O Jeito Como Você Mente
6 Hinata
Notas iniciais
Espero que gostem. Estou já escrevendo o capítulo sete. :) Espero terminar em menos de 10 meses. rsrsrsrs
Hinata tinha voltado para o quarto, no sábado, após tomar o café da manhã com Ino, Sakura, e a presença rara de Tenten. Estava sentada em sua cama, com uma coleção peculiar de fichas de inscrição para diferentes clubes extracurriculares, que poderiam decidir o rumo que seguiria em sua vida. O primeiro mês de aulas já havia passado, e precisava se decidir logo antes que as inscrições fossem encerradas e perdesse mais um ano em sua indecisão.
À direita de sua cama já se encontrava uma pilha de fichas rejeitadas, coisas que não tinham absolutamente nada a ver com ela e com aquilo que imaginava que seria quando terminasse o colégio. À esquerda, outras fichas estavam organizadas numa pilha menor, de “talvez”. Outras tantas estavam espalhadas pela cama logo a sua frente, esperando por sua avaliação. Havia ainda uma ficha especial, colocada propositalmente entre as pilhas de “talvez” e a de “não”, a qual Hinata tinha decidido analisar por último. Aquele era um assunto delicado, que chamava sua atenção sempre que se pegava pensando em clubes, mas não tinha coragem de pensar naquilo como uma possibilidade real. Mesmo assim, aquela ficha vivia voltando para sua mão, não importava quantas vezes decidisse colocá-la definitivamente na pilha de “não”.
As fichas na pilha de “não” eram de inscrição para clubes de xadrez, apaixonados por quadrinhos, mangas, cinéfilos, filmes e literatura de terror, e competições escolares de matemática, física, química e línguas. Também havia as inscrições para algum time dos diferentes esportes praticados no colégio, e a inscrição para líder de torcida.
As únicas fichas que Hinata tinha colocado na pilha de “talvez” eram os clubes dos quais Sakura participava. Mas Clube de Debate exigia que fosse capaz de argumentar. E argumentar exigia que fosse capaz de falar sem gaguejar e em tom de voz suficientemente alto. O Clube de Jornalismo exigia capacidade de socialização, o que para alguém imensamente tímida como Hinata estava fora de cogitação, e capacidade para escrever um bom texto, o que também não era o caso. Mesmo assim, tinha colocado essas fichas naquela pilha por parecerem interessantes e teria Sakura para ajuda-la caso tivesse alguma dificuldade.
Por fim, Hinata colocou na pilha de “não” a inscrição para o coral da escola. Apesar de ser apaixonada por música, ela não sabia cantar e isso bastava para que não pensasse mais no assunto. Quando pegou para analisar a ficha de inscrição para o Clube de Dança, a porta do quarto abriu bruscamente e suas três colegas de quarto entraram, enchendo o espaço silencioso com a voz alta de Ino e Tenten.
- Eu entendo que a gente não escolhe por quem se apaixona… — Tenten ia dizendo, encaminhando-se para sua cama, que ficava de frente para a de Hinata. – Mas Sasuke Uchiha é o sujeito mais arrogante que já colocou os pés nesse colégio. Ele é apaixonado por si mesmo, por mais ninguém. Pegou a Karin nas férias e enxotou a garota na primeira oportunidade. Sinceramente, o que você viu nesse garoto?
Ino não respondeu de imediato. De costas para Tenten, revirou os olhos, parecendo irritada e cansada. Hinata observou-a se sentar em sua cama, que ficava em frente à de Sakura, e respirar fundo antes de responder.
- Eu conheço Sasuke suficientemente bem para saber que você está errada sobre ele…
- Eu posso estar errada, mas isso não muda o fato dele ter assistido a sua briga com Karin de camarote e aplaudido de pé. Deve ter sido o momento mais divertido da vida dele. Duas garotas bonitas brigando por causa dele. Divertido pra ele, patético para vocês.
- Você não sabe o que aconteceu, então não fale como se soubesse.
- O que eu sei é que ele escolheu a Karin. – Tenten retrucou, com um brilho nos olhos que Hinata nunca tinha visto nela. A implicância que Tenten tinha por Ino não provinha da desconfiança natural que nutria por todas as pessoas que se aproximavam dela. Não era nem de perto como tinha sido com Sakura e Hinata quando começaram a dividir o mesmo dormitório. O brilho em seus olhos transparecia o prazer que sentia em provocar Ino, em dizer-lhe que Sasuke tinha escolhido outra.
