um poderia ser chamado em meio aquela “escolha” planejada, e não era qualquer um que queria ir. Ou melhor: ninguém queria deixar um caso, quase concluído, para um novo, que não tinha data para termino e parecia ser mais complexo. E entre esses, poderia incluir Mikaella.
Sandra nada mais disse, apenas pegou uma das folhas das mãos de Emilly.
"Lá vem..." Pensou Mikaella.
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