Observou Ino fechar as mãos na frente do rosto, agora realmente nervosa.
- Escuta, de quem eu gosto ou deixo de gostar é problema meu, assim como meus motivos e minhas brigas. – Ino falou, num tom alto, que tentava não parecer com um grito, mas aproximava-se demais disso. – Eu não pedi sua opinião, não preciso dela e agradeceria se você a guardasse para si. Pelo bem da nossa convivência nesse quarto, por favor, não vamos mais falar disso.
Tenten deu de ombros, deitando-se na cama. Hinata e Sakura trocaram um olhar preocupado e impotente. O silêncio que se instalou preencheu o quarto com tensão suficiente para que Hinata pudesse comparar esse momento com o de minutos atrás quando estava sozinha e igualmente em silêncio. A ficha de inscrição para o Clube de Dança ainda estava em sua mão e, quando ela voltou os olhos para o papel, a voz de Sakura quebrou o silêncio.
- O que você está fazendo, Hinata?
- O prazo para as inscrições nos clubes está acabando – Hinata explicou, sentindo-se subitamente angustiada. – Preciso decidir logo ou vou passar mais um ano só com o Clube do Livro.
- Ai meu Deus, é mesmo! – Ino levantou-se na mesma hora, e ajoelhou-se ao lado da cama de Hinata. – Nós prometemos ajuda-la nisso.
Agora, até mesmo a atenção de Tenten estava concentrada em Hinata e em seus papéis.
- O que são essas pilhas, Hinata? – Sakura apontou para as duas pilhas que Hinata tinha organizado na beirada da cama.
- “Talvez” – apontou para a da esquerda. E em seguida para a da direita – “Não”.
- Deixe-me ver isso. – Ino pegou a pilha de “não”, que era a maior. – Você não quer jogar xadrez, futebol, basquete, não quer ser líder de torcida, não quer cantar, não quer ler gibis ou mangas… — Ino passava um olhar rápido pelas fichas. – Até aqui tudo bem.
Sakura pegou a pilha de “talvez”.
- Debate e Jornal. – Disse, deixando transparecer sua alegria pela amiga considerar os mesmos clubes que ela. – Por que esses estão na pilha de “talvez” e não na de “sim, sim, sim, claro!”?
- Porque eles não têm muito a ver comigo. – Hinata explicou, rindo ao ver a animação de Sakura mudar para uma leve decepção compreensiva.
- Então o que são essas que você separou? – Ino pegou justamente a ficha que Hinata estava separando para ver por último. – Clube de Teatro? – Leu, com um tom incerto, olhando do papel para Hinata.
- Eu ainda não pensei nisso, na verdade. – Hinata confessou, com uma meia verdade. – Eu estava vendo esse antes. – Entregou para Ino a ficha do Clube de Dança e a menina sorriu.
- Que legal! Dança seria ótima para você.
- Na verdade, teatro também seria. – Tenten pronunciou-se, recebendo a atenção das outras três. – O teatro ajuda muito pessoas que são tímidas como você, Hinata. Não que a dança não ajude, mas na verdade você podia fazer as duas coisas.
- Não pode. – Ino emendou, pegando as duas fichas e comparando-as. – Os dias de encontros e ensaios são os mesmos. – Disse, olhando para Hinata. – Você teria que escolher entre um ou outro.
- Você tem alguma prática com dança, Hinata? – Sakura perguntou, finalmente devolvendo a pilha de “talvez” ao seu lugar.
- Na verdade não. Mas eu sempre quis dançar.
- Mas, no teatro, você vai exercitar expressão corporal, dicção, atuação… — Tenten comentou. – Acho que teatro te ajudaria a se soltar mais e ganhar confiança para fazer qualquer coisa. Poderia até entrar no clube de dança no ano que vem.
- Tenten está certa. – Ino deixou a ficha do Clube de Dança na pilha de “talvez” e entregou a de teatro para Hinata. – Se eu fosse você, ficaria com essa.
- Eu também. – Sakura sorriu para Hinata, que ainda sentia-se incerta sobre aquela decisão.
Olhou para a ficha e não disse nada por um instante.
- Eu vou pensar um pouco mais nisso.
- Se pensar demais, vai perder o prazo, Hinata. – Ino falou, voltando para sua cama.
- Mas eu sempre achei que teatro fosse para pessoas mais extrovertidas… — Hinata começou, mas as três colegas rebateram com um sonoro “nada a ver”.
- É como a Tenten falou. – Sakura deu sequência. – Muitos artistas conhecidos hoje entraram no teatro apenas para conseguir ajuda com a timidez deles.
- Você está com medo de quê, Hinata? – Ino interveio. – Inscreva-se, garanto que vai ser no mínimo divertido.
Tenten não disse nada, mas quando o olhar de Hinata se encontrou com o dela, a garota de cabelos e olhos castanhos sorriu para ela, e então não era preciso pensar mais. Hinata pegou seu caderno e uma caneta, apoiou a ficha e começou a preenchê-la. Ino e Sakura também sorriram satisfeitas.
*
O auditório do Colégio Hashirama era um espaço grande e escuro. Havia cadeiras estofadas dispostas em quatro setores, com vinte fileiras e dez lugares cada. Na frente do auditório, um grupo de alunos sentava-se de modo aleatório. No palco, o professor discursava sobre o teatro. Ele era jovem, não mais que trinta anos, o cabelo cumprido preso em um rabo de cavalo. Ele sorriu ao vê-la e interrompeu seus pensamentos.
- Olá. – Cumprimentou-a, sua voz ecoando facilmente pelo auditório. – Posso ajuda-la?
Hinata sentiu o rosto queimar. Tentou falar, mas a voz não alcançava tão longe, então ela apenas separou a ficha de inscrição e começou a se aproximar devagar, sentindo todos os olhos postos sobre ela quando estendeu o papel ao homem.
- Deixe-me ver isso. – O professor abaixou-se quando ela se aproximou, e sorriu. Ela reparou que ele possuía uma longa cicatriz sobre o nariz, mas isso não chegava a estragar seu rosto. Era um homem bonito e parecia simpático, acalmando um pouquinho o coração da jovem. – Muito bem, Hinata Hyuuga. Seja bem vinda ao Clube de Teatro. Eu sou Iruka Umino. É um prazer conhecê-la.
- Igualmente. – Ela conseguiu dizer, timidamente.
- Pode se sentar em qualquer lugar, Hinata. Nós já vamos conhecer seus colegas.
Hinata fez o que ele disse e sentou-se na terceira fileira mais afastada do palco. Iruka continuou discursando sobre o teatro e a cada palavra, ficava claro que era apaixonado por aquilo. Apaixonado por estar no palco. E por ensinar. Olhava para os alunos com entusiasmo, contagiando um por um. Hinata olhou ao redor e reparou que todos prestavam atenção ao professor e alguns sorriam contagiados por sua empolgação. Quando Iruka se calou, curvando-se com um floreio enquanto os alunos aplaudiam, Hinata não pode resistir a sorrir. Ainda não estava certa de que era aquilo mesmo o que queria… mas certamente era do que precisava.
Perguntava-se se alguma vez seria capaz de falar diante de uma plateia, colocando a voz para que todos a ouvissem. Infelizmente, por mais que tentasse imaginar a cena, nada acontecia em sua mente, então começou a entrar em pânico. Por um momento louco, enquanto o professor chamava todos os alunos para o palco, considerou a possibilidade de sair correndo e nunca mais voltar. O que seria ridículo e seria motivo de piada para sempre. No entanto, por mais que estivesse apavorada, levantou-se com os demais colegas e subiu ao palco, sentindo o pânico crescer ainda mais quando, lá de cima olhou para as cadeiras vazias do auditório.
Começou a sentir o suor gelado em suas mãos, aquele frio na barriga que, pela sua intensa timidez quase nunca a abandonava, e sua boca ficou subitamente seca. Não é tarde demais, pensou, considerando a distância entre o palco e a porta lá no fundo do auditório e se conseguiria correr até lá sem cair. Ainda posso desistir, pensou por fim, sentindo outro sentimento igualmente desesperado crescer dentro dela. Era uma covarde. Nunca começava nada novo por medo e, quando por alguma razão maluca criava coragem para começar, logo pensava em maneiras de correr disso.
Iruka pediu para que todos sentassem em um círculo grande, sentando-se entre dois garotos.
- Bom, agora que vocês já sabem quem eu sou e o propósito desse clube, quero que vocês se apresentem. Digam seu nome, sua idade e porque se inscreveram para o teatro. O garoto loiro que estava sentado ao lado dele começou um protesto, mas Iruka encarou-o tempo suficiente para que ele desistisse de falar. – Sim, mesmo quem já é membro do Clube do Teatro desde o ano passado também precisam se apresentar. – Disse, olhando para o garoto, que soltou um muxoxo de desânimo. – Não se esqueçam que os novos podem não saber quem vocês são.
De fato, havia centenas de alunos no Colégio Hashirama e era impossível conhecer todos eles. Hinata conhecia alguns de rosto, outros pelo nome, mesmo esses eram poucos, comparados aos muitos que ainda tinha que conhecer. No entanto, conhecia o garoto loiro sentado ao lado de Iruka. Era provavelmente um dos alunos mais conhecidos do colégio, embora não necessariamente popular.
Na verdade, era um dos garotos mais detestados, sempre aprontando e, às vezes, sobrava punição para todos que estivessem por perto quando ele passava dos limites. Uma vez, uma parte do colégio ficou sem luz por dez minutos e alguns alunos estavam comentando que tinham ouvido um barulho de estouro dentro de uma sala.
No fim, tinham descoberto que tinha sido ele, que enfiara um clipes aberto em uma das tomadas da sala. O barulho de estouro foi acompanhado do pedaço pequeno de metal pegando fogo e o plástico em volta da tomada retorcido e escurecido. Toda a turma de história tinha sido punida, sem poder sair do colégio no fim de semana seguinte. Acontecia, porém, que Hinata estava naquela sala e nunca se esqueceria de quando um dos diretores, Orochimaru (com Jiraya e Tsunade abanando as cabeças em concordância), disse que era responsabilidade de todos zelarem pela preservação dos bens da escola e que aquela situação não teria acontecido se alguém tivesse impedido o colega.
Aquele era Naruto Uzumaki, um garoto atrevido e problemático, que no ano anterior tinha conseguido tirar a paciência de todos os professores e quase foi expulso, pelo que se dizia pelos corredores. Pelo que Hinata ficara sabendo através de Sakura (e o Clube de Jornalismo), os professores e a direção tinham feito um conselho especial sobre ele, para saber o que fazer. Os professores queriam expulsá-lo, mas Jiraya e Tsunade foram contra. A razão disso ninguém sabia, porém, Hinata imaginava que havia um motivo muito bom para, apesar de serem minoria, eles conseguirem convencer todos os outros professor, e Orochimaru… que sempre foi irredutível em todas as suas decisões.
Outras “travessuras” de Naruto eram famosas no colégio, como a vez em que pintou as paredes de uma sala de aula… ou a vez em que pegou as roupas de todos os garotos do time, enquanto tomavam banho após um treino e as espalhou pelo pátio… ou até mesmo a vez em que roubou um beijo de Shion Tamashiro e saiu correndo antes que ela, Karin e Ino conseguissem alcançá-lo... Ele tentou fazer o mesmo com Tayuya Yokio um tempo depois, mas acabou com a boca sangrando e de castigo na sala do diretor Jiraya.
Havia tantas histórias que Hinata não tinha certeza de se lembrar de todas, e não entendia como Naruto ainda era aluno do colégio. Não que quisesse que ele fosse expulso, mas aquilo dava a impressão errada para os outros alunos, como se não houvesse punição para as coisas que faziam de errado.
Naruto pediu a Iruka que fosse o primeiro a falar, para acabar logo com aquilo, mas o professor negou com um simples e direto “não”. Quem começou foi um garoto branquelo, alto e esguio, que não conseguia parar de sorrir, o que era mais estranho do que simpático. Tinha se matriculado no Colégio Hashirama naquele ano, tinha dezessete anos e, segundo ele, tinha se inscrito no Clube de Teatro porque gostava de artes e queria fazer amigos.
Hinata tentou prestar atenção nos outros alunos, mas não conseguiu recordar todos os nomes, nem todas as idades, ou motivações, mas sentiu-se mais leve (embora não necessariamente mais confiante) quando percebeu que não era a única tímida a procura de ajuda para se expressar melhor.
Alguém que lhe chamou a atenção foi um garoto que conhecia de rosto e pelo nome, mas com quem nunca chegou a interagir, nem mesmo em uma sala de aula. Ele estava em uma turma de alunos mais velhos, falava pouco, tinha uma voz profunda e, como não eram obrigados a usar uniforme nos finais de semana, sua escolha por roupas escuras reforçava sua imagem taciturna, que encheu Hinata de calafrios, sem que conseguisse entender exatamente porque. Ele não disse exatamente porque tinha entrado no Clube de Teatro resumindo-se à isso: “Meu nome é Shino Aburame, tenho dezesseis anos e gosto de teatro”.
Iruka olhou para Hinata quando ele terminou e ela sentiu o sangue fugir de seu rosto. Falar em público. Falar o quê? Falar o quê em público? Com sua voz baixa, tímida e delicada, Hinata começou a falar, mas a cada palavra, seus colegas apertavam as sobrancelhas e alguns esticavam os pescoços na direção dela. A consciência de que ninguém conseguia ouvi-la fez com que todo o sangue subisse de uma vez de volta para seu rosto. O que era ruim, muito ruim. Só fez com que falasse mais rápido, para que aquilo acabasse de vez.
Se fizesse uma reprodução fiel de como falou, seria exatamente assim:
- M-Meu nome ééé Hinata Hy-Hyuuga, tenho… dezesseis anos. Quero entrar no Clube de Teatro porque… porque eu gosto de teatro e porque… sou muito tímida e não-quero-mais-ser-assim. Achoqueoclubepodemeajudar.
Sentiu várias coisas quando terminou: alívio, terror, vergonha, vontade de correr, se esconder; o coração acelerado, o suor e o vazio no estômago agora espalhavam-se pelo corpo todo; e seu rosto queimava. Especialmente a testa e as bochechas. Tinha certeza de que estava toda vermelha e que todos percebiam, mesmo enquanto falava, o que só piorava. Tudo piorava durante todo o tempo que passou naquele auditório, naquele palco, debaixo dos dois holofotes que estavam voltados para a turma.
Não levantou os olhos para olhar os outros colegas que falaram depois dela, sentindo-se não apenas envergonhada, mas patética. Sentia que era a criatura mais patética ali e que todos estavam pensando em como era patética, e que passariam vários dias dizendo isso uns aos outros.
Só sentiu-se um pouco melhor para encarar os outros, quando chegou a vez de Naruto, e então sabia que seria o fim.
- Meu nome é Naruto Uzumaki, tenho dezesseis anos. Me matriculei no Clube de Teatro para não ser expulso… — Nessa hora recebeu outro olhar de reprovação de Iruka, que ignorou. – Mas eu acabei gostando. Para quem está chegando agora, posso dizer que é bom e que vale a pena. Espero que gostem, como eu e que estejam aqui, de volta, no ano que vem.
Ele terminou com um sorriso e Hinata percebeu que todos os alunos que já eram membros do Clube de Teatro, sorriram não apenas por concordar com ele, mas sorriram para ele. Iruka sorriu satisfeito para Naruto, depois para todos os outros, levantando-se mais uma vez.
- Muito bem. – Disse, fazendo questão de olhá-los cada um nos olhos. – Vou falar rapidamente como serão nossos encontros, como vamos trabalhar e o que eu espero de vocês. – Fez uma pausa, lançando um olhar apaziguador para Hinata. – Todo ano, temos novatos muito tímidos que esperam conseguir através do teatro se livrar de suas inibições. Infelizmente, não podemos tirar a timidez de vocês, mas podemos ajudá-los a lidar com ela, até que sejam capazes de fingir que ela não existe. Por que estou dizendo isso? Não é para desanimá-los. Pelo contrário, quero que tenham plena consciência do que conseguirão nesse clube. Eu sempre fui um cara tímido e faço teatro desde o cinco anos. Nunca me livrei da timidez, mas como muitos de vocês, aprendi a deixar a vergonha e o medo de lado. Como consegui isso? Entregando-me aos meus papeis. Todo tipo de papel. Fiz coisas como Romeu, como Otelo e Hamlet que nunca pensei em fazer na minha vida fora dos palcos. E eu quero que vocês sejam capazes de fazer isso. Quero que sejam capazes de se libertar de suas amarras e sejam o que nunca tiveram coragem para ser.
O resto do discurso de Iruka não foi mais importante para Hinata do que aquela primeira parte, que pela primeira vez desde que tinha entrado no auditório, tinham feito seu coração disparar de uma maneira boa. Ainda estava assustada, ainda não tinha certeza se era aquilo o que queria... e quase não sabia mais se era o que precisava. Mas Iruka transmitia tamanha confiança, que era impossível não confiar nele. Naquele momento, decidiu depositar nele todo seu medo, timidez, autoconsciência inútil, para que ele a ajudasse a transformar tudo aquilo em coragem, determinação e autoconfiança.
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